segunda-feira, 10 de agosto de 2009

MÁRIO DE ANDRADE E CECÍLIA MEIRELES

A INTERSECÇÃO ENTRE:
MÁRIO DE ANDRADE
E
CECÍLIA MEIRELES



INTRODUÇÃO

Cecília Meireles nasceu em 1901, 7 anos após o nascimento de Mário de Andrade e 7 anos antes da morte de Machado de Assis. E que significado tem isso? Que interesse tem essa diferença de períodos entre o nascimento da nossa maravilhosa poeta Cecília Meireles com o do macunaímico Mário de Andrade e a morte do nosso poeta maior Machado de Assis? Não sei, mas achei por bem iniciar este tópico com esse “interessante” (será?) e coincidente período ou fato de 7 anos, também pela relevância do número 7.

Esses períodos que se distam podem não ter importância nenhuma caso analisarmos pela ótica utópica das coincidências. Não sou hermeneuta. Quanto às diversas teorias e polêmicas a respeito da numerologia, não me apetecem – apesar dos meus estudos incompletos e um pouco de instrução recebidos quando dos quatro primeiros anos de Teologia. O simbolismo dos números na Bíblia instiga qualquer crente ou incrédulo. Diz-se, por exemplo, que o número 7 (sete) é considerado universalmente como dotado de especial significação. (O populacho diz ser o 7 “conta de mentiroso”). Buscando nas minhas apostilas de Pré-Teologia, encontrei: O número 7, em hebraico, é usado para promessa e juramento, formado da raiz SHB’ (= 7) e pode referir-se a uma cerimônia de juramento não mencionada. (Não entendi nada). Continua: “Maria Madalena era possessa de 7 demônios (Lc 8,2); No caso hipotético dos saduceus, eles apresentaram um homem que tinha casado com 7 viúvas (Mt 22,25ss); (...); Há 7 dias da semana (Gn 2,2); O diálogo sobre o perdão mostra um uso particular do número 7: Pedro pergunta se deve perdoar seu irmão 7 vezes (Mt 8,21-22; Lc 17,4) e Jesus responde que ele deve perdoar 70 x 7. Esse uso indica que o número 7 significa certa “plenitude”. Não podemos esquecer também que o 7 aparece, para desespero de muitos, por todo o Livro do Apocalipse: 7 igrejas, 7 espíritos, 7 lâmpadas, 7 selos, 7 anjos, 7 trombetas, 7 cabeças do dragão, 7 chifres da besta, 7 pragas, 7 taças (será que deixei algum 7 de fora?) – mas tudo isso mostra a idéia de “plenitude” ou de totalidade, onde exatamente quero chegar, ou seja: voltar ao primeiro parágrafo desta introdução.

Buscando o significado de “plenitude” no Aurélio: (Substantivo feminino) – 1. Qualidade ou estado de pleno. Temos que buscar o significado de “pleno”:- (Adjetivo) – 1. Cheio, repleto; 2. Completo, inteiro, absoluto; 3. Perfeito, acabado; (...).

Creio que não necessitaria ter perdido tempo para dissertar sobre o número 7, mas, coincidência, heresia, numerologia, teologia e outras “ias”, Cecília Meireles, independente de todos os dissabores que passou na vida, tornou-se como pessoa e poeta (não tem como dissociar): “plena, completa, inteira, absoluta, perfeita, acabada” – literariamente alcançou a “plenitude”, tal como Mário e Machado (sem esquecermos ou desprezarmos Guilherme de Almeida, Cassiano Ricardo, Menotti Del Picchia, Manuel Bandeira, Drummond de Andrade, Murilo Mendes e outros poetas modernistas brasileiros). E em tudo que está relacionado com “plenitude” há intersecção. Se pedirmos qual é a intersecção entre Machado, Mário e Cecília para um numerólogo, ele fará a contagem das letras dos nomes mais peculiares dos três literatos, ou seja: Machado de Assis = (14 letras), Mário de Andrade = (14 letras), Cecília Meireles = (15 letras), totalizando 43 letras. Continuando o cálculo: 43 (4 + 3 = 7) – sem considerar que Machado tem 7 letras, Andrade tem 7 letras e Cecília tem 7 letras. (Loucura? Coincidência? Superstição?).

Colocando os pés no chão e as mãos no teclado, parto agora para o desfecho desta introdução (deixando o Machado de Assis para outra oportunidade), atentando-me apenas para a “intersecção” entre Mário de Andrade e Cecília Meireles, não esquecendo que essa “intersecção é fruto da “plenitude”, e, por serem os dois literariamente “plenos”, foi exatamente por isso que Cecília Meireles e Mário de Andrade se cruzaram. Poucos sabem, mas esses dois “plenos” tiveram um relacionamento de amizade, admiração e respeito, que renderam cartas, depoimentos, análises e dedicatórias, revelando verdadeira “empatia que nutriam um pelo outro”, como bem afirmou Carlos Haag, em matéria no Caderno 2 do O Estado de S. Paulo, em novembro de 1996. Eu ainda não consegui o “Cecília e Mário” (Editora Nova Fronteira), livro que Haag assim definiu: “traz à luz todo o encanto da relação epistolar ‘pouco te vi, sempre te amei’ e crítica entre Cecília Meireles e Mário de Andrade”.

Concluo assim a introdução indo ao objetivo primeiro que é o de deixar cravado neste blog um texto de autoria do Mário de Andrade acariciando literariamente Cecília Meireles. Esse texto foi editado no "O Empalhador de Passarinho" (Obras Completas de Mário de Andrade, Vol. 20 – Crítica, São Paulo, Martins Editora, 1955). Esse mesmo texto foi deixado por Mário de Andrade na Academia Paulista de Letras (ou com alguém da Academia), que o editou em 12 de Setembro de 1946, na edição da Revista daquela Academia, de N.º 35, pp. 45 a 50, cujo título é: “CECILIA E A POESIA” – (como segue, conservada a ortografia original).


CECILIA E A POESIA

Mário de Andrade.


Eu acuso Cecília Meireles de várias culpas contra a poesia. E nem me parece duvidoso que a maior destas culpas seja ter ela se candidatado a um prêmio da Academia. Que estranha volúpia, muito feminina, de perder, a teria levado a essa aventura?... E disso lhe aconteceu a outra culpa não menor de conquistar o prêmio!

Como esclarecer tais incontinências de psicologia e de cultura social? Antes de mais nada, não se pense que sou exatamente contra a Academia, embora por muitos lados a considere perniciosa e pouco fecunda; mas a respeito de Arte, Poesia, Cultura, como no epigrama de Ronald de Carvalho, a Academia não é boa nem é má; é indiferente. Ora, apesar dessa indiferença ou, quem sabe, se por causa dela mesma, todos nós, extra-acadêmicos, mantemos secretamente uma secreta, não sei se ternura ou esperança por êsse hospital da parlapatice, onde se pratica diariamente, “in anima nobile”, a experiência do medalhão.
A Academia é um mal necessário, embora fenômeno de cultura social, devesse ser um necessário bem. Cecília Meireles talvez coincida comigo nesta pequena ternura pela Academia. E terá querido por isso elevar a coletividade acadêmica (note-se que me refiro à coletividade acadêmica, pois que separadamente até existem bons escritores lá dentro), Cecília Meireles terá querido ternamente elevar a coletividade acadêmica, sacrificando a si mesma para ser premiada pela Academia. E eis-nos diante da madrigalesca lição da maior... “sinuca” literária dêstes últimos meses: a Academia acaba de ser premiada por ter concedido um prêmio à poetisa Cecília Meireles!
Com efeito, êste prêmio significa que pelo menos uma vez a coletividade acadêmica, não sei se por mêdo de reagir ou se por inteligência, mas reconhecedora de poesia, de Cassiano Ricardo, conseguiu descobrir fora do seu cultivado jardim, na floresta maldita das estéticas, uma das raras grutas azuis onde a poesia mais profunda mora, mas, irra! O que é poesia? “Ah! Não me pergunteis por que padeço”!...
Não saberei dizer o que é poesia, mas desde pouco um dos mais admiráveis poemas de Cecília Meireles me chama os ouvidos. É um poema duro, rijo, em que certas frases muito sêcas batem com uma firmeza clássica de pedra, entre frases emolientes, cheias dessa sensibilidade sensual, que faz nascer o adjetivo:

Alta noite, o pobre animal aparece no morro em silêncio,
O capim se inclina entre os errantes vagalumes.
Pequenas asas de perfumes saem das coisas invisíveis.
No chão branco de lua, êle prega e desprega as patas com sombra.
Prega, desprega e para:

- deve ser água o que brilha em estrêlas na terra plácida?
- serão jóias perdidas que a lua apanha em sua mão?

Ah!... não é isso.

E alta noite, pelo morro em silêncio, desce o pobre animal sòzinho.

Em cima vai ficando o céu. Tão grande! Claro. Liso.
Ao longe, desponta o mar, depois das areias espêssas.
As casas fechadas esfriam. Esfriam as fôlhas das árvores.
As pedras estão como muitos mortos – ao lado um do outro, mas estranhos.

E êle para e vira a cabeça. E mira com seus olhos de homem.
Não é nada disso, porém...

Alta noite, diante do oceano, senta-se o animal em silêncio.
Balançam-se as ondas negras. As cores do farol se alternam.
Não existe horizonte. A água se acaba em tênue espuma.

Não é isso! Não é isso!
Não é a água perdida a luz andante, a areia exposta...

E o animal se levanta, e ergue a cabeça, e late, e late...
E o éco responde.

Sua orelha estremece. Seu coração se derrama na noite.
Ah! – Para aquêle lado apressa o passo, em busca do éco.



Eis o que me sôa como definição do mais íntimo sentido de poesia. A nossa grande poetisa busca penetrar os arcanos do simples animal, o “pobre animal”, que depois das obrigações fisiológicas do seu dia, aparece alta noite no morro em silêncio. Quem já observou, por acaso, um pobre animal num dêstes momentos de gratuidade, sabe como êle é prodigiosamente dramático. Dir-se-ia, com efeito, que êle procura e, ao mesmo tempo, se desinteressa de procurar alguma coisa a mais, algum sentido para si mesmo. A sua inquietação é apenas um dos momentos de sensibilidade dessa insuportável vagueza, dessa inexplicável involução do sêr e da vida, apenas terrestremente concebido. Cecília Meireles, pela sua fôrça lírica de conhecimento, ainda unifica nisso os homens aos irracionais, naquela pincelada firme em que indica que o animal “mira com seus olhos de homem”. Não diz “com olhos de homem” o que seria apenas uma comparação, mas “seus” olhos de homem, com excelente felicidade expressiva nos identificando a todos, nessa mesma tristeza de buscar um éco, um sentido, uma identidade maior. Mas, por outro lado, com uma escolha inventiva extraordinária, ela caracterizou o trágico da nossa insolubilidade, transpondo uma observação comesinha, sublimando-a numa síntese nova, e iluminando o seu valor de drama, por conservá-lo no mutismo trágico, no mistério dessa alma irracional, apenas. “Não é isso! Não é isso!”, ficamos sabendo que essa incógnita infeliz não achou o seu sentido, nem encontrou a sua correspondência. E então, tràgicamente, lhe nasce a reação que é de todos nós, o clamor, e êle late e late. “O éco responde. Sensualizado, cheio de esperança e de amor, sua orelha estremece. “Seu coração se derrama na noite. Ah! – Para aquêle lado apressa o passo, em busca do éco”.

Creio não ser difícil penetrar o esplêndido valor dramático e o que há de terrível definição nesta legítima obra-prima. O pobre animal clama e lhe respondem, quem? Apenas um fenômeno acústico, diriam os raciocinantes sistemáticos aplicadores das relações de causa e efeito. Mas estamos em poesia: aquêle éco, aquêle fenômeno acústico... Quem criou isso? quem permitiu a existência do éco? Quem responde? Será Deus? Um mistério, uma insatisfação terrestre... Será apenas a natureza? Em que o animal já por todo o poema não achou sua correspondência... Ou será êle mesmo quem se respondeu? Pois que a voz é dêle e, neste caso, êle só achará a sua correspondência em si mesmo? Mas então nós sabemos que se trata apenas de um éco, e o pobre animal jamais que o achará, nem achará portanto o seu sentido ou o sentido da vida...

Ora, os leitores que ainda me restarem, por certo já perceberam onde eu quis conduzir, e onde, em que gruta mora, de preferência, para mim, a verdadeira poesia. Positivamente, eu estou divagando cá com minhas caraminholas e não tenho elementos para saber até que ponto o que “revivi” neste poema admirável, aí foi pôsto por Cecília Meireles. Ou quem sabe mesmo se o sentido do poema é totalmente outro? Camilo Saint-Saenz conta que um dia, tendo lido numa revista um soneto de Mallarmé, se aplicou com todo o carinho em lhe descobrir o sentido. Afinal, custosamente, julgou perceber alguma coisa, e na primeira vez em que se encontrou com o poeta, chamou-o de parte e lhe contou a interpretação, perguntando se estava certa. Mallarmé confessou que não fôra aquêle o sentido que tivera na criação do soneto, mas como considerava melhor que o seu próprio, o sentido que Saint-Saenz lhe dera, o adotava.

Há muito de blague nesta resposta de Mallarmé, mas a anedota nos reintegra no sentido mais interior e essencial da poesia – uma arte que se lida necessàriamente com palavras que são o seu material, por outro lado, prescinde aquilo para o que a palavra foi criada: o raciocínio lógico, a concatenação de idéias, a formação de juízos e consequente conclusão. Que tudo isso é o domínio da prosa. A poesia é também, pois que o seu material é a palavra, (elemento em que se move a inteligência consciente) a poesia é também um processo de conhecimento. Ela, porém, se coloca no pólo oposto à êsse outro processo verbal de conhecimento que é a ciência, a qual se utiliza da prosa. E, nesse sentido, a própria prosa de romance ou conto é ainda manifestação “científica”, isto é, uma coisa que nos deixa cientes, processo lógico, descrevedor, concatenado e conclusivo de conhecimento. Mas não quero me perder. A poesia com a ciência são os dois processos verbais de conhecimento. O que os distingue essencialmente é que a poesia é uma intuição, ao passo que a ciência (ou a prosa, se quiserem) é uma dedução. Como dedução, a ciência tem que ser fatalmente lógica, ao passo que como intuição, a poesia prescinde da lógica. Galileu, murmurando o “Eppur si muove!” ainda não estava ou já não estava mais no domínio da ciência, mas no da poesia. Porém, nos raciocínios, nas concatenações de idéias, nas conclusões anteriores e posteriores a êsse momento de intuição, êle pisava terreno de ciência e dêle tirou uma lei útil para a prática da vida. Se tivesse ficado apenas no seu clamor, como qualquer criança que grite “Mamãe, o lampião está mexendo!”, êle teria se confinado ao mundo da poesia. E se penetrarmos agora nesse ambiente da criança ou do homem paralogísticos, imediatamente perceberemos que multidão de interpretações fecundas e fantasmáticas tiraremos dessa frase de poesia, mundo em que se interpenetram imagens, idéias, juízos, sensações, movimentos físicos, rítmicos e dinâmicos do sêr completo, não apenas do sêr inteligente, consciente, mas integral com tôdas as milionárias cooparticipações da vida, do eu e do não-eu. E agora não pararemos mais, porque essa integridade é de uma prodigiosa riqueza geratriz, e para cada indivíduo é uma unidade irredutível, incomparável, inadaptável a leis gerais, é o seu mundo. Poderemos, e poderemos em vão, analisar e sentir a criança que exclamou. Na verdade, estaremos nos analisando e sentindo a nós mesmos, e adquirindo um conhecimento amplo, misterioso, entranhado e, ao mesmo tempo, luminosíssimo, que estoura em nós com verdade, o divinatório, o divino da revelação: “Tanto era bela no seu rosto a morte!”; “Isso é amor, e dêsse amor se morre”; “As armas e os barões assinalados”...

E assim, pude retirar do poema de Cecília Meireles, o meu poema, a minha intuição, o que para mim foi uma definição nova de certo momento irracional, que eu já observara, mas ainda não sentira, não “conhecera” poèticamente, no seu poder de comparação, de experiência, de simbologia no bom sentido da palavra. Sentimento profundo, definição reveladora, que só pude ter na graça da poesia, e pela fôrça criadora de Cecília Meireles.

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NOTAS:

1. Cecília Meireles recebeu da Academia Brasileira de Letras, em 1938, o Prêmio de Poesia Olavo Bilac, pelo seu livro Viagem, editado em 1939;
2. Em 1965, é agraciada com o Prêmio Machado de Assis, “post mortem”, pelo conjunto de sua obra, concedido pela Academia Brasileira de Letras.

FONTES PESQUISADAS:

1. Andrade, Mário de. O Empalhador de Passarinho. 3. Ed. São Paulo: Martins Editora; Brasília, INL, 1972;
2. _______, Mário de. Cecilia e a Poesia. Revista da Academia Paulista de Letras, São Paulo: Ano IX - Edição n.º 35, 12 de Setembro de 1946 – p. 45/50;
3. Haag, Carlos. Feminino Plural. O Estado de S. Paulo, Caderno 2, São Paulo, 16 de Novembro de 1996;
4. Literatura Comentada. Cecília Meireles. 1. Ed. São Paulo: Abril Cultural, 1982;
5. Literatura Comentada. Mário de Andrade. 1. Ed. São Paulo: Abril Cultural, 1982.

INFORMAÇÕES NECESSÁRIAS:

1. Introdução: Luiz de Almeida;
2. Gravura: Mário de Andrade e Cecília Meireles (Google) – montagem MGI.jpg: Luiz de Almeida;
3. Lapidação da Introdução e Montagem: Márcia de Oliveira (Professora de Literatura e Letras – Fortaleza, Ceará);
4. Texto da Apostila: “Mário de Andrade – Estudos VI” – Acervo da Biblioteca da Exposição Retalhos do Modernismo.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

GUILHERME DE ALMEIDA E O DISCURSO À BEIRA DE UM BERÇO

GUILHERME DE ALMEIDA
ENCERRA O MÊS DE JULHO
COM DISCURSO


Este será o último texto do Guilherme de Almeida a ser postado neste mês de Julho. No primeiro texto neste mês, mencionei que “Julho” era o mês especial para exaltarmos o Príncipe dos Poetas Brasileiros. Mas não consegui postar toda matéria que havia planejado. Faltou-me tempo.
A postagem que segue é um texto puramente reflexivo. Cenas similares são comuns nos tempos atuais. Homens e Mulheres, ao vivenciarem o nascimento do primogênito ou do décimo, décimo quinto, décimo... filho, e, ao admirarem o resultado da obra, promovem verdadeiras obras oratórias, outras verdadeiras discurseiras (estas, certamente, induzidas pela emoção da chegada do novo e amado ser). Eu mesmo fui um desses que deixei cravado um poema quando do nascimento dos meus dois últimos filhos, onde o primeiro nasceu, segundo o pediatra, 22 segundos antes do segundo. E, por já ser pai de duas meninas, quando nasceram os dois “machos”, na plenitude da minha “inexperiência” e juventude, aventurei escrever os versos de “Noviços”:

NOVIÇOS

(Aos: Erik e Wellington)

Trajem sempre a farda de militante
e construam a barreira da reluta.
Procurem pela sementeira gestante
e desengajem qualquer idéia recruta.

Expressem as diretrizes da liberdade
e divulguem o cunho da inovação.
Dilacerem a idéia de prosperidade
e delineiem o caminho da salvação.

Arrebatem: os meninos e os marginais
e os puros e os impuros e os ancestrais
e os sábios e os poetas e os cardeais.

E, como um exército, de verdade,
caminhem destruindo a contrariedade
e apregoem o regime único da liberdade.

E, com o passar dos anos, 23, percebo hoje que versejei imaturamente, pois nenhum dos dois seguiram o meu desejo paterno daquela época... Graças a Deus.
Bem, o que importa aqui é a beleza misturada com a sabedoria do Poeta Guilherme de Almeida ao redigir o texto “Discurso à beira de um berço”. Mencionei no início que o texto do Guilherme de Almeida a ser postado era puramente reflexivo. E não é somente isso. Ele traz em algumas palavras e em todas as frases, algo de sublime, de místico, de angelical, que interfere diretamente nas nossas vidas (pelo menos na futura atitude que se espera do descendente parido). O que vem de Guilherme de Almeida não nos possibilita a criação de nenhuma definição clássica. Ele não permite ficarmos deduzindo e procurando estilos, estéticas e conceitos. O Poeta apenas nos conduz a uma leitura galante, onde: refletimos e deixamos que as palavras e frases penetrem no âmago do nosso ser permitindo parir: lembranças, sonhos, lágrimas, sorrisos, deduções e deliberações.
Eis o texto, onde foi conservada a ortografia original.

(Luiz de Almeida)

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DISCURSO À BEIRA DE UM BERÇO
(Guilherme de Almeida)

(Imagem montada para o texto com a foto de Guilherme de Almeida em pose de discurso)


Êle estava debruçado sôbre a “moïse” de junco e túles, onde um novêlo tenro de carne côr-de-rosa mexia-se com uma dificuldade molenga e morna.
E o Homem Que Tinha Vivido falou assim ao Homem Que ia Viver:
- Peque fruto que vai amadurecer: fruto que veio da flor noturna de um beijo que se desfolhou em segrêdo... Escute! Daqui a pouco vai começar a desbotar-se tôda essa sua verde pureza. Haverá criaturas humanas que se empenharão em destruir a sua única memória do céu, os seus únicos vestígios divinos: o Instinto e a Intuição. Só essas duas sabedorias da espécie são capazes de explicar o Gênesis: “Deus fêz o homem à sua imagem e semelhança”. Imagem de Deus no homem: Instinto. Semelhança de Deus com o homem: Intuição. Isso será destruido pelos dois crimes que se chamam: Educação e Instrução. Educado e instruido, meu pobre semelhante, você começará, então, a estandardizar-se: a perder tôda a sua personalidade, a deixar de ser um todo interessante, para ser uma parte desinteressante perdida numa enorme e inútil insipidez: a Sociedade. “Animal social” (aristotèlicamente: “politikon zóon”), você vai encontrar, no seu meio, uma porção de homens que absolutamente não se conformarão, nunca, com a idéia de que, por um instante, no tempo, e em qualquer parte, no espaço, desta ou daquela maneira, por isto ou por aquilo, você possa ser feliz. Êsses homens são conhecidos pela designação de Moralistas. Então, dentro da moral dêsses homens, você vai compreender que a única maneira de ser honesto é ser rico, e que a única maneira de ser rico é roubar: e esforçar-se-á, extraordinàriamente, por ser honesto... Um dia, você encontrará no seu caminho uma mulher, que você achará “diferente” de tôdas as outras: e começará a destruir essa “diferença” por um processo de aniquilamento vulgarmente conhecido pelo nome de Amor. Ou cruzará com alguns senhores que dirão a você: “Meu amigo”, e passarão a provar que maneira mais eficaz e menos indecente de se explorar o próximo é a Amizade. Talvez você queira, então, desviar para uma grande coisa sagrada êsse amor e essa amizade: talvez você pense na Pátria. Para quê? – Para convencer-se, mas tarde, de que vale a pena ter-se uma pátria só para se poder ser estrangeiro em alguma parte... E é possível, afinal, que, pela Beleza, você tente libertar-se dos outros e de si mesmo: e você verá apenas o pobre escravo da Arte e da sua irmã gêmea, a Miséria... E, um dia, desencantado, você dirá, sôbre um berço, estas mesmas palavras que eu estou dizendo...

*
**

Mas, na “moïse” de junco e túles, a criancinha côr-de-rosa sorriu, perfeitamente disposta a viver.

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Fonte:
ALMEIDA, Guilherme de. Diversos. Revista da Academia Paulista de Letras, São Paulo, nº 28, 12 de dezembro de 1944 – p. 5/6.

terça-feira, 21 de julho de 2009

GUILHERME DE ALMEIDA: O LITERATO ECLÉTICO

EX-LIBRIS DE GUILHERME DE ALMEIDA

O ECLETISMO DE

GUILHERME DE ALMEIDA

(Luiz de Almeida)


Quando estudamos a biografia de alguém, normalmente tomamos conhecimento dos seus feitos, das suas qualidades e qualificações. Ao estudarmos a de um literato, obviamente saberemos se: poeta, romancista, contista, cronista, etc. Muito bem.
Como já mencionado nas duas postagens anteriores, o RETALHOS DO MODERNISMO, optou para, neste mês de Julho, editar postagens sobre o “Príncipe dos Poetas Brasileiros”: GUILHERME DE ALMEIDA. E, devido a quantidade de material sobre o referido Poeta, tornou-se tarefa difícil a escolha da “matéria” ideal para postagem, pois algumas muito longas, outras por não possuir referências, outras por ser demasiadamente acadêmicas e repetitivas, outras por serem de conhecimento público – fato esse que desviaria do objetivo do Blog, que é o de procurar trazer sempre algo de novo, pelo menos na Net. E, seguindo esse objetivo, o Blog traz um texto guilhermino inédito na Internet: “Do Sonho”.
Os admiradores de Guilherme de Almeida sabem que ele não foi somente poeta. Advogado, promotor, comendador e soldado Constitucionalista, Guilherme de Almeida, duas vezes acadêmico, foi também: jornalista, tradutor, cronista, redator, crítico, compositor, orador, desenhista, ilustrador, heraldista, numismata, vitralista, arborista, etc. Não sendo necessário mencionar mais nada, eis o texto do nosso Poeta, mantida a grafia original:


DO SONHO


Alguém me disse, certa vez, faz muito tempo:
- Se me fôsse possível escolher o meu destino, eu escolheria a trajetória luminosa de um sonhador.
No princípio, estranhei, não aprovei a idéia, que me pareceu esdrúxula nos lábios da quase-criança que a pronunciaram. Depois pensei e dei razão à pequena sonhadora.
O sonho é ainda a única realidade porque é a mais irreal, a única verdade, porque é a mais inverossímil; a única utilidade, porque é a mais inútil.
Lembro-me bem, lembro-me sempre do “ex-libris” que compôs, um dia, para seu delicado uso e fino gôzo, uma alma delicada e fina de mulher. O desenho evocava um caule longo e felpudo de papoila sonorífera, com uma daquelas estranhas cápsulas de que se extrai o ópio que faz sonhar; uma última pétala desprendida esvoaçava, caindo. E a divisa dizia:- “Somnium extat”. O Sonho fica. É verdade. Tôda a futilidade leviana voou no vento; só aquela cápsula, que continha o sonho, ficou.
E lembro-me também, lembro-me sempre daquele instante bíblico, quando os invejosos irmãos de José do Egito ajustaram a morte do visionário, do intérprete dos sonhos de Faraó; e o esperaram numa sombra, e disseram quando êle apareceu na distancia: - “Eis, ai vem o sonhador, matemo-lo!” De tôda essa irmandade abundante no tempo e no espaço, e mesclada e incrédula, só José ficou e ficará na lembrança admirada dos homens.
E lembro-me, afinal, lembro-me sempre de mim mesmo, do relampago inútil e frívolo e efêmero de um sonho, que ficou clareando, que está clareando tôda a útil e séria e longa noite de uma vida...


Guilherme de Almeida


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FONTE:
- ALMEIDA, Guilherme de. Crônica. Revista da Academia Paulista de Letras, São Paulo, nº 48, 12 de dezembro de 1949 – p. 5.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

A REVOLUÇÃO CONSTITUCIONALISTA E GUILHERME DE ALMEIDA

Guilherme de Almeida e os irmãos Tácito, Estevam e Antonio Joaquim, com o amigo Carlos Pinto Alves, em Cunha - 1932 (Foto Reprodução)



GUILHERME DE ALMEIDA
O POETA DA REVOLUÇÃO
Luiz de Almeida


Para o Estado de São Paulo o dia “9 de Julho” não é só uma data puramente histórica que ficou arquivada nas trincheiras do longínquo ano de 1932. O significado chega a transpor as barreiras e os limites não apenas de uma extensão territorial, mas sim as barreiras e os limites de uma nação chamada Brasil. São Paulo pleiteava a unificação nacional através de uma Constituição Digna e Democrática. São Paulo almejava a Liberdade. São Paulo sonhava com um Governo Democrático e não aceitava mais o pesadelo de Governo nefasto e ditador. E, como não encontrou eco para uma solução pacífica, armou-se para a batalha que a história denominou de: “Revolução Constitucionalista de 32”.
Neste texto não desejo perder o meu tempo e nem o do dileto leitor com a História da referida Revolução. Todo o brasileiro a conhece. O que importa aqui, não fugindo da temática deste Blog, é continuar falando do Poeta Guilherme de Almeida, cuja postagem anterior, o artigo de autoria da Poeta Maria Thereza Cavalheiro, trouxe-nos notícias do "Príncipe dos Poetas" que ainda não sabiamos. E, mesmo sendo do conhecimento de todos, Maria Thereza enfatizou a participação ativa e efetiva do nosso Poeta na Revolução Constitucionalista de 1932. Guilherme de Almeida trocou o terno de linho pela farda de lona, a gravata pelo laço de couro repleto de balas, a caneta pelo fuzil, o escritório pela trincheira e foi demonstrar o seu civismo e o seu amor por São Paulo e pelos ideais democráticos.
Para este Blog, o Poeta é o que mais importa para comemorar este “9 de Julho”. E não existe forma melhor para comemorar se não o de degustar dos poemas de Guilherme de Almeida, aqueles que versão sobre a Revolução Constitucionalista, sobre os Homens Paulistas que perderam suas vidas por uma causa nobre, e sobre o Símbolo Maior: a “Bandeira das Treze Listras”, que o Poeta orgulhosamente hasteava no topo da fachada da sua casa, numa demonstração de amor pelo Estado de São Paulo e pelo Brasil.

E o Poeta e Soldado Constitucionalista:

“Guilherme de Almeida”, assim se manifestou:

CANÇÃO

DO EXPEDICIONÁRIO

Você sabe de onde eu venho?
Venho do morro, do Engenho,
Das selvas, dos cafezais,
Da boa terra do coco,
Da choupana onde um é pouco,
Dois é bom, três é demais,
Venho das praias sedosas,
Das montanhas alterosas,
Dos pampas, do seringal,
Das margens crespas dos rios,
Dos verdes mares bravios
Da minha terra natal.

Por mais terras que eu percorra,
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá;
Sem que leve por divisa
Esse "V" que simboliza
A vitória que virá:
Nossa vitória final,
Que é a mira do meu fuzil,
A ração do meu bornal,
A água do meu cantil,
As asas do meu ideal,A glória do meu Brasil.

Eu venho da minha terra,
Da casa branca da serra
E do luar do meu sertão;
Venho da minha Maria
Cujo nome principia
Na palma da minha mão,
Braços mornos de Moema,
Lábios de mel de Iracema
Estendidos para mim.
Ó minha terra querida
Da Senhora Aparecida
E do Senhor do Bonfim!

Por mais terras que eu percorra,
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá;
Sem que leve por divisa
Esse "V" que simboliza
A vitória que virá:
Nossa vitória final,
Que é a mira do meu fuzil,
A ração do meu bornal,
A água do meu cantil,
As asas do meu ideal,
A glória do meu Brasil.

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ORAÇÃO ANTE

A ÚLTIMA TRINCHEIRA


Agora é o silêncio.
É o silêncio que faz a última chamada:
É o silêncio que responde:
- Presente!
Depois será a grande asa tutelar de São Paulo,
asa que é dia e noite e sangue e estrela e mapa
descendo, petrificada, sob um sono que é vigília.
E aqui ficareis, Heróis-Mátires, plantados firmes,
para sempre, neste santificado torrão de chão paulista.

Para receber-vos, feriu-se ele da máxima
de entre as únicas feridas, na terra,
que nunca se cicatrizam,
porque delas uma imensa coisa emerge
e impõe-se que as eterniza.
Só para o alicerce, a lavra, a sepultura e a trincheira
se tem o direito de ferir a terra.
E, mais legítima que o alicerce,
que se eterniza na casa, a dar teto para o amor,
a família, a honra, a paz;
Mais legítima que a ferida da lavra,
que se eterniza na árvore,
a dar lenho para o leito, a mesa, o cabo da enxada,
a coronha do fuzil;
Mais legítima que a ferida da sepultura que se eterniza no mármore
a dar imagem para a saudade, o consolo,
a bênção, a inspiração;
Mais legítima que essas feridas
é a ferida da trincheira,
que se eterniza na Pátria,
a dar pura razão de ser da casa,
da árvore e do mármore.

Este cavado trapo da terra,
corpo místico de São Paulo
em que hora existis consubstanciados,
mais que corte de alicerce,
sulco de lavra, cova de sepultura,
é rasgão de trincheira.
E esta, perene, que povoais,
é a nossa última trincheira.

Esta é a trincheira que não se rendeu
a que deu à terra o seu suor,
a que deu à terra a sua lágrima,
a que deu à terra o seu sangue!
Esta é a trincheira que não se rendeu,
a que é nossa bandeira gravada no chão,
pelo branco do nosso Ideal,
pelo negro do nosso Luto,
pelo vermelho do nosso Coração.
Esta é a trincheira que não se rendeu,
a que, atenta, nos vigia,
a que, invicta, nos defende,
a que, eterna, nos glorifica!
Esta é a trincheira que não se rendeu,
a que não transigiu,
a que não esqueceu, a que não perdoou!
Esta é a trincheira que não se rendeu:
Aqui a vossa presença, que é relíquia,
transfigura e consagra no altar
para o vôo, até Deus, de nossa fé.
E, pois, ante este altar, alma de joelho,
a vós rogamos:

- Soldados Santos de 32,
sem armas em vossos ombros, velai por nós!;
sem balas na cartucheira, velai por nós!;
sem pão em vosso bornal, velai por nós!;
sem água em vosso cantil, velai por nós!;
sem galões de ouro no braço, velai por nós!;
sem medalha sobre o cáqui, velai por nós!;
sem mancha no pensamento, velai por nós!;
sem medo no coração, velai por nós!;
sem sangue já pelas veias, velai por nós!;
sem lágrimas ainda nos olhos, velai por nós!;
sem sopro mais entre os lábios, velai por nós!;
sem nada a não ser vós mesmo, velai por nós!;
sem nada senão São Paulo, velai por nós!

-x-x-x-x-x-x-x-x-x-


NOSSA BANDEIRA


Bandeira da minha terra,
bandeira das treze listras:
são treze lanças de guerra
cercando o chão dos Paulistas!

Prece alternada, responso
entre a cor branca e a cor preta:
velas de Martim Afonso,
sotaina do Padre Anchieta!

Bandeira de Bandeirantes,
branca e rota de tal sorte,
que entre os rasgões tremulantes
mostrou a sombra da morte.

Riscos negros sobre a prata:
são como o rastro sombrio
que na água deixava a chata
das Monções, subindo o rio.

Página branca pautada
Por Deus numa hora suprema,
para que, um dia, uma espada
sobre ela escrevesse um poema:

Poema do nosso orgulho
(eu vibro quando me lembro)
que vai de nove de julho
a vinte e oito de setembro!

Mapa de pátria guerreira
traçado pela Vitória:
cada listra é uma trincheira;
Cada trincheira é uma glória!

Tiras retas, firmes:
quando o inimigo surge à frente,
são barras de aço guardando
nossa terra e nossa gente.

São os dois rápidos brilhos
do trem de ferro que passa:
faixa negra dos seus trilhos,
faixa branca da fumaça.

Fuligem das oficinas;
cal que as cidades empoa;
fumo negro das usinas
estirado na garoa!

-x-x-x-x-x-x-x-x-x-

O CREDO PAULISTA


Creio em São Paulo todo poderoso,
criador, para mim do céu na terra:
e um Ideal Paulista, um só, glorioso,
nosso senhor na paz como na guerra,
o qual foi concebido nas "bandeiras",
nasceu da virgem alma das trincheiras,
padeceu sob o jugo dos invasores;
crucificado, morto e sepultado,
desceu ao vil inferno dos traidores,
mas, para, um dia ressurgir dos mortos,
subir ao nosso céu e estar sentado,
à direita do Apostolo-Soldado,
julgando a todos nós, vivos ou mortos.
Creio no pavilhão das Treze Listas,
na santa união de todos os Paulistas,
na comunhão da Terra adolescente,
na remissão de nossa pobre gente,
numa ressurreição do nosso bem,
na vida eterna de São Paulo - Amém!

-x-x-x-x-x-x-x-x-x-

Fontes Pesquisadas:

- Almeida, Guilherme de. Meus Versos Mais Queridos. Edições de Ouro - RJ, sd;

- Villa, Marco Antonio. 1932 - Imagens de Uma Revolução. Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2008;

- Cintra, Paulo Cunha. Revolução Paulista de 1932 - A História de um Combatente. Ed. Trion - SP. 1ª Ed. 2004;

- Marques, José Sérgio Turriani. Ocorrências da Revolução de 32 no Setor Sul. Ed. do Autor - 2008.

(Apresentação e formatação: Luiz de Almeida - Julho/2009).

sexta-feira, 3 de julho de 2009

JULHO - MÊS "GUILHERME DE ALMEIDA"

Guilherme de Almeida (Foto Reprodução)


Prefácio do Retalhos:

Na primeira semana de fevereiro do corrente ano, tive a honra de conversar com a jornalista e Poeta MARIA THEREZA CAVALHEIRO, onde falamos do nosso dia-a-dia, das pesquisas e estudos literários, do Blog Retalhos e, logicamente de: GUILHERME DE ALMEIDA.
Passados alguns dias após essa conversa, recebi da minha nova amiga uma porção de recortes de jornais e xerox de textos escritos por Ela sobre Guilherme de Almeida, encaminhados através de uma missiva apaixonante e que, dentre outros assuntos, me autorizou transcrever todo esse material jornalístico aqui no RETALHOS.
Já poderia ter postado todo esse material, mas preferi deixar para “este mês de Julho”, um mês significativo na vida de Guilherme de Almeida, pois ele nasceu no dia 24 de Julho de 1890, participou ativamente da Revolução Constitucionalista de 1932 (cuja data histórica e comemorativa é “9 de Julho”) – e faleceu no dia 11 de Julho de 1969, ou seja, neste mês de Julho/2009, dia 11, faz 40 anos que o Príncipe dos Poetas e Soldado Constitucionalista deixou de viver paulistanamente.
É um material imenso, mas inédito na Net, provocando assim: “orgulho e honra” para o autor deste Blog. Apesar de tornar dificultosa a digitação, obedeci rigorosamente a grafia original dos textos, exatamente como escritos e editados. Para as postagens não obedecerei somente as datas originais das publicações, pois escolhi postar aqui no Retalhos pelas temáticas, como também inserir algumas imagens que não fazem parte dos textos originais da Autora. E a primeira postagem é como se fosse um diário. Longa, eu sei, mas de um significado descomunal, onde a Poeta consegue transmitir com um sentimento amabilíssimo sua amizade e convivência com o Poeta Guilherme de Almeida.

Luiz de Almeida


Nota:

O artigo da Poeta Maria Thereza Cavalheiro intitulado: “GUILHERME DE ALMEIDA: O POETA DE SÃO PAULO”, transcrito a seguir, foi editado em três números sequentes do jornal D.O. Leitura – Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, em 1989: Partes I, II e III, sempre com o mesmo título, nas edições: n.º 88, de 8 de setembro – p. 4/5; n.º 89, de 8 de outubro – p. 4/5 e n.º 90, de 8 de novembro – p. 6/7).


GUILHERME DE ALMEIDA:

O POETA DE SÃO PAULO

Durante muitos anos, Guilherme de Almeida foi o mais popular poeta paulista, principalmente na fase que coincidiu com a Revolução de 32. Sua obra é apresentada nesta vasta pesquisa, em que se encontram revelações inéditas ou atos muito pouco conhecidos da vida do Príncipe dos Poetas Brasileiros.


