domingo, 1 de junho de 2008

IRENE NO CÉU - MANUEL BANDEIRA

MANUEL BANDEIRA
INTRODUZIU
IRENE PRETA NO CÉU

Após ter recebido vários e-mails solicitando estudos sobre o poema de Bandeira “Irene no Céu”, resolvi postar uma síntese originada de estudos realizados durante uma Oficina da Exposição RETALHOS DO MODERNISMO. Como era muito antiga, procurei realizar algumas adaptações. Portanto, necessito mencionar que é uma síntese de “leitura interpretativa”, o que pode trazer e oferecer divergências se forem realizados paralelismos com outras leituras e até mesmo com a leitura atual de cada um dos leitores e conhecedores da temática. Como é do conhecimento de todos, as leituras e releituras de poemas, principalmente dos de Manuel Bandeira, podem e devem trazer colóquios divergentes e polêmicos. Esse é o motivo que faço uma introdução básica através do texto que segue (Brunel&Pichois&Rousseau), para que o leitor do texto temática possa também formular sua leitura, desde que conheça um pouco da vida de Manuel Bandeira:

“A vida de um escritor (aqui no nosso caso: a de Manuel Bandeira) é sua biografia artificialmente recomposta, inevitavelmente lacunar. Sua existência é uma emergência no instante: a página que escreve é inseparável do instante que ele vive, mas também de um passado no qual ele mergulha suas raízes”.
(Brunel & Pichois & Rousseau)

IRENE NO CÉU

Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor
Imagino Irene entrando no céu:
- Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
- Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.

Bandeira sempre esteve presente na sua poesia, o que implicou alguém dizer que: “Bandeira foi poeta de si mesmo”.

Partindo desse princípio, ao analisarmos qualquer dos poemas bandeirianos (haja poemas), não podemos desconsiderar alguns aspectos importantíssimos, tais como: a vida do homem Manuel Bandeira, sua infância, a composição familiar, sua luta contra a doença, sua preocupação com a morte, sua solidão, sua desastrosa vida amorosa, suas constantes interrogativas no campo religioso, sua moradia enrustida entre moradias de pessoas de classe pobre e miserável no Rio de Janeiro, sua vida literária, sua convivência epistolar com Mário de Andrade, etc. Bandeira conheceu o submundo e a burguesia da época. Teve contato com ricos e burgueses e com pobres e miseráveis. Conviveu com os brancos, pardos, mestiços e com os negros. Na literatura foi parnasiano e modernista. Conseguiu transpor as barreiras dos estilos literários e transportar-se de um para outro estilo ou outra escola sem muito alarde. Conseguiu transfigurar-se num poetizar clássico e se impor num poetizar repleto de banalidades e futilidades cotidianas. Transformou-as em “suas” propriedades privadas. Engravidou-se de cada uma delas ao inserir sua própria pessoa e o seu eu interior num ato de parir poemas com opulência de simplicidade. Pariu poemas onde a sua pessoa está inserida na totalidade: vida, corpo e alma – sem nenhum excesso lingüístico. Pariu poemas livres, soltos, exclusivamente bandeirianos, modernistas.

Em Irene no Céu toda teoria bandeiriana medra de cada palavra. Bandeira, numa linguagem retirada do mais humilde cotidiano, induz à meditação e constatação de fatos e ações humanas pertinentes na sua época de vida e... com certeza absoluta, perduram até hoje. A desumanidade preconceituosa com a pobreza e com o racismo. Ele conheceu a discriminação pernambucana e carioca reinante entre o branco e o preto, por isso a antítese “preta e branco”. Uma referência subliminar de puro espírito bandeiriano de nacionalismo. É uma demonstração que Bandeira já havia incorporado o espírito modernista (ou, essa atitude já era inerente à sua personalidade): o negro é brasileiro. E, para qualquer Modernista, principalmente os da primeira fase: “tudo que era brasileiro... era bom” – evidenciado no poema: “Irene preta” – “Irene boa”. Bandeira aqui alerta para uma das grandezas do ser humano: a bondade – não importando se da parte do ser humano branco ou negro. Cabe ressaltar, porém, que ele quer chamar a atenção para a bondade na pessoa negra. Bandeira, de forma direta e não subliminar ecoa a valorização do ser humano, não importando a cor da pessoa. Bandeira detestava o ato de excluir ou denegrir o ser humano, provavelmente resultado da experiência própria ao passar um período recrutado num ambiente para cura da tuberculose – apesar de que é mais evidente pelo fato dele próprio ter se achado fisicamente feio e discriminado.

Nesse poema temos também que considerar o fato de Bandeira exaltar, através da pessoa de nome Irene, a mulher, em variantes díspares. Irene: preta e escrava, mas boa. Interessante se analisarmos aqui, principalmente naquela época no Rio de Janeiro, a pessoa negra era brutalmente discriminada e, consequentemente, inferiorizada social e culturalmente. A história do negro no Brasil é clara nesse sentido. O negro só era bom enquanto possuidor de características físicas que o possibilitasse produzir... para o branco. Mesmo assim, o negro bom e produtivo, permanecia “entre” os brancos somente no período da realização do trabalho. Encerrado esse período, obrigatoriamente ele era e vivia separado ou apartado dos brancos. Mesmo assim, Bandeira, e esse colóquio é interessantíssimo quando ele menciona: “Irene sempre de bom humor”. Para quem nunca conviveu com a escravidão, ou mesmo não é adepto ao racismo, e só conhecendo o que narram os historiados, fica difícil imaginar uma pessoa que passa pelas amarguras das injustiças humanas estar bem humorada ou estar “sempre de bom humor”, como é o caso da Irene. Podemos aqui entender definitivamente o fato de Bandeira ter sido um escritor que poetizou a banalidade cotidiana, a futilidade, a realidade do submundo e a personalidade do povo brasileiro que tem, até os dias atuais, a característica de rir das suas próprias desgraças cotidianas. (Particularmente acho que nós somos os únicos no mundo, que rimos e fazemos piadas das nossas próprias desgraças).

