sexta-feira, 5 de maio de 2017

ANITA MALFATTI E O DIÁRIO




Foto Ilustrativa

Justamente neste ano que se comemora os 100 anos da famosa exposição de Annita Malfatti, em 1917, em São Paulo, o IEB (Instituto de Estudos Brasileiros), da USP, encontra “Diário de Anita Malfatti” que retrata o início de sua carreira.

Nota 1:
Texto da Reportagem IEB/USP por: Larissa Lopes (em letras pretas) – Em letras azuis, texto do Blog Retalhos do Modernismo por: Luiz de Almeida.

Em 12 de dezembro (1917), Annita Malfatti organiza nova exposição em sala térrea cedida pelo Conde Lara [Antônio de Toledo Lara – empresário do ramo de café e empreendedor. Nasceu em Tiete (SP), em 21/12/1864 e faleceu em São Paulo, em 20/4/1935], na Rua Libero Badaró, 111, São Paulo – considerada a primeira exposição de Arte Moderna do Brasil. Expõe 53 obras, maioria com tendência impressionista, obras realizadas nos Estados Unidos (1915/16), e outras realizadas em São Paulo (1916/17). Também expos algumas obras de pintores amigos norte-americanos. Suas obras Annita chocaram o público. Na primeira semana vendeu oito obras. O catálogo da exposição foi numa folha impressa com a relação das obras expostas e valores, conforme segue:
Foto Ilustrativa: cópia do livro Anita Malfatti no tempo e no espaço.
Biografia e estudos da obra. Batista, Marta Rossetti
– Ed. 34&Edusp (SP), 2006, p. 196.

- Em 20 de dezembro, Monteiro Lobato publica, na pág. 4, da edição vespertina do jornal O Estado de S. Paulo, o artigo: “A Propósito da Exposição de Malfatti” (Lobato transcreveu em 1919 no seu livro “Idéas de Géca Tatú”, Edição da Revista do Brasil, com o título mais explícito de: Paranoia ou Mistificação? - e subtítulo: A Propósito da Exposição Malfatti), em Artes e Artistas, artigo em que condena a mostra com críticas duras e severas. Depois do artigo de Lobato, várias obras de Annita foram devolvidas. Algumas foram destruídas. Francisco Alambert, assim descreve:

(...). Na primeira semana, a exposição, realizada numa galeria da Rua Barão do Triunfo, bem no centro de São Paulo, não causou grande alarido. foi frequentada por um número razoável de pessoas sendo que muitos quadros chegara a ser vendidos. Mas no dia 20 de dezembro, quando saiu publicado n'O Estado de S. Paulo o artigo de um fazendeiro e escritor paulista, Monteiro Lobato, a repercussão foi bombástica.
O artigo intitulava-se “Paranóia ou mistificação?” e atacava violentamente a exposição, a pintora e, sobretudo, os princípios da pintura moderna, que o autor repudiava mesmo que, segundo muitos críticos, seus argumentos demonstrassem apenas que ele nada entendia do assunto.
(...).
Os críticos dos trabalhos de Anita Malfatti, dentre eles alguns parentes da pintora que se envergonhavam das “extravagâncias” da artista, uma vez que iam contra a mentalidade conservadora da tradicional família paulista, passaram também a inflamar a exposição e, em decorrência, tudo o que se chamava de arte moderna. Pressionados ou não, compradores devolviam telas, e outros, mais irados, ameaçaram destruir os quadros, que acreditavam ser uma ofensa à moral, aos bons costumes e à verdadeira arte.
(...).
Alambert, Francisco. A Semana de 22 - A Aventura Modernista no Brasil. Editora Scipione (História em Aberto), São Paulo, 1944, 2ª Ed., pp. 36-37.

A exposição de 1917 foi a que serviu para aglutinar os “moços de 22”, dentre eles: Di Cavalcanti, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Brecheret (1891-1955), Guilherme de Almeida e outros.

Caderno (de Annita Malfatti) reencontrado em arquivo do IEB traz desde exercícios de geometria até o relato da primeira exposição da pintora.