Maria Thereza Cavalheiro

Maria Thereza Cavalheiro entrevistando

Guilherme de Almeida (Foto Reprodução)


Falar de Guilherme de Almeida, meu padrinho literário, representa para mim uma volta ao passado, um relembrar de fatos que muito de perto me disseram respeito. Quando se tem contato com uma figura incomum, e com certa freqüência, impossível não lembrar o que mais nos falou à sensibilidade, e o “Príncipe dos Poetas Brasileiros” deixava, em todos os que dele se aproximavam, uma impressão muito forte, motivada também pela simplicidade com que sabia ser grande, pela humildade com que realizava obras marcantes.
Guilherme de Almeida era de grande fidalguia de trato. Foi, durante toda a vida, um cultor de nossas tradições e de nossa História. Personalidade de destaque dos meios intelectuais e sociais, ampliou o patrimônio cultural do País com suas obras. Sua atividade era múltipla: poeta, jornalista, cronista, tradutor, além de desenhista e profundo conhecedor de cinema. Seus livros, entre poesia e prosa, literatura infantil, traduções e peças de teatro, somam mais de setenta volumes. O próprio Poeta não sabia dizer o número com precisão.
Conhecia várias línguas (incluindo o latim e o grego), rendia verdadeiro culto ao idioma pátrio, e tudo quanto escrevia tinha a marca da perfeição. Inovou na poesia e na prosa, imprimindo, a tudo, o seu próprio e inconfundível estilo. Deixou, para a posteridade, lindos poemas cívicos do Brasil e de São Paulo, que bem demonstram seu grande amor pela nossa terra, e, particularmente, pelo nosso Estado – ele que foi um dos heróis de 32.
Guilherme de Andrade e Almeida nasceu a 24 de julho de 1890, em Campinas, SP, terra de sua mãe, Angelina de Andrade Almeida, e onde seu pai, Estevam de Araújo Almeida – jurisconsulto, filólogo e professor de Direito – era Promotor Público.
Foi batizado em Limeira-SP, onde a família se encontrava, fugida do surto de febre amarela que se alastrava em Campinas. Passou alguns anos em Araras e em Rio Claro, no interior paulista; nesta última cidade transcorreu a infância do Poeta. Aí estudou no colégio de sua tia Anninha – Anna de Almeida Barbosa de Campos. Em 1902, a família veio para São Paulo e, ano seguinte, o menino Guilherme contraiu tifo e febre amarela; passou muito mal, teve perda de memória, mas depois se recuperou plenamente. Guilherme de Almeida costumava dizer que havia nascido aos doze anos de idade, e foi quando passou a fazer os primeiros versos, no que foi estimulado pelo pai, possuidor de bela biblioteca.
O Poeta teve vários irmãos, alguns falecidos prematuramente. Dentre estes, um também se dedicou à poesia: Tácito de Almeida, nascido em 14-7-1899 e falecido em 3-9-1940, que usou o pseudônimo de Carlos Alberto de Araújo. Tácito não chegou a reunir em livro os seus poemas, muitos dos quais estampados na publicação modernista Klaxon (nome tirado de uma buzina espalhafatosa), de que ele e o famoso irmão foram também fundadores.
Guilherme de Almeida fez o curso secundário nos seguintes estabelecimentos de ensino: Ginásio de Campinas, antigo “Culto à Ciência”; Ginásio São Bento, na Capital paulista; Ginásio Diocesano de São José, internato em Pouso Alegre-MG; e, finalmente, Ginásio N. S. do Carmo, também de São Paulo. Neste último, formou-se em Ciências e Letras em 1907; depois, formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em 1912. Durante algum tempo chegou a advogar com o pai, mas a sua vocação mais alta eram as Letras, a que se dedicou toda a vida, especialmente após seu casamento com Belkiss (“Baby) Barrozo do Amaral, da sociedade carioca, em 3 de setembro de 1923. Passou então a residir no Rio de Janeiro, e retornou a São Paulo em 1926, por ocasião da morte de seu pai. O casal teve um filho, Guy Sérgio Haroldo Estevam Zózimo Barrozo de Almeida, nascido em 29-8-1924.
Em um de nossos primeiros encontros com Guilherme de Almeida, contou o Poeta como conhecera a interessante Baby, cearense de Quixadá, mas radicada no Rio desde pequena. Ele começou a receber cartas de uma moça, que não se identificava, escritas em um francês perfeito, numa bela caligrafia. Com a troca de correspondência, que se foi amiudando, o Poeta pediu-lhe um retrato. Ela então lhe enviou não um, mas, de cada vez, o pedaço de um, sempre de fotos diferentes, para que ele próprio construísse a imagem dela. Então ocorreu o lançamento de um livro do Guilherme, a que a jovem compareceu. Quando ela se aproximou para o autógrafo, sem que nada se dissessem, o Poeta teve a certeza de que aquela era a sua correspondente especial. Houve entre ambos uma paixão fulminante, que os levou ao casamento.
E essa impressão de já se conhecerem Guilherme de Almeida transmite muito bem no poema “Decepção” (Acaso), que assim termina:
“Agora sou feliz: sou teu. Mas – ah! – no meio desta felicidade, um só bem não me veio e nem mo podes dar, por mais que tu me dês:
- É uma surpresa do encontro, o gosto do imprevisto, o inesperado, a sensação do nunca visto...
Porque eu nunca te vi pela primeira vez!”


Foto (Reprodução) de Baby antes do casamento

DUAS VEZES ACADÊMICO

Guilherme de Almeida foi eleito para a Academia Paulista de Letras em 1928, onde, na vaga de seu pai, ocupou a Cadeira n.º 22, por este fundada, cujo patrono é João Pereira Monteiro Júnior. Foi empossado em 31 de julho de 1929 e saudado por Spencer Vampré.
Em 1930, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, na vaga de Amadeu Amaral, Cadeira n.º 15, sob invocação de Gonçalves Dias, fundada por Olavo Bilac. Foi empossado em 21 de junho do mesmo ano, e Olegário Mariano, o “Poeta das Cigarras”, fez a réplica ao seu discurso.
Em 16-6-58, sucedendo a Olegário Mariano, Guilherme de Almeida foi eleito “Príncipe dos Poetas Brasileiros”, por consagradora votação, em concurso patrocinado pelo Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, pela seção “Escritores e Livros”. Contou-nos o Poeta que, na ocasião, concedeu mais de trezentas entrevistas, pronunciou mais de quarenta discursos, recebeu mais de duas mil e quinhentas cartas... O Poeta sempre amou muito sua cidade natal, com a qual disse ter cometido uma injustiça: quando eleito “Príncipe”, aceitara homenagens de vários cantos do Brasil, mas não tivera tempo de ir receber, até aquele momento, in loco, os aplausos de seus conterrâneos, o que aconteceu em 1962. O Diário do Povo, de Campinas, organizou à época uma grande homenagem ao Poeta, e o convite oficial partiu do então prefeito Miguel Vicente Cury. Blagueur como era, Guilherme de Almeida relatou-nos a história de um cidadão que disse que “não é preciso perguntar a um campineiro se ele é de Campinas: se o é, vai logo dizendo; se não é, por que humilhá-lo?”
O concurso para eleição do “Príncipe dos Poetas Brasileiros” foi promovido por três vezes, pela revista Fon-Fon, fundada por Mário Pederneiras, também poeta, e eleitos, sucessivamente, Olavo Bilac, Alberto de Oliveira e Olegário Mariano. Com a morte deste último e o desaparecimento da revista, seu diretor, Ary Sérgio da Silva, transferiu ao Correio da Manhã os direitos literários do concurso.
Na ocasião, foram votados cinqüenta e um poetas, e Guilherme de Almeida venceu com 261 votos. Em segundo lugar ficou Manuel Bandeira. Cerca de mil intelectuais de todo o Brasil participaram da escolha, com voto aberto e assinado. Em Estados onde não conhecia ninguém, Guilherme chegou a ser o mais votado, e, para sua mágoa, em São Paulo obteve apenas 80 votos.
A entrega do título ocorreu em 16 de setembro de 1959, durante um jantar oferecido pelo Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, no Palácio das Laranjeiras.
Entre outros títulos, Guilherme de Almeida recebeu os de Cavaleiro da Legião de Honra, da França; Comendador da Ordem do Mérito, da Síria; Comendador da Ordem de Santiago da Espada (Portugal); Comendador da Ordem do Tesouro Sagrado, do Japão; Grande Oficial da Ordem Militar de Cristo, de Portugal; Grande Oficial da Coroa da Romênia; Oficial da Ordem das Artes e das Letras, da França. Era membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo; do Seminário de Estudos Galegos de Santiago de Compostela (Espanha); da Unión Cultural Universal, do Alcácer de Sevilha (Espanha); do Instituto de Coimbra (Portugal). Recebeu a Medalha de Ouro e Diploma de Primeira Classe aos Beneméritos da Escola de Cultura e da Arte, da Itália. Outra mágoa do Poeta: nenhuma condecoração brasileira.
Guilherme de Almeida participou da Revolução Constitucionalista de 1932, quando serviu no Batalhão da Liga da Defesa Paulista, que se bateu em Cunha-SP. Dirigiu o Jornal das Trincheiras, distribuído aos soldados até no próprio campo de batalha. Ao final do Movimento, foi preso e exilado; permaneceu um ano na Europa. Em 22-12-32, foi recebido com todas as honras na Academia das Ciências de Lisboa, cidade onde há uma rua com seu nome, uma avenida na Freguesia do Ó e um viaduto na Liberdade.
Exerceu vários cargos públicos em São Paulo: foi Promotor Público interino em Mogi-Mirim (1914); Secretário da Escola Normal do Brás (1923/54); Secretário da Escola Normal Padre Anchieta (1923/38); Chefe da Divisão de Expansão Cultural do Departamento Municipal de Cultura (1938/41); Oficial de Gabinete do Interventor Fernando Costa (1941/43); Secretário do Conselho Estadual de Bibliotecas e Museus (1943/48). Chefiou a Missão Cultural do Serviço de Cooperação Intelectual do Ministério do Exterior, que foi a Montevidéu (Uruguai), para a inauguração da Herma a Olavo Bilac (1937). Presidiu a Comissão do IV Centenário de São Paulo (1954). O Poeta foi também Presidente da Associação Paulista de Imprensa (1937/39).
A convite do Poeta Amadeu Amaral, Guilherme de Almeida ingressou no O Estado de S. Paulo em 1916; na volta do Rio retornou a esse jornal (1926). Aí, assinou-se “G” como crítico de cinema, com a coluna “Cinematógrafo”; “Guy”, na coluna “Sociedade”. Assinou-se ainda “G. de A” e “G.A”. Como “Urbano”, assinou a seção “Pela Cidade”, no Diário Nacional (1927). Deixou O Estado de S. Paulo e passou a diretor da Folha da Manhã e da Folha da Noite (1947/57), onde escreveu “Ontem, Hoje, Amanhã” (crônicas). Fundou o Jornal de São Paulo (1945), do qual depois se afastou (1947). Aí publicou “Folhinha” (crônicas). Retornou a O Estado de S. Paulo (1957). Na Rádio Cruzeiro do Sul realizou dois programas semanais: “Momentos de Poesia” e Preview da Semana”, este de crítica de cinema.


O PRIMEIRO LIVRO

A primeira pessoa, além dos familiares, a ler os versos do livro de estréia de Guilherme de Almeida, Nós, terminado em 1916, foi o poeta santista Vicente de Carvalho, que, dentre 54, fez uma seleção de 33 sonetos para publicação. Na oportunidade, Guilherme trabalhava em O Estado de S. Paulo, onde estreitou seu conhecimento com outro poeta, Amadeu Amaral, que o entusiasmou a publicar o livro.
Nas oficinas daquele jornal, fora inicialmente impressa uma plaquete com seus versos, de que houve uma leitura pública dia 16-9-1916, por Júlio César da Silva, no Salão de Recepção do mesmo órgão informativo, então localizado na Praça Antônio Prado. Curiosamente, também num dia 16 de setembro, quarenta e três anos depois, Guilherme de Almeida receberia o título de “Príncipe dos Poetas Brasileiros”.
Nós foi lançado em 6-6-1917, com a tiragem de 1.015 exemplares. Corrêa Dias, artista recém-chegado de Portugal, fez, no Rio, as ilustrações para o livro, as suas primeiras realizadas no Brasil. O nome do Poeta aparece aportuguesado: d’Almeida. O livro foi impresso também nas oficinas de O Estado de S. Paulo, pela sua Seção de Obras, sob a direção de Heitor Schultz. Custeou a edição, a título de presente, um amigo do pai do Poeta, de quem era companheiro de escritório: o Dr. Francisco Morato. O custo da edição foi de 1.400$0000.
Houve um mal que veio para bem: o crítico Antonio Tôrres, em A Noite, do Rio, fez, sobre o livro, um comentário negativo, sob o título “Bacillus liricus”, o que chamou a atenção de todos para o poeta estreante, logo defendido e elogiado por Medeiros e Albuquerque, João Ribeiro, Osório Duque Estrada e outros. Seus versos passaram a ganhar as folhas dos jornais e revistas, e nunca mais deixaram de ser transcritos e declamados. Nós mereceu, da imprensa brasileira e portuguesa, cerca de 1.200 críticas.
Guilherme de Almeida contou-nos que uma de suas primeiras grandes emoções como poeta foi quando, andando em um bonde que subia a Av. São João, viu seu livro, Nós, nas mãos de um rapaz modesto, vestido de macacão, que o lia embevecido.


A SEMANA DE 1922


Espírito inventivo e avançado, embora tivesse nascido sob influência do Parnasianismo, Guilherme de Almeida foi um dos promotores da Semana da Arte Moderna, movimento de renovação artística e literária, quando fez parte do grupo paulista.
Divulgou o Movimento com a conferência “Revelação do Brasil pela Poesia Moderna”, que fez em Porto Alegre, Recife e Fortaleza. Na Semana, apresentou duas “canções gregas”: “A galera” e “Os discóbulos”.
Sobre Guilherme de Almeida, disse Tristão de Athayde (Jornal do Brasil, 7-8-69): “Embora sempre fiel a esse culto da forma, que o aproximava em sua geração de um Martins Fontes, revelou especialmente no seu segundo livro, A Dança das Horas, de 1919, até hoje para mim sua obra-prima, uma leveza de tato que o tornava autêntico rendeiro de arabescos versificados”.
“Nesse mesmo ano, Manuel Bandeira publicava Carnaval e a poesia de ambos abandonava os velhos rumos parnasianos e sonetistas, para enveredarem por caminhos novos que Laforgue ou Antônio Nobre haviam pronunciado do outro lado do Atlântico. E se preparavam, por aqui, no subsolo de uma revolução prestes a estalar. Foi o que se deu em 1922”.
E assim termina o artigo: “O modernismo o seduziu por solidariedade à nova geração que Menotti Del Picchia arrancara da melancolia e do convencionalismo. Não havia nele nenhuma vocação revolucionária como nos demais da Semana. Mas havia uma vocação poética irreprimível. E um antiburguesismo visceral. Talvez por isso, iria evoluir do dandismo ao tradicionalismo”.
Mas como atesta o acadêmico Ledo Ivo (O Estado de S. Paulo, 27-6-71), Guilherme de Almeida “afirma uma propensão ou vocação de heterodoxia que o situará, não só naquele momento de confianças e fervores desatados e desabridos, mas ao longo de todo o hoje provecto Movimento Modernista, como uma figura à parte, e abastecida em sua própria singularidade humana e lírica”.
“Talvez mais do que nenhum outro dos participantes da Semana de Arte Moderna, Guilherme de Almeida viveu o drama da conciliação estética do novo com o velho, da fôrma com a forma, da tradição com a invenção, da rotina e do automatismo das receitas com o clamor da criatividade. Destoando da quase totalidade de seus companheiros de geração, ele sabia seus gregos e latins – era portador de uma formação humanística que, pelo peso exemplar, o convidava às fidelidades e referências mais diversas. (...) Guilherme de Almeida impôe à fase inaugural do modernismo (e de resto a todo o movimento) o selo inconfundível de seu virtuosismo. Ao contrário de seus pares, não o seduzem a chacota, o poema-piada, o prosaísmo que não se dessedenta na fonte do ritmo e da musicalidade. Moderno, seu jogo poético não se arreda de certa gravidade (...). Por mais paradoxal que isso possa parecer, as canções gregas de A frauta que eu perdi (1924) marcam sua adesão ao movimento, o que não deixa de possuir a sua fímbria de malícia. Nessas canções, Guilherme de Almeida, sob a conpulsão do clima intelectual da época, despe-se do seu envoltório parnasiano e passa a lidar com timbres novos ou rejuvenescidos que possuem algo de matinal – como se seus versos límpidos e flexíveis estivessem cobertos de orvalho. (...)”.
“A década de 20 haverá de ser, em sua obra, de uma esplêndida integridade. (...) E na maior parte dos poemas que Guilherme de Almeida elaborou nessa ditosa época de otimismo e experimentações salientam-se todas as suas qualidades ou virtudes de poeta e versificador que, na crista de uma vanguarda, encontra os pretextos para dedicar-se às fabricações poéticas mais bizarras. Conhecedor dos sistemas métricos avoengos, prazia-lhe remoçá-los e moldá-los às demandas de seu estágio de criatividade. Nos cancioneiros medievais ele foi buscar as assonâncias, jungindo as rimas imperfeitas e primitivas do nosso alvorejar poético ao seu obstinado e ledo empenho de perfeição. O poma em forma de pirâmide (‘Estância VII – Sobre a ambição’) que tanto se salienta no lirismo fronteiriço do Livro de Horas de Sóror Dolorosa também se inscreve nessa pauta de captação experimental das antigualhas. É um poema figurativo. Vários dos nossos simbolistas o tinham praticado, tentando a reprodução gráfico-poética de taças, cruzes e outros objetos. Na França, Apollinaire publicara em 1918, pouco antes de morrer, o seu Callgrammes, cuja maior zona de impacto eram os poemas figurativos ou ideogramas e caligramas, nos quais palavras ou versos são dispostos de modo a figurar utensílios, sentimentos ou movimentos. Era o fundo mergulho da vanguarda no milenar passado poético. Elegias em forma de cruz, cantos em forma de altar ou poemas reproduzindo objetos figuram em velhos pergaminhos da época do Baixo Império Bizantino. E, quatro séculos antes de Cristo, o poeta Simias de Rhodes fabricara uma poesia figurativa, formando um machado, um ovo, um par de asas...”.
Diz Cassiano Ricardo na matéria “Guilherme de Almeida e suas Antecipações” (Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo, 19-7-69): “O imagismo de Guilherme em Meu é, de todos os de 22, o que também mais se aproxima do ideograma, base da tentativa visualista dos nossos dias, pela ‘civilização da imagem’”.
O poeta Péricles Eugênio da Silva Ramos, atual Presidente da Academia Paulista de Letras, em sua obra Poesia Moderna (São Paulo), Melhoramentos, 1967, pp 89-90), observa:
“Virtuoso da expressão, Guilherme de Almeida é poeta capaz de fazer seu verso acompanhar e servir com exatidão a idéia que tenha em mente, com os matizes e tonalidades que bem entenda. Tanto é capaz de dar a idéia da antiguidade grega, como do português medieval ou quinhentista; e ainda versifica com sabor modernista ou moderno, segundo suas inclinações do momento. Logo ao estrear, em 1917, com Nós, o poeta chamou a atenção da crítica, não só pela segurança e qualidade de sua expressão, como por seu tom pessoal. Mário de Andrade, mais tarde, apontaria essa inconfundibilidade, e ainda certos recursos utilizados pelo poeta, como o dos parênteses na poesia ‘Os Meus Olhos’, de Soror Dolorosa, para exprimir a simultaneidade dos sentimentos. Ligado a Oswald de Andrade, com quem publicou um volume de peças teatrais em 1916 (Théatre brésilien: Leur Ame – Mon Coeur Balance) e a Sérgio Milliet (de quem em 1921-1922 chegou a traduzir artigos para o português e que dele traduziu versos para o francês), participou da Semana de Arte Moderna e do grupo de Klaxon; colaborou também na revista Estética, em cujo n.º 1 publicou o poema ‘Velocidade’, velocidade essa também sugerida pela disposição gráfica dos versos. Com exuberante colorido modernista, publicou Meu e Raça, livros nos quais se fazia presente a ‘precisão de nacionalidade’ que então se alastrava pelo Brasil. Depois disso, continuou poetando incessantemente, mas segundo diretrizes díspares: já escreveu sonetos camonianos, haicais e composições que se diriam saídas dos romanceiros peninsulares. Versátil e hábil, é capaz de ser romântico, parnasiano, simbolista ou moderno, ad libitum, e demonstra ser um dos mestres da palavra, cujas virtualidades explora com aguda sensibilidade, na direção que pretende. As impressões que ele deseja provocar são sempre transmitidas à custa do artifício, isto é, da arte de lidar com as palavras, pois nele a inteligência solicita e guia a sensibilidade. Isso é claramente visível em A Frauta Que Eu Perdi, onde os epítetos e a seleção vocabular colaboram para reforçar a impressão da Antiguidade, ou em Meu, livro do qual a natureza se reduz e se organiza em estampas, em quadros que o poeta prefixa arbitrariamente, humanizando-a ou colocando-a em situações e atividades de pessoa. (...)”.
A última entrevista de Guilherme de Almeida, pouco tempo antes de seu falecimento, foi concedida a uma jovem estudante, Maria Aparecida Marcondes Valério, do Instituto Mackenzie (Diário de S. Paulo, 20-7-69), e eis, na palavra do próprio Poeta, como se iniciou a Semana de Arte Moderna em São Paulo:
“Com um grupo de amigos, de idéias avançadas para a época, Di Cavalcanti, o grande talento, viera do Rio, expor seus quadros na sala de uma editora, que pertencia a Jacinto da Silva, que havia editado vários livros meus. Foi um sucesso a exposição; resolvemos fazer reuniões naquela sala e Di perguntou ao Jacinto: ‘que tal iniciarmos um movimento de coisas modernas que incluam além dos quadros, música, arquitetura, escultura... um movimento que revolucione a arte, as letras...?’”.
“Eu topei logo, e devo dizer que Di foi pai e mãe da idéia do movimento que se iniciava, de finalidade puramente moderna. Fomos conversar com Paulo Prado, que era uma espécie de protetor das nossas belas letras, muito primárias ainda. Queríamos abrasileirar o que é nosso, combatendo desde logo o que certos poetas diziam, por exemplo: ‘manhã de abri, manhã primaveril’. Como? Isto é na Europa, pois as manhãs de abril aqui são de outono e não de primavera”.
“Paulo Prado chama Graça Aranha do Rio e nos reunimos na casa de dona Olívia Guedes Penteado. A comissão responsável pelo movimento aqui em São Paulo éramos eu, Di, Mário de Andrade, Sérgio Milliet e outros que foram aderindo. Do Rio vieram, além do Di, Ronald de Carvalho, Renato de Almeida e outros. Concordamos em fazer um salão de arte moderna, uma Semana de Arte Moderna; seria no Municipal, e o conseguimos por intermédio de René Thiollier. Teve início no dia 11 de fevereiro... Nas galerias expusemos quadros, esculturas, o palco foi aberto para concertos, eu recitei. Guiomar Novais tocou, convidamos o Villa-Lobos do Rio. Era grande a nossa audácia. Anita Malfatti também figurou com dois quadros seus que se tornaram célebres: ‘A estudante russa’ e ‘O homem amarelo’. Di Cavalcanti apresentou quadros bem modernos e eu dizia: ‘é preciso escandalizar, é preciso escandalizar...’. Flávio de Carvalho iniciava-se em Arquitetura, e, na Escultura, Victor Brecheret, esse grande! O Estado de S. Paulo, no qual eu já trabalhei, franqueou uma seção livre nos seguintes termos: ‘Fica franqueada esta coluna a quem quiser responder a esses inconscientes mocinhos que estão querendo mudar a arte brasileira’. A indignação era geral. Ronald de Carvalho foi vaiado nas escadarias do Municipal quando dizia estrofes de ‘Toda a América’. Renato de Almeida, presenciando o fato, não queria acreditar... eu tive a audácia de ler uma canção grega para provocar protestos, as vaias choviam em nossa direção. Éramos novos, impulsivos, embora sem costeletas e cabelos cumpridos, mas rigorosamente construtivos. Esse era o espírito geral dos que pugnavam pela renovação da arte no Brasil”.
O acadêmico Menotti Del Picchia, em conversa com a autora deste trabalho, observou uma vez que certos rapazes da Semana também faziam brincadeiras: escreviam coisas absurdas para se divertirem quando alguém as “entendessem”... E, ao contar isso, incluiu-se entre eles.


(Até o último parágrafo acima, o artigo da Poeta Maria Thereza Cavalheiro, foi editado no jornal “D.O. Leitura – São Paulo, n.º 88, de 8 de setembro de 1989, p. 4/5. A continuação do artigo foi editada no referido jornal, de n.º 89, de 8 de outubro daquele mesmo ano).


Conheci Guilherme de Almeida em 1944, aos meus quinze anos de idade, quando sua sobrinha, Anna Maria, filha de Marco Aurélio de Almeida (depois casada com o advogado Clementino S. de Castro Floripes), então minha vizinha na Rua Honduras, em São Paulo, levou ao famoso tio meus primeiros versos, em que se incluíam várias trovas. Com louvores, que muito me enalteceram, veio-me um convite: para visitar o Poeta em seu escritório, em cima da Confeitaria Vienense, na Rua Barão de Itapetininga, na Capital paulista, onde estive numerosas vezes, primeiro só para haurir de sua palavra, e, anos depois, para entrevistá-lo para o jornal onde passei a trabalhar.
Guilherme de Almeida foi a primeira pessoa a reconhecer-me poeta, e isso de maneira muito coloquial. Estávamos em conversa animada quando, às tantas, ele proferiu: “Nós poetas...”. A menina de quinze anos sentiu-se envaidecida e confiante a prosseguir na Poesia.
Em 1957, quando me iniciava no jornalismo, colaborando em A Gazeta, viria a fazer a primeira entrevista formal com o grande Poeta. Realizávamos então a campanha “Vamos vestir São Paulo de flores” (a primeira no gênero), com Roberto Fontes Gomes, Gumercindo Fleury e Ângelo Rinaldi. Guilherme de Almeida foi um dos primeiros nomes lembrados, na série de mais de cinqüenta depoimentos por mim colhidos no decorrer da campanha.
Ao publicar meu primeiro livro, Antologia Brasileira da Árvore, em 1960, solicitei, timidamente a Guilherme de Almeida algumas palavras sobre a obra, e o fiz por sugestão de Adelino Ricciardi, meu editor (Ed. Gr. Bartira). O Poeta disse-me que em duas semanas leria os originais; no entando, dois dias depois, o resultado foi a belíssima página – “Utilidade e Beleza” – que o Poeta escreveu. Contou-me que, por ficar muito entusiasmado com o assunto, escrevera a apresentação do livro durante a noite. Esse era, aliás, o seu período preferido de escrever: “Fico mais inteligente à noite” – dizia.
Curiosamente, quando eu cursava Direito na Universidade Mackenzie, durante uma Festa da Árvore realizada em setembro de 1969, presente o Vice-Governador Antônio Rodrigues Filho, reconheci as palavras proferidas por um coro de jovens: era a famosa página, sem o final, que se referia ao meu livro. Então, procurei a professora que o havia ensaiado, para que não deixasse de aludir ao autor daquela página em outras apresentações. Mas foi para mim muito emocionante ouvir a declaração das palavras de abertura do meu livro, na Faculdade em que eu estudava.
Em 1974, quando lancei a Nova Antologia da Árvore, sob os auspícios do editor Orlando Vicente (Livr. Ed. Iracema, em co-edição com a Secretaria de Cultura, Esporte e Turismo – livro que teve o apoio do Governador Laudo Natel), reproduzi, à guisa de prefácio, a mesma página escrita por Guilherme de Almeida, e fiz um depoimento sobre o Poeta quando da reinauguração da Casa Guilherme de Almeida, a convite de sua diretora Maria Ignez de Oliveira Sampaio, ocasião em que a fita simbólica foi descerrada por Laudo Natel. Foi este justamente que promulgou a Lei 337, de 10-7-74, a qual instituiu o Hino Oficial do Estado de São Paulo, com letra de Guilherme de Almeida: o poema “Hino dos Bandeirantes”.
Antes, muitos outros poetas cívicos foram escritos pelo Príncipe dos Poetas Brasileiros. Em 1960, compôs a famosa Prece Natalícia a Brasília, uma de suas mais belas páginas, que leu na inauguração da nova Capital (21 de abril), a convite do Presidente Juscelino, quando foi orador oficial das festividades.
Chamado “Poeta da Revolução”, compôs, à época do Movimento de 1932, muitos poemas engrandecendo São Paulo, entre outros “Moeda Paulista”, “Marcha Soldado”, “Oração ante a Última Trincheira”, e, na volta do exílio, escreveu o conhecido “Nossa Bandeira”. Esse poema foi composto por Guilherme de Almeida de um só fôlego, dia 2-11-34, ao tomar ciência de que o Presidente Getúlio Vargas pretendia vedar aos Estados o uso de insígnias próprias, o que se concretizou na Carta Constitucional de 10-11-37. Os símbolos regionais foram restaurados em 1946.
Em março de 1944, fez a letra da “Canção do Expedicionário” musicada por Spártaco Rossi.
Em 1967, escreveu o “Cântico Jubilar para o Advento da Rosa de Ouro”, musicado pelo Padre Dr. José Geraldo de Souza, comemorativo da outorga dessa insígnia, em 15 de agosto do mesmo ano, à Basílica Nacional de Aparecida, por S.S. o Papa Paulo VI.
A “Canção da Polícia Militar do Estado de São Paulo”, composta pelo Cel. da Reserva Alcides Jácomo Degobbi, ex-diretor do Corpo Musical da então Força Pública do Estado, com instrumentação do Capitão Maestro PM Nélson dos Santos, foi inspirada nos versos “Cento e Trinta de Trinta e Um”, de Guilherme de Almeida.
O Poeta havia programado publicar um Hinário, mas não chegou a fazê-lo.
Estava sempre atento a coisas nossas, e, por sua iniciativa e sob sua supervisão, foi restaurada a “Casa do Bandeirante”, hoje “Casa do Sertanista”, por ele inaugurada em 1955.


AMOR AOS CÃES


Muitas outras vezes encontrei Guilherme de Almeida, depois também para colher notícias para a coluna social que Maria Sílvia Montenegro e eu fizemos para A Gazeta, de 12/61 a 11/62.
O Poeta gostava de conversar, e sempre tinha muito a dizer. Ele amava as flores, as crianças, as aves, os cães. Nos pequenos nadas descobria motivos de grande inspiração. Tinha preferência por pequineses. Disse-nos certa vez, de sua grande mágoa ao perder um de grande estimação: sentiu-se um “dono sem cão”. Mas, na primavera de 1960, fora presenteado com outro pequinês, cujo pedigree ascendia aos canis da Rainha Vitória. Estava entusiasmado com a nova aquisição. Ao referir-se ao platine-blond do novo reizinho, falou em “uma gota de mel num raio de sol”. De patas brancas, seus longos pêlos sugeriam-lhe a imagem de “um mandarim com luvas demasiado longas”. Era o Ling-Ling, que estaria a seu lado até o último momento da vida.
O Poeta fazia, como hobby, ele mesmo, os seus cartões de Natal, e desenhava também caricaturas.
Vestia-se impecavelmente, à moda tradicional. Era um emotivo, mas seu ar parecia sempre sereno. A voz, porém, era rouca, nervosa. Falava quase rápido. Recebia muitas visitas em seu escritório, e muitos telefonemas. Tinha sempre uma palavra de estímulo para os jovens. Esclarecia, aos que o procuravam, sobre dúvidas a respeito de poemas e autores. Tinha boa memória; sabia todos os seus versos de cor. Nunca demonstrava impaciência ou mau-humor, e dava à imprensa todo o tempo necessário.

AS ÁRVORES

Guilherme de Almeida começou a fazer versos muito cedo. O primeiro soneto, aos seus quatorze anos, sob influência de Anthero de Quental, tinha a morte como tema. E o poeta adolescente foi castigado pelo vigilante da turma, um seminarista, mais velho, por estar escrevendo poesia, e marcando o ritmo com os dedos na carteira, na sala de estudos do Ginásio Diocesano de São José, em Pouso Alegre.
Seu primeiro poema publicado, porém, chamava-se “O Eucaliptus”, e saiu estampado em 1909, quando já calouro, em um jornal da Faculdade de Direito do largo de São Francisco, o Onze de Agosto, sob o pseudônimo de “Guidal”.
Em entrevista que nos deu para A Gazeta (28-9-59), o próprio Poeta observou: “Sempre tive paixão pela árvore. Ela tem sido o leit-motiv de meus poemas...”.
E apanhou alguns de seus livros na estante. Mostrou-nos várias poesias sobre árvore, muitas já nossas conhecidas: “Em A Dança das Horas, chamo a uma criatura ‘Meu lindo galho de salgueiro’. Narciso é todo dedicado a uma flor. Em Nós, digo:

Outono. As folhas tombam ao sol poente...
Num espreguiçamento de folhagem,
maio boceja pensativamente,
na tristeza intinita da paisagem.

Folhas soltas ao vento: solto à aragem,
vai meu último sonho à amiga ausente...
Inutilmente as árvores reagem,
e eu reajo também inutilmente!

E sinto, árvore triste e abandonada,
que já branqueja meu cabelo preto, que
amarelecem árvores na estrada...

Que o vento vai levar, rumo diverso,
do último galho e do último soneto
a última folha e o derradeiro verso!

Em Simplicidade, no poema “As árvores da rua”, o Poeta lamenta a poda das árvores:

Cortam-lhe galhos, coitadinhas!
Não lhes dão tempo de flori-los!
Fazem-nas todas iguaizinhas,
como as meninas dos asilos...

Todos os seus livros têm muitos e belos poemas sobre as árvores e as flores. Em Suave Colheira, “A saudade das folhas” e “Spleen” são repassados de ternura. Em A Dança das Horas, lemos ainda “A árvore nua”, “Flor de asfato” e “Chove em silêncio”. Nesta, o Poeta diz, na penúltima estrofe:

Descabelada, a tarde chora, viúva
do sol: e, sempre meigas e pacientes,
as palmeiras entendem os seus pentes
entre os cabelos de cristal da chuva.

Em Meu, várias poesias falam também de palmeiras, bananeiras, acácias floridas, alvas magnólias, girassóis, folhas amarelas, como “Arco-íris”, “Mormaço”, “Astronomia” e “Noite de Natal”. Em Nós, são freqüentes os “gerânios na janela”...
Sobre sua árvore predileta, disse-nos Guilherme de Almeida:
“Aprendi a conhecer as estações pelas árvores e o ensinei aos poetas brasileiros. Principalmente os plátanos da Praça da República ligam-se, desde então, à minha meninice e à minha juventude. O plátano é a minha árvore preferida... Ela sofre no nosso clima o que sofre no seu clima nativo. Em A Dança das Horas (“Exaltação dos sentimentos”), fixei em poesia as estações:

O Outono despe os plátanos,
tecendo ao longo da alameda,
Uma complicação de talagarça...
Maquinalmente entendo
O olhar vadio: um turbilhão de seda
foge, num passo elástico de garça.

Prosseguiu o Poeta: Em “Na cidade da Névoa”, são ainda os plátanos o motivo constante:

Na Cidade da Névoa um triste abril desfolha
os plátanos da rua. Um tédio longo e lento
desce numa neblina e friamente molha
a desanimação do pardo calçamento.

Observou ainda que seu discurso de recepção na Academia Brasileira de Letras foi todo construído sobre o tema “Árvore”. E esclareceu:
“Na árvore da poesia brasileira, Gonçalves Dias, apegado à terra, é a raiz no tronco. Olavo Bilac, pela sua exuberância, pelo seu esplendor, pelo seu verbalismo e sensualismo, é a floração e o colorido. Amadeu Amaral é o fruto. É a poesia do pensamento. E eu, junto a essa árvore, que sou? O simples caminhante que repousa um pouco à sombra dela, e passa, e vai-se embora, só pela glória de passar...”.
Ninguém concordoria com o Poeta... Guilherme de Almeida ficará através de todas as gerações. Seu canto está imortalizado nos poemas que sempre distribuiu às mancheias para nosso encantamento e dos que ainda virão. E sabemos que, em réplica ao seu discurso, o Poeta Olegário Mariano observara que “Guilherme de Almeida é o uirapuru da árvore da poesia, é o Orfeu da floresta...”.
Inquirido sobre sua flor preferida, Guilherme de Almeida evocou a beleza das orquídeas, “que poderiam ser um símbolo do Brasil, representando o que temos de mais nobre, como a flor-de-lis na França, que é um lírio estilizado”. Falou da beleza dos ipês, da originalidade da flor de maracujá. Lembrou então Fagundes Varella... Mas, e a flor preferida? Não nos enganáramos em observar a motivação constante da rosa em muitos de seus poemas: em A Dança das Horas, “Rosa da Pérsia” e o próprio poema que dá nome ao livro; em A frauta que eu perdi, “A rosa”, “As três mulheres”, “Myroméris”; em Meu, “A flor de cinza”; em Encantamento, “Canção ingênua”; em Poesia Vária, “Romance da rosa singela”. Em Simplicidade, pergunta o poeta no início do poema:

Simplicidade... Simplicidade...
Ser como as rosas, o céu sem fim,
a árvore, o rio... Por que não há de
ser toda gente também assim?

Guilherme de Almeida confirmaria ainda seu amor pela rosa seis anos mais tarde, quando da publicação de Rosamor, um livro dedicado à sua flor predileta.

OS HAICAIS

Há de se registrar um fato importante. Guilherme de Almeida foi um dos primeiros poetas brasileiros a escrever haicais. E os publicou em livro em Poesia Vária, lançado em 1947. Eu tinha então dezoito anos e fiquei encantada com os poemetos. Na festa de aniversário de sua sobrinha Anna Maria (10-9-47), disse ao Poeta do meu entusiasmo pelos seus haicais. E ele contou, muito indignado, que muitas pessoas, incluindo críticos, estavam dizendo que ele havia feito “charadas”.
Podemos entender, assim, perfeitamente, porque Guilherme de Almeida deu título aos seus haicais e criou um tipo de rima específica para essa composição poética. Os “haicais guilherminos” passaram a ser elaborados por bons haicaistas, entre os quais se destacam Cyro Armando Catta Preta, de Orlândia-SP, e o saudoso José Fernandes Soares.
Sabe-se que o haicai japonês é composto de três versos de cinco, sete e cinco sílabas respectivamente, sem rimas e sem título, com temas ligados à natureza. Ao transpô-lo para a nossa língua, Guilherme de Almeida rimou o primeiro com o terceiro verso, com tônica na segunda e na sétima sílabas poéticas. Dessa forma, como bem disse Sérgio Milliet na apresentação de Poesia Vária (3ª. ed. Cultrix), Guilherme de Almeida “nacionalizou o haicai” e “estabeleceu uma forma nova”.
E não é só isso. Temos para nós que Guilherme de Almeida assim procedeu para tornar o haicai mais acessível ao gosto do nosso povo, mais fácil de ser aceito. Em nada procederiam comentários de que Guilherme de Almeida não conheceria as regras do haicai. Ao contrário, ele as conhecia, e muito bem. Na mesma entrevista que nos concedeu, relatou:
“Havia um grupo de poetas japoneses, antigamente, que se reunia à Rua da Liberdade. Assisti a muitos dos seus encontros. Faziam Jogos Florais: era dado um tema (lembro-me de que um deles foi ‘brisa da primavera’) e uns dois ou três poetas apresentavam os seus haicais. Compõe-se o haicai de dezessete sílabas, e podemos defini-lo como ‘uma anotação poética e sincera de um momento de elite’. Não é poesia de amor: é de estação. O haicai é como um verbete de dicionário. E deve ser, antes de tudo, espontâneo: o haicai é obtido como quem pega um inseto em vôo. Se escapar, escapou, e não se consegue mais fazê-lo. Porque deixa de ser sincero. O haicai se impõe. É ele que vem a nós. Pois bem: uma vez, com surpresa minha, notei que o tema dado era sobre o jacarandá. Surgiu então uma querela: discutia-se a época de sua florescência, indispensável à composição do haicai, que é, como se disse, antes de tudo, uma poesia de estação. Com maior espanto meu, um dos japoneses tirou do bolso um dicionário botânico brasileiro em japonês, para esclarecer a dúvida. Pois a poesia japonesa é uma poesia botânica, e os conhecimentos botânicos são indispensáveis ao poeta... Passei também a fazer haicais, que eram traduzidos por um intérprete, após passar uma ‘prova’, que todos julgaram. A poesia, no Japão, é obrigatória. Não importa a profissão do indivíduo. Recordo-me que um dos componentes do grupo era agricultor, outro marceneiro, outro fazia serviços domésticos”.


Folheando Poesia Vária, lemos, entre outros haicais:

CARIDADE

Desfolha-se a rosa:
parece até que floresce
o chão cor-de-rosa.

JANEIRO

Jasmineiro em flor.
Ciranda o luar na fazenda.
Cheiro de calor.

CRIADOR E RECRIADOR

Para Guilherme de Almeida poesia era, sobretudo, “ritmo no sentir, no pensar e no dizer”. Manuel Bandeira proclamou-o o maior artista do verso em língua portuguesa.
E tanto manejava o verso rimado como o branco. Embora fizesse uma poesia de palavras, nunca abusou delas. Era contido, exato, preciso. Jamais usou de palavras supérfluas, de rimas forçadas. Toda a sua poesia tem o toque da perfeição, da genialidade.
Esse mesmo espírito de exatidão predomina em suas recriações. Guilherme de Almeida demonstrava uma “repugnância invencível” pelas palavras “tradução” e “versão”, e preferia outras expressões, mais legítimas para com o seu labor: “recriação”, “reprodução”, “recomposição”, “correspondência” e, principalmente, “transfusão”, conforme deixou claro no prefácio de Poemas de França e no posfácio de Flores das “Flores do Mal” de Beaudelaire.
Neste último, em que recompôs em português vinte e um dos sonetos baudelaireanos, o Poeta declarou: “... No meu processo de recriação, não há propriamente luta de poeta contra poeta, de um contra outro idioma, e sim uma automática justaposição, passiva conformação, espécie de entente cordiale, de tácita e recíproca sujeição”.
“Daí porque não houve imposições de escolher, nem conflito no transfundir – talvez o mérito único desta obra: o da bem simples sinceridade”.
Ao final, Guilherme de Almeida confessa seu “estremado amor à língua pátria”, o seu “enamorado enlevo por esta dócil, versátil, capacíssima língua nossa, de pequeno curso e grandes recursos, que tão bem sabe dizer, e de que tanto mal se diz”.
A seguir, o livro traz ricas notas do Poeta sobre a reprodução realizada, que bem demonstram o seu profundo conhecimento da língua francesa e do idioma pátrio, como mestre lapidar da palavra.
Assim era Guilherme de Almeida como recriador, e, se em alguma tradução cometia algum tipo de aparente deslize era de modo propositado, para ser mais fiel ao próprio original.

