terça-feira, 6 de setembro de 2016

RODRIGUES DE ABREU



 RODRIGUES DE ABREU, O POETA:
ROMÂNTICO, SIMBOLISTA OU MODERNISTA?


Introdução

“O grande artista é o poeta, que torna visível o invisível”.
(Sérgio Milliet)

O objetivo deste trabalho é tornar visível a pessoa e a obra do poeta tísico Rodrigues de Abreu. Certamente, caso sua obra fosse exaustivamente divulgada, de nada precisaria, mas não é isso que acontece. A invisibilidade cultural literária brasileira para com determinados personagens é degradante. Então, o Blog Retalhos do Modernismo, atendendo aos seus propósitos, simples e diretos, um deles, que nada mais é: “relembrar” (ou seria ‘tornar visível’) através de postagens sintetizadas, a vida e a obra daqueles que realmente merecem visibilidade. Não existe a intenção de trazer novos ensinamentos, pois estaria sendo soberbo em demasia depois de conhecer as obras sobre Rodrigues de Abreu, de autoria de José Roberto Guedes de Oliveira e Carlos Lopes de Mattos, que foram as bases da pesquisa.

Facilitar a pesquisa e divulgar os literatos, músicos e artistas plásticos pré-modernistas, os grandes personagens da Semana de Arte Moderna de 22 modernistas, os da 1ª fase do Modernismo no Brasil, tudo isso é pertinente ao Blog Retalhos do Modernismo e intrínseco aos seus objetivos.

Rodrigues de Abreu foi modernista? Não foi um poeta simbolista ou romântico?

Rodrigues chegou a mencionar a Hildebrando Siqueira:
“Não pude ainda me libertar deste romantismo piegas. Dizem que é mal de família. (...). A minha educação é de seminário. É difícil livrar-me, não é? Mas, você não acha que artificialismo e intelectualismo são ainda piores que lamúrias de Cassimiro de Abreu?”.

Vários críticos literários colocam Rodrigues, hora num, hora noutro “movimento”. Particularmente, não sendo um crítico literário, incluo Rodrigues apenas como: “O único Poeta que escreveu simbolicamente a vida de forma romântica e moderna”. Neste estudo não me importei, mesmo depois de ler vários depoimentos críticos, evidenciar uma classificação nos ismos. Creio ser desnecessária. Simplesmente me apaixonei pela obra e sofri... Meu Deus... Pela vida, curta como foi a de um dos meus filhos, a de Benedicto Luís Rodrigues de Abreu. E posso afirmar:

- A pessoa de Rodrigues de Abreu foi tão apaixonante quanto sua obra. Ele sofreu e chorou muito. Sua obra é repleta de dores e lágrimas. A humildade, a simplicidade e a pobreza do tísico Abreu são visíveis em cada poema, tornando invisíveis na forma e no estilo. Ao falar de Rodrigues de Abreu devemos fazer genuflexão. Não que tenha sido um santo. Mas seu caráter e sua obra requerem.

Muitos foram os letristas que se apaixonaram extasiados pelos textos de Rodrigues, tais como: Amadeu Amaral, Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Menotti Del Picchia, Drummond de Andrade, Plínio Salgado. Paulo Setúbal chegava às lágrimas ao ler poemas de Rodrigues. Eram amigos. Para Plínio Salgado, “Rodrigues foi maior do que todos os nossos fazedores de estilos”. Menotti Del Picchia disse: “Rodrigues de Abreu é um dos maiores poetas brasileiros... É o Cristo da nova geração”.

Atualmente Rodrigues de Abreu é reverenciado em Capivari, sua terra natal, e em Bauru, onde repousa seus restos mortais. É muito pouco. Rodrigues é ainda um poeta invisível aos mundos literário e cultural paulista e brasileiro.

Após tempo pesquisando, cheguei a cometer o sacrilégio de pensar que Rodrigues de Abreu poderia ter sido indicado para a Academia Brasileira de Letras. Não... Enganei-me. Atualmente, as atitudes dessa instituição são de intensa lugubridade. As atividades recentes da Academia tem feito Machado de Assis “rolar no túmulo”, como cita o dito popular. Na verdade, foi mesmo um sacrilégio ter pensado Rodrigues de Abreu acadêmico. A Academia não merece Rodrigues de Abreu. Ela é muito pequena para Rodrigues de Abreu. Fique ela com seus nefastos políticos metidos a escritores e continue homenageando jogadores de futebol e politiqueiros de ocasião. Que mediocridade!!! É de provocar vômitos.