 Detalhes do Diário de Anita Malfatti
Foto Cecília Bastos/USP Imagens

“Trinta de maio foi sábado e dele só me lembro quando ao lusco-fusco apareceu Freitas Valle com todos seus satélites, sendo os principais Zadig e Elpons (…) quando mamãe perguntou se ele gostava do retrato de Georgina, disse ele – Minha senhora, não se ofenda se sou franco, mas esse quadro está crivado de erros, o desenho é fraco e é um carnaval de cores. O valor artístico não tem nenhum”, narra Anita Malfatti em seu caderno recentemente reencontrado no arquivo do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP.
O trecho se refere à recepção da primeira exposição individual da modernista, em 1914, e foi publicado na biografia Anita Malfatti no Tempo e no Espaço, da historiadora do IEB Marta Rossetti Batista, em 1985.



Fotos Ilustrativas da 1ª Exposição em 1914
Foto Superior: cópia do livro Anita Malfatti
– Mestres das Artes no Brasil. Braga-Torres, Angela.
Editora Moderna, São Paulo, 1ª ed., 2002, p. 14.
Foto Inferior: cópia do livro Anita Malfatti
no tempo e no espaço. Biografia e estudos da obra.
Batista, Marta Rossetti – Ed. 34&Edusp (SP), 2006, p. 87.
 
Ainda sim, por muito tempo, o caderno do qual o trecho havia sido extraído não fora achado. O livro era a única pista da existência de um diário perdido de Anita, cujo paradeiro permaneceu desconhecido até o início de fevereiro deste ano (2017).
Enquanto analisava a 28ª caixa do arquivo de Mário e Emilie Chamie, em busca de material para o projeto de pós-doutorado, o pesquisador Carlos Pires encontrou um envelope destinado a Marta Rossetti. Nele, havia o caderno de Anita Malfatti, no qual Pires identificou as passagens que a historiadora havia usado em seu livro.
“O fato de retratar uma situação muito particular e típica do que acontecia na década de 1910 aqui no Brasil, relacionada a Freitas Vargas e ao mercado de arte, é um aspecto muito importante do diário”, argumenta o pesquisador, que pretende analisar a obra mais profundamente.
No caderno, além do relato sobre a primeira exposição individual da artista, há também exercícios de geometria, listas de palavras em alemão e inglês e esboços de desenhos mais livres. “O caderno é o espaço do talvez”, comenta Elisabete Ribas, chefe do Serviço de Arquivo do IEB, parafraseando o pintor brasileiro Daniel Senise. “Nele pode haver uma receita, uma confissão, um momento de drama, e o da Anita é bem assim. O caderno permite tudo”, explica.




Detalhes do Diário de Anita Malfatti
Foto Cecília Bastos/USP Imagens
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Da teoria ao vernissage


Georgina (ost): retrato da irmã de Anita
exposto em 1914 e criticado por Freitas Valle.

Após a morte do pai, de origem italiana, a jovem artista foi educada pela família materna, de descendência germânica, que mandou Anita para Berlim, onde estudou arte entre 1910 e o início de 1914. As primeiras páginas do caderno foram preenchidas nessa época, com estudos sobre perspectiva, formas geométricas e língua alemã.
Em Berlim, Anita teve contato com movimentos vanguardistas europeus e foi especialmente influenciada pelo expressionismo. “Ela foi muito impactada pelo trabalho com a cor, pela explosão de cores, muito mais do que pelo cubismo, que era um estudo mais voltado para as formas”, afirma Regina Teixeira de Barros, curadora da exposição Anita Malfatti: 100 Anos de Arte Moderna, no Museu de Arte Moderna, que comemorou o centenário da exposição de 1917, a segunda individual de Anita.
Mesmo que inspirada pelo trabalho expressionista, seus quadros da exposição de 1914 ainda carregavam fortes referências acadêmicas. “Esse momento é um misto de aprendizado e experimentação, mas a experimentação dela é muito mais próxima do impressionismo do que do expressionismo”, explica Regina. “Na exposição de 1914, as pessoas atribuíam a ‘mão pesada’ de Anita — falavam que o trabalho dela tinha uma força masculina — ao fato de ser uma pintura de quem ainda estava se iniciando. Esses primeiros trabalhos eram entendidos como exercícios de pintura e não como uma pintura com pretensão de ter autonomia”, diz.