JUBILEU DE POESIA

Guilherme de Almeida, pelos seus cinqüenta anos de Poesia, foi homenageado em 4 de junho de 1968, pela Câmara Municipal de São Paulo, em sessão solene presidida por Manoel de Figueiredo Ferraz. Na oportunidade, foi saudado por João Carlos Meirelles, autor da proposição para aquela homenagem.
O Poeta declamou então seu “Soneto XXXII” (“Quando a chuva cessava e um vento fino”), e lembrou que, exatamente cinqüenta anos antes, ao encerrar-se o ano da publicação de seu primeiro livro, ali mesmo estivera, recebido pelo prefeito Washington Luiz Pereira de Souza (que depois foi Presidente do Estado e Presidente da República), para tratar dos retoques finais do brasão das armas do Município.
Também o Governador do Estado, Roberto de Abreu Sodré, em 19-6-68, prestou homenagem ao Poeta, pelo seu cinqüentenário de poesia. Na oportunidade, um medalhão de bronze, com a efígie de Guilherme de Almeida, esculpida por Galileu Emendabile, foi entregue pelo Governador ao Presidente da Academia Brasileira de Letras, Austregésilo de Athayde, para ser colocado na “Sala do Príncipe dos Poetas”, na Academia Brasileira de Letras, onde já se encontravam os medalhões dos outros “Príncipes” – Olavo Bilac, Olegário Mariano e Alberto de Oliveira. Guilherme de Almeida recebeu a mesma medalha de ouro.
Na ocasião, disse o Presidente da ABL: “Guilherme de Almeida é um poeta paulista, brasileiro, universal. É por sua universalidade que é entendido e compreendido em sua poesia onde quer que haja almas sensíveis à beleza”.
Certa vez, em entrevista ao escritor Raimundo de Menezes (que em 19-3-70 viria a sucedê-lo na Cadeira nº 22, na Academia Paulista de Letras), declarou o Poeta: “às vezes, um verso que me vem, legítimo, dá-me uma emoção muito mais ‘sensacional’ do que aquela que eu sentiria no momento de me ver coroado para ser rei, ou martirizado para ser santo” (Folha da Manhã, 2-10-55).
Mas Guilherme de Almeida marcou também sua presença literária como magnífico cronista que sempre foi. Suas crônicas, nunca reunidas em livro, eram “pequenos poemas em prosa”, no dizer do acadêmico Luiz Martins:
“Mestre incomparável era ele – e desde os seus primeiros livros demonstrou que o era”, pois sabia “extrair do quotidiano o mistério da poesia”.

(Até o último parágrafo acima: foi editado no jornal “D.O. Leitura – São Paulo, n.º 89, p. 4/5. Na sequência, Parte (III), a última, editada no jornal mencionado, de n.º 90, de 8 de novembro, p. 6/7 daquele mesmo ano).

Entrevistei formalmente Guilherme de Almeida outra vez, e então para que abordasse mais um de seus assuntos favoritos, a heráldica. Foi ele o responsável por muitos brasões de nossas comunas. O Poeta ocupou a cadeira n.º 29 no Colégio de Consulta Heráldica e Genealógica do Rio de Janeiro. Para ele, heráldica era “poesia pura”, uma “floresta de símbolos”.
Destacamos alguns de seus ensinamentos (A Gazeta, 25-1-62):
“Heráldica é arte e ciência ao mesmo tempo”. A palavra vem de herald, que quer dizer “arauto”. Brasão é um distintivo que o guerreiro geralmente escolhia para si mesmo, a fim de se distingüir dos outros. Ele o sugeria ao rei e este o agraciava com o título e o brasão. Todos os brasões eram registrados na Cortes.
Quanto menos figuras contiver o brasão, mais nobreza indicará. Devemos levar em conta que o primeiro escudeiro o fez em ouro, o segundo em prata; a seguir, usaram-se escudos cada um em uma cor. Quando se esgotaram as divisões, vieram as subdivisões, as ‘peças honrosas’ com a cruz dentro do brasão. Mais tarde, as figuras, crescendo em detalhes, teriam sempre necessária a diferenciação. Por isto, os escudos mais simples caracterizam nobreza tradicional, de onde a assertiva: ‘chi ha piu ha meno’.
O escudo pode obedecer a três formatos: o seminítico ou francês, que é o ideal; o que se arredonda na base, a exemplo dos brasões portugueses; e o gótico, que é uma ogiva invertida. Seja qual for o formato, deve obedecer à proporção de sete módulos de largura por oito de altura. Essa área é absolutamente intocável. O mais perfeito é o francês. Porque se enquadra rigorosamente dentro da regra.
A gramática heráldica mesma foi fixada através de um Tratado de Crollalanza, que determinou os princípios invariáveis para a confecção de um escudo. Assim, em heráldica existem somente dois metais: o ouro e a prata, e quatro esmaltes: verde (a que se chama ‘sínople’), azul (‘blau’), vermelho (‘goles’) e preto (‘sable’). Não se pode nunca aplicar metal sobre metal nem esmalte sobre esmalte. Das regras ditadas por Crollalanza, essa é a mais primária.
Existem a heráldica de família, que se refere à nobreza hereditária, e a de domínio, que diz respeito aos escudos de países, estados, cidades, vilas, etc. Todas as armas de família levam em cima a coroa ou o capacete, quando se trata de titular, ou, ainda, simplesmente, o ‘timbre’: uma das figuras ou outro pormenor tirado do brasão. Hoje, não temos mais brasões de família, pois estamos em República. Outrora, esses brasões eram dados por carta régia, registrados no chamado Armorial. Atualmente, os brasões de domínio são propostos nas Câmaras municipais e, se aprovados, sancionados pelos prefeitos e estabelecidos por ato, decreto ou lei.
Lê-se um escudo ao contrário: a esquerda em lugar da direita e vice-versa, pois deve ser visto como do peito do cavaleiro. Usamos, em heráldica, os termos em latim: dextra e sinistra. Todas as figuras no brasão, dentro ou fora dele, animal ou pessoa, devem olhar a dextra; se tiverem movimento para a sinistra significa bastardia. Os animais têm de estar em sua posição mais nobre: o leão, rompente; a águia, volante; o cão, passante. Na descrição, é preciso dar, também, os atributos do animal: cor do casco, da língua, das garras.
Na idealização de um escudo, deve-se dividi-lo, mentalmente, em três terços: o primeiro, a que se chama ‘chefe’; o segundo, ‘centro’; e o terceiro, ‘ponta’. O ‘chefe’ representa a cabeça do cavaleiro (o pensamento); o ‘centro’, o coração (sentimento), e a terceira ‘ponta’, os pés (ação).
Aquele que compunha brasões era chamado antigamente “rei d’armas. Guilherme de Almeida foi, assim, um “rei d’armas”, responsável, entre outros, pelos seguintes brasões: de São Paulo, Embu, Petrópolis, Brasília, Volta Redonda, Londrina, Guaxupé. O desenho de muitos foi confiado ao talento de Renato Zamboni, que procurou interpretar com fidelidade o pensamento do Poeta. Vários emblemas foram feitos também em mútua colaboração: para a Bolsa de Cereais, o Instituto de Cardiologia, o Centro de Estudos Históricos Afonso de Taunay e outros.
Guilherme de Almeida também trabalhara em estreita colaboração com o paulista José Wasth Rodrigues, nascido em 1891 e falecido em 1957. De parceria com esse artista, realizou o brasão para a cidade de São Paulo, e, juntos, entre trinta e seis concorrentes, saíram-se vitoriosos em um concurso encetado pelo Município. No escudo, o braço armado, empunhando uma espada batalhante, a que está presa a bandeirola de quatro pontas que ostenta a Cruz de Cristo, içada em acha de armas, comemora toda epopéia do Bandeirismo: o desbravamento pelo machado dos pioneiros, os quatro pontos cardeais. Foram usadas duas cores: prata, do metal, e vermelho, do esmalte, a traduzir audácia e altivez. O brasão traz, em cima, coroa mural de ouro, com torres, e tem como suportes dois ramos de café frutificados. A divisa Non ducor duco significa “Não sou conduzido, conduzo”. Todos os lemas que o Poeta utilizava em suas composições eram da própria autoria; nunca fez uso de frases feitas.


Em 8-3-1917, o prefeito Washington Luiz baixou o Ato Municipal 1.057, instituindo o brasão de armas da cidade, o qual foi restabelecido pela lei 3.671, de 9-12-47, do prefeito Paulo Lauro.
Guilherme de Almeida foi o idealizador do emblema do aristocrático São Paulo Clube, criado com o fim de manter as tradições paulistas e o de confraternização de seus membros. Contou-nos o Poeta que procurara resumir, em um único símbolo, a genealogia e a história paulista, e fez um timbre representado por um leão rompente encarnado com uma espada batalhante de prata a dextra. Explicou-nos na ocasião: “Temos dois fundadores em São Paulo: João Ramalho, o nosso Patriarca, que deu o primeiro paulista filho de Bartira, sua mulher, e Martim Afonso de Souza, o Colonizador, que trouxe para cá quatrocentos homens de estirpe, que aqui se radicaram e de quem nós todos descendemos. Ora, o brasão de armas de Ramalho e de Martim Afonso apresentavam o leão rompente, e nada melhor que essa figura para sintetizar a história de São Paulo”.
Pouco tempo antes de sua morte, Guilherme de Almeida projetou a nova bandeira da cidade de Brasília, cujo brasão havia feito em 1960.
O Poeta era um enamorado de vitrais, que assim definia: “... Velha arte heráldica e litúrgica, a santa arte do vidro e do estanho, da luz e da cor – único mister do obreiro que aos nobres era dado exercer, porque era arte de Fé Cristã”.
Guilherme de Almeida deu assistência a Conrado Sorgenicht Filho na parte heróldica e histórica de vitrais, destacando-se na Capital paulista, os portentosos 34 painéis de sete metros de altura, resumindo a História do Brasil e o desenvolvimento histórico dos dois povos irmãos, executados por aquele vitralista para o Salão “Padre Manuel da Nóbrega”, do Hospital São Joaquim, da Real e Benemérita Sociedade Portuguesa de Beneficência de São Paulo, sobre o qual, na inauguração festiva, observou, em seu discurso:
“Assim, é este Salão Nobre um translúcido e colorido relicário a guardar, como um todo unido no tempo e no espaço, Portugal e Brasil”.

O Poeta colaborou nos brasões das primeiras cidades brasileiras e nos dos donatários das capitanias, e redigiu os dísticos desses vitrais, que se inserem entre os mais importantes, de caráter cívico, do mundo, e aos quais Pedro Calmon denominou de “Epopéia das Raças”, em conferência pronunciada no próprio Salão, em 1962. O Salão foi inaugurado em 1955, pelo Primaz de Portugal, o Cardeal Cerejeira, que procedeu à bênção dos vitrais”.
Há de se lembrar que Guilherme de Almeida, em 1960, foi o presidente de honra das comemorações do V Centenário da Morte de Dom Henrique, em Portugal.
O brasão de armas de São Paulo, criado por Guilherme de Almeida, figura na grande rosácea da Catedral de São Paulo, circundado de orquídeas e passifloras (flores de maracujá), na fachada principal do templo, vitrais esses também de Conrado, que executou ainda as janelas da Capela do Santíssimo e da abside.
Coube a Conrado Sorgenicht Filho, também ex-comandante, gravar em mármore, no Monumento-Mausuleu dos Heróis de 32, a “Oração ante a última trincheira”, de Guilherme de Almeida, lida pelo Acadêmico Paulo Bonfim por ocasião do sepultamento do “Poeta de São Paulo”, quando disse também versos próprios.

A MORTE DO POETA

Mesmo nos últimos tempos de vida, Guilherme de Almeida não deixava de ir à redação de O Estado de S.Paulo para o convívio com seus companheiros de muitos anos e também para apanhar sua correspondência. Em uma dessas vezes, vaiu de dentro de uma das cartas um brilhante: dizia a missivista que era a cristalização de uma lágrima ao ler um de seus poemas.
Por fim essas visitas se foram escasseando, até cessarem por completo. Guilherme de Almeida faleceu de uremia, à 3h56m do dia 11 de julho de 1969, treze dias antes de completar setenta e nove anos de idade, em sua casa na Rua Macapá. O Poeta manteve-se lúcido até próximo ao desenlace, e despediu-se carinhosamente de sua esposa. Não quisera ir para o hospital, preferindo a companhia da família, do médico Dr. Francisco de Moura Coutinho (que firmou o atestado de óbito) e de seu pequinês Ling-Ling, que ficou aos pés do leito durante toda a enfermidade do dono. Um ano depois, o cachorro, que passou a um estado de melancolia e até grunhia pela falta do Poeta, morreu também, e foi enterrado no quintal da casa, com lápide de mármore de Carrara.
Pouco antes de falecer, o Poeta posara para o escultor Ihye Gilbert. E coube ao escultor Luiz Morrone tirar o molde em gesso para a máscara mortuária.
Ás 8h30m do dia de sua morte o corpo foi transportado, por um carro do Corpo de Bombeiros, com escolta de lanceiros da Força Pública, para a Academia Paulista de Letras, onde foi velado. O sepultamento, com honras militares, se deu às 11h do dia seguinte, e seus despojos se encontram no Monumento-Mausoléu aos Heróis de 32, no Parque do Ibirapuera. O Poeta foi o primeiro constitucionalista a ser sepultado nesse local e ocupa o espaço dedicado aos grandes heróis do Movimento de 1932.
Ainda a 9-7-69, Guilherme de Almeida pedira à esposa que hasteasse em sua casa a bandeira paulista, como todos os anos.
O governador Abreu Sodré foi um dos que carregaram o esquife. Foi decretado luto oficial por três dias. Durante o enterro, ouviu-se a Canção do Expedicionário, pela Banda do 4º Regimento de Infantaria de Quitaúna, onde o Poeta servira. Os veteranos de 32 compareceram portando capacetes. Dom Agnelo Rossi, Cardeal-Arcebispo de São Paulo, fez a encomendação. A missa de corpo presente foi rezada pelo Capelão Eliseu Murari.
Pela morte de Guilherme de Almeida, o governador Abreu Sodré, em julho de 1969, concedeu, por decreto, uma pensão mensal à viúva.
Guilherme de Almeida tinha premonições, acreditava na transmissão de pensamento, na mediunidade. Guardava, também, algumas superstições; pelo primeiro contato que tinha no seu dia, mesmo por telefone, adivinhava se a jornada seria boa ou má. Em várias declarações à imprensa, sempre demonstrou acreditar na imortalidade da alma e ter serenidade diante do grande mistério. Tinha particular devoção por Nossa Senhora da Luz e, em outubro de 1970, sua esposa ofereceu ao Museu de Arte Sacra uma coroa de prata do fim do século XVIII, em memória do Poeta, para com ela ser coroada a santa. No quarto de dormir do casal, havia um genuflexório. Na parede, uma Cruz, vinda de Jerusalém.
À beira do seu túmulo, falou o poeta Menotti Del Picchia em nome da Academia Brasileira de Letras. O poeta Oliveira Ribeiro Neto, então presidente da Academia Paulista de Letras, assim finalizou sua oração:

“Silêncio! Calem-se os tambores. Ajoelhai-vos todos, que na estrada de luz surge a Musa de Anchieta, a Virgem Maria, Tupan Ci Porangetê, a Mãe de Deus Formosíssima, que estende a mão divina ao Poeta que vacila. É Nossa Senhora da Porta do Céu, que lhe entrega as Chaves do Reino. Silêncio! A Academia Paulista de Letras se prosterna. De joelhos, São Paulo; de joelhos, Brasil”.

CASA GUILHERME DE ALMEIDA

Desde a morte do Poeta, Baby de Almeida passou a nutrir um sonho: transformar a casa onde residiam por tantos anos em um museu. O secretário de Cultura, Esportes e Turismo do Estado, Pedro de Magalhães Padilha, sugeriu ao governador Laudo Natel a desapropriação da casa do Poeta, a qual pertencia à viúva e ao único filho do casal, Guy. Concomitantemente à desapropriação, promoveu a Secretaria as incursões necessárias para aquisição do acervo contido no imóvel.
O processo levou cerca de sete anos, de 1970 a 1977, quando o governador Paulo Egydio formalizou a compra. A cerimônia de inauguração foi dia 13-3-79 pelo secretário de Cultura do Estado, Max Feffer.
Baby de Almeida mudou-se para perto da casa onde residiu com o marido, para poder sempre visitá-la. Em setembro de 1988, após longa enfermidade, foi juntar-se ao Poeta no mundo das estrelas.
Na casa Guilherme de Almeida, tudo se encontra no mesmo lugar em que o casal deixou: móveis, pratarias, porcelanas, objetos pessoais, livros, peças de arte, cerca de oitenta pastas com documentos e manuscritos, placas e medalhas, quadros – com muitos retratos do Poeta e da esposa, feitos por pintores famosos: Di Cavalcanti, Flexor, Rey Júnior, Lasar Segall, Wagner de Castro, Noemia Cavalcanti, Quirino da Silva, Gobbs.
A casa compõe-se de três pavimentos e um subsolo, com 360,83 m2 de área construída, e foi edificada em 1945; nela o casal residiu a partir de 1946. Está localizada nas imediações do Pacaembu, Rua Macapá, 187 (...).
Na casa há uma varanda, com rede, onde o Poeta descansava. Torcia pelo São Paulo Futebol Clube. Gostava de assistir à televisão, e o fazia em uma pequena sala ao lado do quarto duplo, de dormir, onde se vê a cama do casal, com dossel, feita por escravos mineiros. Mas seu lugar preferido era o sótão, de 5x4m, com paredes à prova de som, onde passava a maior parte do seu tempo, a escrever. Escrevia versos a mão, sempre a tinta; usava máquina só para artigos jornalísticos. E gostava de saborear açúcar enquanto trabalhava. No sótão há um curioso lavabo, com tampo de madeira que o fecha, servindo de mesinha. Há muitas fotos de amigos, a máquina antiga, papéis cheios de anotações, até um calendário a marcar o ano do desenlace do Poeta. Duas janelas se abrem para cada lado do sótão, de onde se divisa a cidade. Guilherme de Almeida dormia pouco, gostava de escrever até de madrugada, com janelas abertas, cigarros e uísque – a única bebida que apreciava.
A Casa Guilherme de Almeida é um monumento vivo em memória do Poeta. Mas, de toda a forma, Guilherme de Almeida é presença permanente. Foi um mago da Literatura, todo inteligência e coração. São Paulo amará para sempre o seu Poeta, o Poeta do Brasil. Nosso “Príncipe”, nosso Herói.

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Maria Thereza Cavalheiro:

- Paulistana da gema, Poeta, Jornalista, Ensaísta, Contista, Cronista, Trovadora, Tradutora, Ecologista, Conferencista e Advogada, escreveu, entre outros: Antologia Brasileira da Árvore (1960) – Ed. Bartira; Poema da Cidade Azul (1963) – Ed. Cupolo; Nova Antologia Brasileira da Árvore (1974) - (Livr. Ed. Iracema, em co-edição com a Secretaria de Cultura, Esporte e Turismo); Colombina e Sua Poesia Romântica e Erótica (1987) – Ed. Scortecci; Estrelas e Vaga-lumes (1988) – Ed. Scortecci; Segredos do Bom Trovar (1989) – Ed. Scortecci; Relâmpagos (1990); Encontros e Desencontros (1992) – Ed. Scortecci; Cabeça de Mulher (1998) – Ed. Scortecci.

NOTA FINAL: NA PRÓXIMA SEMANA NOVOS ARTIGOS SOBRE GUILHERME DE ALMEIDA. (Luiz de Almeida)

sábado, 6 de junho de 2009

MARCO ZERO DE OSWALD DE ANDRADE

LÚCIO EMÍLIO:
O
“MARCO ZERO”
E O
“BECO DO ESCARRO”

Não conheço o Lúcio Emílio, 35 anos, que não é do Espírito Santo e sim natural de Bom Despacho, Minas Gerais, município conhecido como: “Cidade Sorriso”. No final do mês passado, ao abrir minha caixa de e-mails (literalmeida@...), dentre muitos encontrei um do Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior. “Té intão”, como diz o caipira, meu contato com ele era somente através do seu Blog “Penetralia” (link no final do texto) – e qual não foi minha satisfação ao receber dele um texto para postar aqui no Retalhos. E não é um “textinho” qualquer, como poderão verificar logo abaixo. Já havia lido um texto do Lúcio no Cronópios (www.cronopios.com.br), cujo título é: “Decifra-me ou Devoro-te: Fragmentos inéditos de O Beco do Escarro”, que até copiei para o meu acervo. O Lúcio não é bom: é ótimo. O “Retalhos” tem me presenteado com grandes contatos, ou melhor, com ilustres pessoas do meio literário: escritores, jornalistas, poetas, pesquisadores, ensaístas, professores, mestres, universitários, como também uma gama enorme de pessoas amantes da literatura e também das artes plásticas. Lúcio Emílio, da “Cidade Sorriso”, é um deles.
O texto enviado pelo Lúcio, postado na sequência, é um espetáculo. Com sabedoria e até um pouco do estilo sacana oswaldiano, ele ensaia suas ponderações a respeito do “Marco Zero”, de autoria do Oswald de Andrade, que segundo Mário da Silva Brito, na apresentação do “Obras Completas-4: Chão – Marco Zero -2”, 2ª edição pela Civilização Brasileira, Rio – 1974, diz:

- “(...). Não será ousadia afirmar-se que Marco Zero é o único romance paulista que se arrisca a abranger toda a realidade bandeirante representada por toda a sua gente, por todas as suas castas e camadas. A Revolução Melancólica quanto Chão fixam todo um complexo agrupamento social emaranhado em complexos problemas que se desenvolvem em inúmeros cenários. Complexo mundo que Oswald apreende em linguagem trabalhada, em flashes ofuscantes, em frases iluminadoras ou em frases que transcrevem a fala dos seus múltiplos personagens. (...). Todo esse levantamento sócio-econômico, político e cultural quer retratar, como repara Sérgio Milliet, “a transformação de uma sociedade latifundiária semifeudal em uma sociedade pré-industrial, graças não só à imigração intensa e à subdivisão da propriedade, mas, ainda, às crises do capitalismo mundial e aos efeitos das guerras internacionais”. Marco Zero é um verdadeiro comício de idéias. Participa, como queria Oswald, do debate público. Permanece atual. Parece mesmo um caderno de apontamentos, um rascunho dos impasses que ainda não vencemos. Com o correr dos anos, tornou-se um romance histórico, no melhor sentido da palavra”.

Assim, sem mais nada a dizer, o melhor mesmo é degustar o texto do Lúcio Emílio.

(Luiz de Almeida)

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Marco Zero I, II, III:
de 1929 a 2009

Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior(*)


Oswald de Andrade
(foto reprodução)
O assunto desse artigo deveria ser a reimpressão que a editora Globo fez de Marco Zero I e II, mas vou tratar do romance em si, pois há coisas que precisam ser ditas a respeito dele. Quando iniciei a pesquisa sobre o romance Marco Zero, logo verifiquei o quanto, com poucas exceções, a bibliografia a respeito é escassa e falha, embora os dois MZ constituam o mais volumoso romance escrito por Oswald de Andrade. Quando se fala em Marco Zero, com poucas exceções, repetem-se, com nova teorização, alguns artigos (cheios de juízos negativos, a meu ver equivocados) do jovem Candido. E, se os dois volumes editados de MZ permaneceram pouco estudados, os fragmentos dos romances posteriores aos dois romances publicados (Beco do Escarro, Presença do Mar, Os Caminhos de Hollywood) estão na obscuridade. Nada encontrei de específico a esse respeito e fiz um artigo sobre alguns deles (publicado em setembro do ano passado e também acessível na revista Cronópios). No presente artigo, festejo a reedição de MZ e comento fragmentos dos romances que sairiam a seguir, mas que foram apenas esboçados.
Eis que a editora Globo relança Marco Zero, em setembro de 2008, numa edição revista. O romance tem como personagens militantes marxistas (Fabrício Rioja, Maria Parede) e um anarquista (Paco Alvaredo), trata da revolução de 32 e emerge estranhamente atual. A “guerra santa do café” foi um conflito originado basicamente por um “anti-bailout” (“anti-resgate”): tendo subido ao poder contra a vontade da oligarquia paulista, Vargas recusou-se a ajudar os cafeicultores a pagarem as dívidas originadas da crise de 1929, deixando o estado à beira do colapso econômico. Em plena Grande Depressão, as elites paulistas organizaram uma insurreição armada para tomar o poder, gerando o mais grave conflito armado ocorrido no País no século passado. Esse é o pano de fundo histórico em que se desenrolou a narrativa de Marco Zero.
Aqui não vou tratar dos fragmentos isolados, mas buscarei relacioná-los com os textos já publicados, conferindo-lhes sentido. Para mim, Marco Zero é um romance que mistura experimentalismo formal com engajamento social. Não podia ser entendido na década de 40, pois o melhor código para entendê-lo, o estruturalismo, só surgiu nos anos 60. E Marco Zero, para mim, tem tudo a ver com Miramar e Serafim, tem uma técnica narrativa nada tradicional, que exige que o leitor releia o livro e confira sentido à narrativa. É também um romance antropofágico: é uma antropofagia comunista que tem humor, paródia, trocadilho. E, se tem comunismo, também tem anarquismo, integralismo, imagens Kitsch, gays e lésbicas: é um caldeirão onde Oswald misturou elementos díspares e que gritam de estar juntos, com a intenção mesmo de sintetizar, causar choques para que das contradições surgissem sínteses.
A grande dica para o leitor é: nesse romance sem protagonista aparente, basta acompanhar o jovem João Lucas Klag Formoso. O romance, antes cacofônico, orquestra-se harmonicamente a partir daí.

Oswald de Andrade
(Di Cavalcanti)

ESCREVENDO

O

MARCO ZERO Zero III:

ESQUEMA DO

"BECO DO ESCARRO"

O Beco do Escarro teria duas epígrafes: uma de José Bonifácio, patriarca da independência: “minha bestial província” e outra de Chão: “os homens ali eram escarros cuspidos dos arranha-céus”. Ambos são claramente críticos à sociedade paulista dos anos 30, uma sociedade ainda provinciana onde se travava uma luta bruta por dinheiro e aumentavam o número de pessoas arruinadas e traumatizadas pelo contraste entre a pobreza e a riqueza dos anos anteriores a 29. O Beco do Escarro era o lugar onde se encontravam os perdedores do mundo financeiro paulista em Marco Zero II, Chão: loucos, bêbados, prostitutas, homossexuais, pessoas que tinham perdido tudo na crise, miseráveis. Lindáurea Beato, cunhada de Jango e irmã do afeminado padre Beato, oriunda de uma família pobre e desagregada, viera do meio rural para trabalhar nesse beco sórdido do interior de São Paulo, enquanto Eufrásia, ex-namorada de Jango, decaiu para prostituta. Lindáurea não aceitou destino semelhante e suicidou-se. Beco do Escarro se abriria com esse suicídio, símbolo de um lugar de perdedores e passagem ilustrativa da “devoração universal” pela qual passa o mundo. O esquema do Beco do Escarro, conforme as anotações de Oswald, foi o seguinte:

1) Muralha queimada (Aliança Libertadora – 3º. Regimento). O suicídio de Lindáurea. A sombra amarela (Lírio). Revista do Brasil.
2) Hospedaria do Piolho Vermelho (junho de 35 às vizinhanças do golpe de 37)
3) Retiro Feliz
4) Os planadores
5) Natal no arranha-céu
6) Noturno em miséria maior
7) (ANDRADE, 1947).

É significativa, especialmente, a menção à “Hospedaria do Piolho Vermelho”. Oswald, em um bilhete endereçado a Paulo Emílio Salles Gomes, chamou de “piolhos da revolução” os esquerdistas equivocados. No caso, estava rebatendo as críticas de Paulo Emílio a seu teatro. Não por acaso, o período enfocado é justamente o da revolução comunista derrotada em 35. Suponho que Oswald queria aproximar o maior equívoco político do partido comunista até então (levante fracassado) com determinadas críticas injustas que ele recebeu.
Pelo que está indicado acima, provavelmente queria encaixar em Beco do Escarro o conto Sombra Amarela, dedicado a Orson Welles e publicado separadamente na Revista do Brasil, terceira fase, em março de 1942. O lugar seria o capítulo de abertura (Muralha Queimada). Há uma indicação citando o personagem Lírio de Piratininga, farmacêutico negro intelectualizado e inimigo dos japoneses na imprensa do interior paulista, possivelmente relacionado a seu conteúdo.
O último capítulo de Chão exibiu Lírio aproximando-se do partido comunista, após uma participação desastrada do personagem na revolução de 32. Há, nessa altura, também uma nota de 29 de janeiro de 1948 que diz: “je n´atteint pas les sommets” (“Eu não espero mais as glórias”). É possível que Oswald anotava material biográfico referente ao período que vivia para transformá-lo em literatura: todo artista maduro, se realizou algo de importância, espera glórias no final da carreira: reconhecimento e homenagens, reedição da obra, adaptações de seus livros para rádio e televisão, manifestações públicas de apreço por parte de escritores mais jovens. Nada disso aconteceu no final da carreira de Oswald. Quem sabe ele estivesse pensando em denunciar os equívocos da esquerda ao tratar da vanguarda e da arte moderna. Se, em Marco Zero I e II o partido comunista brasileiro era criticado através das falas do anarquista Paco Alvaredo, em Beco do Escarro essa crítica ia ser ainda mais incisiva e direta.
Mas o que de fato foi redigido para o capítulo Muralha Queimada foi uma breve passagem protagonizada pela camponesa masculinizada e rebelde, antes ligada ao PCB, Miguelona Senofim, num fórum de São Paulo. Ela lutava ao mesmo tempo contra a espoliação do pai de Jango, o filósofo Major Formoso, assim como contra a atitude de sua irmã ambiciosa, D. Europa.
A maior revelação a respeito de Miguelona em Beco do Escarro é o fato de que foi Miguelona e não a violência dos latifundiários a causa do enforcamento de Maria Pedrão, esposa do posseiro apresentado na luta pela terra no início de Revolução Melancólica. Maria Pedrão simbolizara para Jango, no final de Chão, juntamente com Eufrásia Beato, as duas mártires, uma vítima da violência do latifúndio e outra da grande cidade desumanizada. No entanto, se foi Miguelona quem fez com que Maria Pedrão se enforcasse, dizendo a ela que seu amante Índio Cristo se interessava por Miguelona e não por ela, então Maria Pedrão foi vítima da antipatia de uma camponesa como ela. A passagem demonstra o ódio mútuo entre os pobres, sua desunião e o fato de que matam uns aos outros por motivos fúteis.
As lembranças da revolução melancólica de 32 prosseguiram em Beco do Escarro, principalmente quando transcrita uma carta de Idílio Moscovão, ex-delegado da pequena Jurema e uma figura que tinha tomado partido do Major Formoso nos conflitos de terra no início de Marco Zero. É o pai leproso da militante Linda Moscovão (Maria Parede). Provavelmente ele entraria no capítulo Noturno em Miséria Maior, pois é nessa situação que ele se revela em uma carta:

Sabendo-me isolado da sociedade pela terrível moléstia que peguei na gloriosa revolução constitucionalista e sem recurso nenhum peço a caridade de seu coração generoso me enviar algum recurso para festejar o natal (ANDRADE, 1948).

É bem provável que essa carta fosse dirigida à sua filha Maria Parede, da qual ele tinha se afastado. Na condição de doente e pobre, reclama ajuda para festejar o natal, buscando comover a interlocutora. A passagem mostra o abandono e a miséria em que foram deixados os combatentes da “revolução melancólica”. Beco do Escarro apontou, portanto, para uma reconciliação entre pai e filha, separados por convicções políticas diversas (Linda Moscovão aderiu ao comunismo e trocou de nome para Maria Parede, enquanto Idílio Moscovão era próximo ao Major Formoso e foi servir também aos grandes fazendeiros lutando na revolução de 32, onde contraiu lepra, doença que implicava em segregação social pelo resto da vida).
Pelos apontamentos acima, o fragmento intitulado “Via Sacra” possivelmente se encaixaria no Natal no Arranha-Céu, onde seria narrado o drama dos Silva Mafra, que se fazia entre a religião mortificante e a vida, drama às críticas à Igreja Católica que Oswald fez freqüentemente. O capítulo se abriria com os seguintes versos:

Tudo que é ilusão morte [no] fundo é triste
Porque é sentimento que se esquece
E sentimento e dor que a alma reside quando
Nasce ao Amor e ao Amor: a prece (ANDRADE, 1947).

Nesse capítulo, que provavelmente seria a história de uma família (Silva Mafra), assim como os dois anteriores Marco Zero foram a história de uma família em crise (os Formoso), tema presente, por exemplo, em Os Buddenbrooks, de Thomas Mann. O tom piegas e Kitsch sugere a paródia de uma fotonovela. Um drama típico seria ali inserido para criticar a Igreja Católica: o namoro de Vinícius, homem casado, com a jovem católica Stella (Silva Mafra?), provocando grande sofrimento na jovem, dividida entre o amor interdito e a suas convicções religiosas, ou seja, entre a religião proibitiva e o apelo dos sentidos. Dionísio contra o crucificado lutando dentro da personagem Stella, portanto. A seguir, existe uma passagem de difícil codificação:

Na Orestia (final) sublimação de Talião. A Autoland – o apoio dado à extrema-direita com Talita Comum. Ubaldo e a turma do automóvel, uísque, cachimbo e Sto. Amaro. Na escola completamente nulos (Bonfim) (ANDRADE, 1948).

É provável que tal fragmento fosse parte dos planejados Retiro Feliz e Os Planadores, provavelmente um universo inspirado no romance Babbitt, publicado em 1922 por Sinclair Lewis, ou seja, o mundo de aparências e falsidade dos homens de negócios e da classe média norte-americana. É bem provável que todos os ingredientes acima citados fossem se orquestrar para mostrar as tragédias da burguesia liberal paulista à qual pertencia Ubaldo Junquilho, personagem da elite liberal que organizou a revolução de 32 e apareceu próximo ao integralismo em Chão: o apoio à extrema direita de Plínio Salgado, o desprezo da educação e da cultura, substituídas pelo hedonismo pragmático do uísque e do automóvel.
A oposição da lei de Talião (à qual o fragmento acima se referiu), a lei do “dente por dente” à trilogia Orestia possivelmente está em "Coéforas", uma das peças da trilogia de Ésquilo onde Orestes e Electra, filhos de Agamêmnon, vingam sua morte, matando a mãe e seu amante. A ira de Climnestra é materializada nas Fúrias, vistas somente por Orestes, são as responsáveis por sua loucura em "Eumênides". Ainda na última peça, Orestes é julgado pelo seu crime pela Deusa Atenas que proclama que o tribunal – o primeiro a julgar um crime de homicídio – fica instituído para sempre.
Quem sabe, Dago Lima ficaria no mesmo papel do príncipe Míchkin em O Idiota, de Dostoiévski: um personagem generoso e bem intencionado, mas frágil e ridicularizado em seu círculo social. Uma coisa, porém, esteve muito clara em sua mente desde os primeiros esboços: a personagem de Míchkin tinha de atingir o grau supremo da evolução do indivíduo, quando ele é capaz de sacrificar-se em benefício de todos. Para isso deveria estar isento de individualismo e de egoísmo, ser capaz de abdicar do "eu para mim" em prol do "eu para os outros", para a coletividade, isto é, de realizar o supremo ideal ético do próprio Dostoiévski, que este só considerava possível em Cristo, e que pode ser resumido da seguinte maneira: "... o mais alto emprego que o homem pode fazer de sua personalidade, da plenitude do desenvolvimento do seu eu, é como que eliminar esse eu, consagrá-lo inteiramente a todos e a cada um, sem reservas e com abnegação" (BEZERRA, 2008). Daí o Míchkin com sua utopia do amor-compaixão por todos, por Marie e pelas crianças, por Hippolit, Keller, Liébediev, predominantemente por Nastácia Filíppovna, personagem complexa e mais uma integrante da galeria de humilhados e ofendidos tão cara ao romancista. O desajuste individual frente ao mundo também foi assunto de uma fala inteira do personagem Dago Lima. Nela, Dago confessa a si mesmo que sua “vida caçadora” representa uma derrota:

Por que negar? Por que dissimular a mim mesmo? Ficaria uma ferida. Aquele sujo pretexto de dever cumprido não possa de um recurso sanitário da velha hipocrisia que me caracteriza. O mal não é meu só. É de todo o século. Quando não cumpriu o seu dever antropofágico, que é o de estraçalhar a prosa à vista, perante a adesão gulosa dos outros, compõe uma máscara generosa que o justifique. Por que, no fundo, essa timidez de colegial num velho sexagenário que já perdeu todas as ilusões? Menos a da barata noturna que procura um naco de chulé num chinelo velho de um quarto. E que foge desatinada ante o menor barulho: por que não posso brilhar? Não quero brilhar. Não quero ser o tal. Nem quero sequer existir. Não enxergo nada. Talvez se enxergasse e recompusesse a situação estrategicamente, me faltasse a força interior. A estudar tudo isso, caracterizar caracteriologicamente, o melhor ideal seria aquele capaz ao mesmo tempo de estratégia e de ação. A estratégia está presa ao terreno, a ação ao chamado íntimo. Uma coisa não vai com outra. E sou demasiadamente íntimo (ANDRADE, 1948).

O personagem desesperançado acima, que aparentemente não acredita em nada, não deixou de lado a antropofagia. Mais adiante, o mesmo Dago Lima mostra acreditar na Renascença como o marco do surgimento da burguesia e ainda vai além: vê na Monalisa a primeira expressão da classe social emergente, acreditando, portanto, no determinismo da estrutura sobre a superestrutura. Oscila, portanto, do niilismo ao marxismo determinista, não sem ironizar a facilidade do humanismo: “Eu defendo a Gioconda. Identificação de classe. O primeiro sorriso burguês! Era muito fácil, no entanto, recorrer ao humanismo” (ANDRADE, 1948).
Talvez fosse uma passagem da Hospedaria do Piolho Vermelho, conforme a referência a um quarto com baratas nos leva a pensar, assim como o desencanto político e existencial notório. Há também uma anotação (provavelmente seria usada em Beco do Escarro) onde Oswald observou que o conceito de humanismo, tirado por Sartre de Cocteau, não existia realmente. A passagem de O Existencialismo é um Humanismo à qual ele se refere é a seguinte:

Na realidade, a palavra humanismo tem dois significados muito diferentes. Por humanismo pode entender-se uma teoria que toma o homem como fim e como valor superior. Neste sentido há humanismo em Cocteau, por exemplo, quando, na sua narrativa A volta ao mundo em oitenta horas, uma personagem declara, por sobrevoar montanhas de avião: o homem é espantoso. Significa isto que eu, pessoalmente, que não construí aviões, beneficiar-me-ei destas invenções extraordinárias, e que poderei pessoalmente, na qualidade de homem, considerar-me como responsável e honrado com os atos particulares de alguns homens. Isso implicaria que poderíamos dar um valor ao homem segundo os atos mais altos de certos homens. Este humanismo é absurdo, porque só o cão ou o cavalo poderiam emitir um juízo de conjunto sobre o homem e declarar que o homem é espantoso, coisa que eles estão longe de fazer, tanto quanto eu sei... Mas, quanto a um homem, não se pode admitir que possa emitir um juízo sobre o homem. O existencialismo dispensa-o de todo julgamento deste gênero; o existencialista não tomará nunca o homem como fim, porque ele está sempre por fazer. E não devemos crer que há uma humanidade à qual possamos render culto, à maneira de Augusto Comte. O culto da humanidade conduz ao humanismo fechado sobre si de Comte, e, é necessário dizê-lo, ao fascismo. É um humanismo com o qual não queremos nada.
Mas há um outro sentido de humanismo, que significa no fundo isto: o homem está constantemente fora de si mesmo, é projetando-se e perdendo-se fora de si que ele faz existir o homem e, por outro lado, é perseguindo fins transcendentes que ele pode existir; sendo o homem esta superação e não se apoderando dos objetos senão em referência a esta superação, ele vive no coração, no centro desta superação. Não há outro universo senão o universo humano, o universo da subjetividade humana. É a esta ligação da transcendência, como estimulante do homem - não no sentido de que Deus é transcendente, mas no sentido de superação - e da subjetividade, no sentido de que o homem não está fechado em si mesmo, mas presente sempre num universo humano, é a isso que chamamos humanismo existencialista. Humanismo, porque recordamos ao homem que não há outro legislador além dele próprio, e que é no abandono que ele decidirá de si; e porque mostramos que isso não se decide com voltar-se para si, mas que é procurando sempre fora de si um fim - que é tal libertação, tal realização particular - que o homem se realizará precisamente como ser humano (SARTRE, 1978, 21)

Realmente, é possível verificar que Sartre retirou um conceito de humanismo não de uma formulação ensaística de Cocteau, mas puramente da boca de um personagem, ou seja, do senso comum. Ser humanista seria cultuar o humano; o fascista seria justamente a instrumentalização brutal da humanidade em prol de um grupo humano, ou seja, o contrário de um humanismo. A formulação clássica dizia que “tudo o que é humano me interessa”; o nazista poderia dizer: “da humanidade, só o que é alemão me interessa, o resto pode ser descartado”. Sartre apressadamente associou o humanismo clássico ao positivismo e ao fascismo, mas não desconstruiu, na passagem acima, um conceito verdadeiro. Ao criticar essa passagem, penso que Oswald de Andrade estava correto: o positivismo de Comte afirma o ser humano e rejeita a teologia e a metafísica, tendo muito mais em comum com o existencialismo ateu do que Sartre poderia estar disposto a admitir.
Dou por encerrado aqui, com esse esforço filosófico, essa investigação, um esforço quase de detetive e de adivinhação do que seria o Beco do Escarro. Creio que, graças às pesquisas no acervo no CEDAE e no Fundo Oswald de Andrade e na busca de textos esparsos como “Sombra Amarela”, ainda será possível saber muito mais a respeito de Marco Zero e dos romances não finalizados de Oswald de Andrade, lançando luz sobre uma produção importante, rica e ainda relativamente obscura.

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BIBLIOGRAFIA

ANDRADE, Oswald de. Beco do Escarro. Texto manuscrito. (Fundo OA, CEDAE/ IEL/ UNICAMP).
_________________. Revolução Melancólica. Rio de Janeiro: Globo, 1991.
_________________. Chão. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1974.
_________________. Estética e Política. Rio de Janeiro: Globo, 1992.
BEZERRA, Paulo. A Vida como Leitmotiv. Folha on line. http://www1.folha.uol.com.br/folha/sinapse/ult1063u245.shtml. (acesso em 10/10/2008).
GIRON, Luiz Antônio. Um Homem Sem Profissão nem Esperança. Jornal Valor Econômico, a 22 de março de 2002.
LOPES, Ana Maria Pereira. Anos 20: Maldição ou Benção para Babbitt? http://www.ipv.pt/millenium/millenium27/12.htm. (Acesso em 11 de outubro de 2008).