Fui até Bauru. Visitei a biblioteca que leva o nome imponente de: Biblioteca Municipal Rodrigues de Abreu. Não poderia deixar de visitar, na Rua 4, Quadra 5, do Cemitério da Saudade, o jazigo perpétuo do poeta. Um tisco naquela imensidade tumular... Humilde, mas com pedras robustas, carinhosamente escolhidas por amigos. Até o epitáfio é tão raquítico como era o físico daquele que agora ali repousa. E mais uma vez, mesmo no silêncio tumular, Rodrigues de Abreu ainda faz-nos chorar.
 Fotos de Luiz de Almeida

Nesta Síntese Biográfica, o Blog Retalhos do Modernismo espera despertar ainda mais o interesse, principalmente daqueles que ainda não tiveram o privilégio e conhecer a vida e a grande obra literária desse ícone, dantes simbolista, romântico e convertido ao modernismo. Procurem pelos livros que falam de Rodrigues e os das suas obras, mencionados nesta Síntese. Caso alguém tenha interesse por algum poema, carta ou a apostila do Rodrigues com esta Síntese Biográfica, entre em contato, pois o blog disponibiliza link para que isso seja feito. Critiquem, sugiram, comentem... Mas não deixem de conhecer a obra daquele que Jácomo Mandatto (1933-2009), escritor, historiador, poeta e jornalista, que carinhosamente classificou Rodrigues de Abreu de: “O Primo Pobre do Modernismo Brasileiro”.

Luiz de Almeida

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SÍNTESE BIOGRÁFICA

NOTAS:

1 - Em letras azuis: a Síntese Biográfica com dados da vida e obra de Rodrigues de Abreu;
2 – Para facilitar a leitura o nome Rodrigues de Abreu foi abreviado por RA na descrição biográfica, conservando o nome completo nos textos de terceiros;
3 – Nos Adendos “Cultural, Brasil e Geral”, foram descritas informações históricas referentes ao ano indicado;
4 – As referências não adicionadas no bojo do texto estão descritas na Bibliografia Utilizada para Pesquisa e em Outras Fontes Pesquisadas, no final do texto;
5 – O Blog Retalhos do Modernismo disponibiliza, em pdf, a Síntese Biográfica com outros textos, bastando os interessados solicitarem através do “Entre em Contato”, janela disponibilizada na página de rosto do Blog, como também poderão utilizar dessa mesma janela para notificar o Blog, caso sejam encontrados dados incorretos no bojo da Síntese Biográfica e mesmo sugerir dados inexistentes.


1897
– 27 de setembro: nasce Benedito Luís Rodrigues de Abreu, na fazenda Picadão, município de Capivari (cidade fundada em 1832), São Paulo, fazenda de propriedade do Dr. Albano do Prado Pimentel. Seus pais, Narciso Rodrigues de Abreu (vulgo Nhozinho) e Leonor Rodrigues da Silva (Na certidão de nascimento aparece com o nome de solteira: Leonor Ribeiro da Silva). Os pais de RA casaram-se em 15 de março de 1896, na igreja Santa Efigênia, em São Paulo. Logo após o casamento mudaram para Capivari, trabalhando no setor agrícola, plantação de café em terras de Albano do Prado Pimentel, empreitada realizada pelo tio de RA, irmão de Da. Leonor. Em 10 de dezembro, em Capivari, data do batizado de RA, realizado pelo Pe. Manoel José Marques (Permaneceu em Capivari de 1890 a 1907. Faleceu em 1919), os pais também registraram Benedito. No registro aparece apenas o nome: “BENEDICTO”. Assinou como testemunha do registro de Benedito, José do Prado Vicente, futuro pai daquela que seria o grande amor, a grande paixão do poeta.