 Homem Amarelo é um dos quadros de 1917
que mostram o desenvolvimento do
expressionismo nas obras de Anita Malfatti
Foto: Reprodução

As críticas, no entanto, não recaiam apenas em Anita. Em seu diário, a artista se sentia à vontade para avaliar o que acontecia em seu entorno também. “Ela faz uma análise realmente crítica da situação da arte, como funciona o mercado de arte, quais são as pessoas que vão visitá-la na exposição e por que vão visitá-la. Ela expõe isso de uma forma muito clara, com a qual nós não tínhamos tanto contato, a não ser pelas cartas que ela escrevia”, explica Elisabete, ao lembrar das muitas “cartas de pijama” que Anita trocava com Mário de Andrade, sempre muito francas.
“O que é bonito no diário é que ela é um pouco mais jovem do que em outros momentos que estão documentados. Ela é mais inocente, talvez um pouco mais natural”, completa. Um exemplo disso é a história de como Anita tentou se preparar para o seu vernissage de 1914. Comprou sapatos novos para a ocasião, mas, ao chegar ao local, ainda os levava nas mãos. Além disso, a pintora fez questão de pregar ela mesma as telas da exposição.
“Uma coisa que a gente percebe no arquivo, no diário e em tantos outros locais, é que ela se dedica muito àquilo que faz”, analisa Elisabete. Para a pesquisadora, Anita e outros intelectuais da época “foram pessoas que se dedicaram profundamente, de modo a marcar a área em que elas atuaram, a mudar um ciclo, a reformular um pensamento, a representar um povo de uma maneira diferente. No caso da Anita, de uma forma mais colorida”, conclui.
Passada a estreia no Brasil, no final de 1914, Anita viaja a Nova York para estudar arte e finalmente consegue digerir as referências expressionistas que viu na Alemanha. Além disso, começou a produzir os quadros que fizeram parte de sua segunda exposição individual, três anos depois de seu début.
“Em 1917, ela tem uma pintura muito mais gestual, muito mais livre em termos de escolha de cores, que deixam de ser uma referência ideal e passam a ter uma carga mais psicológica, mais interpretativa”, descreve Regina. “Além disso, ela tem um afastamento do espaço, ela deixa de fazer uma perspectiva buscando o tridimensional, a profundidade. As telas vão ficando mais planas e, na figura humana, ela faz cortes que são pouco ortodoxos, pouco acadêmicos.”

O diário perdido

Elisabete Ribas, do IEB
Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Ainda não se sabe com certeza como o caderno chegou até o acervo de Emilie Chamie, mas pesquisadores do IEB supõem que Marta Rossetti o havia emprestado para que a designer — que organizou a parte gráfica da biografia de 1985 — pudesse desenvolver um projeto sobre Anita Malfatti. “Provavelmente ela estava trabalhando num livro com a Marta, sobre a Anita, e o material iria compor trechos do projeto, mas ela precisava do original para reproduzir aquilo”, presume Elisabete. Supõe-se que a pesquisa de Emilie não chegou a ser concluída em razão de sua morte em 2000, além de não ter conseguido devolver o diário a Marta, falecida em 2007.
De volta ao arquivo, o diário será incorporado à coleção de cadernos de Anita Malfatti. “Ele, com certeza, vai completar o conjunto e o conjunto irá completá-lo. São estudos infinitos”, diz Elisabete.


Nota 2: O Blog Retalhos do Modernismo está preparando apostila com a "Síntese Biográfica" de ANNITA MALFATTI - que será disponibilizada aqui no Blog.
Luiz de Almeida