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CAPAS DO “MARCO ZERO” DO OSWALD DE ANDRADE

MARCO ZERO I

A REVOLUÇÃO MELANCÓLICA

EDITORA JOSÉ OLYMPIO

MARCO ZERO II - CHÃO

EDITORA JOSÉ OLYMPIO

MARCO ZERO I

A REVOLUÇÃO MELANCÓLICA

MEC

MARCO ZERO 2 - CHÃO - MEC

MARCO ZERO I - EDITORA GLOBO

MARCO ZERO II - EDITORA GLOBO
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DO AUTOR

(*) Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior, natural de Bom Despacho, MG. Graduado em Filosofia e mestre em Estudos Literários (UFMG). Doutorando em Teoria e História Literária (UNICAMP). Escreve no blog Penetrália (
www.penetralia-penetralia.blogspot.com). Contato: (lucio@bdonline.com.br). Em 11 de setembro de 2007, edita no site Cronópios, a crítica: “Decifra-me ou Devoro-te: Fragmentos inéditos de O BECO DO ESCARRO” (www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=677).

sexta-feira, 1 de maio de 2009

MÁRIO DE ANDRADE: - "PARNASIANO ??"

Foto do livro: "Mário de Andrade: Cartas de Trabalho
Correspondência com Rodrigo Mello Franco de Andrade (1936-1945),
Ed. MEC.SPHAN - Pró-Memória, 1981, pág. 56 - foto recortada.

A BALADA DA ÚLTIMA PRINCESA
Mário de Andrade


“O Modernismo foi um toque de alarme. Todos acordaram e viram perfeitamente a aurora no ar. A aurora continha em si tôdas as promessas do dia, só que ainda não era o dia. Mas é uma satisfação ver que o dia está cumprindo com grandeza e maior fecundidade, as promessas da aurora. Ficar nas eternas aurorices da infância, não é saúde, é doença. E a literatura brasileira aí está, bastante sã. Adulta já? Quase Adulta...”
(Mário de Andrade – O Empalhador de Passarinho: Modernismo - 7-1-1940).

Quando concluí a esquematização para pesquisar e estudar a vida e obra do paulistano René Thiollier, um dos “Mecenas da Semana de Arte Moderna de 22”, logo na arregimentação dos livros e matérias, percebi que não iria cumprir exatamente como o planejado, pois a cada “achado” abria-se uma gama de variantes que me obrigavam a deixar a pessoa e a obra do René. Culpo o próprio René por isso. Sua atuação na vida literária paulistana foi mais intensa e eclética do que eu poderia imaginar. A cada página lida, meu esquema foi se transformando num deformado organograma, ou melhor, num “rabiscograma”. Intelectuais de expressão foram sendo adicionados neste meu “rabiscograma”, tais como: Paulo Prado, Alfredo Pujol, Rubens do Amaral, Afonso Schmidt, Francisco Pati, Sud Minnucci, Altino Arantes, Plínio Airosa e muitos outros que não imaginava sua expressão na literatura paulista. Tinha certeza de que surgiriam nomes como: Plínio Salgado, Cassiano Ricardo, Guilherme de Almeida, Sérgio Milliet, Menotti Del Picchia e Mário de Andrade, até então, nenhuma surpresa. Surpresa maior ficou por conta dos textos do René Thiollier e, principalmente, os inúmeros textos inéditos editados na Revista da Academia Paulista de Letras, dirigida pelo Secretário Perpétuo, René Thiollier. Exemplo disso foi o texto com a grafia original: “O Baile dos Pronomes”, postado neste blog, retirado daquela Revista, edição nº 17, de 12 de março de 1942 – apesar de que esse mesmo texto foi editado no “O Empalhador de Passarinho”, na edição comemorativa do 50º Aniversário da Semana de Arte Moderna, em 1972, pela Livraria Martins Editora S.A., em convênio com o Instituto Nacional do Livro & MEC, págs. 263 a 268.

Após este imenso primeiro parágrafo, entro diretamente no assunto pauta desta postagem: - Outro texto, um poema do macunaímico Mário de Andrade (que ele não editou em livro), “Balada da Ultima Princesa”, do ano de 1913. Este poema está na edição nº 3, de 12 de Agosto de 1938, da Revista da Academia Paulista de Letras, págs. 51 a 53. Em 1974, a Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, em contrato com a Secretaria de Cultura, Esportes e Turismo de São Paulo, sob a forma de co-edição, lançou “Mário de Andrade, Um Pouco”, de Oneyda Alvarenga. Neste livro fantástico, Oneyda publica alguns poemas de autoria do Mário. Com o título: POEMAS “MALDITOS” DE MÁRIO DE ANDRADE”, Oneyda faz uma introdução para apresentar vinte e quatro poemas e uma série de quadras, que Mário havia dado a ela em 1944. Assim ela inicia o texto POEMAS “MALDITOS” DE MÁRIO DE ANDRADE (p. 110):

- “No início de 1944, Mário de Andrade me deu os vinte e quatro poemas e a série de quadras que ora publico, acompanhando-os de uma explicação mais ou menos assim: não achava esses versos merecedores de publicação, mas também não tinha coragem de destruí-los; eram meus”. (itálico meu). Segundo Oneyda, esse conjunto de poemas se divide em quatorze composições anteriores a 1917 e onze escritas de 1924 a 1933. Em POESIAS ANTERIORES A 1917, o “Balada da última princesa” é o de número 9 – págs. 119 a 121.

O importante, além de conhecer o poema, é continuarmos estudando a vida e a obra do autor de Paulicéia Desvairada. No prefácio do texto “O Baile dos Pronomes” (
*), mencionei que, para mim, Mário de Andrade continua “indescobrível”. Após cada nova descoberta, acabo admitindo que outros adjetivos podem e devem ser adicionados quando da qualificação deste ícone paulistano e brasileiro, mesmo que muitos deles já utilizados e conhecidos, tais como: indeclinável, indefectível, indefinível, indelebilíssimo, indestronável, imorredouro, etc. Chega. Estou me tornando insuportável. O que mesmo queria dizer é da importância de revermos o Mário de Andrade “antes” da Semana de 22. E este poema nos conduz para este período, principalmente, sabendo que ele foi um dos maiores antropófagos dos passadistas. Segundo o próprio Mário, nem tanto. Vamos refletir partindo do seguinte:

- É totalmente errôneo afirmarmos que, principalmente os literatos modernistas pós Semana de 22, dispensaram permanentemente o academismo, todas as metodologias, conceitos e influências ditas como “passadistas”. Temos exemplos clássicos na literatura e nas artes plásticas. Basta verificarmos o tradicionalismo poético de Guilherme de Almeida, Cassiano Ricardo e Menotti Del Picchia. Nas Artes plásticas, da mesma forma, encontramos Anita Malfatti e Segall com obras simplesmente maravilhosas e inconfundíveis, que os especialistas se perturbam ao classificá-las quanto ao estilo quando o fator “período” da construção da obra é longínquo das obras intituladas como “ofensivas” da década de XX. Não podemos esquecer que Mário de Andrade e Anita Malfatti travaram uma “guerrilha conceitual” através de cartas, lá pelos idos de 1939, pois Mário não aceitou a tendência e o desejo íntimo do expressionismo formalista e a variedade estética do estilo eclético da sua Anitoca. Desta “guerrilha conceitual” que mencionei, podemos conhecer alguns episódios. Um deles, que acho espetacular pela forma apresentada (respeito, educação e até certo grau de melindrismo), está num dos trechos da carta de Mário, datada de 1 de abril de 1939:

“Rio 1-IV-39

Anitoca
(...)
Não sei, Anita, sua carta contendo suas idéias artísticas de agora me preocupou. Meio que não concordo com elas. Mas é tão difícil discutir arte com você, principalmente a sua arte! Você se encrespa logo, pensa que a gente tá querendo dar lição, quando se trata apenas de discutir idéias. Você fala que o artista é apenas um transmissor de beleza e que, desejava ter um Debret e um Rugendas em casa pois está “querendo fazer um quadro com o sabor daquela gente”, como você mesma diz. Ora eu não concordo com isso, Anita. (...)”
. (Ver nota 1).

Hoje, sabemos que Mário, talvez pelo distanciamento pessoa a pessoa entre ele e Anita, não entendeu o intento da “mãe do modernismo brasileiro”, mas isso é assunto para outro estudo – e, voltando à nossa temática, pauta deste texto, é importante sabermos que existem várias passagens das quais o próprio Mário de Andrade, Bandeira e até Brecheret mantiveram o caráter tradicional, ou melhor dizendo, o caráter “passadista” que tanto combateram. Mário e Bandeira, por exemplo, travaram inúmeras discussões a respeito do que é ser modernista e ser moderno. Vejamos, por exemplo, a afirmação que Mário de Andrade fez numa missiva em 1924. Vejamos um trecho interessantíssimo:

“[São Paulo], 29 de dezembro de 1924.

Manuel,

(...). Não sei se já te confessei a minha dificuldade de observação crítica. Todos os meus trabalhos críticos, Manuel, representam uma soma enorme de trabalhos e paciência. Releio muitas vezes uma coisa. Penso, torno a pensar... De repente a observação crítica surge rápida, nua, isso é que me dá raiva. Parece que podia surgir logo no princípio. Os reparos críticos que fiz do teu livro representam não sei quantas, talvez mais de dez leituras completas das poesias. E agora deixa eu te confessar mais uma coisa que foi um sentimento recalcado (como diz Freud) quando escrevi a crítica mas que me surgiu nítido agora com a tua carta. Eu quando escrevi sobre você tive uma intenção oculta. Oculta. Oculta até pra mim, inconsciente, antes subconsciente, mas inexpressa em idéia pela inteligência. Entre nós dois eu vejo uma coisa: escreveste aquela historiada fazendo intrigas com os amigos pelo jornal. (Mário aqui está se referindo a uma crônica escrita por Manuel Bandeira e publicada na Gazeta de Notícias do Rio, na qual, segundo o próprio Bandeira: “caçoava, sem nenhuma intenção maldosa, dos modernistas de São Paulo. Os paulistas e, entre eles, Mário não compreenderam a brincadeira, levaram a coisa a sério e ficaram sentidíssimos”). Mandei-te crítica severa do teu ato. Não te zangaste porque não tens a vaidade de ser gênio infalível. Mandas-me crítica severa dos meus versos. Mas o que a gente vê em torno são uma vaidades impossíveis. (...).
Agora antes de comentar outras partes do teu comentário deixa eu te falar sobre o modernismo e descendência de simbolismo. Teve aqui quem me dissesse mais ou menos: “Então você confessou que o Manuel não é moderno?” Isso é burrada, mas como aí te podem dizer a mesma coisa, vai este comentário. És moderno, és bem moderno. O que eu faço, e talvez já reparaste nisso, é uma distinção entre modernos e modernistas. Sobre isso aquele pedaço da minha crítica está muito intencionalmente escrito “o poeta (você) que é sincero e não se preocupa em fundar escolas e propagar novidades que não salão dele...” Tens aí uma censura do Z... (Nota minha: Esse “Z” era o Graça Aranha) que quer fazer da gente alunos dele e outra pra nós todos, “modernistas”, que andamos (passado) nos preocupando com novidades de França, Itália e Alemanha. Principalmente pra mim que quase me perdi. Toda reação traz exageros. Eu tive porque fui reacionário contra simbolismo. Hoje não sou. Não sou mais modernista. Mas sou moderno, como você. Hoje eu já posso dizer que sou também um descendente do simbolismo. O modernos evoluciona. Está certo nisso. O que também não impede que o modernistas tenham descoberto suas coisas e que se não fossem eles muito moderno de hoje estaria ainda bom e rijo passadista. Não é isso mesmo?“.
(Ver Nota 2).

Continuando esse assunto de moderno, modernista, simbolista, passadista e outros istas, Manuel Bandeira volta ao assunto em carta a Mário de Andrade:

“Rio de Janeiro, 3 de janeiro de 1925.

Mário.

Peço-lhe o favor de me mandar o endereço do Guilherme, sim?
Há um juízo errado na sua última carta. Não foi a severidade da crítica que me fez lamentar não conhecer antes de publicadas as Poesias o juízo que você formava dos meus versos. Come que não acho a crítica severa demais. Considero-a, como já lhe disse, fraterna. Interessou-me prodigiosamente. Em nada me magoou. Prestou-me um servição – em todos os sentidos. Lamentei, sim, pelo livro em si. Mas as desculpas que você mandou na cartão são razoáveis. Entedi-as e aceitei-as.
Está certo o que você diz no artigo e na carta sobre modernismo e simbolismo. Sou, de fato, de formação parnasiano-simbolista. Cheguei à feira modernista pelo expresso Verlaine-Rimbaud-Apollinaire. Mas chegado lá, não entrei. Fiquei sapateando de fora. É muito divertido e a gente tem a liberdade de mandar aquilo tudo se foder, sem precisar chorar o preço da entrada.
Quando publiquei o Carnaval, ignorava completamente o movimento moderno. Não sabia que estava “escrevendo moderno”. (...).
(Ver Nota 3).

Poderia estender mais o assunto, mas não é o momento. O que me interessava mesmo, antes de postar o “Balada da Ultima Princesa” do Mário, era tentar deixar evidente que também Mário de Andrade esteve preso ao Parnasianismo e outros ismos combatidos na década de 20, como também os resquícios desse estilo estiveram e permaneceram vivos, tanto em Mário de Andrade, como também em Manuel Bandeira. Eles, assim como Guilherme de Almeida, Cassiano Ricardo, Menotti Del Picchia, Sérgio Milliet e outros, permaneceram nos modelos estilísticos por eles mesmos combatidos. Eles todos combateram e, ao mesmo tempo, em períodos diferentes, defenderam as diretrizes estilísticas do Parnasianismo, do Simbolismo e até do Romantismo. O que eles fizeram com grande maestria foi, digamos, modernizar esses estilos. Não negaram a importância deles. Na verdade, após o estardalhaço da Semana de Arte Moderna, todos os literatos participantes, com o passar dos anos, foram se refazendo dos atos, fatos e dos falatórios antropofágicos que deglutiram sobre o chamado “passadismos” (Parnasianismo, Simbolismo, Romantismo). Podemos afirmar que “eles foram amadurecendo”. Essa afirmativa implica também dizer que: “o moderno ou o modernista” não pariu sem a constante presença dos estilos considerados pelos “moços de 22” como passadistas. Prova disso podemos verificar lendo a carta de Mário de Andrade a Manuel Bandeira, em 5 de Agosto de 1923:

“(...). Sê tradicional. Hoje estou nisso. Vê minha crônica no número de agosto da Revista do Brasil. Vê mais o trecho da Escrava que sairá no número de setembro da América Brasileira. Verás nelas o que penso sobre o tradicionalismo e sobre o hermeticismo. Sei muito bem a repugnância que nos dá, a nós – poetas de nós, qualquer concessão feita aos outros. E essa concessão é necessária, entretanto. É preciso acabar com esse individualismo orgulhoso que faz de nós deuses e não homens. (...)”. (Ver Nota 4).

Para concluir esta apresentação do poema “Balada da Ultima Princesa”, do Mário, postarei um trecho da carta de Bandeira em resposta doutra, onde Mário enviou alguns poemas para que Bandeira os analisasse. E Bandeira respondeu assim:

“Rio de Janeiro, 10 de outubro de 1925.

Mário.

Antes de mais nada: me lembro de ter visto num relatório de comissão da Academia alguma coisa, um comentário sobre “O luar na alameda”. Pode ser que me engane – é uma reminiscência muito vaga que me veio logo à cabeça quando vi o título do seu caderno. (...).
Achei os versos muito ruins, mas tive pena que você não os tivesse publicado em tempo. Agora está impublicável. Apesar de que, acho estes versos melhores do que Há uma gota de sangue. Como você era um romântico atrapalhado pelo parnaso e ainda por cima com infiltrações simbolistas está melhor neste lirismo pessoal do que no anedotário grandeguerrístico do outro livro. Você tem fundo romântico, mas este romantismo aqui é romantismo de puberdade. A puberdade estado de alma ficou em você até depois dos 20 anos, puxa! Eu também fiz versos assim, mas foi até 15 anos. Engraçado: fiz versos a um ipê também! a sua evolução é a coisa mais extraordinária que eu conheço. Lembro-me muito bem de ter ouvido você dizer em casa do Ronald: “- Aos 23 eu era burro, burro! mas de uma burrice incrível!” Não sei que idade você tinha quando fez estes versos, mas sabe que impressão eles me dão? O de um rapaz de 15, 16 anos que não trepou, com uma bruta ternura mas por ser feio acreditando que as pequenas não fazem caso dele, só lendo Varela, Álvares de Azevedo, Bernardo Guimarães e tudo isso nalguma cidade de Minas. (...).
A “Nevrose ao Luar” e “Balada da última princesa” – bom simbolismos, sobretudo a última cuja música octassílaba está muito bem composta, com fino encanto prosódico, aquele fino encanto prosódico do simbolismo. (...)”.
Todos esses versos são interessantíssimos para quem, como eu, gosta de sua poesia de hoje como a melhor que se faz no Brasil. (...).
Se em vez de estarmos escrevendo, estivéssemos conversando, tinha muito que dizer sobre esses versos seus. Mas escrever é o diabo. Sem parar pra pensar, com esta garatuja safada estou escrevendo há 55 minutos! (...).
(Ver Nota 5).

A seguir, o poema “Balada da última princesa”, mantida a grafia original da Revista da Academia Paulista de Letras:


BALADA DA ULTIMA PRINCESA

Mário de Andrade (1913)

Sob o seu roupão de cambráia,
Com os olhos largamente abertos,
Desde que a aurora aos montes ráia,
Ela anda nos salões desertos.

Nas salas êrmas do edifício,
Onde ha silêncio, onde ha mistério,
Ela passa como um bulício
De rezas num eremitério.

Dos quadros olham-na sorrindo
Infanções, condes e donzelas;
E ela, os longos olhos abrindo,
Passa horas longas nas janelas.

Por vezes, pelas tardes frias,
Quando é tudo sombra e repouso,
Ela desce as escadarias
E vagueia no parque umbroso.

E pelos canteiros de malva
Os seus olhos mornos espráia,
Sua tez é muito mais alva
Do que o seu roupão de cambráia.

Vem o vento. São alaridos
De enlaces machucando sedas...
Seus cabelos são tão compridos
Que arrastam pelas alamedas.

Raios de luar, quais serpentinas,
Jazem nos canteiros oblongos,
As suas mãos são finas, finas,
Os seus dedos são longos, longos.

E ela chega aos severos muros
Que a prendem como almas humanas,
E então fecha os olhos escuros
Com o centímetro das pestanas.

E enquanto volta pensativa
E a lua pelo céu desmáia,
Uma lágrima fugitiva
Rola em seu roupão de cambráia.

E ela volta. E pisa o mosáico
Das solenes escadarias.
Depois, reclina-se no arcáico
Leito de ébano e pedrarias.

E dorme. Dedos enlaçados,
Bôca entreaberta, olhos abertos.
E fantasmas de antepassados
Rondam pelos salões desertos.

Entram e sáem pelas portas
E se debruçam nas janelas,
E no luto das horas mortas
Formam tristíssimas sequelas.

Finos nobres de ambos os sexos,
Da mais alta e mais pura láia,
Passam ante ela e, genuflexos,
Beijam-lhe o roupão de cambráia.

Num cravo de sândalo e prata,
Unindo as cabeças formosas,
Um pagem lento e uma açafata
Dedilham músicas mimosas.

Nos dois lânguidos tocadores,
Como o som do cravo, se acentúa
Uma dôr cheia de pudores
À luz assombrada da lua.

Mas enquanto as janelas pasmas
Olham com grandes olhos pretos,
Os alvos, trêmulos fantasmas
Dansam pavanas e minuetos.

Mas a última princesa dorme
Até que a aurora aos montes ráia,
Envôlta numa letargo enorme
E no seu roupão de cambráia.
-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-

NOTAS:

(1) Andrade, Mário de. Cartas a Anita Malfatti (1921-1939) – Edição organizada por Marta Rossetti Batista. Editora Forense Universitária Ltda, Rio de Janeiro – 1989 – p. 145;
(2) Andrade, Mário de & Bandeira, Manuel. Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira. Org. Marcos Antonio de Moraes. Ed. EDUSP/IEB, São Paulo, 2001 – p. 168/169;
(3) Andrade, Mário de & Bandeira, Manuel. Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira. Org. Marcos Antonio de Moraes. Ed. EDUSP/IEB, São Paulo, 2001 – p. 175;
(4) Andrade, Mário de & Bandeira, Manuel. Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira. Org. Marcos Antonio de Moraes. Ed. EDUSP/IEB, São Paulo, 2001 – p. 101 e notas de rodapé n.º 52 e 53;
(5) Andrade, Mário de & Bandeira, Manuel. Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira. Org. Marcos Antonio de Moraes. Ed. EDUSP/IEB, São Paulo, 2001 – p. 247/248;

OUTRAS FONTES DE PESQUISA

– Alvarenga, Oneyda. Mário de Andrade, Um Pouco. Livraria José Olympio Editora, RJ, 1974 – Em contrato com a Secretaria de Cultura, Esporte e Turismo de São Paulo, sob a forma de co-edição;
- Andrade, Mário de. Cartas Mário de Andrade – Oneyda Alvarenga. Livraria Duas Cidades Ltda. São Paulo, 1983;
- _____________. Poesias Completas – Obras Completas de Mário de Andrade, Tomo II. Livraria Martins Editora S.A., São Paulo, 1955;
- _____________. O Empalhador de Passarinho. Livraria Martins Editora S.A., São Paulo, em convênio com o Instituto Nacional do Livro & MEC, 1972;
- Duarte, Paulo. Mário de Andrade Por Ele Mesmo. Ed. Hucitec, São Paulo, co-edição com Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo, 1977;
- Huhne, Lida Miranda. A Estética Aberta de Mário de Andrade: Parte III – Nos Meandros da Estética, Capítulos 1, 2 e 3. Edição da obra adquirida pela UAPÊ Espaço Cultural Barra Ltda., Rio de Janeiro, 2002;
- Lopez, Telê Porto Ancona. Mário de Andrade: Ramais e Caminho. Livraria Duas Cidades, São Paulo, em convênio com o Governo do Estado de São Paulo, Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Turismo, Conselho Estadual de Cultura, 1972;
- Revista da Academia Paulista de Letras, Ano I – 12 de Agosto de 1938, N.º 3 – Direção do Secretário Geral e Perpétuo René Thiollier.

NOTAS MINHAS (NECESSÁRIAS):

(1) Esta pesquisa só foi possível pelo esforço do meu estimado Amigo Mário Amoroso (que reside na Paulicéia do também amoroso Mário de Andrade) e que conseguiu descobrir nos sebos filiados à sua empresa as Revistas da Academia Paulista de Letras – Muitíssimo obrigado;
(2) Agradecimento especial também à minha Dileta Amiga e Professora: Márcia Oliveira, que lapidou e opinou sobre este meu estudo.

(Luiz de Almeida)

sábado, 11 de abril de 2009

MÁRIO DE ANDRADE E O BAILE DOS PRONOMES


Mário de Andrade em sua biblioteca em 1938
Foto do Acervo de Yedda Braga Miranda
Livro "Mário de Andrade - Cartas a Murilo Miranda"
Editora Nova Fronteira, RJ - p. 97, 1981.


Recentemente, nossa ortografia passou por nova revisão. Foi aceita por alguns e detestada por muitos. Os que estudam literatura nacional e, principalmente, os que estudam Mário de Andrade nada reclamaram ou acharam absurdas as mudanças ocorridas. Mário de Andrade passou a vida labutando com possíveis mudanças na nossa ortografia, linguagem e “fala brasileira”, como ele dizia. Discutiu o assunto com seus missivistas (Manuel Bandeira e Drummond, por exemplo). Mário tinha o propósito de formatação da “Gramatiquinha”, ou melhor, da “Gramatiquinha da Fala Brasileira” – projeto que não conseguiu ou não quis ou não teve tempo de levar adiante. Ficou na idealização e nos esboços e nos rabiscos e nas anotações marginálias. Particularmente, penso que: se Mário continuasse vivo por mais uns dez anos (Utinam diutius vixisset!), teria “talvez” efetivado sua “idealização” – Sei lá! Mário havia travado conhecimento da “Gramatiquinha secundária da língua portuguesa”, de Said Ali, fato que fustigou sua “idealização”. Mas ficou somente no “anteprojeto”. Sobre esse assunto, num texto da Vera Helena Rossi, mestre em Literatura e Crítica Literária e doutoranda em Comunicação e Semiótica pela PUC (SP), consegui pinçar num dos seus textos(1) alguns tópicos interessantíssimos que seguem abaixo:

“(...).
Gramatiquinha

Para Maria Augusta Fonseca, "escrever brasileiro" não foi uma exploração de superfície em Mário de Andrade, pois sempre se amparou em pesquisas de fundo, com detida reflexão sobre a matéria. Segundo ela, o interesse em torno da variante local do português, já manifestado em Paulicéia Desvairada, ganha densidade depois de 1922.
Nesse sentido, lembra que desde as primeiras décadas do século 19 a língua da comunicação diária mobilizou os intelectuais e os escritores.
- Sabemos que nossos modernistas fizeram da variante lingüística brasileira uma de suas bandeiras, em busca de uma identidade literária diferenciada. A Gramatiquinha da Fala Brasileira de Mário de Andrade derivou dessas reflexões - afirma.
Mário de Andrade, com o intuito de criar uma "gramática da fala brasileira", estuda disciplinadamente a fala popular, os usos cotidianos e a diversidade regional. Os fragmentos deixados pelo escritor, dessa obra em processo, foram posteriormente publicados com anotações de Edith Pimentel Pinto.
- Nesses apontamentos inconclusos, Mário de Andrade procurou ordenar mudanças radicais operadas em vários níveis da língua falada no Brasil: do vocabulário aos usos expressivos; da sintaxe à prosódia - detalha Maria Augusta.
Marcos Antônio de Moraes, professor de Literatura Brasileira na USP, afirma que a Gramatiquinha é um projeto de ação:
- Mário não quer realizar a Gramatiquinha, mas colocar em marcha a questão. Sua intenção não era criar uma norma, mas mostrar justamente a variação, as formulações vivas da oralidade brasileira, como uma experiência ampla da língua.
Já na opinião de Maria Augusta, o campo alargado das investigações em torno da língua pelo autor foi assimilado de modo consistente na linguagem poética, de feição culta.
(...)”.

Quem teve a oportunidade, a honrosa oportunidade de estudar “A Gramatiquinha de Mário de Andrade – Texto e Contexto”, de autoria de Edith Pimentel Pinto, edição da Livraria Duas Cidades, patrocinada pela Secretaria de Estado da Cultura – São Paulo, 1990, sabe muito bem qual era o intento Marioandradiano.
Para quem não sabe: “Edith Pimentel Pinto” nasceu na Paulicéia de Mário de Andrade dois anos antes da realização da Semana de Arte Moderna. Chegou a ser professora titular de Filosofia e Língua Portuguesa na USP (SP). Na literatura foi poetisa e autora de obras de ficção. Ensinou português e literatura brasileira, na Eberhard Karls Universitat em Tubingen, Alemanha. Essa hermeneuta faleceu em 1992. Considerada uma das maiores mestras da Língua Portuguesa, com inúmeros livros editados sobre essa temática, entregou-se ativamente aos “rabiscos” marioandradianos. E conseguiu arregimentar tudo o que era possível para editar o seu “A Gramatiquinha de Mário de Andrade”. É um livro difícil de ser lido, pois foi editado para ser estudado e ser um referencial para professores, estudantes, literatos, pesquisadores e para os alucinados pelo estudo da Linguagem. Todos saíram ganhando com o trabalho maravilhoso da Edith.
Sinceramente, não desprezando outros trabalhos similares e espetaculares resultantes de intensa pesquisa, esse eu considero especial por vários motivos: a complexidade das fontes (maioria ou quase todas pertencentes ao Instituto de Estudos Brasileiros de São Paulo), a natureza da pesquisa, a “manha” para decifrar “onde” Mário queria chegar, o manuseio de páginas e mais páginas, contendo verdadeiros “rabiscos”, os inúmeros livros de autores diversos utilizados por Mário, todos “rabiscados” e com anotações a lápis nas margens, setas indicativas, outras rasuradas e uma imensidão de folhas de caderno, frente e verso, com anotações e teorias, etc. Edith foi maravilhosa, pois não é fácil pesquisar e estudar Mário de Andrade. Para estudar e pesquisar Mário de Andrade, obrigatoriamente, tem que tornar-se um Mário. Mário de Andrade não lia, estudava. Pesquisava e monologava e polemizava consigo mesmo. Anotava tudo que brotava na mente. Depois riscava, apagava. E Edith revestiu-se de Mário, o Mário de Andrade: prosélito literário desvaraidado, pertinaz, profético, eficiente, eficaz... Edith conseguiu também ser trezentos e cinqüenta – e assim pariu a “Gramatiquinha de Mário de Andrade”.


Capa do livro de EDITH PIMENTEL PINTO: "A GRAMATIQUINHA DE MÁRIO DE ANDRADE" - Livraria Duas Cidades - SP, 1990.

Achei conveniente este simples prefácio para postar neste humilde blog, um texto de autoria do Mário que encontrei nas amareladas páginas da Revista da Academia Paulista de Letras n.º 17(2), com o título “O Baile dos Pronomes”, que nos oferece uma dimensão delirante do nosso paulistanamente Mário de Andrade. Nesse texto conseguimos captar um pouco da dimensão dos seus estudos, dos seus “rabiscos”. Ele desdobrava-se para purificar a nossa linguagem. Queria ele uma “língua brasileira” para o Brasil? Essa pergunta ainda se faz. Em vários textos ele afirmou que sim, noutros ele afirmou que não. Basta verificarmos o seu desabafo numa das centenas de cartas que trocou com Bandeira:
“(...) Eu não tenho a mais mínima pretensão de criar uma língua. Creio até que das minhas maluquices nenhuma não se escriba sobre fato não escrito antes. Às vezes mesmo me assombro como tudo já foi dito. Eu me fiz instrumento duma coisa naturas, e só (...)”(3).
Muitas vezes chegamos a imaginar que Mário de Andrade só lia textos dos autores pós Semana de Arte Moderna. Se assim tivesse agido não seria o Mário que até hoje é estudado e consegue tirar o sono de muitos pesquisadores. Não seria o macunaímico e enigmático Mário de Andrade. Nesse seu texto “O Baile dos Pronomes”, podemos reconhecer um Mário diferente, literariamente eclético. Para mim: Mário de Andrade, por muito e muito e muito tempo continuará sendo “indescobrível”.
Sem mais delongas, eis o texto. (Mantida a grafia original):


O BAILE DOS PRONOMES
Mário de Andrade

Vai acesa em São Paulo a preocupação da “língua brasileira” e de um clássico como o Sr. Mota Coqueiro, como de um novissimo como o sr. Mario Neme, tem sido muitos este ano, nos jornais e revistas do Estado, os depoimentos e as contribuições a respeito dêste nosso gosto e dificilimo escrever. Esta inquietação nova, creio que em grande parte se deve ao discurso em que o sr. Cassiano Ricardo lançou a “língua brasileira” na Academia. Idem, no qual, aliás, com a generosidade costumeira, êle me tratou com tanta elegância intelectual. Achei prudente, portanto, retribuir a atenção que o distinto acadêmico me dispensou com êstes comentários sôbre o pronome átono iniciando frase.
Há pouco menos de vinte anos atrás, quando tambem as minhas impaciências de mocinho me levavam a falar em “língua nacional” como hoje falo, foi êsse um dos problemas que mais me preocuparam. Tempo vivo aquele, em que os meus próprios amigos mais sábios, caíam em cima de mim por causa dos meus abrasileiramentos de linguagem... Eram discussões verdadeiramente angustiosas, sobretudo por causa da incompreensão e da leviandade de julgamento que levavam os meus próprios amigos, às vezes, a imaginar que eu estava querendo “criar” a língua nacional e cousas assim. Foi uma incompreensão inicial destas que me levou a quase romper relações com um dos meus amigos mais queridos. Renato de Almeida, o autor da “História da Música Brasileira”. Com outro, o douto calmante filosófico do nosso grupo, Couto de Barros, resolvemos ambos discutir na máquina de escrever, evitando de ver o numeroso “Não falei isso!” das discussões bocóricas. Couto de Barros me apareceu à noite, sentou à minha “remington” e gravou o primeiro argumento. Lhe respondi do mesmo jeito. E assim se travou uma das discussões mais acolaradas que já tive, sem que uma só palavrinha machucasse o ar dormido do bairro.
Mas um dos que mais me atenazaram foi Manuel Bandeira. Concordando em princípio comigo, me conhecendo suficientemente para não me atribuir mais que a modéstia de contribuição e experiências pessoais, me deixava tonto com duvidinhas e restriçõezinhas que pingavam a cada carta semanal que então recebia dêle, bons tempos... Uma dessas dúvidas foi justamente a de que hoje vou produzir neste artigo as provas que ajuntei. Êle achava que eu não tinha direito de generalizar para toda a série dos pronomes, o caso do “Me parece”, que só frequentava a primeira pessoa do singular. Mas me saí brilhantemente e o grande poeta pernambucano teve a franqueza de reconhecer que eu estava bem escudado, embora discutisse algumas das provas apresentadas por mim.
Porque, a meu ver, muito embora o caso frequente tambem a língua escrita de Portugal, o problema do pronome oblíquo iniciando frase, não é apenas uma questão de maiúscula. Muitas vezes no próprio decorrer da frase a tendência se revela. Pois não se trata apenas de iniciar realmente a frase, com a sua maiúscula erguendo orgulhosamente o pronome átono, o fenômeno é muito principalmente de ritmo, não só de ritmo no tempo, como tambem de ritmo psicológico. Assim, num dos mais bonitos sambas nacionais, o “Vejo Lágrimas”, publicado em disco Columbia n. 22165-B, o cantor argumenta:

Si choras por alguem
que te enganou:
“Te” conforma, pois Jesús
Tambem se conformou.

Num caso dêstes, si não estivesse presente ao poeta e ao cantor a constância rítmico-verbal brasileira, tudo o levaria a dizer “conforma-te”, não só o movimento musical que para em som mais longo ao fim de “enganou”, como a própria pontuação intelectual da frase. Com efeito, terminada uma proposição dubitativa, o sentido do texto não conclue sôbre ela, mas inicia outra proposição que é um conselho, e que o sentido inteiro do texto anterior, mesmo sem a proposição dubitativa, era suficiente para justificar. Mas na publicação impressa do texto, o poeta, a quem de-certo puxaram as orelhas, substituiu o “Te conforma” por um paciente “Tem paciência”...
Já desde os tempos de Gregório de Matos, essa tendência se manifestava. Num dos sonetos ao governador Antonio Luiz, êle escreve:

Com olhos sempre postos na ordinária,
“Vos” dou os parabens...

Sintaxe, que, embora gramaticalmente aceitavel, juro que muito gramaticoide evitaria, tal a ênfase com que o pronome “enclitico” , iniciando o verso, e refugando a posposição, nos fere portuguesmente o ouvido e o olhar. Da mesma forma, em propostas de caráter enumerativo, cada uma delas é bem uma frase isolada e não é a virgula que pode nos dar satisfação sintáxica. Como nestes passos de Darci Azambuja em “No Galpão”: “mas o gambá pediu muito, “se” ajoelhou, fez muita lábia”... E eis mais um bom e insistente caso popular, com o Se o Lhe, publicado no folheto paraibano “Conselhos de Padre Cícero a Lampeão”:

Disse-lhe (sic) o padre:
- Meu filho,
Não persista no pecado,
Deixa a carreira dos crimes,
“Se” torne regenerado,
Si me promete deixar,
“Lhe” prometo trabalhar
pra (sic) você ser perdoado.

Primor de estilo pachorrentamente padresco, como se vê... E ainda a tendência pode ser entrevista no caso do pronome intercalado entre o verbo auxiliar e o no infinito. Se observe êste exemplo deliciosamente ofensivo, que colho no folheto da literatura de cordel nordestina, “Bento, O Milagroso de Beberibe”:

“Fiz Romano atropelar-se (sic)
E fiz Germano correr,
Abocanhei Ugolina
Porém não pude “o” morder.

Mas vamos aos casos insofismaveis. A obliquação do pronome da primeira pessoa do singular, quasi nem merece exemplos, por todos reconhecida como normal em nossa língua. Não citarei dela nenhum exemplo popular. Mario Marroquim já os recenceou com riqueza em “A Língua do Nordeste”. Lembro apenas três exemplos eruditos. Nas “Minas de Prata”, José de Alencar, santo patrono da língua brasileira, faz Estácio dizer ao amigo velho: - “Me” guiareis com a vossa experiência (Garnier, I v., p. 67). Aluizio de Azevedo tambem aceita que um dos seus personagens do “Cortiço”, diga ao vendeiro: - “Me” avie, seu Domingos! (Garnier, p. 57). E vemos Fagundes Varela encampar a sintaxe no “Evangelho nas Selvas”:

- Naida! – Padre, “vos” espero, vamos.
- O que fazias, filha? – “Me” lembrava...

E ainda no Canto VI, bem psicologicamente, são usados os dois ritmos numa só frase: “Me” interrogaste em nome do Senhor... “cala-te e escuta”.
A segunda pessoa tambem dará exemplos numerosissimos. “Te vejo, te procuro” inicia Gonçalves Dias uma das estrofes dos “Harpejos”, insofismavelmente. E ainda nas pródigas “Minas de Prata” (III, 168), Raquel ameaça o pai judeu: “Te denunciarei sim”!. “Nos Matizes” (1887) F. A. Nogueira da Gama inicia a fala da cidade do Rio se dirigindo a São Paulo: “Te saúdo caipirinha”... E outro paulista da gema, Brasilio Machado nas suas “Madresilvas” de 1876, nos oferece uma poesia instituida “Te Esqueceste”, que é a da maior força... Aliás, creio que foi João Ribeiro quem analisou primeiramente diferenciação psicológica entreo mansinho “Se sente” nosso e o mais imperativo “Sente-se” dêsses portugueses, durante vários séculos acostumados a mandar nas suas colônias. Eu reconheço o valor da psicologia organizando as sintaxes nacionais, mas tenho um pouco de medo disso. Levaria a generalizações monótonas e sem sabor estilistico. Creio que o fenômeno das diferenciações sintáxicas é muito mais um problema fonético de ritmo verbal. Silva Ramos (Revista de Cultura, I, p.22) fornece argumentação justamente contrária ao valor imperativo do enclítico: “A mim, por exemplo diz êle, ser-me-ia impossivel ou escrevendo, iniciar uma proposição por pronome átono, e, entretanto, tendo uma vez, posto em dúvida a um colega que um projeto de lei nos interessava tivesse parecer favoravel, êle me atirou com um “te garanto que êle será aprovado”, com tal intimativa ferindo com enfase o pronome, que confesso me senti mais garantido”... E para acabar com o Te, colho na “Revista da Academia (fevereiro, 1933), um evento folclorico de Goiaz:

“Te” compreendo, morena,
Já sei que queres dizer,
Como cangussú ou tigre,
Felizes temos de ser.

Com a terceira pessoa do singular, sito primeiro um exemplo erudito, o dr. Severino de Sá Brito no seu “Trabalho e Costumes dos Gauchos”, que na p.30 assim abre parágrafo: “Se cultivava muito milho, tambem feijões, abóboras, melancias”... Semieruditamente, um anuncio de cabaré paulistano avisa os concorrentes dum campeonato de tango: “Se recebem (sic) as inscrições nas gerências”. E Mario Marroquim nos fornece um exemplo popular:

“Se” vendo o compadre pobre
Naquela vida apertada...

No plural, a primeira pessoa é reconhecida por Lucio Cardoso na boca de um homem do alto São Francisco, em “Maleita”: “Nos salve agora”. Conheço outro exemplo impresso, num folheto recifense “História do Menino da Floresta” do célebre cantador Martins de Ataide, em frase brasileira até debaixo dágua:

“Nos” faças esta caridade,
Deus há – de lhe (sic) agradecer.

Da segunda pessoa, além das “Minas de Prata” (III, 400) em que vem a pergunta: “Vos serve êste meio?”, conheço uma quadra paulista da dansa de S. Gonçalo (Rev. do Arquivo, XXXIII, 108) que canta:

“Vos” peço, meu S. Gonçalo,
Com muito gosto e alegria,
Aceitai esta promessa
E tambem nossa romaria.

Com Lhe e Lhes, não me ocorre exemplo, é mais provavel eu ter perdido alguma nota. Mas assim como nos Açores, nas festas do Espírito Santo o povo, se referindo à cora, diz ao Imperador:

“A” coloque no altar

O padre disse: “O” projeto!
protegendo com a mesma energia a sintaxe nacional. Com tudo isso, como esquecer o epigrama de Alberto Ramos...

Me dá! – Dá-me! – Me dá! digo eu. – Erra, imbecil!

- Bruto! erro em Portugal, acerto no Brasil!

(Andrade, Mario de. O Baile dos Pronomes. In: Revista da Academia Paulista de Letras, Ano V, Vol. 17.º, de 12 de março de 1942 – Direção de René Thiollier (Secretário Perpétuo e A. Ramos Tavares, Secretário Administrativo. Seção: Notas Diversas: págs. 151 a 154. Depositários: Vieira Campos & Cia. Livraria Teixeira, São Paulo – Tipografia Cupolo, São Paulo).


Capa da Revista da Academia Paulista de Letras, n.º 17

INDICADORES:

(1) revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=11505;
(2) Revista da Academia Paulista de Letras, Ano V, Vol. 17.º, de 12 de março de 1942 – Direção de René Thiollier (Secretário Perpétuo e A. Ramos Tavares, Secretário Administrativo. Seção: Notas Diversas: págs. 151 a 154. Depositários: Vieira Campos & Cia. Livraria Teixeira, São Paulo – Tipografia Cupolo, São Paulo);
(3) Castelo, José Aderaldo. In: A Literatura Brasileira – Origens e Unidade. Vol. II – Edusp, SP., 2004 - Reimpressão da 1ª Edição (1999), p. 98.