O fato de Bandeira, na segunda estrofe ter mencionado o ato de Irene pedir licença a São Pedro e ainda chamando-o de “meu branco” é sem dúvida uma hilaridade. Fica aqui caracterizado o lado humilde e da situação de inferioridade do negro diante do branco quando Irene diz: “Licença, meu branco” – frase que ela, como negra, deve ter utilizado diariamente. Não podemos pensar em conformismo, mas sim como característica puramente brasileira no sentindo: Ah... Deixa pra lá o que passou”. Mais evidente ainda está na resposta de São Pedro: “Entra, Irene. Você não precisa pedir licença”. Sutilmente Bandeira torna-se um tremendo gozador. Bandeira deixa evidente, mesmo que não sendo muito “chegado” ou seguidor assíduo, sua crença católica: “os bons vão para o céu”.

Nessa fala de São Pedro: “Entra, Irene. Você não precisa pedir licença” – nós podemos efetuar inúmeras outras leituras. Iniciemos pela linguagem. Aqui Bandeira abandona a gramática e aplica a "gramatiquinha modernista". Mário de Andrade deve ter vibrado, pois o correto, ou seja, na linguagem normativa, Bandeira deveria ter empregado o “tu” e até mesmo ter empregado o verbo na 3ª pessoa do singular. Mas não o fez, pois como já mencionado, os poemas bandeirianos não possuem excessos, uma das características pertinentes ao estilo modernista – por isso que foi mencionado o fato de Mário de Andrade ter vibrado e tido até mesmo um orgasmo litero-mental ao ler esse poema.

Deixando lateralmente a lingüística e o estilo, encontramos aqui uma palavra que nos conduz diretamente para o lado religioso de Bandeira. Apesar de sabermos, historicamente, que foi somente nos seus últimos anos de vida que ele se apegou mais a religião (Mencionamos no final de um parágrafo a crença católica de Bandeira) – mas, no poema ele, novamente com uma sutileza impressionante, demonstrou seu lado debochado com os assuntos místicos. A palavra que nos conduz a pensar nessa particularidade da vida de Bandeira é o emprego do termo “bonachão”: “E São Pedro bonachão” – o que nos leva também a outras interpretações diferentes, tais como: a imagem que ele recebeu quando criança da figura de São Pedro: gorducho, barba branca, com seu corpanzil esparramado numa poltrona de veludo, com uma cadernetinha nas mãos onde procura pelo nome da pessoa que chega para examinar qual foi a atitude que essa pessoa teve neste mundo terreno, para só então, dar o alvará de entrada ou mandá-la pra o inferno, como antigamente ensinava o catecismo e as famílias católicas. Fica patente aqui a presença da pessoa do poeta no poema, como já mencionado: “Bandeira foi poeta de si mesmo”.

Qual teria sido o motivo de Bandeira ter concluído o poema com os dizeres: “Entra, Irene. Você não precisa pedir licença” (?). Teria Bandeira aqui crido na motivação religiosa apenas pelo ato de São Pedro ter permitido a entrada de Irene no céu por ela ter sido “boa” na vida terrena? Ter sido uma pessoa intensamente “bem humorada” e que nunca reclamara dos dissabores que havia passado na vida terrena? Ou Bandeira pretendeu alertar para o fato de: para sermos dignos da vida celestial, independente da cor da pele, situação social, etc., nós precisamos ser bons e bem humorados, ou seja, não produzir dificuldades nas nossas vidas para assim, um dia, conseguirmos o prêmio de desfrutar da presença de Deus? Partindo de Bandeira, ficamos na dúvida quanto a sua real intenção. Não é mesmo? Ao mesmo tempo Bandeira volta a inserir-se no poema, pois mesmo descrevendo o aspecto festivo de Irene entrando no céu, o nosso grande Bandeira deixa implicada sua constante preocupação com a morte. Mas, uma coisa ou outra, ele afirmou num lastro poético, talvez transpondo como num filme no momento inspirador, meditativo e de pura satisfação e alegria: “Imagino Irene entrando no céu”.

BIBLIOGRAFIA:

- Bandeira, Manuel. Libertinagem – Estrela da Manhã – Editora Nova Fronteira – RJ, 25ª Impressão – 2000;
- _____________. Mestres da Literatura Brasileira e Portuguesa, Estrela da Vida Inteira – Editora Record – RJ/SP. sd;
- _____________. Estrela da Vida Inteira – Editora José Olympio – RJ , 15ª Ed. 1988;
- Bosi, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira – Editora Cultrix – SP. 3ª Ed. 1992;
- Cara, Salete de Almeida. Literatura Comentada – Ed. Abril – SP. SD;
- Lafetá, João Luiz. In 1930: A Crítica e o Modernismo Brasileiro. S/ Ed. 2ª Ed. 2000;
- Lopez, Telê Porto Ancona. In Manuel Bandeira: Verso e Reverso – T. A. Queiroz, Editor – SP, 1ª Ed. 1987;
- Moraes, Marcos Antonio de (Org). In Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira – EDUSP – 2ª Ed. 2001;

(Luiz de Almeida – Síntese dos Estudos e Pesquisas realizada na Oficina Literária da Exposição RETALHOS DO MODERNISMO - 1985/2008).

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