 Reprodução pelo processo digital
- RA teve como irmão, Agatângelo Rodrigues de Abreu (faleceu em 1929), e como irmã, Anésia Rodrigues de Abreu, que foi casada com o bauruense Gabriel Cara Ruiz.
Adendo Cultural: 28 de julho: numa sala do Museu Pedagogium, Rua do Passeio (RJ), realizou-se a sessão inaugural da Academia Brasileira de Letras, sob a presidência do escritor Machado de Assis (1839-1908) e com a presença de dezesseis acadêmicos. O discurso inaugural foi feito por Joaquim Nabuco (1849-1910).
Adendo Brasil: Janeiro: inauguração do telégrafo submarino entre Rio de Janeiro e Pernambuco. 22 de setembro: morte do Antonio Conselheiro (Antônio Vicente Mendes Maciel). Nasceu em Quixeramobim (Ceará) em 13 de março de 1830 e faleceu em Canudos (Bahia) em 22 de setembro, líder da comunidade da cidade de Canudos (Bahia), onde ocorreu a Guerra dos Canudos. Em outubro: fim da Guerra dos Canudos, que morreram mais de 25 mil pessoas e a cidade de Canudos foi destruída. O escritor Euclides da Cunha (1866-1909) era repórter do O Estado de S. Paulo e foi designado para fazer a cobertura dos acontecimentos em Canudos. No livro Os Sertões, Euclides descreve como era a comunidade de Canudos liderada pelo beato Antonio Conselheiro. Pudente de Morais (1841-1902) era o presidente do Brasil. 12 de dezembro: Ouro Preto deixou de ser a capital de Minas Gerais, cedendo lugar para a recém-construída “Cidade de Minas”, que, em 1991, passaria a se chamar Belo Horizonte.
Adendo Geral: O ilusionista espanhol Enrique Moya aluga uma sala no número 109 da rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro, e ali instalou o Cinematógrafo Edison, primeiro salão de cinema permanente no Brasil. O físico inglês Joseph John Thomson (1856-1940) anuncia em 30 de abril, na Royal Institution, a descoberta do elétron (eletricidade negativa). Até então o átomo era considerado como a menor parte da matéria. Thomson receberia o Prêmio Nobel de Física em 1906.

1898 – (Nenhum registro encontrado sobre RA)
Adendo Cultural: Dia 15 de fevereiro, o Teatro São José, construído próximo ao largo de São Gonçalo (hoje Pça João Mendes), em São Paulo, foi destruído por um incêndio. São Paulo ficava sem teatro. 12 de março, em Santos (SP): nasce o escritor Ribeiro Couto (faleceu em 1963). 14 de março: morre de tuberculose o poeta catarinense, Cruz e Souza, aos 37 anos, na cidade de Sítio (MG). O poeta é considerado o mais importante escritor simbolista da literatura brasileira. Nasce o futuro amigo de RA, Agnelo Rodrigues de Melo, que seria conhecido pelo pseudônimo de Judas Isgorogota (jornalista e poeta), em Lagoa da Canoa, município de Traipu, em Alagoas. 4 de agosto: nasce em Pinhal, município de Santa Maria (RS), o poeta Raul Bopp (faleceu em 1984), autor de Cobra Norato. 20 de setembro: nasce em S. Paulo o escritor modernista, crítico de artes Sérgio Milliet (faleceu em 1966).
Adendo Brasil: Campos Sales (1841-1913) inicia seu governo como presidente da República que findará em 1902. Vital Brasil (1865-1950), no Instituto Bacteriológico de São Paulo, descobre o primeiro soro eficaz contra a picada de cobras.
Adendo Geral: O físico italiano, Guglielmo Marconi (1874-1937), durante exposição em Londres patenteou o seu telégrafo sem fio, e mais tarde, a radiodifusão. Na França, Santos-Dumont (1873-1932), em setembro, passeava pelos céus de Paris no Santos-Dumont nº 1, um balão com um motor a gasolina e provido de hélice e leme.