OUTRAS FONTES PESQUISADAS:

- ANDRADE, Mário de – Taxi e Crônicas no Diário Nacional – Estabelecimento de texto, introdução e notas de Telê Porto Ancona Lopez. São Paulo, Livraria Duas Cidades, 1976.
- _______ , Mário de – Os Filhos da Candinha. Vol. XV da Obras Completas de Mário de Andrade. São Paulo, Livraria Martins Editora, 1963.
- _______ , Mário de – Macunaíma – O Herói sem Nenhum Caráter. Edição crítica de Telê Porto Ancona Lopez. Rio, LTC – Livros Técnicos e Científicos Editora S.A., 1978.
- MORAES, Marcos Antonio de (Org.) – Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira. São Paulo, Edusp & IEB, 2001;
-
www.algumapoesia.com.br

sábado, 7 de março de 2009

LUÍS ARANHA: POETA MODERNISTA BISSEXTO

LUÍS ARANHA:
NAS TEIAS DO MODERNISMO
(Luiz de Almeida)

Luís Aranha - Foto de 1928 - (Acervo da Família).


Se perguntarmos aos paulistas, aos paulistanos, como também aos estudantes de literatura:

- Conhecem Luís Aranha? O Luís Aranha Pereira?
Com toda certeza teremos como resposta:

– Quem? Luís Aranha? Qual mesmo o outro sobrenome? O que esse tal faz na vida?
- Deixa. Esquece.

Creio que somente os que estudam ou estudaram Literatura Nacional e as obras de Mário de Andrade, Sérgio Milliet, José Lino Grunewald, Cassiano Ricardo, Wilson Martins, Mário da Silva Brito, Alfredo Bossi, Francisco Alambert – e aqueles que recentemente tiveram contato com o trabalho organizado por Nelson Ascher e Rui Moreira Leite, saberão responder. Poderia, para complicar um pouco mais, colocar mais nomes nessa interrogativa, em substituição ao de Luís Aranha, tais como: “Tácito de Almeida”(
1), “Rui Ribeiro Campos” (Nascido na cidade de Santos - SP, em 1898 e que faleceu em Paris, em 1963), “Antônio Alcântara Machado” (?). – E estou mencionando somente nomes de paulistas. Se mencionasse, por exemplo: “Ronald de Carvalho”, “Raul Bopp”, “Renato Almeida”, talvez tornassem as respostas ainda mais complicadas. Todos os mencionados e os por mim esquecidos são os literatos mais injustiçados da primeira fase modernista. Os lembrados são: Mário e Oswald de Andrade, Guilherme de Almeida, Menotti Del Picchia, Sérgio Milliet, Manuel Bandeira, Cassiano Ricardo (nem tanto), Lima Barreto e João do Rio (este pelos cariocas, talvez) e todos da segunda fase do modernismo: Drummond, Murilo Mendes, Jorge de Lima (outro que também, nem tanto), Cecília Meireles, Vinícius de Morais, etc. Enfim, é assim mesmo o processo. Uns: celebérrimos. Outros: esquecidos e injustiçados, como é o caso do nosso personagem e tema deste tópico: LUÍS ARANHA, o Dr. Luís Aranha Pereira.
Sobre Luís Aranha, o próprio Mário de Andrade, no ensaio elaborado em 1932: “Luís Aranha ou a Poesia Preparatoriana”, na Revista Nova n.º 7, ao tentar explicar o motivo pelo qual Luís Aranha “largou a arte pra que ela não o devorasse”, diz:

“(...). Faz justo dez anos que emudeceu. E estudando-o agora, numa obra que embora pequena, é completa em si, ao mesmo tempo que nos culpo do esquecimento em que o deixamos, (...)”.

Para os que não sabem: Luís Aranha foi um poeta. Participou ativamente da Semana de Arte Moderna de 1922. Escreveu pouco (catalogados apenas vinte e seis poemas). Sobre seus poucos poemas, Mário de Andrade o definiu assim:

“Luis Aranha faz a poesia preparatoriana. Essa é a sua grande originalidade. Note-se: não estou dizendo que ele cantou a poesia dos exames de preparatórios. Isso não seria de grande proveito, apenas um assunto poético a mais. A originalidade, a contribuição curiosíssima de Luís Aranha está em ter realizado o estado lírico da psicologia do preparatoriano. Luís Aranha é o poeta ginasial por excelência, o único poeta ginasial que conheço. (...) Não é tanto a avidez de saber o que distingue esse ginasialismo, porem o estado pernóstico do rapaz que aprende e gosta logo de praticar o que aprendeu. A poesia dele se torna um popurrí de noções livrescas, (...)”.
(Fragmentos do ensaio de Mário de Andrade: “Luís Aranha ou a Poesia Preparatoriana”, já mencionado acima).
Em outra ocasião, Mário de Andrade chegou afirmar que Luís Aranha, em 1922, talvez sob influência de Guilherme de Almeida, já produzia Haicais, podendo ser encontrados no Poema Giratório que, ainda segundo Mário de Andrade, não se trata de um poema de haicais, mas entremeado por alguns deles.

Para não ficar discorrendo aqui colocações, como é um personagem desconhecido da maioria, vamos direto para a Biografia (por sinal, fraquíssima, mas foi o que consegui até o momento e também com ajuda do livro de Nelson Ascher, que estarei comentando no bojo deste texto).

BIOGRAFIA
1901 – 17 de maio, filho de Maria de Barros Aranha e Dr. Antonio Veriano Pereira (advogado, fundador da Campanha Paulista de Seguros, juntamente com outros amigos), nasce Luís Aranha Pereira, na cidade de São Paulo;
1909/1910 – Internado com escarlatina. Estudou no Colégio dos Irmãos Maristas até 1919;
1919 – Trabalhou como balconista na Drogaria Bráulio, na Rua São Bento;
1920 – Conhece Mário de Andrade. Começa a escrever seus poemas;
1921 – Continuou tendo contato com os futuros modernistas da Semana de Arte Moderna;
1922 – Participa ativamente da Semana de Arte Moderna, nos Festivais de Fevereiro. Após a Semana, continua em contato com os principais modernistas e participa da Revista Klaxon. Foi nesse mesmo ano que iniciou o curso de direito no largo São Francisco. Publica, em Junho, na Revista Klaxon n.º 2, pág. 7, o poema “O Aeroplano”. Em Agosto, na Revista Klaxon n.º 4, pág. 11, publica o poema “Paulicèa Desvairada. Em Outubro, na Revista Klaxon n.º 6, págs. 3 e 4, publica o poema Crepúsculo. E no número duplo da Revista Klaxon, n.º 8/9, em Dezembro de 22 e Janeiro de 23, págs. 18 e 19, publica “Projectos” ;
1923 – Continuou colaborando com a Revista Klaxon até o último número – como mencionado acima;
1924 – Mário de Andrade faz menção ao poeta, em “A Escrava que não é Isaura” (Considerada talvez a primeira menção ao nome de Luís Aranha após as suas publicações na revista Klaxon;
1926 – Formou-se em Bacharel. Sérgio Milliet, no jornal “Terra Roxa”, talvez tenha sido o primeiro a publicar artigo propriamente dito sobre o poeta Luís Aranha. Em 1932, Milliet viria republicar o artigo, com algumas alterações, no seu volume “Terminus Seco”;
1929 – Nomeado por concurso (obteve o primeiro lugar) para o Ministério das Relações Exteriores. Serviu, nos anos seguintes, em Portugal, Itália, Vaticano, Venezuela, Chile, Alemanha, Japão e Ceilão;
1932 – Teve alguns de seus poemas publicados no ensaio “Luís Aranha ou a Poesia Preparatoriana”, de Mário de Andrade, na Revista Nova n.º 7. Esse mesmo ensaio foi publicado em “Aspectos da Literatura Brasileira”, Mário de Andrade, Livraria Martins Editora – São Paulo, com o mesmo título, págs. 47 a 87, em 1943;
1933 – Casa-se com Dulce Lajes;
1934 – Exerceu a diplomacia em Lisboa, até 1936;
1938 – Delegado da delegação brasileira nas conferências panamericanas de Lima e Quintandinha. Conselheiro da delegação brasileira na Conferência de Paz em Paris; Exerceu a diplomacia em Roma, até 1942;
1942 – Exerceu a diplomacia em Caracas, até 1945;
1943 – Mário de Andrade publica o ensaio “Luís Aranha ou a Poesia Preparatoriana”, em “Aspectos da Literatura Brasileira” – (Ver detalhes em 1932, acima);
1946 – Integrou o Conselho da Delegação Brasileira na Conferência da Paz, em Paris (França). Manuel Bandeira escreve nota introdutória para uma breve seleção de poemas de Luís Aranha na sua “Antologia de Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos – Ed. Zélio Valverde S.A. – Rio – págs. 115-123”;
1948 – Volta a exercer a diplomacia em Roma, até 1950;
1950 – Exerce a diplomacia em Valparaiso, até 1952;
1952 – Exerce a diplomacia em Hamburgo, até 1958;
1958 – Exerce a diplomacia em Kobi-Osaka, até 1962, encerrando a carreira, por limite de idade, servindo como embaixador no Ceilão;
1959 – Péricles Eugênio da Silva Ramos menciona Luís Aranha no seu ensaio sobre “O Modernismo na Poesia”;
1961 – Na Tese “22 e a Poesia de Hoje”, Cassiano Ricardo ressaltou a importância do poeta Luís Aranha, traçando paralelos entre seus procedimentos e aqueles praticados pelos jovens poetas concretos;
1962 – Na descrição de Nelson Ascher, no livro Cocktails (no final deste texto), na pág. 19, menciona maravilhosamente: “(...) No quadragésimo aniversário da “Semana”, em fevereiro de 1062, Domingos Carvalho da Silva publicaria um artigo que, entre outros temas correlatos, dava ao poeta um destaque inédito, aproximando-o a Maiakósvik (e não a Whitman ou Verhaeren, como se fizera até então) e buscando, no julgamento severo de Mário, uma explicação para seu silêncio. Foi, porém, no mês seguinte que Luis Aranha mereceu sua mais completa reavaliação crítica, obra do poeta e ensaísta José Lino Grunewald, ligado ao grupo concreto. José Lino foi o primeiro autor, desde 1932, a dedicar-lhe todo um ensaio, e sua revisão, trabalho fundamental, seria complementada, dez anos depois, por outro artigo mais abrangente. A tentativa de se determinar, portanto, quem foi seu real redescobridor, é de fato inútil e acadêmica. O poeta foi redescoberto independentemente por vários críticos (todos poetas) sensíveis ao valor de uma obra que a mudança de padrões estéticos começava a tornar legível. (...)”;
1972 – O historiador Mário da Silva Brito incorpora Luis Aranha dentre os modernistas maiores;
1984 – Nelson Ascher, paulistano nascido em 1958, escritor, mestre em teoria literária na PUC-SP., lançou o livro de COCKTAILS – POEMAS DE LUIS ARANHA, pela Editora Brasiliense – SP. O próprio Ascher explica, na página 7, em “Agradecimentos” (na verdade a Introdução, Ascher, a editou com o título: “Uma órbita excêntrica no modernismo” – da página 9 até a 21), que: “Com exceção dos quatro poemas publicados em Klaxon (“O Aeroporto”, “Paulicéia Desvairada”, “Crepúsculo” e “Projetos”), todos os poemas reunidos neste volume provém de um original datilografado, entregue na década de 20 pelo autor a Mário de Andrade. Estes originais foram conservados por Mário e pertencem atualmente ao Arquivo Mário de Andrade do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo. (...). A capa do presente volume foi baseada em um desenho do próprio autor, esboçado nos anos 20, no verso de um programa da “Semana de Arte Moderna” e encontrado no arquivo acima mencionado”. (Ver capa do livro ainda no desenvolvimento deste texto);
1987 – 29 de junho: Luís Aranha morre, no Rio de Janeiro.
DEPOIMENTOS E COMENTÁRIOS

De Mário da Silva Brito:- “Luís Aranha Pereira, nascido em São Paulo em 1901, não publicou nenhum livro, mas teve papel de destaque no movimento renovador de 22, tendo estado no palco do Teatro Municipal na agitada noite de 15 de fevereiro. Suas produções apareceram em Klaxon, a famosa revista do modernismo bandeirante. Aproximou-se de Mário de Andrade quando, em 1921, se viu este cercado pelo escândalo, provocado com a publicação de seus versos no corpo de um artigo de Oswald de Andrade: - “O meu poeta futurista”.
“Estava já poeta que extravagava muito da ambiência cultural brasileira, fazendo poemas que às mais das vezes nasciam sob o signo de Whitman e Verhaeren”, escreve Mário de Andrade a propósito dos versos do então moço de vinte anos, que logo abandonaria as sugestões desses modelos “pra sujeitar a sua qualidade poética aos impulsos da exclusiva experiência pessoal”. Passou a praticar a associação de imagens como princípio básico de sua criação poética, aproveitando-se do processo com virtuosidade inigualável. Mário de Andrade acentua que “a originalidade, a contribuição curiosíssima de Luís Aranha está em ter realizado o estado lírico da psicologia do preparatoriano. Luís Aranha é o poeta ginasial por excelência, o único poeta ginasial que conheço. A poesia dele cheira a ginásio. Há nele uma sofreguidão de ajuntar noções aprendíveis de cor que nos dá a imagem palpável dos fins de ano letivo”.
Associacionismo, dinamismo, velocidade, enumeração, apelo ao subconsciente, temas da civilização mecânica, como o túnel, a ponte, o trem, caracterizam a sua obra. Como Rimbaud, abandonou a poesia. Foi seguir a carreira diplomática. Não reuniu em livro as suas tão originais composições esparsas pelas revistas modernistas. Não escreveu mais poesias e não se ouviu mais falar dele. (...)”.
(Brito, Mário da Silva. In: Poetas Paulistas da Semana de Arte Moderna – Antologia – Livraria Martins Editora – 1972 – São Paulo – Páginas 133-134).

De Mário de Andrade:- (Comentário feito sobre o poema de Luís Aranha na revista Klaxon: “Poema Pitágoras”). “Página genial, dum sopro épico raro conseguido em poesia brasileira. Na secura exterior esconde uma tristeza, uma fúria pessoas que range as suas possibilidades, e um amor humano verdadeiro que forneceu ao poeta a imagem do coração – esponja absorvendo a tristeza da terra. O maior dos seus versos”. (Andrade, Mário de. In: Aspectos da Literatura Brasileira – transcrição parcial feita por Mário da Silva Brito em Poetas Paulistas da Semana de Arte Moderna – Antologia – Livraria Martins Editora – 1972 – São Paulo – Página 134).

De José Lino Grünewald:- (Comentando sobre as composições de Luís Aranha) – “Lances de uma técnica jornalística de linguagem, escrevendo poemas em que há trechos que constituem verdadeiras montagens, análogas às do cinema, de retalhos impressionistas em torno de eventos e objetos. Nisso ele está mais próximo de Ezra Pound ou de um Maiakovski do que de Walt Whitman. É poeta que se inspira na civilização industrial, identificando-se com o mundo tecnológico”. (Grünewald, José Lino. Artigos publicados no Correio da Manhã, Rio de Janeiro, em 24/3/1962 e 27/2/1972 - transcrição parcial feita por Mário da Silva Brito em Poetas Paulistas da Semana de Arte Moderna – Antologia – Livraria Martins Editora – 1972 – São Paulo – Página 134).

De Antonio Risério:- "(...) a obra incompleta de Luis Aranha aponta para o futuro. Seus poemas estão entre as criações mais arrojadas que o modernismo produziu em seus disparos iniciais. Um projeto poético inovador, radical, engajado até a medula na criação de uma poesia adequada às novas realidades do mundo urbano-industrial. Aranha foi uma antena captando os signos da modernidade estética e experimentado-os na prática. Para isso, armou-se de temas fundamentalmente urbanos, procurando tratá-los numa linguagem nova. Violentou a sintaxe para captar o atropelo veloz dos eventos modernos. Incorporou à fatura do poema a técnica da redação jornalística, atirando a anotação precisa do repórter no jorro das imagens futuristas. Refez temas líricos, como o da recusa amorosa, a partir de conceitos técnicos, buscando lirificar palavras do repertório científico. Apelou para a estrutura de montagem e a visualidade precisa e insólita do haicai. Adotou o estilo de cortes dos telegramas e chegou mesmo a transcrever num poema, com as modificações necessárias, um boletim médico. Foi, enfim, o nosso poeta futurista. Embora, como todo mundo, negasse publicamente o futurismo." (Risério, Antonio [1978]. Colméias e telégrafos. In: Aranha, Luis. Cocktails: poemas. Pág. 139).

De Wilson Martins:- “Marinetti celebrava os caracteres sinaléticos da modernidade: os bondes de dois andares, os automóveis esfomeados, a beleza da velocidade e os aeroplanos que começavam a cruzar os ares em remígios espantosos. É fácil encontrar as harmônicas e os reflexos de tudo isso na poesia daqueles tempos (mais do que nos nossos, em que todas as novidades se banalizaram), sem excluir, claro está, a de Luís Aranha, na qual Mário de Andrade viu, algo paternalisticamente, uma literatura de ginasiano, sem perceber que ali estava, embora em germe, o verdadeiro mestre do moderno entre nós”. (Martins, Wilson. Escritor e literato, in:- Prosa & Verso, O Globo, 14.12.86).

De Sérgio Milliet:- "É um homem pequenino. Magríssimo. De óculos. Sinais característicos: pomo de Adão excessivamente desenvolvido. Profissão: funcionário do Ministério do Exterior. Assim como há o caso de Rimbaud, há o caso de Luis Aranha. Apareceu com a Semana de Arte Moderna. Viveu em Klaxon. E nunca mais. Felizmente Mário e eu possuíamos alguns versos dele. Versos da primeira fase modernista. Defeituosos graças a Deus. Deliciosos, porém de inspiração. Nossos apesar da técnica francesa. Francesa? Não. Essa técnica pertence a todos. Não deu a Manuel Bandeira sua expressão mais ingênua? Mais pessoal? Não reverteu em liberdade para os do grupo Verde? Então é de todos. Não se analisa um poema de Luis Aranha. Lê-se comovido sua poesia. Cita-se um verso a um amigo. Desvirgina-se um trecho numa página de revista. Não se critica porque é inédito, e que o será provavelmente sempre. É para o nosso gozo íntimo." (Milliet, Sérgio [1926]. Inéditos. In: Aranha, Luis. Cocktails: Poemas. Pág. 107-108).

De Sérgio Milliet:- “(...) Luís Aranha, o poeta do “poema giratório”, que abandonou as musas pela diplomacia, (...)”. (Milliet, Sérgio. Diário Crítico – Vol. I (1940-1943) - Livraria Martins Editora & EDUSP, 2ª Ed. 1981 – pág. 255).

De Sérgio Milliet:- “(...) A meu ver Ismael Nery e Luís Aranha não deveriam ser classificados entre os bissextos. (...). O segundo porque, se encerrou sua carreira de poeta muito cedo, não se dedicou entretanto a nenhuma outra atividade artística ou literária. Foi poeta, exclusivamente poeta, e durante os poucos anos de produção produziu intensamente. Não publicou livros, em verdade, mas colaborou regularmente nas revistas do modernismo. (...)”. (Milliet, Sérgio. Diário Crítico – Vol. III (1945) - Livraria Martins Editora & EDUSP, 2ª Ed. 1981 – pág. 168).

De Francisco Alambert:- (...). “O ano de 1922 marcou ainda o silenciamento voluntário de um dos mais interessantes poetas surgidos no contexto da Semana de Arte Moderna: Luiz Aranha. Esse jovem poeta, celebrado por Mário de Andrade e muitos outros, teve alguns de seus poemas lidos durante a Semana, recolhendo-se depois na carreira diplomática, que seguirá por toda a sua vida. Só muito recentemente os parcos e excelentes poemas que compõem sua obra foram reunidos em livro”. (Alambert, Francisco. In: A Semana de 22 – A aventura Modernista no Brasil. Editora Scipione – Pág. 58 – 2.ª Edição – 1944. Francisco Alambert é Bacharel em História pela PUC-SP; Mestre em História pela USP e Professor de História Contemporânea na Universidade Federal Fluminense - Moderador do Blog Retalhos do Modernismo).

De Mário da Silva Brito:- Dentre os muitos poetas, nacionais e estrangeiros, divulgados por Klaxon, um merece especial destaque. É Luís Aranha, cuja produção, embora escassa, reflete expressivamente o espírito de 22. Aplicou, entre nós, recursos de composição de tal modo inusitados que afeavam a estrutura poética tradicional. Razão por que Mário de Andrade o considerava autor “que extravagava muito da ambiência cultural brasileira”. Amigo do cantor de Paulicéia Desvairada, Luís Aranha, moço de vinte anos, dele se aproximou quando, em 1921, este se viu envolvido pelo escândalo provocado pelos versos inseridos no artigo O Meu Poeta Futurista, de Oswald de Andrade – escândalo que o promoveu “a lobo-mor da intelectualidade urbana de São Paulo”, para usar palavras do próprio Mário de Andrade (in:- Aspectos da Literatura Brasileira – pág. 51 – Livraria Martins Editora – São Paulo – s/d.).
Luís Aranha não publicou nenhum livro e seus poemas são conhecidos graças à revista Klaxon e ao ensaio Luís Aranha ou A Poesia Preparatoriana, de Mário de Andrade, publicado no número 7 da Revista Nova e depois incluído no livro Aspectos da Literatura Brasileira (1), ensaio em que o exegeta reproduz textos completos ou fragmentos desse poeta que, já em 1922, silenciava sua voz e desaparecia do cenário intelectual para se incorporar ao quadro de funcionários do Ministério do Exterior. Assim como há o caso Rimbaud, há o “caso Luís Aranha” – lembra Sérgio Milliet (In:- Terminus Seco e Outros Cock-tails – Estabelecimento Gráfico Irmãos Ferraz – 1923-1932 – Pág. 282).
Fazia “poemas que às mais das vezes nasciam sob o signo de Whitman e Verhaeren”, detecta Mário de Andrade, que também esclarece quais os autores mais lidos pelo poeta: Blaise Cendrars, Max Jacob, Apollinaire e Cocteau, alguns dos quais aparecem citados em poemas de sua autoria. Luís Aranha conhecia também alguns teóricos do bolchevismo.
Esse poeta erigiu como princípio básico de sua criação artística a associação de idéias – “associações de idéias admiravelmente violentadas”, acentua Sérgio Milliet. Associacionismo, dinamismo, “tempestades de imagens”, velocidade, paráfrases, enumeração, paródia, apelo ao subconsciente, caracterizam a sua obra, que evoluiu, em curto espaço de tempo, “dos metros normais e das rimas” ou “de um lirismo conceituoso”, ressaibo de sua fase sonetística, para “os impulsos da exclusiva experiência pessoal”, vindo a alcançar em algumas páginas “um sopro épico raro conseguido em poesia brasileira”, conforme Mário de Andrade.
“José Lino Grünewald, nos estudos que vem dedicando a Luís Aranha, realça-o como um épico do mundo da máquina, da velocidade, dos inventos”, poeta que muitas vezes se vale de “lances de uma técnica jornalística de linguagem”, escrevendo poemas em que há trechos “que constituem verdadeiras montagens, análogas às do cinema, de retalhos impressionistas em torno de eventos e objetos. Nisso ele está mais próximo de um Ezra Pound ou de um Maiakovski, do que de Walt Whitman”. Afirma que Luiz Aranha “foi um poeta de intensa imagética, a fenopéia poundiana”. Além de “rebentar a sintaxe” consuetudinária, de praticar “uma linguagem telegráfica”, de desprezar propositadamente a pontuação – assim adjetivando certos substantivos e operando o desvio semântico de determinadas frases – Luís Aranha também se utiliza dos “recursos de espacialização das palavras e variação tipográfica” e, ainda, da fisiognomonia sonora por aliteração intensa”, como no caso do verso “corisco arisco risca no céu” (In:- Um Poeta Esquecido – Correio da Manhã, em 24/3/1962 – e Um Marco Esquecido: Luís Aranha – Correio da Manhã, em 27/2/1972 – matéria de José Lino Grünewald.).
(...).

(1) – Em Aspectos da Literatura Brasileira, Mário de Andrade publica, como apêndice ao seu estudo, a versão integral do Poema Giratório.

(Brito, Mário da Silva. In:- O Poeta Luís Aranha – Parte da introdução da Coletânea “Klaxon – Mensário de Arte Moderna – fac-símile – co-edição com a Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo – Impresso em 1976, no transcorrer do Cinqüentenário da Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais – São Paulo – Livraria Martins Editora).

Manuel Bandeira, em carta escrita em 7 de outubro de 1925, endereçada ao Mário de Andrade, no segundo parágrafo tece elogios ao autor de “Drogaria de Éter”, Luís Aranha. A carta, na íntegra, pode ser lida no livro “Correspondência – Mário de Andrade & Manuel Bandeira”, organizado por Marcos Antonio de Moraes, Editora Edusp, pág. 244:-

"(...).
Não te ofendas com as opiniões do grupinho. Certamente eles não têm intenção nenhuma de te ofender. Acho que não vale a pena dar importância: acho-os fraquinhos, muito fraquinhos, menos Oswald, cuja crítica não tem valor algum porque é toda de parti-pris. Couto sabe pensar, mas não tem temperamento, me parece puramente cerebral. Com franqueza São Paulo – Você, Oswald e Luís Aranha. Há muito tempo andava de expectativa com o Luís Aranha. Não achava graça no que conhecia dele. A sua admiração, porém, e aquele ar de passarinho estupefacto que via na sua casa me impunham respeito. Hoje posso dizer que é um poetão pois li a “Drogaria e Éter” e achei estupendo (alguma influência sua, mas que não desmerece em nada o valor do poema que me pareceu personalíssimo). A propósito, quando estiver com ele, dê-lhe um grande abraço de minha parte”.

NOTAS IMPORTANTES:-

Nota 1 – No livro acima mencionado, Marcos Antonio de Moraes, assim escreve na Nota de Página, de nº 150, pág. 245:
- “Como um novo Rimbaud”, Luís Aranha Pereira (1901-?) se cala após a admirável explosão lírica simultaneísta e rica em associações imagéticas delirantes. Quatro poemas em Klaxon, três poemas de “verdadeiro fôlego poético”: “Drogaria de éter e de sombra (1921)”, “Poema Pitágoras” (1922), “Poema giratório” (1922), um projeto de livro (Cocktails), atiçam a curiosidade de MB, que o inclui entre os bissextos contemporâneos. MA, devota-lhe, em 1932, “Luís Aranha ou a poesia preparatoriana”, longo ensaio em que atribui “a originalidade, a contribuição curiosíssima” do poeta estava na realização do “estado lírico da psicologia do preparatoriano” (hoje, “vestibulando”). “Há nele uma sofreguidão de ajuntar noções aprendíveis de cor que nos dá a imagem palpável dos fins de ano letivo.” (Aspectos da literatura brasileira, p. 59);

Nota 2 – Ainda na pág. 245, Marco Antonio de Moraes, transcreve carta do Mário para Bandeira, constando a mesma data: 7 de outubro de 1925, onde MA, no final da carta (pág. 246), diz ter gostado da opinião de MB sobre Luís Aranha:
“(...).
A carta de você tem outros assuntos que quereria responder. Mas estou com sono vou dormir. Gostei da opinião de você sobre o Luís.”;

Nota 3 – Nesse mesmo livro, pág. 676, em carta data de 7 de agosto de 1944, Bandeira escreve a seguinte carta:

Rio de Janeiro, 7 de Agosto de 1944

Mário

Do Carlos Queirós recebi para você o prospecto que lhe envio.
Mando-lhe um cartão de agradecimento para o Alfredo Mesquita, cujo endereço ignoro.
Vai também para você uma cópia do retrato do Taci. A fotografia original, com a chapa que mandei fazer, serão entregues à viúva por intermédio do Guilherme. Muito obrigado.
Consegui o retrato do Aranha com o sogro (que nunca leu um verso do genro). Acho que a antologia dos bissextos vai ficar bem boa. Já entreguei todo o material ao Múcio Leão para Autores e Livros.
Às pressas um abraço do

Manu.

Nota 4 – A expressão “poeta bissexto” é explicada por Marco Antonio no rodapé da pág. 677, nota n.º 26, da seguinte forma:
- A expressão “poeta bissexto” significa “todo poeta que só entra em estado de graça de raro em raro”, inédito em livro. (Antologia dos poetas bissextos contemporâneos, “Prefácio da 1ª edição”).
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ICONOGRAFIA

Grupo dos Organizadores da Semana de 22: Luís Aranha, de óculos, sentado entre Rubens Borba de Moraes e Tácito de Almeida, atrás de Oswald de Andrade, sentado no chão, primeiro plano.
(Foto Arquivo IEB/USP)


Capa do COCKTAILS – Luís Aranha – Poemas
Organizados por Nelson Ascher e Rui Moreira Leite,
lançado em 1984.

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ALGUNS POEMAS DE

LUÍS ARANHA


POEMA Pitágoras

Meu cérebro e coração pilhas elétricas
Arcos voltaicos
Estalos
Combinações de idéias e reações de sentimentos
O céu é uma vasta sala de química com retortas cadinhos tubos provetes e todos os
Vasos necessários
Quem me quitaria de acreditar que os astros são balões de vidros
Cheios de gases leves que fugiram pelas janelas dos laboratórios
Todos os químicos são idiotas
Não descobriram nem o elixir da longa vida nem a pedra filosofal
Só os pirotécnicos são inteligentes
São mais inteligentes do que os poetas pois encheram o céu de planetas novos
Multicores
Astros arrebentam como granadas
Os núcleos caem
Outros sobem da terra e têm uma vida efêmera
Asteróides asteriscos
Bolhas de sabão!
Os telescópios apontam o céu
Canhões gigantes
De perto
Vejo a lua
Acidentes da crosta resfriada
O anel de Anaxágoras
O anel de Pitágoras
Vulcões extintos
Perto dela
Uma pirâmide fosforescente
Pirâmide do Egito que subiu ao céu
Hoje está incluída no sistema planetário
Luminosa
Com a rota determinada por todos os observatórios
Subiu quando a biblioteca de Alexandria era uma fogueira iluminando o mundo
Os crânios antigos estalam nos pergaminhos que se queimam
Pitágoras a viu ainda em terra
Viajou no Egito
Viu o rio Nilo os crocodilos os papiros e as embarcações de sândalo
Viu a esfinge os obeliscos a sala de Karnak e o boi Apis
Viu a lua dentro do tanque onde estava o rei Amenemas
Mas não viu a biblioteca de Alexandria nem as galeras de Cleopatra
Nem a dominação dos ingleses
Maspero acha múmias
E eu não vejo mais nada
As nuvens apagaram minha geometria celeste
No quadro negro
Não vejo mais a sua nem minha pirotécnica planetária
Rojões de lágrimas
Cometas se desfazem
Fim da existência
Outros estouram como demônios da Idade Média e feiticeiros do Sabbath
Fogos de antimônio fogos de Bengala
Eu também me desfarei em lágrimas coloridas no meu dia final
Meu coração vagará pelo céu estrela cadente ou bólido apagado como agora erra
Inflamado pela terra
Estrela inteligente estrela averroísta
Vertiginosamente
Enrolando-o na fieira da Via-Láctea joguei o pião da terra
E ele ronca
No movimento perpétuo
Vejo tudo
Faixas de cores
Mares
Montanhas
Florestas
Numa velocidade prodigiosa
Todas as cores sobrepostas
Estou só
Tiritante
De pé sobre a crosta resfriada
Não há mais vegetação
Nem animais
Como os antigos creio que a terra é o centro
A terra é uma grande esponja que se embebe das tristezas do universo
Meu coração é uma esponja que absorve toda a tristeza da terra
Uma grande pálpebra azul treme no céu e pisca
Corisco arisco risca no céu
O barômetro anuncia chuva
Todos os observatórios se comunicam pela telegrafia sem fio
Não penso mais porque a escuridão da noite tempestuosa penetra em mim
Não posso matematizar o universo como os pitagóricos
Estou só
Tenho frio
Não posso escrever os versos áureos de Pitágoras !...

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A seguir apenas a primeira parte do Poema Drogaria de Éter e de Sombra
DROGARIA DE ÉTER E DE SOMBRA

DROGARIA
SOCIEDADE ANÔNIMA

Produtos Químicos e Farmacêuticos
Especialidades em artigos para toilette
Perfumarias Finas
Aparelhos e objetos de cirurgia
Importação direta
Atacado e varejo
Preços módicos
Informações gratuitas
As contas são liquidáveis invariavelmente
No fim de cada mês
Vende-se
Livro de Ouro do Veterinário
Manual do Farmacêutico
Formulário de Chernoviz
Tratado de Versificação

Eu era poeta...
Mas o prestígio burguês dessa tabuleta
Explodiu na minha alma como uma granada.
Resolvi um dia,
Incômodo mensal das musas,
Ir trabalhar numa drogaria
E executei o meu projeto.
Processo financeiro dos milionários
norte-americanos
Que via no cinematógrafo:
Multiplicação incessante da riqueza
De ano em ano
Com acumulação dos juros ao capital...
Procriação e desenvolvimento das drogas na prateleira
Pelos métodos científicos moderníssimos...
Prestígio dos comerciantes fortes
Desvalorização crescente da poesia...
Minha musa romântica
Morreu após o seu primeiro parto,
Que foi para a cesta com mal de sete dias.

No centro da cidade,
Triângulo de ouro e sol,
A Drogaria era uma gruta de sombra...
Como na Itália
A gruta do cão
Cheia de ácido carbônico
Na Drogaria o éter tomava conta da atmosfera...
Não obstante,
Minha pituitária se habituou a ele
Como a vista se habitua à sombra...

Armários em toda extensão da casa...
Eu os arrumava na minha inexperiência de empregado novo...
Iniciação.
Oh! Prateleiras da minha mocidade
“Castelo de sonhos” do meu bazar de drogas!
Janelas ogivais correndo sobre trilhos!
Castelãs cheias de rótulos e fórmulas!...
Como era feliz entre vós,
Castelãs que fiáveis
Nos vossos fusos silenciosos
O bordado setíneo das teias de aranha!...

Meu “sonho de ouro”
Contemplação de Urracas namoradas!
Minha cruzada de metal
Oh! Meus cruzados ideais!...

Sabia
O nome a todas as formosas,
Que amava muito mais que vendia mais
Embrulhadas todas em papel de seda,
Mantos de cores nacionais...
Morfina
Cocaína
Benzina
Aspirina
Quina
Sina
Atropina
Examina
Gelatina
Heroína
Fenacetina
Antipirina
Papaína
Exalgina
Digitalina
Aconitina
Estricnina
E tantas outras que não me lembro mais!
(...)

-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-

COCKTAIL

HOTEL RESTAURANTE BAR
A cadeira guincha
Garçon
No espelho “Experimente nosso COCKTAIL”
Champagne cocktail
Gin cocktail
Álcool
Absinto
Açúcar
Aromáticos
Sacode num tubo de metal
É frio estimulante e forte
Cocktail
Cocteau
Cendrars
Rimbaud cabaretier
Espontaneidade
Simultaneísmo
O só plano intelectual traz confusão
Associação
Rapidez
Alegria
Poema
Arte moderna
COCKTAIL PARA UM!
Não; para todos
Vinde encher o copo do coração com o meu cocktail sentimental
Sentimental?!

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CREPÚSCULO

Pantheon de cimento armado
A luz tomba
Refluxo de cores
Mel e âmbar
Há liras de Orfeu em todos os automóveis
Reses das nuvens em tropel
Céu matadouros da Continental
Todas as mulheres são translúcidas
Ando
Músculos elásticos
Andar com a força de todos os automóveis
Com a força de todas as usinas
Com a força de todas as associações comerciais e
industriais
Com a força de todos os bancos
Com a força de todas as empresas agrícolas e as
explorações de linhas férreas
Os capitais amontoados em pilhas elétricas
Forças presidenciais e forças diplomáticas
A força do horizonte vulcânico
As forças violentas as forças tumultuosas de Verhaeren
Sou um trem
Um navio
Um aeroplano
Sou a força centrífuga e centrípeta
Todas as forças da terra
Todas as distensões e todas as liberdades
Sinto a vida cantar em mim uma alvorada de metal
O meu corpo é um clarim
Muita luz
Muito ouro
Muito rubro
Meu sangue
Eu sou a tinta que colore a tarde!

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CONCLUSÃO NECESSÁRIA

Não poderia concluir este texto sem mencionar o artigo: “Sem Essa, Aranha”, de autoria da livre-docente em Literatura Brasileira na UNESP – Instituto de Letras de Assis, Sra. Maria Alice Faria. Não sei qual jornal publicou o referido artigo, pois recebi apenas um recorte, sem nenhuma referência, mas concluí ter sido escrito em 1984, onde Maria Alice menciona o lançamento do Cocktails (sem mencionar o nome do autor: Ascher) – mas vale como registro importante, pois o artigo é excelente. Conjeturo também que a autora, inteligente e intencionalmente, tenha se utilizado do título do filme “Sem essa, aranha” (1970), do cineasta Rogério Sganzerla, levando os leitores desavisados e pouco atentos aos poetas modernistas, assanharem-se e, lendo seu artigo iniciassem, mesmo que induzidos subliminarmente, buscarem pelos textos do poeta Luís Aranha. O artigo da Maria Alice Faria é deleitoso. Por ser muito extenso, transcrevo apenas os quatro parágrafos finais, cujo subtítulo é: Timidez e Anacronismo.

“(...).

TIMIDEZ E ANACRONISMO

Numa visão história da literatura brasileira, não há como se chegar a juízos absolutos do tipo do de José Lino Grunewald, ao afirmar que a poesia de Luís Aranha é “uma épica da civilização industrial”. Se, por exemplo, encararmos a Paulicéia Desvairada do ponto de vista estritamente da literatura brasileira, ela representa efetivamente uma renovação literária em confronto com a literatura praticada nessa época no Brasil. Colocada dentro do contexto mais amplo da vanguarda européia, a Paulicéia é uma proposta de inovações tímida e mesmo anacrônica. O mesmo se poderá dizer de Luís Aranha, se conhecermos de perto os poetas de vanguarda francesa (para só ficar neles), devorados pelo jovem paulista, segundo o testemunho de Mário de Andrade e Sérgio Milliet.
São fontes diretas de Luís Aranha, que se serve dos mesmos processos poéticos utilizados à saciedade por escritores franceses de segunda linha e diluidores de um ou outro poeta maior, ainda pouco conhecido como tal, aqui apontados e lidos avidamente por Mário de Andrade e seus amigos. Nesta perspectiva ampla, a poesia, de Luís Aranha é uma miscelânea de tendências, temas e estilos variados, inclusive distanciados no tempo, alguns até anacrônicos, misturando processos que vão de Verhaeren a Cendrars, o todo acondicionado no molho de crepuscularismo brasileiro, estudado por Norma S. Goldstein em Do Penumbrismo ao Modernismo (Ática, 1983).
Se, entretanto, encaramos os 26 poemas publicados pela Brasiliense dentro do contexto literário brasileiro, não há como não se dar conta, em primeiro lugar, da precedência de Luís Aranha sobre os nomes consagrados do Modernismo, quanto à experimentação de processos renovadores de nossa poesia. Em segundo lugar, estão evidentes a desenvoltura e espontaneidade com que ele se utilizou de técnicas de vanguarda que o cauteloso Mário de Andrade não quis ou não soube experimentar naquele momento; que Oswald de Andrade levaria ainda algum temo para tentar; e que Menotti Del Picchia e Guilherme de Almeida nunca conseguiriam dominar. Assim, não me parece descabido pensar-se que, conscientemente ou não, tenha havido por arte dos escritores mais velhos e já conhecidos, atitudes de desencorajamento do jovem Luís Aranha, sem dúvida precursor de todos eles. Se poderia até mesmo arriscar a opinião de que o estudo de Mário de Andrade, “Luís Aranha e a Poesia Preparatoriana”, constitui-se numa castração definitiva das veleidades poéticas do seu jovem protegido.
Portanto, não tomaria Luís Aranha como um gênio incompreendido agora descoberto, mas como um elemento importante para a avaliação da nossa acanhada vanguarda de 1920. O essencial, a meu ver, é ficar-se com os pés na terra em relação à nossa literatura – “pobre e fraca”, mas “a que nos exprime”, no dizer de Antonio Cândido. E trabalhar no sentido de se levantarem dados para uma compreensão serena de nossos movimentos literários sem cair na tentação do ufanismo, praga oriunda de um complexo de inferioridade centenário, que destrói a credibilidade de parte de nossa crítica desde o Romantismo. Ou que, na melhor das hipóteses, revela sua ingenuidade, ao nos colocar no centro de movimentos literários nos quais até agora tivemos apenas participação periférica”.

FONTES PESQUISADAS:

- Alambert, Francisco. In: A Semana de 22 – A aventura Modernista no Brasil. 2ª Ed. Editora Scipione – São Paulo, 1944;
- Andrade, Mário de. In: Aspectos da Literatura Brasileira. 5ª Ed. – Livraria Martins Editora – São Paulo, 1974;
- Aranha, Luís; Ascher, Nelson (org.). In: Cocktails Poemas. 1º Ed. – Editora Brasiliense – São Paulo, 1984;
- BANDEIRA, Manuel. Luis Aranha. In: Antologia de poetas brasileiros bissextos contemporâneos. 2ª Ed. Revisada e Aumentada. Rio de Janeiro: Org. Simões, 1964.
- Batista, Marta Rossetti. & Lopez, Telê Porto Ancona. & Lima, Yone Soares de. In: Brasil: 1º Tempo Modernista – 1917/29 – Documentação. Instituto de Estudos Brasileiros da USP – São Paulo, 1972;
- Bosi, Alfredo. In: História Concisa da Literatura Brasileira. 3ª Ed. Editora Cultrix Ltda. – São Paulo, 1997;
- Brito, Mário da Silva. In: Poetas Paulistas da Semana de Arte Moderna – Antologia – Livraria Martins Editora – São Paulo, 1972;
- Coutinho, Afrânio. In: A literatura no Brasil. Rio de Janeiro, Livraria São José Editora, 1959.
- Duarte, Paulo. In: Mário de Andrade por ele mesmo. São Paulo. Hucitec/Secretaria Municipal de Cultura, 1985.
- Faria, Maria Alice. In: Sem essa, Aranha. (Fonte desconhecida);
- Milliet, Sérgio. In: Diário Crítico – Vol. I (1940-1943). 2ª Ed. – Livraria Martins Editora & EDUSP – São Paulo, 1981;
- _________. In: Diário Crítico – Vol. III (1945). 2ª Ed. – Livraria Martins Editora & EDUSP, 1981;
- Revista klaxon – Obra publicada em co-edição com a Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo. Impressão em 1976, pelo método offset, com filmes fornecidos pelo Editor – Livraria Martins Editora, feita pela Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais S.A. – São Paulo. Introdução de Mário da Silva Brito, contendo as 8 (oito) edições do Mensário Klaxon (Maio de 1922 – Dezembro de 1922 & Janeiro de 1923).
- Texto do Acervo da Biblioteca da Exposição RETALHOS DO MODERNISMO - 2009 - (Luiz de Almeida)

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

RETALHOS RECEBE PRÊMIO

RETALHOS DO MODERNISMO
RECEBE O:

PRÊMIO DARDOS

RETALHOS DO MODERNISMO recebe o “Prêmio Dardos”, conferido pela Professora Pedagoga, Mestra em Educação e Especialista em Educação Infantil pela UFRN, Poetisa e Escritora: “HERCÍLIA FERNANDES”, de Caícó – RN, do Blog “HF DIANTE DO ESPELHO” = http://fernandeshercilia.blogspot.com/

A poetisa, na apresentação no seu Blog “HF DIANTE DO ESPELHO”, deixa evidente sua proposta:

"A poucas pessoas me mostro, realmente, como sou. A outras, apenas disfarço a minha dor; Porque não me vejo em todo olhar; Há espelhos capazes de me revelar, outros, só ofuscam o meu pesar".

E se define:
"Sou um pouco de tudo: dispersão e pragmatismo se misturam e 'deformam' minha personalidade. Sou como um verso mudo, entrecruzado nas entrelinhas de tantos discursos e vãs verdades. Por fim, sou o que sou e isso é tudo! O resto é controverso nas linhas da transitoriedade".

Tive a imensa satisfação de conhecer seu trabalho e principalmente o seu empenho em valorizar a cultura, não só da sua terra, como de todos que demonstram vontade em produzir e partilhar algo da nossa cultura. Para mim foi um honra, não só ter tido o privilégio de poder interagir virtualmente, como ser reconhecido por uma mestra, que já havia se tornado uma das minhas poetisas preferidas – juntamente com a minina Taninha do Nascimento, que vem parindo poemas de valores extremados de imensa beleza e formosa composição e estilo.
Eu não consigo, mesmo que esforce, transcrever minha emoção. Quero utilizar-me desse reconhecimento para continuar elaborando cada vez mais minhas pesquisas, mesmo que necessite continuar passando noites e noites trabalhando, tendo até mesmo que substituir, novamente, as lentes dos óculos – mas, enquanto estiver percebendo que meu trabalho não está sendo em vão... continuarei, continuarei...
Deixo aqui a minha sincera e amiga e amável gratidão, para a eternidade, a Você, minha Dileta Hercília.

"O Prêmio Dardos é o reconhecimento dos valores que cada blogueiro mostra a cada dia no empenho em transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, em demonstrar, em suma, sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras."
Há algum tempo, o prêmio Dardos vem circulando na Blogosfera, atribuindo mérito aos trabalhos dos poetas na Internet. Dentre os artistas homenageados com o selo, podem-se destacar os poetas portugueses
Vieira Calado, Vicente Ferreira da Silva e a poetisa Glória Pires. Ambos, autores de sensível e notória arte poética e publicações em livro. Na blogosfera brasileira destacam-se os poetas Fabrício Fortes, Bianca Feijó, Carol Porner; e, recentemente, Assis de Mello.

Plagiando a conclusão do texto da Dileta Hercília Fernandes, cravo aqui este meu poema:

POEPARTO

Não existe semente de poeta
pois poeta
não nasce em canteiro
Não existe cultivo de poeta
pois poeta
não nasce em canteiro
O poeta
é gerado no cio da necessidade
pois poeta
não nasce em canteiro
O poeta
tem seu parto na realidade
pois poeta
não nasce em canteiro
Não existe
semente de poeta
Não existe
cultivo de poeta
Pois poeta
não nasce em canteiro
O poeta não morre
e não tem idade
O poeta
apenas adormece
muda de meio
e se estabelece na eternidade...
Pois poeta
não nasce em canteiro
(Luiz de Almeida)
Luiz de Almeida - Piraju - São Paulo, 19 de Novembro de 2008 - Dia em que o Blog Retalhos do Modernismo recebeu a Bandeira do "Prêmio Dardos".
Nota: Os meus indicados estão dispostos no Painel Layout do lado esquerdo da página de rosto do Blog.

domingo, 9 de novembro de 2008

¨1922: DEPOIMENTO INÉDITO" (CASSIANO RICARDO)

DEPOIMENTO DE:
CASSIANO RICARDO

(Cassiano Ricardo - Foto Reprodução: Acervo de B.J. Duarte)

PREFÁCIO:

- “... um poeta filósofo”. Foi assim que Sérgio Milliet intitulou Cassiano Ricardo, na página 193 do seu Diário Crítico – 10º Volume (1955-1956), lançado pela Livraria Martins Editora – SP., (1959), em 29 de Julho de 1956, comentando a respeito do livro “O arranha-céu de vidro”, de Cassiano: “(...). Eis um livro de idéias de um poeta filósofo. E eis a mais pura e bela poesia dos últimos tempos em nossa literatura. (...)”.
Quando a Livraria José Olympio do Rio, em 1957, lançou “Poesias Completas”, de Cassiano Ricardo, editou Prólogo de Tristão de Athayde, escrito em 1950, onde esse prefaciador e amigo de Cassiano, não deixou um só parágrafo sem tecer elogios ao autor de Martim Cererê (1928) – que, segundo Drummond: “é uma peça clássica da poesia moderna brasileira”; - obra essa, creio ser até hoje, a mais conhecida daquele poeta. E, falando “em hoje”, no Brasil, Cassiano Ricardo merece um reconhecimento maior. No entanto: (?). Bem, lendo o referido Prólogo do Tristão, fica evidente que ele o concluiu sem querer concluí-lo – Tristão queria escrever mais e mais e mais. E, para não deixar o dito pelo não mostrado, transcrevo, na seqüência, cinco, dos seis parágrafos finais do Prólogo, onde mantive a grafia original:

“(...).
Mas o poeta do tropicalismo verde e amarelo não se satisfez com o triunfo do seu nacionalismo modernista. Poderia ter dormido sôbre os louros e sôbre os apodos. Já tinha o seu lugar ao sol. Outros se contentariam com o que êle havia conquistado. Êle não. Teimoso, com um dêsses bandeirantes avoengos seus, que tanto o atormentaram tôda a vida, não se contentou. Manteve ardente a chama interior. Renovou sua inspiração. Interiorizou-se. Na hora mesma em que uma nova geração, a de 1945, e com isso uma nova fase do modernismo, apareciam no horizonte literário, o velho poeta se mostrou, aos olhos assombrados dos que o acompanhavam desde 1915, como um poeta novo, com a sua inspiração totalmente modificada. Era o homem maduro que agora falava. Era o poeta-filósofo que agora se exprimia. Era o mundo interior que vinha dizer agora a sua mensagem e despedir-se da natureza tropical que enchera os livros da fase mediana. E a partir de 1943, em O Sangue das Horas, Um Dia Depois do Outro (1947) e agora A Face Perdida (1950), o poeta se apresenta em sua feição universal, metafísica, abstrata, mas não menos carregada dessa carga profunda de poesia autêntica, que nas três fases do seu périplo vem acompanhando êsse grande tipo de nossas letras.
Cassiano Ricardo é hoje uma expressão viva do que é a poesia, quando se apodera de uma criatura humana. De 1915 a 1950 sua presença poética é a própria imagem do fluxo da poesia brasileira.
Tanto em sua fase parnasiana ou anacrônica, como em sua fase nacionalista e agora em sua fase filosófica, é o mesmo grande coração de Poeta bate sempre, poderoso, sereno, truculento por vêzes, ora misterioso, obscuro, ora luminoso e patético, mas sempre pulsando com uma energia nova como a dêsses pés de sete léguas que de São Paulo trilharam o Brasil inteiro e lhe deram a sua configuração atual.
O paulistanismo de Cassiano Ricardo não lhe tolheu o sôpro nacional, como o pitoresco ou o lirismo não lhe prejudicaram os altos requintes metafísicos e abstratos de sua poesia intelectualista.
Em todos os momentos de sua evolução, o Poeta está sempre presente e sua obra será, para o futuro, um dos testemunhos mais irrespondíveis de que a nossa geração tinha alguma coisa a dizer e deixou de si alguma coisa que o futuro não esquecerá.
(...)”.

Particularmente, quanto ao Poeta Cassiano Ricardo, prefiro seu lado nacionalista, e partilho com diagnóstico do historiador Wilson Martins: “No Brasil de Cassiano Ricardo, todos são gigantes” (Martins, Wilson. A Literatura Brasileira. Vol. VI – O Modernismo. São Paulo: Editora Cultrix, pág. 191). Mas, o que importa neste estudo é o “depoimento” de Cassiano ao professor Luiz Toledo Machado, em 1972, quando se comemorava o Cinqüentenário da Semana de Arte Moderna, transladado na seqüência e na íntegra [mantida a grafia original].

(Luiz de Almeida)

DEPOIMENTO DE CASSIANO RICARDO

“Como entrei no Modernismo?”
- Não estive presente à instalação da Semana no Municipal em 22, por me achar fora de São Paulo, como tantas vezes tenho esclarecido. O mesmo aconteceu com Tarsila, a nossa grande pintora, que na mesma ocasião se encontrava em Paris. O álibi sem razão, de partida, a indagação que às vezes me fazem, sobre esse ponto. Entrei é verdade, no movimento modernista, porém só achei depois de melhor analisar seus intuitos, causas e concausas emocionais e econômicas. O que fiz foi apoiar o Modernismo, simples e lealmente, dado o seu alto espírito de brasilidade. Nele entrei, de boa fé, como todos os meus companheiros. Apoiar é uma coisa. Aderir é outra. Mesmo porque só participei da revolução literária de 22, de modo mais ativo e até polêmico, como dissidente, já de dois aspectos com os quais não podia concordar:
a) o de haver a Semana começado logo depois dos 7 dias, a importar ‘ismos’ europeus e contra os ideais com que foi inaugurada. Criamos o verdeamarelismo para se opor ao dadaísmo ‘francês’, ao expressionismo ‘alemão’, ao futurismo ‘italiano’ que outros modernistas iam buscar na Europa.
b) o de ser tornado um pretexto para ‘festanças’ e ‘regabofes’ (como declarou o próprio Mário de Andrade no seu opúsculo O Modernismo, p.47) na opulentas fazendas de Paulo Prado e dona Olívia Guedes Penteado.
O Manifesto do grupo Verdeamarelo foi escrito numa das mesas do Café Guarani (Rua 15) e, portanto, opunha-se ao salonismo dos outros grupos. Nasceu não em suculentos banquetes, mas em contacto com o povo. Social mas não mundano. Num simples café e não num salão rico – esclareceu o autor de Martin Cererê.
Foi então que publiquei o meu Vamos Caçar Papagaio, isto é, vamos caçar os macaqueadores empenhados em descobrir o Brasil no próprio Brasil, isto é, no original. Sem figurinos. Alguém poderia supor que eu era xenófobo, e conseqüentemente aderindo ao verdeamarelismo, não estaria aderindo ao integralismo que tinha raízes fascistas? O engano é evidente. O nosso grupo combatia os ‘ismos’ importados – como fiz notar – por uma questão de coerência com as causas que denotaram o movimento contestador de 22. O grito de guerra tinha sido: Chega de copiar. Vamos voltar às raízes do Brasil na sua natureza agreste e nativa. Éramos todos, antes de tudo, radicalmente brasileiros. Foi o verdeamarelismo que trouxe de novo a estudo nomes até então esquecidos, como os de Tavares Bastos, Alberto Torres, Couto de Magalhães, Barbosa Rodrigues, com suas lições magistrais sobre a realidade do nosso País e o papel que o Brasil devia representar no mundo, oferecendo aos outros povos sua palavra de amor ao homem e à terra. Também organizou – prosseguiu – o grupo Verdeamarelo, a nossa primeira ‘brasiliana’, isto é, a primeira coleção de cunho nacional, no domínio da sociologia e da antropologia, Raça de Gigantes; do romance social O Estrangeiro; do ensaio e da pesquisa histórica Introdução ao Pensamento Nacional da poesia tipicamente marcada pela linguagem e cor tropical Borrões de Verde e Amarelo e Chuva de Pedra, antecipando o imaginismo cromático, que Ezra Pound hoje chama de ‘fanopéia’; e o visual cinético também posto em voga como novidade pelo vanguardismo de hoje.
Repelíamos, por isso, o fascínio das idéias e os modismos europeus. A questão era equacionada da seguinte forma: ou sabíamos o que queríamos essencialmente dependendo um programa mínimo ou então pergunto – pra que tanto barulho em 22? A Semana não podia perder altura e força dando um grande salto para trás. Podia?
Queríamos exportar nossa criação literária e artística assim como os jovens brasileiros de hoje (no plano da música, por exemplo) falam em ‘som livre’ e ‘música exportação’.
“Xenófobo, portanto, é que eu não era. Exercia, isto sim vigilância constante para que não merecêssemos o famoso apelo dos escritores franceses chefiados por Benjamim Crenieux na mensagem que nos mandou por intermédio de Renata Almeida. ‘Não nos copieis mais’ – suplicavam. Sede apenas cordiais conosco”.
Veja-se – comentou Cassiano, até os europeus, sem saber, estavam com o grupo verdeamarelo.
Foi este modesto poeta, hoje seu entrevistado, foi quem redigiu, ao lado de Plínio e de Menotti (trabalhávamos os três no ‘Correio Paulistano’) o manifesto verdeamarelo. Outra pergunta curiosa que me tem sido feita: ‘Que tal se surgisse uma nova Semana, já que a literatura nacional está um pouco indecisa? Simplesmente não haveria condições para surgir uma nova Semana – disse Cassiano. E explicou: ‘A Semana de 22 não encerrou ainda o seu ciclo histórico. Nem a literatura brasileira está indecisa. Considere-se que não se pode falar em indecisão quando aparecem romances como os de Guimarães Rosa, Jorge Amado, Mário Palmério, Josué Montello, Otávio de Faria, Maria Alice Barroso, Ariano Suassuna, traduzidos para muitas outras línguas. Os críticos de agora são estudiosos e mestres de alto nível. Aí estão, por exemplo, Euryalo Canabrava, Nelly Novaes Coelho, Oswaldino Marques, Tristão de Atayde, Osmar Pimentel, Fábio Lucas, Antonio Cândido, Nogueira Moutinho, César Leal, Gilberto Mendonça Teles. E os poetas? Drummond (sempre novo), José Paulo Paes, Carlos Nejar, Homero Homem, Walmir Ayala, Mauro Mota, Paulo Mendes Campos, entre os mais presentes à nova problemática compositiva e semântica. Poderia citar muitos outros se não me arriscasse a alguma injustiça’.
- “Que nos diz sobre a poesia de vanguarda? Só lhe posso dar uma resposta informacional. Não sou adesista de nenhuma experiência novidadeira que tenha aparecido. Em todo caso, melhor direi que sou, de fato, interessado sempre no que produzem os de vanguarda. Como sabe o meu caro professor, a vanguarda, em todos os tempos, contém uma fascinante problemática inaugural. Isso já é uma tradição: “la tradition du nouveau” (Rosemberg). Tanto um como outro dos ‘ismos’, a que se refere, foram por mim criticamente estudados em dois ensaios: ‘22 e a Poesia de hoje’ e ‘Praxis e 22’. Não nos esqueçamos que toda revolução artística contém duas etapas principais: a demolidora, polêmica, para derrubar mitos caducos (1ª etapa de 22, por exemplo) e a segunda mais refletida, para um trabalho de reconstrução, ou seja, de permanente e livre pesquisa estética. É a que está em vigência agora. Pesquisa, invenção, visualismo, viagens à sua nova terminologia e outras formas de independência estilística de que o artista necessita para fazer coisa nova e original, no original contexto de hoje”.

(Fonte de Pesquisa do Texto “Depoimento de Cassiano Ricardo”: D.O. Leitura N.º 149, de 13 de outubro de 1994 – São Paulo, págs. 13 e 14 – Matéria: Modernismo – 1922: depoimentos inéditos – Autoria de Luiz Toledo Machado).

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UM POUCO MAIS DE:
CASSIANO RICARDO
(Cassiano Ricardo - Foto Reprodução - Site da Academia Brasileira de Letras)

CRONOLOGIA BIOGRÁFICA E ARTÍSTICA

1895 – 26 de julho, nasce Cassiano Ricardo Leite, em São José dos Campos – SP, filho de Francisco Leite Machado e Minervina Ricardo Leite;
1902 – Inicia em São José os estudos primários;
1906 – Inicia em Jacareí, São Paulo, os estudos ginasiais no Ginásio Nogueira da Gama;
1907 – Atraído para as letras, fundou, em sua cidade natal, a revista "Íris";
1911 – Funda o Quatro Paus, jornal polêmico com caricaturas de figuras ilustres da cidade, em São José dos Campos;
1913 – Inicia curso de Direito em São Paulo;
1915 – Publica seu primeiro livro de poesia: “Dentro da Noite”. Recebe o Prêmio Azevedo Marques de melhor orador, concedido pela Faculdade de Direito de São Paulo;
1917 – Publica “A Flauta de Pã” – poesia. Conclui o curso de Direito no Rio de Janeiro. Funda em São Paulo a revista Panóplia;
1923 – Inicia seu trabalho como redator no Correio Paulistano. Participa na Revolução, ao lado de Assis Brasil, com os maragatos no Rio Grande do Sul;
1924 – Funda a revista literária “Novíssima”, dedicada à causa dos modernistas e ao intercâmbio cultural pan-americano;
1926 – Funda com Menotti Del Picchia e Plínio Salgado, o movimento Verde-Amarelo, em São Paulo. Publica “Vamos Caçar Papagaios”;
1928 – Divergiu de Plínio Salgado e, com Menotti Del Picchia e Cândido Motta Filho, fundou o Grupo da Bandeira que, embora tivesse objetivo político, se opunha a qualquer ideologia caracterizada como demolidora e exótica. Publica “Martim Cererê” – poesia;
1929 – Casa-se com a poetisa Jaci Gomide Ricardo;
1930 – Deixa o Correio Paulistano. Criador da revista “Planalto”;
1931 – Publica “Deixa Estar Jacaré” – poesia. Torna-se Diretor de Expediente da Secretaria de Estado Negócios do Governo. Diretor-geral da Secretaria do Governo de São Paulo;
1932 - Durante a Revolução Constitucionalista de São Paulo, deflagrada contra o governo federal, Cassiano Ricardo fez discursos radiofônicos na série "Em defesa da revolução", baseados nos poemas de Martim Cererê. Nesta ocasião foi nomeado secretário do governo Pedro de Toledo. Foi preso durante a Revolução Constitucionalista;
1935 – Torna-se novamente secretário de governo;
1936 – Publica “O Brasil no Original” – prosa;
1937 – 9 de Setembro: é eleito membro da Academia Brasileira de Letras – Cadeira nº 31, na sucessão de Paulo Setúbal. Dia 28 de dezembro, foi recebido na Academia por Guilherme de Almeida. Fundou com Menotti Del Picchia e Mota Filho, a “Bandeira”, movimento político que se contrapunha ao integralismo. Dirigiu também o jornal O Anhangüera, que defendia a ideologia da Bandeira, condensada na fórmula: "Por uma democracia social brasileira, contra as ideologias dissolventes e exóticas”. Foi o Relator da Comissão de Poesia, que redigiu parecer concedendo a láurea ao livro Viagem, de Cecília Meireles - primeiro livro da corrente moderna consagrado na Academia;
1938 – Publica “Discurso na Academia Brasileira” e “O Negro na Bandeira” – prosas;
1939 – Publica “A Academia e a Poesia Moderna” e “Pedro Luís Visto Pelos Modernos” – prosas. Torna-se diretor da revista Brasil Novo, do Departamento Nacional de Propaganda (DIP). Em São Paulo funda com Orígenes Lessa a revista Planalto;
1940 – Dirige no Rio de Janeiro o jornal “A Manhã”. Como historiador e ensaísta, publica o livro “Marcha para Oeste”, em que estuda o movimento das entradas e bandeiras;
1943 – Publica “O Sangue das Horas” – poesia, e “A Academia e a Língua Brasileira” – prosas;
1944 – Deixa o jornal A Manhã;
1946 – É eleito Membro da Academia Paulista de Letras, cadeira no. 11, patrono Bartolomeu de Gusmão;
1947 – Publica “Um Dia Depois do Outro” – poesia;
1948 – Criou o Clube da Poesia em São Paulo;
1950 – Publica o livro de poesias: “A Face Perdida” e “Poemas Murais”. É eleito presidente do Clube da Poesia em São Paulo, onde criou curso de Poética e iniciou a publicação da coleção "Novíssimos", destinada a publicar e apresentar valores representativos daquela fase da poesia brasileira;
1951 – Dirige a editora A Noite;
1952 – Publica “Sonetos” – poesia;
1953 – Publica o livro de prosa: “A Poesia na Técnica do Romance”. Foi chefe do Escritório Comercial do Brasil em Paris. O seu livro “Marcha para Oeste” foi traduzido pelo Fondo de Cultura Económica do México, com o título “La Marcha hacia el Oeste”. “Martim Cererê”, do qual Gabriela Mistral já havia traduzido alguns poemas, foi vertido para o castelhano, pela escritora cubana Emília Bernal, e publicado em Madri, pelo Instituto de Cultura Hispânica;
1954 – Deixa a chefia do Escritório Comercial do Brasil em Paris. Publica “O Tratado de Petrópolis” – prosa. É nomeado Diretor-Geral da Secretaria dos Negócios do Governo de São Paulo;
1956 – Publica “João Torto e a Fábula” e “O Arranha-céu de Vidro” – poesias. Recebe o Prêmio Paula Brito, pelo livro O Arranha-céu de Vidro, no Rio de Janeiro;
1957 – Publica “Poesias Completas” – poesias;
1959 – Publica “O Homem Cordial” – prosa;
1960 – Publica “Montanha Russa” e “A Difícil Manhã” – poesias. Recebe o prêmio Jabuti, concedido pela Câmara Brasileira do Livro, pelo livro A Difícil Manhã;
1962 – Publica o livro de prosa: “22 e a Poesia de Hoje”. Cria a revista “Invenção”;
1964 – Publica “Jeremias Sem Chorar” e “Antologia Poética” – poesias, “O Indianismo de Gonçalves Dias” – prosa. Recebe o Prêmio Jorge de Lima, pelo livro Jeremias Sem-Chorar, concedido pela UBE – União Brasileira de Escritores;
1965 – Recebe o Prêmio Juca Pato – Intelectual do Ano, concedido pela UBE – União Brasileira de Escritores. Em São José do Campos é criada a “Semana Cassiano Ricardo”, em homenagem pelo cinqüentenário de vida literária e pelos setenta anos de idade do escritor;
1966 – Publica “Poesia, Práxis e 22” e “Reflexos sobre a Poética de Vanguarda” – prosas;
1967 – Torna-se membro do Conselho Federal de Cultura;
1972 – Recebe o Prêmio Literário de Poesia, concedido na II Bienal Internacional do Livro;
1974 – 14 de janeiro: morre no Rio de Janeiro.

FONTES PESQUISADAS:

- Martins, Wilson. A Literatura Brasileira. Vol. VI – O Modernismo. Editora Cultrix. São Paulo, 1ª Edição, s/d;
- Milliet, Sérgio. Diário Crítico – Vol. X. Livraria Martins Editora. São Paulo, 1ª Ed. - 1959;
- Ricardo, Cassiano. Martim Cererê. José Olympio Editora. Rio de Janeiro, 22ª Ed. – 2003;
- _______________. Poesias Completas. Livraria José Olympio Editora. RJ – 1º Ed. – 1957;
- Silva Brito, Mário da. História do Modernismo Brasileiro. I: Antecedentes da Semana de Arte Moderna. Editora Saraiva. São Paulo, 1958;
- _______________. Panorama da Poesia Brasileira. Vol. VI – O Modernismo. Editora Civilização Brasileira. Rio de Janeiro, 1ª Edição – Exemplar nº 2074, 1959;

PERIÓDICO:

- D.O. Leitura. – Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Edição Nº 149, 13 de outubro de 1994.

SITES:

www.academia.org.br/.../sys/start.htm?sid=295
www.fccr.org.br/cassiano/cartilha1.htm
http://www.fccr.org.br/cassiano/index.htm

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

CARTA "INÉDITA" DE MÁRIO DE ANDRADE

CARTA DE MÁRIO DE ANDRADE
PARA

ALBERTO LAMEGO

Mário de Andrade - (Foto Reprodução s/d)

Assim escreve o Pesquisador e Professor da Universidade Federal Fluminense Arthur Soffiati:
Entre 1984 e 1986 empreendi uma exaustiva pesquisa à procura das cartas de Mário de Andrade a Alberto Frederico de Morais Lamego. Várias pessoas tentaram dissuadir-me da empreitada sob a alegação de que a visita de Mário a Campos, em fins de 1935, a serviço da então recém-criada Universidade de São Paulo, para efetuar a aquisição da biblioteca e do arquivo de Lamego, não havia deixado rastros que justificassem uma investigação. Confiando na minha intuição e no meu conhecimento dos hábitos de Mário de Andrade, acabei por encontrar doze cartas e bilhetes escritos pelo insigne autor de Paulicéia Desvairada ao aturo de A Terra Goitacá. Para tanto, andei pelos arquivos da Universidade de São Paulo, sobretudo no de Mário, sob guarda do Instituto de Estudos Brasileiros: na casa das filhas de Lamego, D. Maria Eugênia Ribeiro Lamego e Maria Conceição Ribeiro Lamego; no arquivo de Gustavo Copanema no Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil – CPDOC; no Arquivo Histórico do Liceu de Humanidades de Campos, e no Arquivo da Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
Além das doze missivas, levantei farta correspondência e documentação relativa às relações intelectuais de Lamego e Mário, bem como à venda da preciosa coleção para a USP. Um esforço assim tão intenso deu-me a impressão de que nenhuma novidade mais surgiria até 1955, quando a correspondência passiva de Mário por determinação sua, poderá ser aberta, permitindo-nos conhecer as caras que Lamego lhe endereço. Mesmo que um investigador disponha de número suficiente de provas para desvendar um crime, ele não deve jamais ter a arrogância de pensar que detém todas as provas. Assim o pesquisador. Por mais documentos que reúna, ele não pode jamais contar com a façanha de enfeixar em suas mãos todas as pegadas impressas no solo da história. Foi o que ocorreu comigo. Súbito, vi-me frente com uma nova carta de Mário a Lamego que, se tivesse sido encontrada por mim, figuraria como a carta n.º 2 do livro Mário de Andrade e(m) Campos do Goitacases – Cartas de Mário de Mário de Andrade a Alberto Lamego – 1925/1938 (Niterói, Editora da Universidade Federal Fluminense, 1992), com três estudos introdutórios e notas de minha autoria.
Por mais meticulosa que tenha sido a minha investigação, esta carta me passou despercebida ou não estava no acervo quando da minha varredura. Coube a um pesquisador extremamente experiente encontrá-la. Trata-se de Olímpio José Garcia Matos, que, ao reunir documentos para a exposição da Biblioteca Nacional em homenagem ao centenário de nascimento de Mário de Andrade, topou com ela na casa das filhas de Lamego e, imediatamente, com seu faro apurado para assuntos relativos à cultura brasileira, intuiu que ela não havia sido publicada por mim.
Terminada a exposição, contei com todo o incentivo dele para a publicação deste documento inédito. No geral, o tom da carta não difere do das outras que Mário endereçou a Lamego. Creio, porém, que todos os escritos derivados da mente e do punho do grande intelectual merecem o conhecimento público. Por essa razão, eis a carta do genial paulistano ao historiador de Campos devidamente anotada. Devo esclarecer, por derradeiro, que trago à lume documento inédito na nota n.º 2, que a acompanha.

S. Paulo 27-XII-35

Meu caro dr. Alberto Lamego

Venho lhe agradecer a bondade das suas cartas e do artigo. Ao mesmo tempo quero lhe desejar de todo o coração e aos de sua família um bom ano de 1936. Aqui vai um último artigo sobre sua biblioteca (1) que precisa de certas explicações. É possível que o sr. encontre nele algumas afirmações menos exatas, ou lhe desagrade o “tom” do escrito. Desculpe o tom que é da feição inadaptável do meu espírito e perdoe as incertezas pela urgência e circunstância em que o artigo me foi imperativamente imposto. Não tive por onde recusar e não tinha tempo nem mais documentos em minhas mãos para indagar e pesquisar. (2) Fui obrigado a me servir exclusivamente da memória que em mim é fraca e fantasistamente falsificadora. (3)
Tenho mais a lhe contar que já foi nomeado um bibliotecário na Universidade para cuidar da sua biblioteca.(4) Esta já vai sendo desencaixotada e catalogada. Dentro duns três meses talvez, hei de lhe dar notícias precisas do que se fez.
Peço-lhe recomendar-me carinhosamente aos seus e queira aceitar a mais garantida saudade do amigo
Mário de Andrade.


Notas:

(1) – Refere-se ao artigo “A Biblioteca Lamego”, publicada originalmente em “O Estado de S. Paulo”, de 22 de dezembro de 1935, reproduzido por Myriam Ellis na “Apresentação” ao “Inventário Analítico dos Manuscritos da Coleção Lamego” – Vol. 1 (São Paulo, IEB/USP – 1983) e em “Mário de Andrade e(m) Campos dos Goitacases – Cartas de Mário de Andrade a Alberto Lamego – 1935/1938 (Niterói, Eduff, 1992), com três estudos introdutórios e notas de minha autoria;
(2) – O acervo de Alberto Lamego foi transportado em 13 caixotes e numa mala, em que Mário acondicionou os documentos que julgava mais preciosos. Todo ele foi entregue a Ruy Bloem (quando foi secretário da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP). Mário de Andrade comunica a sua entrega através do ofício nº 119, do Departamento de Cultura do Município de São Paulo, que dirigia, a Antônio de Almeida Prado (que era o Diretor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP), que acusa seu recebimento mediante o ofício nº 412m de 18 de novembro de 1935:

Illmo. Sr. Dr. Mário de Andrade
M.D. Diretor do Departamento de Cultura e Recreação

Recebi o ofício nº 119, de 13 do corrente, em que V.S. me comunica já estar em São Paulo a bibliotheca do Dr. Alberto Lamego, adquirida pelo Governo do Estado para a Universidade, por seu intermédio.
Antes do mais, cumpre-me agradecer-lhe a solicitude com que V.S. se desempenhou da incumbência de buscar incorporar ao patrimônio intellectual de S. Paulo a preciosa collecção de livros e documentos organizada pelo dr. Alberto Lamego. Foi esse um grande serviço por V.S. prestado á causa da cultura de nosso Estado.
Attendendo á sua solicitação, communico-lhe que o dr. Ruy Bloem, Secretário da Faculdade de Philosophia, Sciencias e Letras, á qual se destinará essa Bibliotheca, está encarregado de recebel-a, em nome da mesma Faculdade.
Reitero a V.S. os protestos de minha distincta consideração.

Dr. A. de Almeida Prado
Director


(3) – Em várias cartas a amigos, Mário de Andrade queixou-se de sua dificuldade em memorizar. Que baste apenas esta confissão à Oneyda Alvarenga, em famosa carta de 14 de setembro de 1940, escrita no Rio de Janeiro:

(...)
“Não só o uso e abuso de todos os prazeres da vida baixa me tomaram e tomam muito tempo (levo sempre pelo menos três quartos de hora me barbeando...) mas desde cedo esses abusos me prejudicam muito certas faculdades, especialmente a memória. Si eu guardasse na memória pelo menos um décimo de tudo quanto tenho lido... e compreendido, acho que seria um assombro de erudição, coisas diferentes. Mas não guardo nem a milésima parte do que apreendo! Eu sou o tipo de sujeito que ‘na sabe’! (Não pense que estou me humilhando, já me explico.) E saberá você as matérias que menos eu ‘sei’? São História da Música, Harmonia, Contraponto, Folclore!!! Palavra de honra, Oneida. Uma análise harmônica me custa absurdos de esforços, me esqueço das regras. Em História (qualquer aliás) lida minuciosamente, apaixonada mas compreendidamente, datas sou absolutamente incapaz de guardar, os nomes me fogem cincoenta em cem, e os próprios fatos baralho e em grande parte esqueço. Fica uma súmula muito nebulosa, sem síntese nem qualquer análise, uma verdadeira nebulosa sem luz nem medida. E é tudo assim, quase um martírio. De forma que si tenho de criticar um livro de Érico Veríssimo, pra me repor dentro da espécie dele, sou obrigado a ler preliminarmente dois dos livros anteriores dele. E não se trata apenas de ‘refrescar as idéias’, trata-se exatamente de rever o conhecimento perdido. Tu em mim fica memoriado como uma nebulosa”. (...).

Sra. Oneyda Alvarenga (Foto Reprodução s/d)

(Essa carta de Mário de Andrade para Oneyda Alvarenga é a mais longa carta escrita por ele. Caso haja interesse o amigo leitor poderá degustá-la nas páginas 266 até 298, do livro: Cartas de Mário de Andrade e Oneyda Alvarenga – Editora Duas Cidades, 1983 – São Paulo).

(4) – Minhas pesquisas não conseguiram descobrir o nome do bibliotecário a que alude Mário. Sabe-se que, em 1937, quem cuidava da biblioteca era Rui Tibiriçá, afastado porque “foram descobertas algumas irregularidades, empréstimos liberdosos de livros, etc”, conforme informação de Mário a Lamego em carta de 13 de outubro de 1937.

(Alberto Saffiotti – professor da Universidade Federal Fluminense, autor da introdução e das notas do livro: Mário de Andrade e(em) Campos Goitacases – Cartas de Mário de Andrade a Alberto Lamego (1935-1938).

Fontes de Pesquisa:
1 – Jornal D.O. Leitura, recorte recebido pelo Retalhos do Modernismo, sem data. Com certeza após o ano 2000, pois até 1992, Soffiatti não conhecia a mencionada carta.
2 – Cartas de Mário de Andrade e Oneyda Alvarenga – Editora Duas Cidades, 1983 – São Paulo).

Nota:
1 – Nas cartas mencionadas no texto: mantida a grafia original.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

QUATRO "MOMENTOS" DE MÁRIO DE ANDRADE

(Desenho de Luiz de Almeida - Nanquim s/ papel cartão - 80 x 120 cm - Técnica de Durer (1985).


QUATRO MOMENTOS DE MÁRIO DE ANDRADE

Luiz de Almeida

A vida de todo ser humano é repleta de acontecimentos (momentos), uns marcantes, outros nem tanto, que até acabam sendo esquecidos. Isso é óbvio. Para alguns humanos, sejam eles economicamente ricos ou não, dependendo do seu habitat e do seu modo de vida, passam despercebidos pela sociedade e, às vezes, até pela família. Quando morrem, passado algum tempo, poucos de seus familiares ainda se recordam diariamente destes seus, dantes queridos, finados. Outros, porém, ninguém os esquece. Em alguns casos, os familiares acabam até se desentendendo, pois a herança, seja ela financeira, social ou cultural, provoca a ganância de possuírem o legado deixado pelo famoso finado.
Apegando-nos apenas e tão somente na área cultural, ou seja, se focarmos a vida daqueles que foram célebres: ídolos, artistas plásticos, cantores, músicos, escritores, intelectuais, desenhistas, etc., (indivíduos que atualmente são denominados “ícones”), encontraremos uma série de intrigas, apegos e busca pelo tão requisitado “direito sobre” as obras, os pertences e até sobre as idéias desses ícones, tudo alicerçado na chamada Lei dos Direitos Autorais. Existem casos de extrema vergonha, basta observarmos “parentes” (e normalmente são aqueles parentes bem distantes dentro da árvore genealógica do finado) que, em boa parte, nunca conviveram, viram ou estiveram com esses ícones em vida, vê-los-emos se afoitarem na busca dos possíveis ganhos financeiros e do ibope popular - com a ajuda da mídia que é, nestes casos, normalmente comprada e muito bem paga. Existem casos e casos, sei disso. Porém, tudo isso é conseqüência dos “momentos” que aqueles “ícones” tiveram e proporcionaram em vida.
Contudo, existem também, graças a Deus, ícones totalmente públicos cujos pertences têm quem os preserve apenas como patrimônio da sociedade. Seus “momentos” são cuidadosa e carinhosamente preservados, estudados e dispostos aos interessados que deles usufruem tanto para o próprio crescimento como para o de toda a sociedade.
Um desses louváveis casos é o trabalho que o IEB (Instituto de Estudos Brasileiros – USP) realiza com a herança cultural deixada por Mário de Andrade. Um trabalho maravilhoso que se comparado ao de outros países, poderemos afirmar com orgulho: “um trabalho de primeiro mundo”. Sob os olhares atentos de Telê Porto Ancona Lopes, – que não temo errar ao dizer que conhece mais o Mário de Andrade que o próprio Mário de Andrade – o patrimônio marioandradiano vai, dia-a-dia, sendo disponibilizado a toda a sociedade, sem deixar de mencionar Marcos Antonio de Moraes, outro mestre que segue a mesma trilha de Telê Porto e também toda a equipe do IEB que trabalha com o arquivo Mário de Andrade.
O IEB, através desses estudos, proporciona a cada um de nós momentos interessantíssimos ao conhecermos ou tomarmos conhecimento dos “momentos” mais que interessantes da vida intelectual de Mário de Andrade, Manuel Bandeira entre outros. E isso é bom demais para nós brasileiros comuns, estudantes ou pesquisadores, que não temos acesso gratuito a esses “momentos” na grade curricular de escolas e de muitas faculdades.
Lembro-me de um momento desastroso pelo qual passei quando palestrava em certa faculdade do interior em cuja platéia estavam professores que foram monitorar seus alunos durante a minha Exposição Retalhos do Modernismo, quando uma professora me interrompeu dizendo:

- Eu não entendo uma coisa. Gostaria de uma explicação. Eu não entendo o motivo dos dois irmãos Mário e Oswald de Andrade terem brigado tanto. O Senhor poderia me explicar isso?

Confesso que tive um momento embaraçoso, pois houve até certo burburinho entre alguns da platéia que conheciam a verdade. Contudo, não poderia, de maneira alguma, ridicularizar a ignorância daquela professorinha, sobretudo diante de uma platéia composta, em grande parte, por alunos dela. Assim, para não a deixá-la sem resposta, disse apenas:

- Com certeza eles não tinham o mesmo sangue nas veias.

Houve risos, mas foi a única forma que encontrei para não deixar a coitadinha constrangida. Contudo, digo com certeza que ela saiu da palestra achando que um dos dois era filho bastardo. (Pois ela me agradeceu dizendo):

- “Obrigado”, agora entendi o motivo. (aqui vão as aspas pelo fato de que ela – a professorinha teria que ter dito: obrigada. Mas, como mencionei no parágrafo acima: “coitadinha”).

É brincadeira um momento desse?
Bem, outro momento que julguei interessantíssimo, bem diferente desse e da nossa realidade escolar, foi quando eu soube que na Argentina, numa pesquisa realizada no final do ano letivo de 2007, 86% dos estudantes, antes de entrarem na faculdade, conheciam detalhadamente a vida e a grande obra de Jorge Luis Borges, um dos maiores escritores argentinos que nasceu seis anos após o nascimento de Mário de Andrade e que teve a felicidade de viver 35 anos a mais. E agora? Podemos comparar os momentos de estudos da professorinha brasileira com os momentos de estudos dos alunos argentinos? Bem... São apenas momentos, creio, pois nem todos brasileiros têm momentos tão infelizes como os daquela professorinha... e nem tampouco os argentinos têm momentos sempre superiores aos nossos (sem contar a chocolatada de 3 x 0 que a nossa - nossa não, do Dunga - seleção de futebol tomou da seleção da Argentina na última Olimpíada).
Escrevi, em forma de prefácio, todas estas baboseiras pelo simples fato de também ter tido meu momento que foi de pânico, ao tentar elaborar algo momentâneo para cravar aqui, neste blog, juntamente com alguns poemas (que, como vocês poderão verificar, não têm relação alguma com o que terminei de escrever ao que, certamente, o leitor, a quem já peço minhas desculpas, dará graças a Deus), do nosso queriquerido Mário de Andrade, intitulados “Momentos”. Pensei em me valer de alguns momentos importantíssimos da vida do Mário, mas iniciei um rol, porém foram tantos que optei somente pelos descritos abaixo. Então, para o nosso deleite: Quatro “Momentos” marioandradianos.


PRIMEIRO


MOMENTO
(Novembro de 1925)

Ninguém ignora a inquietação do clima paulistano...
Pois tivemos hoje uma arraiada fresca de neblina.

Depois do calorão duma noite maldita, sem sono,
Uma neblina leviana desprendeu das nuvens lisas
E pousou um momentinho sobre o corpo da cidade.
Ôh como era boa, e o carinho que teve pousado!
Não espantou, não bateu asa, não fez nenhuma bulha,
Veio, que nem beijo de minha mãi si estou enfezado
Vem mansinho, sem medo de mim, e poisa em minha testa.
Assim neblina fez, e o sopro dela acalmou as penas
Desta cidade histórica, desta cidade completa,
Cheia de passado e presente, berço nobre onde nasci.
Os beijos de minha mãi são tal-e-qual a neblina madruga...
Meu pensamento é tal-e-qual São Paulo, é histórico e completo,
É presente e passado e dele nasce meu ser verdadeiro...
Vem, neblina, vem! Beija-me, sossega-me o meu pensamento!