1899 – (Nenhum registro encontrado sobre RA)
Adendo Cultural: Amadeu Amaral (1875-1929), conterrâneo de RA, publica seu primeiro livro Urzes. 16 de junho, no Rio de Janeiro: nasce o poeta Dante Milano. 14 de julho: nasce em Campinas (SP), outro escritor modernista: Carlos Tácito Alberto de Almeida Araújo (Tácito de Almeida, faleceu em 1940), irmão do poeta Guilherme de Almeida (1890-1969). 10 de Agosto, na cidade de Amparo da Barra Mansa (RJ): nasce Flávio de Carvalho (faleceu em 1973), futuro artista plástico e amigo de RA.
Adendo Brasil: Sugerido por Adolpho Lutz (1855-1940), o Governo do Estado de São Paulo criou, na capital, o Instituto Soroterápico (futuro Butantã), que seria dirigido por Vital Brasil.
Adendo Geral: A Primeira Conferência da Paz teve lugar em Haia, Holanda, no período que se estendeu de 18 de maio a 19 de julho. A ela compareceram delegados de 26 países: 20 europeus, ou seja, a totalidade dos países da Europa na época; quatro asiáticos, China, Japão, Pérsia e Sião, e dois do continente americano, EUA e México. O Brasil não enviou nenhum representante.

1900 – (Nenhum registro encontrado sobre RA)
Adendo Cultural: Nasce, em Belo Horizonte (MG), a artista plástica modernista Zina Aita (faleceu na Itália em 1967).
Adendo Brasil: Comemorações do IV Centenário do Descobrimento do Brasil. 7 de maio: em São Paulo, foi inaugurada a primeira linha de bonde elétrico, com destino ao bairro da Barra Funda.

1901 – (Nenhum registro encontrado sobre RA)
Adendo Cultural: Nasce na cidade de São Paulo o escritor Alcântara Machado (faleceu em 1935), um dos fundadores da revista Terra Roxa e Outras Terras, autor de Brás, Bexiga e Barra Funda. Nasce o escritor paraibano José Lins do Rego. Em Juiz de Fora (MG), nasce o poeta Murilo Mendes. No Rio de Janeiro nasce a poeta Cecília Meireles (faleceu em 1964). Ainda em São Paulo, em 19 de maio, nasce o poeta bissexto Luís Aranha (faleceu em 1987), participante da Semana de 22 e da Revista Klaxon;
Adendo Brasil: 19 de outubro: Santos-Dumont pilotando o balão nº 6, dá a volta em torno da torre Eiffel, em Paris, percorrendo 11 quilômetros.

1902 – (Nenhum registro encontrado sobre RA)
Adendo Cultural: 31 de outubro: nasce em Itabira (MG), o poeta Carlos Drummond de Andrade, ano em que foi publicado Os Sertões, de Euclides da Cunha e Canaã, de Graça Aranha (1868-1931).
Adendo Brasil: 15 de novembro: Rodrigues Alves (1848-1919) assume o poder como presidente do Brasil e começa a reconstruir e sanear o Rio de Janeiro. Irá governar até 1906.

1903 (Nenhum registro encontrado sobre RA)
Adendo Cultural: 5 de junho: início das obras do futuro palco da Semana de Arte Moderna de 1922, o Teatro Municipal de São Paulo, um projeto de Ramos de Azevedo (1851-1928).
Adendo Brasil: 28 de maio: em São Paulo, realiza-se o II Congresso Socialista (o I é de 1892), que funda o Partido Socialista do Brasil. No Rio de Janeiro acontece novo surto de febre amarela. Também no Rio, em agosto, acontece uma greve geral pela jornada de 8 horas e por melhores salários. Em novembro: o Acre é incorporado ao Brasil, mediante indenização à Bolívia de 2 milhões de libras esterlinas, pelo Tratado de Petrópolis. Oswaldo Cruz (1872-1917) inicia campanha de saneamento para combater a febre amarela no Rio de Janeiro.

1904
– A família muda-se para Recreio, próxima de Piracicaba, São Paulo, residindo na zona rural, onde RA inicia seus primeiros estudos numa escola rural. Fez todo curso primário, quatro anos, no Externato Sagrado Coração de Jesus, em Piracicaba;
Adendo Cultural: 15 de julho: nasce na cidade de Lambari (MG), a poetisa Henriqueta Lisboa (faleceu em 1985).
Adendo Brasil: Inaugurado o primeiro cinema brasileiro no Rio de Janeiro. 31 de outubro: Aprovada a lei de vacinação obrigatória contra a varíola. No Rio de Janeiro explode a revolta popular contra a vacinação obrigatória.