ANDRADE, Mário de. Marco da viração. In: Obras completas de Mário de Andrade: Poesias Completas. 1. ed. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1955, vol II, p. 274.


SEGUNDO

MOMENTO
(16-IX-1928)

Deve haver aqui perto uma roseira florindo,
Não sei... sinto por mim uma harmonia,
Um pouco da imparcialidade que a fadiga traz comigo.

Olho pra minhas mãos. E uma ternura perigosa
Me faz passar a boca sobre elas, roçando,
(Decerto é alguma rosa...)
Numa ternura que não é mais perigosa não, é piedade paciente.
As rosas... Os milhões de rosas paulistanas...
Já tanto que enxerguei minhas mãos trabalhando,
E tapearem por brinquedo umas costas de amigo,
Se entregarem pra inimigo, erguerem dinheiro do chão...
Um feita meus dedos poisarem nuns lábios,
Nesse momento eu quis ser cego!
Ela não quis beijar a ponta dos meus dedos,
Beijou as mãos apaixonadamente, em submissão...
Ela beijou o pó das minhas mãos...
O mesmo pó que já desce na rosa nem bem ela se abre,
Deve haver aqui perto uma roseira florindo...
Que harmonia por mim... Que parecença com jardim...
O meu corpo está são... Minha alma foi-se embora...
E me deixou.

ANDRADE, Mário de. Marco da viração. In: Obras completas de Mário de Andrade: Poesias Completas. 1. ed. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1955, vol II, p. 288.


TERCEIRO

MOMENTO
(1929)

O mundo que se inunda claro em vultos roxos
No caos profundo em que a tristura
Tange mansinho os ventos aos mulambos.

A gente escapada vontade.
Se sente prazeres futuros,
Chegar em casa,
Reconhecer-se em naturezas-mortas...

Ôh, que pra lá da serra caxingam os dinossauros!

Em breve a noite abrirá os corpos,
As embaúbas vão se refazer...

A gente escapa da vontade.
Os seres mancham apenas a luz dos olhares,
Se sobrevoam feito músicas escuras.

E a vida, como viola desohnesta,
Viola a morte do ardor, e se dedilha...
Fraca.

ANDRADE, Mário de. A Costela do Grão Cão. In: Obras completas de Mário de Andrade: Poesias Completas. 1. ed. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1955, vol II, p. 337.


QUARTO

MOMENTO
(Abril de 1937)

O vento corta os seres pelo meio.
Só um desejo de nitidez ampara o mundo...
Faz sol. Fez chuva. E a ventania
Esparrama os trombones das nuvens no azul.

Ninguém chega a ser um nesta cidade,

As pombas se agarram nos arranhacéus, faz chuva.
Faz frio. E faz angústia... É nesse vento violento
Que arrebenta dos grotões da terra humana
Exigindo do céu, paz e alguma primavera.

ANDRADE, Mário de. A Costela do Grão Cão. In: Obras completas de Mário de Andrade: Poesias Completas. 1. ed. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1955, vol II, p. 351.

(Texto elaborado para as futuras Oficinas Literárias da “Exposição Retalhos do Modernismo”. Agradecimento especial a minha Dileta Amiga e Profª Edinilce Aparecida Corrêa Leme pela colaboração no presente trabalho).

Luiz de Almeida – Setembro de 2008.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

MEUS HAIKAIS - GUILHERME DE ALMEIDA

GUILHERME DE ALMEIDA
E SEUS HAIKAIS (HAICAIS)
Capa do livro Poesia Vária
Não era para estar postando este tópico, mas tenho recebido vários emails de estudantes solicitando explicações a respeito dos “haicais” do Guilherme de Almeida. Então, através de forma bem resumida e reduzida, procurei adicionar realmente o básico, sem entrar em detalhes mais específicos.
É importante saber que Guilherme de Almeida não foi apenas um poeta. No decorrer do período que esteve literalmente ativo Guilherme foi: cronista, tradutor, autor teatral, crítico de cinema e até escreveu obra infantil (O Sonho de Marina – Ed. Melhoramentos, SP – 1941). Não vamos entrar no detalhe biográfico do Guilherme político e nem mesmo no do Guilherme da Revolução Constitucionalista de 1932, pois merece um estudo isolado e proveniente de muita pesquisa. Particularmente não desejaria mesmo entrar no detalhe do Guilherme de Andrade e Almeida Paulista Constitucionalista, pois o Blog Retalhos do Modernismo estaria desviando-se dos seus objetivos. Outro detalhe é que este Blog já postou parcialmente a biografia do Príncipe dos Poetas Brasileiros (título recebido em 1959, como sucessor de Alberto de Oliveira e Olavo Bilac, resultado de uma eleição de âmbito nacional, promovida pelo Correio da Manhã, do RJ)(1), não necessitando assim perdermos tempo com detalhes biográficos.

http://literalmeida.blogspot.com/2008/01/guilherme-de-almeida-sntese-biogrfica.html

O que mais importa neste tópico é o Guilherme de Almeida, poeta que teve a coragem de lançar em 1947, “Poesia Vária”, Livraria Martins Editora – São Paulo, [cuja primeira parte, “Peregrinação”, é a celebração poética de um fato que para qualquer outra pessoa poderia ser banal: a aquisição da casa própria. A emoção do poeta que, afinal, tem um lugar seu onde morar, pode ser medida pelos versos iniciais do volume: “Descalço em teu portal de hera e de granito / minhas sandálias sujas de infinito” – num simbolismo à Tagore, poeta muito da sua intimidade. Vário, em todos os sentidos, esse livro de Guilherme. Nele foram incluídos os “haicais” ou “haikais”, na forma rigorosa, com metro e rima, que Guilherme inventou para nacionalizar essas “anotações poéticas de um momento de elite” da poesia japonesa; as “chaves de ouro para onze sonetos que não foram escritos” e a ressuscitação dos cantares de amor e dos cantares de amigo medievais, no Cancioneirinho]. (2)

HAICAI ou HAIKAI... Afinal: O que é? Como é?

Haicai:- Nada mais é que um tipo de poema japonês (hokku) de Forma Fixa, formado de 17 Sílabas distribuídas em três Versos (5 – 7 – 5) sem Rima, como toda a poesia nipônica. Em princípio, o HAICAI deve sugerir uma das estações do ano, e o gênero foi imortalizado pelo grande poeta Matsuo Bachô, na segunda metade do século XVII. No Brasil, como já mencionado acima, Guilherme de Almeida houve por bem fazer rimarem os versos. Ele rimou os Versos Primeiro e Terceiro, introduzindo também Rima Leonina no Segundo, como neste exemplo do livro “Poesia Vária”:

VELHICE

Uma folha morta.
Um galho no céu grisalho.
Fecho a minha porta.(
3)

A definição clássica (normalmente encontrada nos dicionários):

Haicai:- Forma de poesia japonesa surgida no século XVII e ainda hoje em voga, composta de três versos, com cinco, sete e cinco sílabas, que geralmente tem como tema a natureza ou as estações do ano. [Cf. Haicu ou Haiku]

Etimologia:- Do Japonês:
- haikai, formado de hai “brincadeira, gracejo” + kai “harmonia, realização”;
- haiku, formado de hai “brincadeira, gracejo” + ku “frase” (p.ext. verso) ou estrofe.

Outra definição clássica:

- Haicai (Arte Poética). É o poema japonês constituído de três versos, dos quais dois são pentassílabos e um, o segundo, heptassílabo:

“Há quem exceda, em brevidade, a essa trova popular, de quatro versos, ou vinte e oito pés métricos. É o haicai japonês, pequeno poema de três versos, de cinco, sete e cinco pés métricos, respectivamente, que resumem uma impressão, um conceito, um drama, um poema, às vezes deliciosamente, não raro profundamente”. (Afrânio Peixoto, Miçangas, pp. 234-235.) [Cf. haicu].

A definição clássica de “Haicu” - (Do Japonês) = Arte Poét. Poema lírico japonês, constituído de dezessete sílabas distribuídas em versos não rimados, de cinco e sete sílabas.

Na introdução de “OS MEUS HAICAIS”, Parte II do livro “Poesia Vária”, Guilherme de Almeida fez a seguinte anotação:

HAIKAI
a poesia japonesa de dezessete sílabas em três versos: o primeiro de cinco, o segundo de sete e o terceiro de cinco. Define-se o HAIKAI: anotação poética e sincera de um momento de elite. Transpondo-o para o português, em 1936, o Autor acrescentou-lhe a Rima, fixando a seguinte fórmula:

__ __ __ __ x
__ o __ __ __ __
o
__ __ __ __ x.

Para entender facilmente, outros exemplos de Haicais de Guilherme de Almeida:

HORA DE TER SAUDADE

Houve aquele tempo...
(E agora, que a chuva chora,
ouve aquele tempo!).(4)

O PENSAMENTO

O ar. A folha. A fuga.
No lago, um círculo vago.
No rosto, uma ruga.(5)

TRISTEZA

Por que estás assim,
violeta? Que borboleta
morreu no jardim?(6)

Antes de concluir creio que vale a pena descrever parte da entrevista concedida por Guilherme de Almeida para a poetisa, contista, advogada e jornalista: Maria Thereza Cavalheiro – São Paulo. Essa entrevista, pelo tipo de editoração gráfica, creio ter sido editada no D.O. Leitura. Infelizmente eu ganhei apenas uma tira do jornal contendo alguns tópicos da mencionada entrevista. Nessa pequena tira existe um tópico cujo título é: Os Haicais. Vejamos o que consigo decifrar dos farrapos da tira:

“Há de se registrar um fato importante. Guilherme de Almeida foi um dos primeiros poetas brasileiros a escrever haicais. E os publicou em Poesia Vária, lançado em 1947. Eu tinha então dezoito anos e fiquei encantada com os [Aqui a tira apresenta um furo. Por dedução creio que a autora escreveu: “(...) encantada com os poemas ou poemetos”, como são tratados]. (...) de aniversário [deduzo que esteja escrito: “No dia ou Na Festa”) de sua sobrinha Anna Maria (10-9-47), disse ao Poeta do meu entusiasmo pelos seus haicais. E ele contou, muito indignado, que muitas pessoas, incluindo críticos, esteavam dizendo que ele havia feito “charadas”.
Podemos entender, assim, perfeitamente, porque Guilherme de Almeida deu título aos seus haicais e criou um tipo de rima específica para essa composição poética. Os “haicais guilherminos” passaram a ser elaborados por bons haicaistas, entre os quais se destacam Cyro Armando Catta Preta, de Orlândia-SP, e o saudoso José Fernandes Soares.
Sabe-se que o haicai japonês é composto de três versos de cinco, sete e cinco sílabas respectivamente, sem rimas e sem título, com temas ligados à natureza. Ao transpô-lo para a nossa língua, Guilherme de Almeida rimou o primeiro com o terceiro verso, e criou uma rima interna no segundo verso, com tônica na segunda e na sétima sílabas poéticas. Dessa forma, como bem disse Sérgio Milliet na apresentação de Poesia Vária (3ª. Ed. Cultrix), Guilherme de Almeida “nacionalizou o haicai” e “estabeleceu uma forma nova”.
E não só isso. Temos para nós que Guilherme de Almeida assim procedeu para tornar o haicai mais acessível ao gosto do nosso povo, mais fácil de ser aceito. Em nada procederiam a comentários de que Guilherme de Almeida não conheceria as regras do haicai. Na mesma ent.... [aqui falta um pedaço na tira e não teve como continuar, creio ser “entrevista”] – “havia um grupo de poetas japoneses, antigamente, que se reunia à rua da liberdade. Assisti a muitos de seus encontros. Faziam-se Jogos Florais: era dado um tema (lembro-me de que um deles foi ‘brisa da primavera’) e uns dois ou três poetas apresentavam os seus haicais. [outro rasgo e não consigo decifrar o que ela escreveu]. (...)
Não é poesia de amor: é de estação. O haicai é como um verbete de dicionário. E deve ser, antes de tudo, espontâneo: o haicai é obtido como quem pega um inseto em vôo. Se escapar, escapou, e não se consegue mais fazê-lo. Porque deixa de ser sincero. O haicai se impõe. É ele que vem a nós. Pois bem: uma vez, com surpresa minha, notei que o tema dado era sobre o jacarandá. Surgiu então uma querela: discutia-se a época de sua florescência, indispensável à composição do haicai, que é, como se disse, antes de tudo, uma poesia de estação. Com maior espanto meu, um dos japoneses tirou do bolso um dicionário botânico brasileiro em japonês, para esclarecer a dúvida. Pois a poesia japonesa é uma poesia botânica, e os conhecimentos botânicos são indispensáveis ao poeta... Passei também a fazer haicais, que foram traduzidos por um intérprete, após passar uma prova, que todos julgaram. A poesia, no Japão, é obrigatória. Não importa a profissão do indivíduo. “Recordo-me que um dos componentes do grupo era agricultor, outro marceneiro, outro fazia serviços domésticos”.
[a tira termina aqui].


Bem, mas acho que o objetivo proposto foi atingido. Fica aqui minha sugestão: “os amigos leitores que tiverem materiais a respeito dessa temática, caso queiram colaborar, peço a gentileza de enviar-me através que qualquer dos seguintes emails:
literalmeida@hotmail.comliteralmeida@yahoo.com.br - literalmeida@uol.com.br ou literalmeida@gmail.com – pois poderão enriquecer este debilitado e fracionado texto... Mas não faltou vontade para que fosse mais o mais completo possível – dentro das minha limitações. Mas acho que valeu como iniciação para outros estudos e pesquisas a respeito do assunto pauta.

Luiz de Almeida

NOTAS:
(1) Barros, Frederido Pessoa de. Dados Biográficos de Guilherme de Almeida – Raça, de Guilherme de Almeida – Livraria José Olympio Editora, pág. XXI – Vol. 88 – 2º Edição – Coleção Sagarana, 1972 – Edição comemorativa do Cinqüentenário da Semana de Arte Moderna de 1922;
(2) Almeida, Guilherme de. Textos selecionados, estudo histórico-literário, biografia e atividades de compreensão e criação – Seleção de textos, notas, estudos biográfico, histórico e crítico por Frederico Ozanam Pessoa de Barros – Literatura Comentada – Ed. Abril Educação, 1982 – in: De Você a Poesia Vária – pág. 104;
(3) Campos, Geir. Pequeno Dicionário de Arte Poética – Editora Cultrix, 1978 – 1ª Edição – pág. 82;
(4)(5) Almeida, Guilherme de. Poesia Vária – Parte II: Os meus haikais – Editora Cultrix, SP – 3º Edição, 1954 - pág. 45;
(6) _______, Idem, pág. 55;
(#) As definições clássicas: Versão Eletrônica dos Dicionários Aurélio e Houaiss.

NOTA NECESSÁRIA: Não deixe de ver:

domingo, 20 de julho de 2008

"O HOMEM DO POVO" - OSWALD DE ANDRADE E PAGU

"O HOMEM DO POVO":
O PASQUIM DE
OSWALD DE ANDRADE
E
PATRÍCIA GALVÃO (PAGU)

INTRODUÇÃO (POUCO NECESSÁRIA, MAS...)

Como simples cidadão mortal, ex-professor de Eletricidade e de Desenho Técnico, ex-projetista de linhas de transmissão e distribuição de energia elétrica (com o “ex” já define que estou e sou aposentado), tenho uma biblioteca. Por ser doméstica e de um “ex” pessimamente remunerado funcionário de uma das empresas do Grupo Votorantin, até que minha biblioteca é respeitável (atualmente com mais de 3 mil volumes). Logicamente só com obras que me interessam e que o meu degustar literário exige. Assim como tenho obras raríssimas, também tenho aquelas porcarias que às vezes são compradas numa banca de revista de rodoviária para “tentar” serem lidas durante uma viagem. Orgulhosamente não tenho nenhuma anti-obra do paulo Coelho e nem da A Gata-triste. E, como apaixonado pelo Modernismo procuro, de acordo com as poucas sobras financeiras de final de mês, ir adquirindo obras Modernistas, tanto dos literatos como dos artistas plásticos – não deixando nunca de buscar pelas obras dos pesquisadores, historiadores e mestres da literatura (não vou citar nenhum nome, pois corro o risco de deixar a impressão de que só gosto destes e não daqueles). Mas... estou prefaciando toda essa minha paixão, somente para dizer que não consegui até hoje um exemplar da edição fac-similada do “O HOMEM DO POVO”, lançado pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo - em 1985 saiu a 2ª Edição com a belíssima Introdução de Augusto de Campos. Isso deixa minha biblioteca parecendo exatamente comigo: pobre.
No mês passado, numa das visitas na Biblioteca Municipal da minha querida Piraju, encontrei um exemplar do O HOMEM DO POVO, doado pelo grandioso e querido Diretor Teatral, Sr. Márcio Aurélio Pires de Almeida – que orgulhosamente posso dizer: é um Pirajuense e meu parente. Sem nenhum vacilo assinei o livro de empréstimo e, cuidadosamente: li, reli e iniciei a digitação de tudo que nele existe, hora rindo muito das colocações e palavras utilizadas por Oswald e Pagu, hora imaginando os dois datilografando as matérias e lendo para o outro pedindo opinião e, logicamente, os dois “rachando o bico” de tanto rirem. Pode até ser que algum novo leitor do RETALHOS DO MODERNISMO venha pensar que sou um fanático, um babaca e sei lá mais que termos podem me classificar... Mas, como diz o ditado caipira: “uns gosta dos zóios e otros da raméla” – para mim é uma satisfação imensa poder estar falando sobre o O HOMEM DO POVO e postando a matéria que segue, pois ela chega a provocar orgasmo mental – pelo menos naqueles que estudam o Modernismo ou admiram Oswald e Pagu ou ainda: naqueles que estão “mentalmente” ativos.
(Luiz de Almeida)


ANTECEDENTES DO “O HOMEM DO POVO”

Em 1931, Oswald de Andrade e Patrícia Galvão, mais conhecida como Pagu, vão a Montevidéu para um encontro com Luís Carlos Prestes que estava exilado por lá. Apenas para ilustrar o texto, um resumo rápido da vida política de Luís Carlos Prestes:

“Nasceu em Porto Alegre em 1898. Foi político e militar. Liderou o PC – Partido Comunista no Brasil por mais de 50 anos. Em 1922, participou do movimento tenentista contra o governo de Artur Bernardes. Em 1924, liderados por Prestes, a oposição militar brasileira criaram a famosa “Coluna Prestes”. Em 1927, depois de muito caminhar pelo território nacional, Prestes exilou-se na Bolívia, onde teve o primeiro contato com as ideologias do Partido Comunista (PC). Da Bolívia, Prestes foi para a Moscou onde converteu-se definitivamente à ideologia marxista. Retornou clandestinamente ao Brasil em 1935, casado com a alemã e comunista Olga Benário. O objetivo de Prestes era concretizar o PC no Brasil. Após liderar o fracassado golpe conhecido como Intentona Comunista, Preste foi preso e exilado. Sua mulher, embora grávida, foi mandada de volta para Alemanha, onde morreu num campo de concentração nazista. Prestes continuou sua luta em prol do PC. Foi anistiado, preso, exilado, anistiado, preso e exilado... Em 1979, com a anistia, Prestes retornou ao Brasil, mas o PC brasileiro já estava fracassado e, no final da vida, Prestes afastou-se definitivamente do PC. Faleceu em 1990”(Fonte: Nova Enciclopédia Ilustrada Folha de S. Paulo – Vol. 2 – pág. 795).

Voltando as atenções para Oswald e Pagu, esse primeiro encontro do casal com Luís Carlos Prestes, foi comentado por Oswald de Andrade como o ponto de partida para que ele deixasse de lado (encerrasse com prazer) as idéias modernistas de 22 e aderisse às causas do proletariado. Vera M. Chalmers, no livro: “3 linhas e 4 verdades – o jornalismo de Oswald de Andrade – Livraria Duas Cidades – SP, 1976 – p.149”, narra esse comentário e essa mudança de postura de Oswald de Andrade:

“(...)Encontrei-o em companhia de Silo Meireles. E, durante o nosso primeiro encontro, vi que aquele capitão do exército era um intelectual, cheio não só de cultura política, mas de cultura geral. O seu conhecimento das doutrinas sociais era completo. Conversei com ele três noites a fio nos cafés de Montevidéu. E dede aí toda a minha vida se transformou. Encerrei com prazer o período do Modernismo. Pois aquele homem me apontava um caminho de tarefas mais úteis e mais claras. Desde então se já era um escritor progressista que tinha como credenciais a parte ativa tomada na renovação da prosa e da poesia do Brasil desde 22, pude ser esse mesmo escritor a serviço de uma causa, a causa do proletariado que Prestes encarnava. Pude caminhar com homens como Jorge Amado, como Aníbal e Dionélio Machado, como Oswaldo Costa, Álvaro Moreyra e Aparício Torelli. Com Prestes aprendi muito naquelas conversas de café em Montevidéu.”
OSWALD FUNDA O JORNAL
“O HOMEM DO POVO”

Retornando ao Brasil, Oswald e Pagu filiam-se ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). Militando no partido, Oswald funda e dirige o jornal “O HOMEM DO POVO”, em março de 1931. Augusto de Campos, na Introdução do “O HOMEM DO POVO” – Coleção completa e fac-similar do jornal criado e dirigido por Oswald de Andrade e Patrícia Galvão (Pagu), 2ª Ed. SP. 1985, editado pela Imprensa Oficial do Estado S.A. IMESP – Divisão de Arquivo do Estado de São Paulo, pág. 10, descreve a criação do Jornal:

“(...).
O Homem do Povo, lançado em 1931, é um registro da fase mais sectária e “engaée” da atuação política de Oswald e Pagu, numa primeira postura de adesão quase que incondicional às “verdades” partidárias e ao proselitismo do PC.
Trata-se de um jornal panfletário, de um assumido pasquim político, que teve curtíssima duração – apenas 8 números. Em formato tablóide, 48 x 34 cm, com 6 páginas e títulos desenhados em letras “art déco”, a publicação apresentava como editor Álvaro Duarte e como secretários Pagu e Queiroz Lima, sob a “direção do homem do povo”. Oswald assinava os editoriais, que também apareciam com a rubrica de “O Homem do Povo”. A sede da redação ficava no Palacete Rolim, à Praça da Sé n.º 9-E.
Programado para circular às 3.ªs, 5.ªs e sábados, conforme se lê no anúncio da última página do número 2, o jornal teve as seguintes publicações: n.º 1 (sexta-feira, 27 de março); n.º 2 (sábado, 28 de março); n.º 3 (terça-feira, 31 de março); n.º 4 (quinta-feira, 2 de abril); n.º 5 (sábado, 4 de abril); nº 6 (terça-feira, 7 de abril); n.º 7 (quinta-feira, 9 de abril); e n.º 8 (segunda-feira, 13 de abril). Paradoxalmente, o povo não leu “O Homem do Povo”. Leram-no alguns intelectuais, os estudantes de Direito... e a polícia, que acabaria proibindo a sua circulação após a ocorrência, nos dias 9 e 13 de abril, de graves acidentes, que tentaram por duas vezes empastelar o jornal por causa de dois editoriais considerados ofensivos à tradicional Faculdade do Largo de São Francisco. (...)”.

Todo tumulto que culminou no fechamento do jornal “O Homem do Povo”, foi iniciado após o primeiro editorial escrito por Oswald de Andrade na edição n.º 7, de 9 de Abril de 1931, com o título “as angustias de piratininga”, conforme pode ser lido a seguir, na íntegra e sem alterações na escrita original:

as angustias de piratininga

Precioso e ridículo, como literatura política, nullo de visão social, fechado no mais estreito e pífio provincianismo, vertendo apenas o puz que brota dos dois cancros de São Paulo – a Faculdade de Direito e o café – o manifesto do Partido Democrático fixa bem para os olhos ingenuos dos que acreditam nas meias-revoluções, de que tamanho é a guela ambiciosa e hypocrita dos exploradores que depois de ter erguido palácios e fazendas, a chicote e a tronco de escravos – pretendem continuar a sugar o suor dos que trabalham, a troco de respresental-os na comedia dos cargos públicos.
Cynicos, comediantes sem treino, pois foi da deslavada, da mais clara exploração feudal que até hoje viveram do alto de suas cathedras de professores, deu suas bancas de jornalistas e de suas mesas de jogo – eil-os que surgem ao embate da primeira crise séria, chamando a si o encargo de ser o traço de União entre o governo e o povo!
Traço de união entre o parasita e o explorado, entre o que come e o que é comido, entre o carrasco e a victima, elles mesmo confessam que são a força lenta onde esperneia o trabalhador da cidade e dos campos, batido, humilhado, morto de miseria e de desesperança, mas que num ultimo espasmo ha de se despegar dos que o esganam, para leval-os por sua vez ao patíbulo definitivo que pleiteiam e merecem.
Felizmente, a degringolada já os attingia e as angustias de Piratininga são simplesmente feitas do odio covarde dos que sempre se viram na farra facil da Edade Media que o café produzia e a Faculdade abonçoava em nome do Direito Burguez, e agora se vêem forçados a subir os elevadores dos que imponentemente emprestam a 5% ao mez, para implorar as reformas já obtidas nos Bancos da grande fuzarca.
Vencidos pelo phenomeno da agonia capitalista, a sua cégueira ideologica attribue intenções communistas a sinceros consolidadores da Ordem Burgueza, como francamente são o Coronel João Alberto e o General Miguel Costa, com tod a razão mais de uma vez apontados ao odio das massas exploradas pelo alfifalante de Luiz Carlos Prestes.
Consolidadores fascistas, a sua bôa vontade esbarra na inconcertabilidade da maquina onde inutilmente querem andar. Que entreguem essa lata velha, esse forde furado sem radiador nem gazolina, ao ganancioso grupo de fazendeiros e professores que ambiciona os ultimos lucros do ferro miúdo.
O dr. Julio Prestes gastava trezentos contos em palácio, o Coronel João Alberto gasta seiscentos, o dr. Morato gastará novecentos.
Que o governo dos tenentes se demitta e entregue ao Partido Democratico a maquina podre do Estado Burguez que enganou a economia paulista – para que perante as massas elucidadas, seja essa a ultima tragica experiencia de desastre, - é o deseja e pede
o h o m e m d o p o v o

Após esse editorial, os estudantes da Faculdade de Direito iniciaram uma verdadeira guerra contra o “O HOMEM DO POVO”, sempre na tentativa de atingir Oswald de Andrade. A imprensa não perdeu tempo. Com manchetes em letras garrafais e fotos das aglomerações e dos tumultos, colaboraram e agitaram mais ainda a fúria dos estudantes de Direito. A imprensa, logicamente comandada e com o respaldo também de muitos que haviam sido atacados e tripudiados por Oswald e Pagu nas matérias editadas no O HOMEM DO POVO, como os políticos, a classe burguesa paulistana, a polícia, o clero e alguns intelectuais da época, chegou a inventar que num dos confrontos com os estudantes, “a moça que vivia com diretor do O HOMEM DO POVO”, Pagu, havia dado dois tiros. Essa arma nunca foi encontrada.
Os políticos e o clero queriam Oswald e Pagu presos, pois o O HOMEM DO POVO incomodava. Em quase todas as edições Oswald circulou uma enquete, inclusive com explicações de como se votava, com a seguinte chamada: “QUAL É O MAIOR BANDIDO DO BRASIL?”. Em cada edição era publicado o resultado da enquete com o nome dos mais votados. Até hoje ninguém confirma se houve de fato alguém que tivesse encaminhado seu voto para o jornal. Alguns pesquisadores chegam afirmar que tudo era pura invenção do Oswald, da Pagu, com palpites do Plínio Salgado.
Não poderia encerrar este texto sem adicionar os ditos do Senhor Augusto de Campos no final da sua Introdução na Edição fac-símile já mencionada:

“(...).
Mesmo sem se concordar com radicalidade e o sectarismo das diatribes de “O Homem do Povo”, é possível lê-lo com interesse e curiosidade. Não só pelo fato de estar ligado a personalidades tão fascinantes como Oswald e Pagu, partindo-se do pressuposto de que, quando um autor é interessante, tudo o que se relaciona com ele – até as obras menores – se torna interessante, por constituir subsídio para a compreensão de outros aspectos de maior relevância para a sua caracterização.
Sem dúvida, aqui não se encontrarão as grandes páginas de invenção estilística de “João Miramar e Serafim Ponte Grande”. A “Revista de Antropofagia” é mais rica em idéias e em criatividade, e os estereótipos da catequese política estão hoje mais desgastados do que antes. Mas, no desleixo das suas linhas apressadas, no seu amadorismo algo provinciano, na sua ingenuidade quixotesca, “O Homem do Povo” traz, ao lado da marca feroz e veraz da utopia, o rastro literário da modernidade e da paródia que dele fazem como que um prolongamento da “2.ª dentição antropofágica”. Este pasquim proletário não deixa de ser – como eu já afirmei em “Pagu: Vida-Obra – um descendente engajado da “Revista de Antropofagia”.
Estilhaços do riso oswaldiano espoucam por esses textos irados, fazendo com que eles desbordem da razão política, datada e perecível, para se incorporarem ao plano menos transitório das criações intelectuais. “Do meu fundamental anarquismo jorrava sempre uma fonte sadia, o sarcasmo”, disse Oswald no prefácio ao “Serafim”. Por isso, esse HOMEM DO POVO, que o povo não leu, pode ser lido agora, e não apenas como documento de uma época, suas lutas e suas contradições. Podemos rir com ele. E até perdoar facilmente os seus desmandos e excessos verbais. Vão por conta da impaciência, da impotência e do desespero dos que tentam pensar com generosidade nos desfavorecidos sociais, num mundo onde ainda prevalece a “manunkind”, de que fala o poeta norte-americano E.E. Cummings – a “humanimaldade” -, um mundo onde até hoje, depois de meio século, exauridas as utopias, a justiça e a fraternidade estão longe de ser alcançadas”.
(Augusto de Campos – Introdução do “O HOMEM DO POVO” – Coleção completa e fac-similar do jornal criado e dirigido por Oswald de Andrade e Patrícia Galvão (Pagu), 2ª Ed. SP. 1985, editado pela Imprensa Oficial do Estado S.A. IMESP – Divisão de Arquivo do Estado de São Paulo, pág. 12).

(Foto do livro Pagu - Livre na Imaginação e no Espaço - Lúcia M. Teixeira Furlani - Editora Unisanta - 4ª Ed. - pág. 45)

terça-feira, 15 de julho de 2008

CARTA-TESTAMENTO DE MÁRIO DE ANDRADE

CARTA-TESTAMENTO ESCRITA POR
MÁRIO DE ANDRADE EM
22-3-1944
DESTINATÁRIO:
SEU IRMÃO CARLOS



PREFÁCIO NECESSÁRIO:

Antes da “carta-testamento” escrita por Mário de Andrade ao seu irmão Carlos, em 22 de março de 1944, que foi postada na íntegra, inclusive observando o estilo da escrita utilizada por Mário, é de grande importância narrar o depoimento da Sra. Oneyda Alvarenga, (ALVARENGA, Oneyda. In Mário de Andrade, um Pouco. Livraria José Olympio Editora – SCET-CSC. São Paulo, 1974 – p. 11/12), como segue:

“(...). Os amigos mais chegados de Mário de Andrade talvez saibam, como eu, que nos seus últimos tempos de vida ele falava muito que morreria aos cinqüenta anos e não lhe interessava viver além disso. Depois, como passara doente o ano de 1943, adiara a morte para os cinqüenta e um, explicando meio a sério meio de brincadeira não ser justo morrer aos cinqüenta, pois o ano de doença não fora vivido. Foi essa divinação assustadora da morte que em 1944 o levou a me contar várias vezes sua intenção de cuidar, antes de mais nada, da sua obra literária, que pessoalmente o interessava mais. Quanto ao matéria folclórico que colhera, já não tinha nem tempo nem paciência e não teria vida suficiente para tratar dele: ficava para mim, eu o estudaria depois que ele morresse. (...)”.

Em carta a Manuel Bandeira, datada de 22 de abril de 1933, Mário de Andrade ainda mantinha a esperança e o entusiasmo para o trabalho, apesar de já estar passando por momentos de inoportuno estado doentio, mas até então, não havia ainda mencionado nada a respeito da própria morte. Assim escreveu naquela carta (*):

“São Paulo, 22 de abril de 1933.
Manu,
pretendia lhe escrever por estes dias uma carta bem longa, mas uma dessas viagens bruscas me faz apressar a escrita e diminuir aquele abandono pretendido de mim, que sempre me faz comprido. Mas o caso é que me surgiu de supetão, e indesejabilíssima, uma nefrite, e do dia para noite me vi obrigado a pedir licença no Conservatório, mandar os alunos particulares passear e procurar um abrigo lá na chacra do tio Pio pra um repouso de pelo menos vinte dias de cama, que é o que por enquanto pedem os médicos. Se os futuros exames provarem a melhora de condições dos rins, volto pra o trabalho, se não, inda não sei o que vai ser. Você compreende que estas confissões não são assim pra você sem alguma melancolia. Estou meio assustado, confesso, e não tenho a mínima intenção de morrer, ou pra falar mais suavemente, me inutilizar tão cedo. (...)”.
(Grifo meu - cor azul).

Independente de outras fontes (textos e cartas) onde Mário de Andrade comenta sobre a possibilidade prematura da sua morte, o Blog optou dar mais importância na “Carta-Testamento”, pois a partir da morte do autor foi essa carta que originou e pautou todos os trabalhos e estudos da vida de Mário de Andrade. Sendo assim, a carta, “sem nenhuma modificação na grafia original”:


CARTA-TESTAMENTO DE
MÁRIO DE ANDRADE


S. Paulo, 22-III-44 (1)

Carlos

Essa história de operação, sempre é perigoso e eu costumo pensar que pertence à dignidade humana contar sempre com a morte. Por isso lhe escrevo esta carta rápida, apenas para orientar você sobre meus desejos e intenções, a respeito exclusivamente das coisas desta terra.
Minhas obras. Deixo bastante coisa inédita, a maioria ainda se fazendo. Coisas realmente em redação definitiva deixo apenas uma série de contos, inéditos ou reformados depois da publicação, e os meus poemas “Café” e “Carro da Miséria”. Isto tudo deve ser incluído nas minhas Obras Completas. O “Carro da Miséria” será incluído no volume das “Poesias Completas”, logo antes da parte intitulada “Livro Azul”. O “Café” com nota que só a parte de poesia está em redação, [definitiva?] e a parte “Descrição” apenas em primeira anotação, terá publicação à parte. Por intermédio do Luís Saia, você entrará em combinação com o Clóvis Graciano, que o ia editar de acordo com um projeto de contrato que tenho sobre a minha secretária (2). Os direitos autorais dessa edição, bem como o das minhas “Obras Completas” com o editor Martins, desejo que revertam aos filhos de Lurdes, pra (3) educação intelectual e física deles. Bem, quanto à minha herança em dinheiro, vinda de meu pai, isso não me interessa, façam como quiserem. Os contos farão um livro à parte, pertencente às Obras Completas.
Muito desagradável é o resto dos meus inéditos, que ainda estão por se fazer. Conferências como o “Seqüestro da Dona Ausente” e “Música de Feitiçaria no Brasil” podem ser publicadas tal como estão, com a advertência em subtítulo “conferência literária” porque o trabalho definitivo era muito mais sério e científico. Tal como está não passa de sugestão pra trabalhos de outrem. Os casos mais lastimáveis são o das “Danças Dramáticas” e do “Padre Jesuíno do Monte Castelo”. Estas obras não só não estão em redação definitiva como contêm erros de história ou crítica, que eu pretendia corrigir depois e fui deixando assim. Muito freqüente, meu processo de trabalho era assim, ir redigindo o que eu não sabia si era assim mas me palpitava ser assim, dependendo de verificação ou conhecimento futuro. Ultimamente até em dezenas de afirmativas eu continuava com um “(verificar” por depender desse trabalho de verificação ou reverificação futura. Agia assim pra não prejudicar o ritmo normal da redação. Assim na “Vida” do padre Jesuíno em conto com um [sic; “eu conto uma”] passagem de Feijó moço e estudante em Itu que depois pude saber que não existiu (4). Deixei para consertar depois e ainda não está consertado. Nas Danças Dramáticas também afirmo que não houve nenhuma de relação “histórica” com o Brasil e, houve sim, depois é que pude saber, como os “Quilombos” de Alagoas. Tais obras, portanto, não devem ser publicadas. Mas podem ficar, com o consulta, objeto de trabalha alheio, numa biblioteca pública, a Municipal de preferência.
Dos meus “trabalhos” só resta o fichário. Este deve ser repartido entre meus dois amigos Oneida Alvarenga e Luiz Saia que de comum acordo, sem interferência nenhuma da família, farão dos fichários o que quiserem.
Resta falar de que ajuntei e ganhei por mim. Minhas cartas. Toda a minha correspondência, sem excepção, eu deixo para a Academia Paulista de Letras. Deve ser fechada e lacrada pela família e entregue para só poder ser aberta e examinada 50 (cinqüenta) anos depois da minha morte.
Toda minha coleção de gravuras de qualquer processo de gravação, monotipias, aquarelas, guaches e desenhos deve ser entregue à Biblioteca Municipal.
Toda a minha coleção de quadros a ólio ou têmpera será oferecida à Pinacoteca de São Paulo.
Toda a minha iconografia, jornais e quaisquer documentos da Revolução paulista de 1932 será entregue ao Instituo Histórico de São Paulo. Só se tirarão da coleção a bandeira de São Paulo em brilhantes e o anel de esmalte com as armas de São Paulo, que estão no armário de exposição de santos. A [sic; bandeira] fica com Mamãe, o anel será para o Carlos Augusto. [Sobrinho, filho de Lourdes].
Tudo quanto seja jóia de enfeite, alfinetes, brilhantes, etc. ficam pros filhos de Lurdes.
A coleção de santos e documentos religiosos em marfim, madeira, alabastro etc. serão doados para o Museu da Cúria Metropolitana de São Paulo, com exclusão do que eles não quiserem, que ficará para o Luiz Saia dar o destino que entender. Também o quadro antigo representando São João Evangelista será para a Cúria e não para a Pinacoteca. Está claro também que não pertence a estas doações a Senhora do Carmo, que Mamãe me deu, a qual ficará na família.
Os objetos de valor etnográfico, ou folclórico, como Xangô, Exu e ferro, ex-votos em madeira, etc. será para o museusinho da Discoteca Publica. Também se pedirá à Oneida Alvarenga que escolha para as coleções da Discoteca todos os discos de calor de estudo, folclórico, nacionais e estrangeiros que lhe interessarem. Os outros ficarão pros filhos de Lurdes.
Em minha biblioteca existe uma coleção muito grade de livros com dedicatória. Serão doados à Biblioteca Municipal, com a obrigação de não se desfazer deles embora duplicatas.
Também existe um grupo numeroso de obras “de luxo”, a maioria com ilustrações, sendo aqui considerado de luxo as edições “numeradas” de tiragem limitada e indicação do papel. Pertencerá também à Biblioteca Municipal. Algumas [sic] deste livros “de luxo” nacionais, a Biblioteca Municipal já possue. Serão estas duplicatas ofertadas à Biblioteca Municipal de Araraquara.
Tenho também alguns livros raros antigos, de forte valor monetário, de Brasiliana, como o Rugendas e o Martius. A Biblioteca Municipal ficará apenas com algum que por acaso ainda não tenha. Mas as duplicatas, com o Rugendas e o Martius pertencerão à Biblioteca, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, da Universidade de São Paulo.
Você Carlos, retirará da minha biblioteca uma coleção de trezentos livros úteis, dicionários, livros fundamentais de estudo de ciências, uma boa história de artes plásticas, outra da música, alguns clássicos fundamentais das literaturas, Shakespeare, Dante, Aristóteles, Camões, Machado de Assis, enfim uma coleção de trezentos livros de primeira necessidade cultural ao seu critério, que ficará para os filhos de Lurdes, e na posse do Carlos Augusto.
Todo o grande resto será doado à Biblioteca Municipal, inclusive livros de musicologia e artes (5). Sérgio Milliet escolherá com os auxiliares que determinar o que deseja para a Biblioteca Municipal de São Paulo e não constitui duplicata dentro dela. As duplicatas todas e o que ele não quiser será dado à Biblioteca Municipal de Araraquara. O que dentro dela for inútil por constituir duplicata (será fácil saber mandando preliminarmente a relação que o Zé Bento fará) fica para uso da família. De preferência com os filhos de Lurdes.
Não deixo “lembranças”, objetos meus a ninguém. Tenho tão bons e numerosos amigos que tenho medo de numa lista organizada à pressa esquecer alguém. Me esqueci as esculturas de “arte livre” não arroladas acima, meus bustos, obras de Brecheret, de Haarberg etc. irão também para a Pinacoteca.
Eu apenas pediria que tudo fosse com ofício, no interior do qual enumeraria todo o doado, peça por peça, guardando cópia, pra que não desapareça nada por roubo. A tudo o mais, roupas, objetos, e o que eu por acaso tenha esquecido, a família distribuirá de acordo com o seu critério e o critério a que obedeci aqui. Não dôo na por vaidade e toda doação será feita sem alarde. Dôo apenas porque nunca colecionei para mim, mas imaginando me constituir apenas salvaguarda de obras, valores e livros que pertencem ao público, ao meu país, ao pouso que eu gastei e me gastou.

Mário de Andrade

(vire)

(S. Paulo, 22-III-44)
Carlos

Me esqueci duma doação especial que guardei para o Zé Bento, meu secretário. Na secretaria que truxe [sic; pronuncie-se trusse] do Rio, tirada a última gaveta do lado esquerdo dela, em baixo, se puxando o fundo falso, existem dez contos de réis. Esse dinheiro pertence a José Bento Faria Ferraz, assim como um objeto qualquer, de duração permanente, que você escolher. O objeto é pra ele guardar como lembrança da gratidão que lhe devo; o dinheiro é pra ele gastar como e quando bem entender, merecia muito mais, porque uma assistência como a dele não se paga. M.”

NOTAS:

(*) ANDRADE, Mário. In Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira. (Org.) Marcos Antonio de Moraes. São Paulo: Editora EDUSP; IEB. 2ª Ed. – 2001 – p. 556;
(1) Embora nem tudo corresponda ao assistemático... sistema ortográfico de Mário, respeitei integralmente, inclusive na grafia de nomes próprios, a cópia que me foi dada pela família dele, logo após sua morte A irmã Lourdes foi sempre “Lurdes”; Luiz Saia = Luís Saia (jamais Sáia, como aparece em alguns lugares da cópia); eu, Oneida, num desrespeito total às nossas assinaturas. No meu caso, com grande ojeriza minha, que desse jeito me sinto outra pessoa, uma estranha;
(2) Naqueles tempos, Clóvis Graciano ensaiara ser editor. Seu primeiro lançamento foi, em 1944, o livro “Escultura Popular Brasileira”, de Luís Saia, seguido, só em 1947, por uma das mais deliciosas histórias para crianças escritas no Brasil: a “Silvia Pética na Liberdade”, de Alfredo Mesquita, com esplêndidas ilustrações de Hilde Weber. As “Edições Gaveta” morreram depressa, nem me lembro se passaram dessas duas obras. Andam por aí algumas explicações do nome da editora, mas se não me engano ele nasceu de um sentido ajuntado por Luís Saia à palavra “gaveta” e usado por quase todo o grupo jovem ligado a nós três (Mário, Saia e eu): Mau humor, desânimo, irritação, espírito preocupado e fechado, “engavetado”. Quase a “fossa” hoje em moda: mas não chegava bem a ser, a “gaveta” ainda tinha uma boa dose de saúde espiritual, faltava-lhe alguma coisa para ser realmente mórbida “Estar de gaveta”, estar “engavetado” atrapalhava a vida, mas não tanto quanto a “fossa”;
(3) Este é um dos evidentes enganos ortográficos da cópia que recebi. Mário dava à contração da preposição “para” com o artigo “a”, a grafia “prá”. Nem me lembro de vê-lo usando o acento grave;
(4) Se não for erro de cópia, o trecho que retifiquei entre colchetes é um dos testemunhos mais fortes da pressa e tensão em que essa carta foi escrita;
(5) Em 1944, a Discoteca Pública Municipal ainda estava começando a grande biblioteca especializada em música, livros sobre Música, Folclore e assuntos afins, que veio a ter depois. Isso talvez explique a doação das obras musicológicas à Biblioteca Municipal. Mas me palpita que outra circunstância, bastante penosa, sirva de melhor explicação: durante sete anos Mário assistira à minha luta para manter um serviço que-ai de mim! ai de nós! – continuou mesmo incompreendido pela quase totalidade dos administradores municipais; vira a derrocada quase total da Discoteca, na primeira gestão do Dr. Prestes Maia, desastre que chegou a fazer com que nós dois pensássemos no recurso salvador de uma venda de todo o acervo ao Ministério da Educação e chegássemos a tomar algumas medidas para isso. Nossa correspondência mostrará tudo, mas tarde.

(Este texto faz parte da apostila de estudos e pesquisas da Biblioteca da Exposição RETALHOS DO MODERNISMO – Resumo da Oficina do livro: ALVARENGA, Oneyda. In Mário de Andrade, um Pouco. Livraria José Olympio Editora – SCET-CSC. São Paulo, 1974 – p. 11/12 - Depoimento de Oneyda Alvarenga; e 31 a 35 – Carta Testamento de Mário de Andrade).
Luiz de Almeida

domingo, 13 de julho de 2008

FRANCISCO ALAMBERT: SÉRGIO MILLIET E MÁRIO PEDROSA

MILLIET - PEDROSA
APROXIMAÇÕES RUMO À AÇÃO SOCIALIZADORA
DA ARTE
Francisco Alambert

I

Em 1949, Sérgio Milliet anotava em seu Diário Crítico um encontro com Mário Pedrosa em Paris. Dizia o seguinte:

“Mário Pedrosa, que encontro chegando do Brasil e já instalado em St. Germain, afirma que aquele velhinho à frente de um copo de vinho no café da esquina, ali se acha há dez anos. Viu-o em 1937, em 1946 igualmente e o torna a ver agora. Pela praça passaram os tanques alemães, diante da igreja um obus caiu. Houve frio e fome e metralhadoras varreram as cercanias, mas o homem ali continua naturalmente, sem nenhuma intenção de heroísmo. Só porque acredita na vida. E há vida nesse lugar, nessa praça, nessa cidade. Não compreende sequer que possa existir outra coisa, não pensa em emigrar, em bater à porta da aventura, em correr atrás da estrela matutina. Por entre suas pálpebras enrugadas brilha uma nesga azul de admirável serenidade”(1).

Mário Pedrosa

Como se vê, Milliet tomou o olhar de Pedrosa e, junto com ele, parte de sua sensibilidade também. Na verdade, faz sua a observação do outro. Em comum, vemos uma atenção para a história vista nas ruas. Histórias de pessoas “comuns” diante da História incomum e bárbara do século que ainda nem entrara em sua metade.
Que espanto teria causado a Pedrosa a imagem daquele homem parado, resistindo em seu lugar, a ponto de lhe chamar a atenção e relatar ao amigo a cena vista? Não conheço resposta nos escritos e memórias de Mário Pedrosa, mas intuo que se espantaria com a imobilidade e a escolha desse velho em ficar, pois Pedrosa nunca assumiu para si tal postura, ele que esteve sempre em movimento, desde os tempos de juventude e militância comunista, depois trotskista, justamente contra a história que aquele parisiense viu resignado e altivo passar diante de sua praça. Mario Pedrosa foi sempre um homem e um crítico de ação. Tampouco Milliet, que foi e veio tantas vezes. E fez desse ir e vir uma prática e uma visão de mundo: um ceticismo peculiar e crítico, um “ato crítico”, como definiu certa vez Antonio Candido, que o singularizou na história de nossa crítica cultural (2).
Também Milliet foi sempre um homem e um crítico de ação, mas sua idéia de ação e de crítica nem sempre coincidiu com a de Mario Pedrosa. Para muitos, eles poderiam até ser vistos como antípodas na história da crítica de arte no Brasil. Mas a “nesga azul de admirável serenidade” do olhar daquele velho resistente parisiense sugere que essa separação não é assim tão óbvia nem muito menos verdadeira. É mesmo decisivo para se compreender a história da crítica de arte, da arte e mesmo dos intelectuais e militantes brasileiros, saber balancear e compreender as posições, as aproximações e distanciamentos destes que foram os dois mais importantes críticos de arte do Brasil desde o Modernismo.
Este ensaio vai aproximar estes dois críticos que são normalmente vistos como opostos, sobretudo a partir do debate sobre o abstracionismo. Creio que essa oposição é discutível e foi claramente criticada pelos próprios autores. Para isso, vou seguir dois textos de Sérgio Milliet comentando aspectos da obra de Mario Pedrosa, mostrando onde se aproximam e onde se afastam.

II

O primeiro deles é também parte do Diário Crítico, e foi escrito em 10 de maio de 1949. Trata-se de um comentário à publicação de Arte, necessidade vital. Ali, Milliet – pensando a partir da posição de quem veio direto da Semana de Arte Moderna e passou por todas as aventuras e desilusões da luta modernista de primeira hora – anota sobre o surgimento do novo crítico: “a literatura estética brasileira é pobre. Os críticos raramente vão além da crônica diária e os nossos historiadores de arte estão mais interessados em geral na história do que na arte”. A observação é preciosa e ainda guarda, em nossa época, muito de seu valor crítico. Mas, no caso, guarda também um óbvio reconhecimento: o livro de Pedrosa é uma grande novidade. Ou seja, Milliet, que já havia estimulado os jovens de 30, que se tornou o “homem-ponte”, na expressão de Antonio Candido, entre a geração modernista e os primeiros acadêmicos “uspianos” (a nova crítica universitária dos chato-boys – na famosa expressão de Oswald de Andrade), também reconheceu Pedrosa como novidade na crítica moderna de arte brasileira, que a bem dizer, naquele momento, só ele mesmo representava.


(Foto adicionada no texto de Francisco Alambert por Luiz de Almeida)

Do livro, ele destaca dois textos: a conferência sobre Käthe Kollwitz e o ensaio sobre Calder. Milliet não poderia saber, mas de fato escolheu dois dos textos mais importantes do crítico, porque o ensaio sobre Kollwitz (uma conferência apresentada no CAM em 1933) é o primeiro estudo propriamente marxista de arte entre nós (e creio que era uma novidade em toda a América então)(3). E é justamente o que significa esse “marxismo” que Milliet irá discutir (o que naquela altura só ele mesmo poderia fazer, pois já havia estudado Marx quando adolescente em Genebra e Paris, iniciando uma intensa e tensa relação com o materialismo, o marxismo, o socialismo, que ele sempre defendeu afinal, como se pode ver em várias páginas de seu Diário Crítico). O texto sobre Calder é o primeiro de uma série que como se sabe irá definitivamente comprovar a excelência crítica de Pedrosa. Calder talvez tenha sido seu artista preferido e a quem dedicou uma reflexão mais aprofundada. Pode-se mesmo dizer, sem o perigo do exagero, que Pedrosa “descobre” Calder para o mundo e se usa disso para auxiliar a estabelecer sua própria teoria da arte moderna. Precocemente, Milliet acertou em cheio e, de uma certa forma, reconheceu seu sucessor.
Milliet, que freqüentava meio a distância as reuniões do pessoal do CAM, deve ter tido contato ou notícia dessa conferência na época. De fato, isso é dado a entender no próprio texto, quando começa dizendo que não acredita que o ensaio, naquele momento em que é publicado (1949), “reflita com fidelidade o pensamento atual do autor”. O título original da conferência do CAM era “Käthe Kollvitz e o Seu Modo Vermelho de Perceber a Vida”, depois mudado quando foi publicado em capítulos no jornal O Homem Livre e no livro citado para o definitivo “As tendências sociais da arte e Käthe Kollwitz”. Na opinião de Milliet, o texto é “demasiado ortodoxo no seu marxismo, ao mesmo tempo que um tanto quanto esquemático”. “Ortodoxia” e “esquematismo” são dois conceitos caríssimos à crítica millietiana. Veremos como esses dois temas irão retornar quando do debate sobre o abstracionismo.
Ainda assim, não questiona os dois grandes méritos de Pedrosa naquele momento: introduziu no Brasil a obra da grande gravadora e sobretudo foi o responsável por “iniciar em nossa terra uma crítica de fundo sociológico”. Milliet destaca a presença do pensamento marxista na crítica de Pedrosa, mas ressalta que ele foi aprofundado pela leitura do estudo de “Ernesto Grosse acerca das origens do fenômeno artístico”. Ou seja, para ele o marxismo não poderia ser, por si só, também uma teoria da arte. Isso é a primeira noção que irá unir os dois antípodas aparentes: o crítico cético (Milliet) e o engajado Pedrosa – pois este também, ao longo de sua produção, irá somar à formação marxista fundamental, usada com criatividade, idéias e obras vindas de caminhos completamente diversos (como por exemplo em seus trabalhos sobre forma inspirados na Gestalt). Sem nunca se tornar cético, como o ceticismo particular de Milliet, Pedrosa acabaria por concordar com a necessidade de, no campo da arte, preencher as lacunas da base materialista de formas particulares de entendimento estético que não cabiam na teoria. Pedrosa acabaria por se aproximar assim de Milliet.
Continuando seu comentário, Milliet toma uma citação de Wagner, usada por Pedrosa, em que o músico, no seu grande momento romântico-revolucionário, em pleno ano explosivo de 1848, afirmava que à sua época, a arte dos gregos “era conservadora porque se apresentava à consciência pública como uma expressão válida e adequada. Entre nós, a arte verdadeira é revolucionária, pois só existe em oposição aos valores geralmente admitidos”. Essa idéia, diga-se de passagem, será perseguida por Pedrosa ao longo de sua trajetória crítica. Em um texto bastante posterior ao período que estamos tratando, o crítico explicou melhor sua crítica ao ideal burguês conservador da idealização do passado grego: “o ‘milagre grego’ em arte é ideologia das burguesias ascendentes da Europa (italianas) e que atingiu também o próprio Karl Marx, inexperiente nessas matérias e altamente desconhecedor das descobertas arqueológicas e antropológicas do fim do século”(4). De um ponto de vista marxista crítico, essa idéia é compreensível e necessária, mas para um não marxista, ela provavelmente não faz sentido. Entretanto, Milliet concorda e interpreta a citação de Wagner com uma pergunta: “mas quererá dizer isso que a arte não revolucionária de nossa época seja menos social do que participante?”. Ou seja, a idéia do “social” também está no centro de suas preocupações.
Para o Pedrosa daquele momento, a resposta seria afirmativa, só a arte participante faria sentido. E mais: “a função social da arte decaiu. Abria-se a era do culto impessoal da forma”. Para Milliet era aqui que se manifestava o primeiro engano. Pois do seu ponto de vista, a função social da arte é permanente mas muda de sentido: ora é positiva, ora negativa. A arte positiva agrega indivíduos em “certos valores essenciais do grupo”. Já a negativa, é um “laço de resistência para as minorias ultrapassadas mas que ainda detêm o poder ou gozam de suficiente prestígio para manter-se mais ou menos coesas ante a pressão das maiorias”(5). A arte negativa é uma resistência das minorias contra a ditadura das maiorias. Aqui Milliet não pode resistir a deixar escapar uma ponta de aristocratismo (que ele compartilhava com Mário de Andrade), dizendo que o “requinte formal” é a segurança e a resistência desse grupo, através do qual “se fortalecem certas elites, como através de determinadas normas de vida se reconhecem e se unem os aristocratas”(6). Mas o importante no caso é que, em sua visão, o requinte formal não é um mero gesto vazio de significado (como na arte pela arte), mas é necessário à resistência e garante a mudança social, diminui a pressão das maiorias, conservadoras, e abre as portas para o novo surgir e se afirmar como uma nova força.
Nesse momento, a questão passa a ser então o conceito de “social” e o papel da arte na transformação de si mesma e do mundo de que é parte. Mário Pedrosa falava e militava em prol de uma arte socializadora. Milliet problematiza a questão e, em conseqüência daquela teoria do requinte formal como resistência, introduz a idéia de qualidade formal. Não importa tanto, e por princípio, o aspecto socializador da obra de arte mas sim, “do ponto de vista estético”, o que faz uma “obra de arte são suas qualidades formais. O que faz que a apreciemos ou não, é que pode ser a elevação do sentimento ou a função socializadora, segundo nossa posição na sociedade” (note-se que “qualidades formais” são diferentes de apreciação). Aqui, eis Milliet defendendo um peculiar “formalismo” contra Pedrosa, que depois será acusado a vida toda (injustamente) de ser justamente formalista! E embaralhando ainda mais os estereótipos, a certa altura, Milliet critica Pedrosa por haver em seu trabalho “insuficiente análise técnica”.
Já o ensaio sobre Calder deixa nosso crítico maravilhado. Diz tratar-se de um texto “amadurecido, sereno e penetrante”. Fica especialmente interessado na aproximação que Pedrosa estabelece entre Calder e os artistas chineses, na medida em que, como eles, o escultor consegue sugerir os volumes apenas pelo vazio que se define pelos contornos e pelas linhas.
Mesmo assim, continua apontando restrições de ordem técnica e histórica. Cobra de Pedrosa o aprofundamento na comparação de uma maneira interessante. Diz que a idéia de “desequilíbrio assimétrico” deve ser desenvolvida e questionada. Pois na interpretação de Pedrosa, ela serve para designar a escultura de Calder e ao mesmo tempo a substituição da figura humana por uma árvore (no exemplo usado pelo crítico pernambucano). A propósito disso, se sai com uma máxima bem sua, e que pode ajudar a localizá-lo no debate sobre a figuração-abstração de que tomaram parte ambos os críticos, geralmente vistos em posições opostas: “E não consistiu sempre a composição excelente em equilibrar planos e volumes desiguais mediante o estudo das proporções eufóricas? No fundo a figura pouco importa; o que vale são as linhas, reproduzam elas um homem ou uma árvore, ou formas imaginárias”.
Está em questão, portanto, a necessidade de uma pesquisa em torno das leis da forma (trabalho desenvolvido por Pedrosa, como se sabe, desde seus estudos sobre a Gestalt, por exemplo). Ora, se colocarmos essa mesma afirmação dentro do debate sobre a abstração, então poderemos ver que a posição de Milliet era complexa e um tanto dúbia, pois essa idéia desmente a necessidade da presença da figura para a definição da arte que nos “interessava” (pois essa era a questão central do debate), reafirmando uma vez mais a obsessão millietiana pelo rigor formal em detrimento do assunto.

III

(Sérgio Milliet dircursa no Congresso Brasileiro de Escritores - São Paulo, 1945 - Foto adicionada no texto de Francisco Alambert por Luiz de Almeida)

E é nessa mesma toada que, dois anos depois (já em 1951, ano da primeira Bienal de São Paulo, projeto que ambos irão abraçar), Milliet retoma novamente o comentário de um estudo de Mario Pedrosa, agora tratando de seu belo estudo sobre o livro de Roger Fry a respeito da questão da forma e da personalidade(7), texto que acabara de ser publicado pela revista Forma: “O que me interessa nessas páginas de Mario Pedrosa é a afirmação de que no campo mesmo da psicologia da arte ‘decidem, na apreciação da obra, as suas qualidades plásticas e formais’. O resto nada tem a ver com o fenômeno estético”.
Nesse momento, na visão de Milliet, estava claro que ele e Pedrosa, antes de estarem distantes, estavam muito próximos quanto ao que compreendiam como prevalência do formal como tema e conteúdo mesmo da obra de arte, compreendida como fenômeno estético (pois ambos eram capazes de reconhecer o interesse da arte como assunto e tema do ponto de vista da sociologia, da história, da psicologia, etc.).
Agora a “polêmica sobre arte abstrata” é encarada diretamente e Milliet traz Pedrosa para seu lado. E reafirma seu ponto de vista diante da questão da preeminência do formal sobre o assunto ou diante da representação imitativa. Dá como exemplo o “realismo socialista”, que curiosamente ele diz não combater “em tese”. Pois ele até poderia ter valor e vingar “se as obras de sua produção se assimilarem pelas qualidades estéticas que são as plásticas e formais”, se for, como certas obras de Jorge Amado que ele cita como exemplo, inteligentes, e não, como outras do mesmo escritor, meramente infantis “porque desperdiçando os valores indiscutíveis de uma bela idéia”. A “bela idéia” aqui é a chave, junto com a execução correta. Aqui, o cético Milliet confessa ser capaz de apreciar até mesmo o realismo socialista!
Se alinhando com o materialismo marxista de Pedrosa, reitera que a “arte se condiciona à estrutura econômica e portanto social. Mas a que reflete não é a que procura difundir a doutrina marxista. Esta se difunde apesar de seus artistas e por outros motivos que não a arte”. E agora, aquela teoria da história que marcou a visão de Milliet, já esboçada no outro comentário a Pedrosa e claramente inspirada num misto de marxismo e funcionalismo sociológico, volta a ser explicada com clareza:
“(...) a arte a serviço de uma doutrina só se justifica quando as velhas doutrinas já se acham destruídas. Então ela surge naturalmente a serviço da reconstrução e exprime o que uma grande maioria do povo sente e pensa. Antes desse momento ‘psicológico’, a arte social tem que ajudar a destruir, pela pintura trágica ou sarcástica da sociedade. Não lhe cabe ‘doutrinar’. Compete-lhe apenas ‘mostrar’”. Mas esse “mostrar”, função da arte engajada na destruição definitiva do passado ou na reconstrução programática do presente, só será atingido “se tiver as qualidades estéticas que fazem da literatice literatura, ou da tolice colorida uma obra de arte”. As proximidades e diferenças entre os dois críticos vão ficando mais claras, e as famosas voltas e viravoltas do raciocínio millietiano, tão típicas de seu ensaísmo de inspiração francesa(8), permanecem e acentuam esse jogo. Agora, surge uma reviravolta e o autor passa a expor que lhe parece ser o estado da questão em sua época:
“Na situação atual da arte, dois caminhos se abrem para o pintor: o da pintura pela pintura – abstracionismo – ou o do realismo. Vejo no abstracionismo uma evasão sem eco, uma pintura morta, portanto, embora com algum encanto e fantasia. Vejo no realismo construído à luz das lições do cubismo (composição) e do expressionismo, o caminho mais viável. Conquanto não se esqueça de que a arte só vale pelas suas qualidades estéticas...”.
No meu modo de ver, creio que se esclarece uma posição: o que Milliet chamou de “abstracionismo” aqui, ou seja, algo como a pintura pela pintura, está muito próximo do principal inimigo combatido pelo construtivismo de Pedrosa, que este detectou na voga internacional do tachismo. Milliet deixa claro que desconfia do realismo socialista mas preza a arte socializadora, que não se prende à figuração, mas reforça a seriedade na pesquisa e na composição estética. Até ai, Pedrosa assinaria embaixo. A questão é que o crítico paulistano via no abstracionismo, que Pedrosa defendia, os mesmos defeitos que este via no tachismo que combatia.
Ambos buscavam o “caminho mais viável”. Mas para que? Em que sentido? Para Mario Pedrosa, que levou essa questão adiante, para o “exercício experimental da liberdade”, para trazer ao mundo a liberdade conquistada pela arte em seu processo de superação e emancipação. Essa liberdade traria a sensibilidade necessária para um novo tempo, um novo homem que surgiria com a revolução socialista da qual a arte moderna era par(9).
Mas e para Milliet? Creio que nenhuma dessas idéias lhe seria estranha, mas seu ceticismo peculiar, porque engajado, preferia reter a euforia e desconfiar criticamente dessa explosão de otimismo e pregação que foi promessa de parte da arte moderna. Porém, tão engajado quanto Pedrosa, estava pronto a negar tudo o que lhe parecesse mistificação e engano, tudo o que pudesse retirar a arte e o homem daquele caminho de destruição/reconstrução do passado e do presente que ele acreditava ser função da melhor arte.
Para Pedrosa, voltando à idéia do primeiro texto de Milliet, só a arte negativa faria sentido. Para Milliet, que pensava o Brasil e as possibilidades de transformação aqui em outra chave, a arte deveria ser a um só tempo negativa e positiva. Construir mudando e mudar construindo. No fundo, esses dois críticos, o cético e o trotskista, queriam a mesma coisa: que a arte fizesse diferença no mundo que eles tanto esperavam.

NOTAS:

(1) – MILLIET, Sérgio. Diário Crítico. São Paulo: Martins/UDUSP, 1981, v. VI, p. 369. (Salvo contrário, as citações do autor a seguir remetem a esse mesmo texto de seu Diário Crítico;
(2) – CANDIDO, A. “O Ato Crítico”. In A Educação Pela Noite. São Paulo: Ática, 1986. O mesmo texto, com ligeiras manifestações, foi publicado como introdução ao primeiro volume dos Diários de Milliet. Cf. “Sérgio Milliet, o crítico”. In: MILLIET, Sérgio. Diário Crítico, v.1. São Paulo: Martins/EDUSP, 1981;
(3) – Recentemente publicado em ARANTES, Otília B. F. (Org.). Política das Artes. São Paulo: EDUSP, 1995;
(4) – Cf. “A Bienal de cá para lá”. In: ARANTES, Otília B. F. (Org.). Política das Artes. Op. Cit., p. 255, n.6. Sobre Marx e arte grega, ver: MARX, K. “Introdução”. In Para a crítica da economia política. São Paulo: Editora Abril, 1975 (Col. Os Pensadores), PP. 130131;
(5) – Aqui se manifesta um certo “antropologismo” que será marcante na composição teórica de Milliet, baseado numa dialética entre o grupo dominante e o marginal, fundamental para a tese desenvolvida em Marginalidade da Arte Moderna. Cf. “Marginalidade da Arte Moderna”. In: Pintura quase sempre. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1944;
(6) – Ver o irônico e o ambíguo aos pendores progressistas da “aristocracia paulista” em ANDRADE, M. “O Movimento Modernista”. In: Aspectos da Literatura Brasileira. São Paulo: Martins, 1974, 5.ed.;
(7) – MILLIET, Sérgio. Diário Crítico. São Paulo: Martins:EDUSP, 1982, v.VIII, PP. 144-145. As citações do autor a seguir vêm deste texto;
(8) Sobre esse assunto, ver, além do ensaio citado de Antonio Candido: CAMPOS, Regina M. Salgado. Ceticismo e responsabilidade: Gide e Montaigne na obra crítica de Sérgio Milliet. São Paulo: Anna Blume, 1996; Gonçalves, Lisberth Rebolo. Sérgio Milliet, Crítico de Arte. São Paulo: EDUSP, 1992; ALAMBERT, Francisco C. Um melancólico no auge do modernismo: Sérgio Milliet. São Paulo: FFLCH-USP, dissertação de mestrado, mimeo, 1991. SANTANA, Naum Simão de. A razão dos efeitos. São Paulo: Instituto de Artes da UNESP, dissertação de mestrado, mimeo, 2003;
(9) – Cf. ARANTES, Otília B. F. Mário Pedrosa: Itinerário Crítico. São Paulo: Scritta editorial, 1991.

Francisco Alambert. Professor de História da Cultura e História Social da Arte no Departamento de História da USP e crítico de arte.
Texto Publicado em Gonçalves, Lisbeth Rebollo (org.). Sérgio Milliet - 100 anos: trajetória, crítica e ação cultural. São Paulo: ABCA/ Imprensa Oficial do Estado, 2004. ISBN 85-7060-328-2, pp. 139-148.

sábado, 28 de junho de 2008

UM DOS "CAUSOS" NA VIDA DE MÁRIO DE ANDRADE


O MÁRIO DE ANDRADE DE ANTES DE ONTEM, ONTEM, HOJE, AMANHÃ, DEPOIS DE AMANHÃ E PARA SEMPRE SERÁ O:
MÁRIO TREZENTOS, TREZENTOS E CINQUENTA...

Mário de Andrade - Amazonas - foto arquivo IEB/USP


Mário de Andrade sempre desejou conhecer o Brasil. Fatos e casos diversos impediram com que ele realizasse totalmente esse seu grande desejo. Se fossemos enumerá-las aqui correríamos os riscos de faltar com a verdade ou exagerar em alguns outros aspectos – uns relevantes, outros nem tanto. Mas esses motivos pouco importam, principalmente agora. O importante é que as suas viagens etnográficas o realizaram de certa maneira tão enaltecedoras que talvez as que deixou de realizar não o importunaram tanto.
Todas as vezes, no entanto, que Mário viajou, que saiu da sua São Paulo querida, fatos importantes e também pitorescos aconteceram na sua vida. Neste texto pretendo narrar um caso (ou "causo") que pode ser classificado de “pitoresco”, “hilário”, quando ele esteve no Pará em 1927, principalmente por ter acontecido com ele – e mais ainda, pela resposta que ele deu ao episódio, que será narrado no extado e de acordo com a formatação que foi dada neste texto.
Antes dessa narrativa, um resumo simplificado de algumas “saídas” do nosso Mário de Andrade da sua Paulicéia:

1) Nas férias de julho de 1905, muito provavelmente, tem seu primeiro encontro com o mar, viajando para Santos a convite de parentes. A lembrança fica na crônica “O mar”, escrito em 12 de julho de 1932 no Diário Nacional – conforme descrito no Táxi e Crônicas no Diário Nacional – Livraria Duas Cidades – SP, 1976 – página 541:

- Vamos pra Santos?
- Mas fazer o quê?
- ... ver o mar.
- ... então vamos.
E assim constantemente, ninguém sabendo, feito os amantes clandestinos, vou pra Santos ver o mar.
A primeira vez que vi o mar, não me esqueço. (...)

2) Em 1913, após a morte do irmão Renato, - Pio Lourenço Correa, o Tio Pio, casado com Zulmira, sobrinha de Maria Luísa, leva Mário para sua fazenda, localizada no município de Araraquara, São Paulo.

3) Em 1916, - Conclui seu voluntariado com o Serviço Militar, em novembro, realizando manobras em Gericinó (RJ).

4) Em Junho de 1919, primeira viagem a Minas Gerais, passando pelas cidades históricas, quando encontra a obra barroca de Aleijadinho e visita Alphonsus de Guimaraens, poeta simbolista de sua admiração.

5) Em outubro de 1921, viaja para o Rio de Janeiro e, em casa do poeta Ronald de Carvalho, localizada na Rua Humaitá, 64, e lá conhece Manuel Bandeira. Conhece Villa-Lobos. A viagem de Mário de Andrade para o Rio de Janeiro teve a finalidade de divulgar o poema “Cenas de Crianças” e os versos de “Paulicéia Desvairada”, ainda em manuscrito.

6) Em 1924 realiza a histórica "Viagem da Descoberta do Brasil", Semana Santa dos modernistas e seus amigos, visitando as cidades históricas em Minas, juntamente com os modernistas Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade e seu filho Nonê (Oswald de Andrade Filho), D. Olívia Guedes Penteado, Paulo Prado, René Thiollier, Gofredo da Silva Telles e o poeta francês Blaise Cendrars.

“Em 1924 não vim só, como da primeira vez. Veio uma grande caravana de jornalistas e intelectuais de São Paulo, com a intenção de assistir às tradicionais solenidades de Semana Santa. Era uma turma grande, onde não faltava o elemento feminino, representado por D. Olívia Penteado, muito elegante, e que transportara na viagem todos os seus hábitos de grande dama, inclusive uma secretária e a artista Tarsila do Amaral. Rodamos grande parte do interior de Minas. Em certa cidade, fomos objeto da curiosidade popular, devido ao grande número de pessoas e de bagagens. E, quando procedíamos a contagem das malas no hotel, fui abordado por um popular que desejava saber se éramos do circo. Aí, num momento de inspiração, perguntei a Tarsila: E os elefantes, onde estão?... Não se pode calcular o sucesso da pseudo-companhia de circo na cidadezinha tranqüila.” (ANDRADE, Mário de. “Entrevista”. In: Folha de Minas, 1939).

7) Em 1926, férias na “chacra” de Tio Pio, isto é, na Chácara da Sapucaia, em Araraquara. Primeira versão de Macunaíma, entre 16 e 23 de dezembro; a segunda, entre a última data e 13 de janeiro. O título não traz o aposto; os capítulos são dezessete, seguidos pelo epílogo. De acordo com o índice do primeiro momento, o capítulo final tinha por título “Torre Eiffel”. Dezembro: Férias em Araraquara.

- No depoimento de Gilda e Antonio Candido de Mello e Souza (professores da Universidade de São Paulo), na Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, SP, 36 – 1994, na Apresentação intitulada “A Lembrança Que Guardo de Mário”, na pág. 9, Gilda dá o seguinte depoimento:

“Deve ter sido no verão de 1926, depois da estadia costumeira na chácara que, vindo terminar as férias em nossa fazenda, brindou-nos com uma versão expurgada de Macunaíma. Tinha acabado de montar a narrativa na chácara, em seis dias de trabalho ininterrupto e, provavelmente, se divertia em testar os achados de sua grande criação junto a um público infantil, ávido de peripécias, afeito à esperteza dos bichos e ao mau caratismo dos gigantes. Era com ansiedade que esperávamos o cair da tarde, quando a porta de seu quarto se abria pra o corredor e ele já encontrava de banho tomado, acocorados no chão.
Te tudo que nos transmitiu, naquelas sessões memoráveis do terraço, guardamos sobretudo a imagem aterrorizadora do gigante Piaimã, que, como vou relatar, não nos apresentou como o duplo de Venceslau Pietro Pietra. Impulsionado pela nossa exaltação, nosso pavor crescente, o nervosismo de nossos apartes, ia fazendo alterações sucessivas no relato e incorporando-as, divertido, à nossa experiência local. Ora, aconteceu que meu pai atravessava um período tenso e perigoso, mantendo com um sitiante da redondeza, de nome Arinari, uma disputa por causa de caminhos. Todas as vezes que se preparava para ir à cidade, nós o víamos pôr o revólver na cintura e avisar minha mãe que, se encontrasse por acaso a passagem bloqueada, não responderia pelo que pudesse acontecer. (...).
Mário nos encontrou nessa atmosfera de presságios e, como era levemente sádico com as crianças, em vez de atenuá-las, explorou-a para curtir melhor a nossa reação. Uma tarde em que provavelmente nos encontrou mais motivados e receptivos, não se conteve: demorou-se na caracterização diabólica do terrível gigante e quando este já havia assumido aos nossos olhos a malvadeza absoluta do INIMIGO, perguntou com voz cavernosa: “E vocês sabem quem era afinal o gigante Piaimã?” Esperou uns segundos, correu os olhos pelo nosso pavor deliciado e, como ninguém conseguisse responder, concluiu sinistro: “O gigante Piaiamã era o ASINARI!”. Para nós quatro que o ouvíamos, Maria com dez anos, Carlos com oito, eu com seis, Fernando com quatro, foi a emoção mais violenta de nossa infância”. (...).

Ainda em 1926, Mário havia projetado uma viagem para o Nordeste, pensando talvez realizar o que chama “trabalho etnográfico”, ou seja, coleta de documentação. Numa carta de 19 de maio de 1926, Mário conta esse seu plano de viagem ao amigo Manuel Bandeira. Porém, os planos de Mário não se concretizaram nesse ano, mas sim em 1927.

8) 1927 - Primeira viagem do Turista Aprendiz, ao norte, entre maio e agosto. A 7 de maio, Mário parte de São Paulo para encontrar-se com os companheiros no Rio e juntos tomarem o vapor “Pedro I”, do Loide Brasileiro. No dia 13 de maio, partem do Rio de Janeiro a chamada “Comitiva da Rainha do Café” – D. Olívia Guedes Penteado, Paulo Prado, Mário de Andrade, Margarida Guedes Nogueira (Mag), sobrinha de D. Olívia, e Dulce do Amaral Pinto (Dolur), filha de Tarsila do Amaral. A excursão percorre grande parte da Amazônia, chegando a Iquitos e Nanai no Peru e à fronteira da Bolívia. Durante a viagem Mário escreve o diário do Turista Aprendiz, mas não o publica em vida (edição póstuma em 1977). O diário, as fotos da viagem e as legendas testemunham a repercussão da viagem em Macunaíma. Mário tinha um propósito nessas suas viagens: “conhecer o povo brasileiro”. D. Olívia era a Rainha do Café. Todas as cidades do Norte-Nordeste, onde tinham sido projetadas as paradas do vapor Pedro I, os políticos locais receberam essa mensagem:

“Recebam a Comitiva da Rainha do Café, Dona Olívia Guedes Penteado”.

Provavelmente numa dessas paradas da Comitiva no Estado do Pará, assim está narrado no livro Mário de Andrade – O Turista Aprendiz – Editora Duas Cidades, em co-edição com a Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia, SP, 1976 – com Estabelecimento de Texto, Introdução e Notas de Telê Porto Ancona Lopez, págs. 149 e 150:

“(...). Pelas oito horas chegou-se a Porto Velho, com Sto. Antonio do Mato Grosso, ma mesma margem, no outro estado do Brasil, a meia hora de olhar. Recepção oficial. Uma escola pública, com a professora num estado maravilhoso de elegância gorduchinha, coisa linda! acompanhando dona Olívia. Apresentações em penca. Visitas. Mercado sem caráter. Jornal. Almoço a bordo. Enfim posso sair mais livremente. Telegrafo. Fotografias.
- Dr. Mário de Andrade, secretário da Rainha do Café.
Desta vez arrebentei, porque arrebentei!
- Mas... eu não sou secretário de Dona Olívia...
- Mas!... o Sr. não veio na companhia dela, então!
- Sim... somos muito amigos, viemos...
- Então o Sr. está fazendo a viagem por sua conta!!!
Nem era possível zangar com o homem, tal o pasmo dele, vendo alguém que não era uma rainha enfarada e decerto meia maluca, andar passeando por aquelas paragens. (...)”.


Após esse acontecimento, eis aqui o ponto planejado deste texto, e que pode ser definido como “pitoresco” na vida de Mário de Andrade:

No jornal O Estado do Pará, foi editado matéria sobre a Comitiva visitante, onde o colunista, no texto, provavelmente tenha sido o mesmo que dialogou com Mário de Andrade, conforme descrito acima, talvez supondo que Mário de Andrade estivesse escondendo sua verdadeira identidade ou patente, ou não tendo mesmo o que escrever sobre Mário, inventou:

“Dr. Mário de Andrade, Secretário particular de S. Excia. o Dr. Washington Luiz quando presidente de S. Paulo”.

Mário não se conformou. Havia sido confundido como Secretário da Rainha do Café (D. Olívia Penteado). Negara. Então, imediatamente escreveu uma carta que foi editada naquele jornal, como segue, inclusive não sendo alterada a grafia:


UMA CARTA

O distineto literato dr. Mario de Andrade, que fez parte da comitiva da exma. sra. Guedes Penteado, enviou-nos hontem a seguinte carta:

Sr. redator d’O ESTADO DO PARÁ

Li hoje no seu excellente jornal as saudações amáveis que essa redacção dirigiu á exma. sra. Guedes Penteado e seus companheiros desta viagem pelo valle amazônico. Venho lhe trazer os nossos agradecimentos muito sinceros.

E aproveito o momento para uma retificação. O seu jornal me deu como secretario particular de S. Excia. o Dr. Washington Luiz quando presidente de S. Paulo. Não o fui e me apresso em retirar dos hombros essa benemerência. E o faço com a maxima liberdade pois que pelo que já experimentei posso afirmar a desnecessidade de qualquer titulo para que um brasileiro seja recebido fraternalmente por este povo admiravel do Pará.

Certo de que esta rectificação terá acolhida no seu jornal, sou do sr. Redactor o mais grato dos patricios.

MARIO DE ANDRADE

O texto acima, como já mencionado, era a temática principal deste texto. O objetivo, principalmente para quem estuda e – ou pesquisa a vida do autor macunaímico, e mesmo para quem está tendo contato pela primeira vez, é deixar cravado que “realmente” a vida de Mário de Andrade foi mesmo “trezentos, trezentos e cinqüenta, e sessenta e setenta e...

O historiador Robério Braga, em seu artigo “Mário de Andrade em Manaus", no site www.visitamazonas.com.br/, narra que Mário de Andrade, ao chegar em Manaus foi recebido como:

“Famoso, figura de proa do movimento modernista que explodira em 1922, (....)”.

Robério, inclusive narra parte de uma entrevista de Mário de Andrade falando de Manaus:

“Manaus é uma deliciosa mulher de duas idades.
Manaus foi uma virgem linda.
Hoje é uma mulher fecunda que ainda traz na sua atualidade a presença do passado.
Nos tempos áureos da borracha viveu se enfeitando: vosso teatro, vosso monumento a abertura dos portos amazônicos, vosso Palácio Rio Negro, inda são as jóias desse tempo leviano. Depois... jucurutu agourenta regongou os vossos telhados”.

Assim era Mário. Por onde passava deixava sua marca registrada. Quando ficava em silêncio realizando suas pesquisas, tirando suas fotos, pensando, meditanto ou fazendo suas anotações, as pessoas falavam dele o que bem entendiam, dando ao nosso Mário vários títulos, encargos e denominações que até hoje ainda vão aos poucos sendo descobertas pelos pesquisadores - trazendo para nós a certeza de que Mário de Andrade, além de escritor, poeta, colecionador, palestrante, romancista, contista, missivista, crítico, trezentos, trezentos e cinqüenta, etc... foi imã de fatos, casos, causos, lendas, histórias e historietas totalmente hilariantes e pitorescas. Esse FOI, É e SERÁ para sempre o nosso Mário.

Somente para concluir, Mário ainda deixaria sua Paulicéia em:

- 1928: Entre dezembro de 1918 até início de março de 1929, realiza a segunda “viagem etnográfica”, demorando-se no nordeste destinado a recolher dados e documentos sobre a música, o folclore, danças dramáticas, romances e a cultura popular da região, etc. Encontra no nordeste com Chico Antônio, cantador que reputa genial; transforma-o em personagem do romance abandonado O Café e de Vida do cantador (1944).
- 1929: Em junho, conferencista disputado, fala em Piracicaba sobre a música brasileira
- 1934: Em janeiro “estação de águas”, viaja para Lindóia – estado de São Paulo. Faz conferência sobre o assunto na Sociedade Felipe de Oliveira, do Rio; trabalho com os documentos recolhidos na viagem ao Nordeste.
- 1938: Em 27 de junho, transfere-se para o Rio de Janeiro. Com a ditadura (“Golpe Fascista”, diria Paulo Duarte) implantada em 10 de novembro de 1937, em maio, é demitido do Departamento de Cultura, em 12 de maio), regressando a São Paulo somente em fevereiro de 1941.
- 1942: Realiza, a convite da Casa do Estudante do Rio de Janeiro, em 30 de abril, a conferência “Movimento Modernista”, no salão do Itamarati.
- 1944: Em setembro, viagem a Belo Horizonte para conferências.
- 1945:
dia 25 de Fevereiro, deixa São Paulo... para sempre.

FONTES PESQUISADAS:

- Andrade, Mário de. A Imagem de Mário - Criação Editorial e Direção Gráfica de Salvador Monteiro e Leonor KAZ - Seleção de Textos e Introdução de Telê Porto Ancona Lopez e Equipe do IEB/USP. Edições Alumbramento: Livroarte Ed. 1984 - RJ.
- Andrade, Mário de. Taxi e Crônicas no Diário Nacional - Estabelecimento de Texto e Introdução de Telê Porto Ancona Lopez; IEB/USP - Livraria Duas Cidades, em co-edição com a Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia de São Paulo - 1976.
- Andrade, Mário de. O Turista Aprendiz - Estabelecimento de texto, Introdução e Notas de Telê Porto Ancona Lopez - IEB/USP - Livraria Duas Cidades, em co-edição com a Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia de São Paulo - 1976.
(Luiz de Almeida - Texto elaborado para estudos nas Oficinas Literárias da Exposição "RETALHOS DO MODERNISMO" - 2008).

sexta-feira, 20 de junho de 2008