1905 (Nenhum registro encontrado sobre RA)
Adendo Cultural: 2 de janeiro: início das obras para construção do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Surge no Rio de Janeiro a primeira revista brasileira de histórias em quadrinhos para crianças: O Tico-Tico. 17 de dezembro: nasce o escritor Érico Veríssimo.
Adendo Brasil: Em Bauru (SP), a cidade que acolheria RA na década de 20, chegava a Estrada de Ferro Sorocabana, ligando Bauru à cidade São Paulo pelo ramal de Botucatu (SP). No ano seguinte (1906), começava em Bauru a abertura da Estrada de Ferro Noroeste. Lançadas as candidaturas para presidente e vice-presidente de Afonso Pena (1847-1909) e Nilo Peçanha (1867-1924). A Light, empresa canadense fundada em 1899, começa sua atuação no Rio de Janeiro. Já atuava na cidade de São Paulo.

1906 (Nenhum registro encontrado sobre RA)
Adendo Cultural: Criado em S. Paulo o Conservatório Dramático e Musical.
Adendo Brasil: No Rio de Janeiro acontece a Conferência Pan-Americana. Em Taubaté (SP) é assinado o “Convênio de Taubaté”, visando favorecer os cafeicultores. Início das primeiras greves operárias no Brasil. 15 de novembro: posse do presidente da República Afonso Pena e o vice Nilo Peçanha. Irão governar até 1909.
Adendo Geral: 23 de outubro: primeiro voo em avião, o 14-Bis, por Santos-Dumont, em Paris.

1907 (Nenhum registro encontrado sobre RA)
Adendo Cultural: No Rio surge a revista Fon-Fon! - que foi o reduto dos simbolistas. O artista espanhol Pablo Picasso (1801-1973), (Registrado com o nome: Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno María de los Remedios Cipriano de la Santísima Trinidad Martyr Patricio Clito Ruíz y Picasso), lança o Cubismo.
Adendo Brasil: Em maio: começa uma greve geral em São Paulo, onde os trabalhadores reivindicam a jornada de 8 horas de trabalho e aumento salarial. A greve durou um mês.
Adendo Geral: Ocorre a II Conferência de Paz em Haia, de 15 de junho a 19 de outubro. Compareceram não só delegações dos Estados que participaram do primeiro encontro, mas também a Noruega (já, então, separada da Suécia), a Argentina, a Bolívia, o Brasil, o Chile, a Colômbia, Cuba, República Dominicana, Equador, Guatemala, Haiti, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, Salvador, Uruguai, Venezuela e Honduras. O Brasil é representado pelo senador Rui Barbosa (1849-1923).

1908 (Nenhum registro encontrado sobre RA)
Adendo Cultural: 29 de setembro: morte de Machado de Assis, escritor e fundador da Academia Brasileira de Letras. Nasce o escritor Guimarães Rosa. No Rio de Janeiro é lançado o filme do cinematógrafo Pathé, Nhô Anastácio Chegou de Viagem, considerado a primeira comédia nacional. Surge no Rio a revista Careta que foi reduto dos parnasianos.
Adendo Brasil: 7 de abril: o socialista Gustavo de Lacerda (1854-1909), funda a Associação de Imprensa, mais tarde Associação Brasileira de Imprensa (ABI), com objetivo de defender a liberdade de expressão e os interesses dos jornalistas. Em maio: aprovada é aprovada a Lei do Serviço Militar obrigatório, iniciativa do marechal Hermes da Fonseca (1855-1923), então Ministro da Guerra. Em Bauru (SP), era inaugurado o Sistema de Telefonia.

1909
A família muda-se para a cidade de São Paulo, residindo no Bairro do Brás, Rua Maria Marcolina. RA inscreveu-se no Grupo Escolar daquele bairro. Logo depois a família muda-se para a Vila Buarque, onde passa a trabalhar como lavador de frascos e como entregador numa farmácia;
Adendo Cultural: Lima Barreto (1881-1922) surge no cenário literário com Recordações do Escrivão Isaías Caminha. O escritor italiano Filippo Marinetti (1876-1944) lança o Primeiro Manifesto Futurista. 14 de julho: inauguração do Teatro Municipal do Rio de Janeiro pelo presidente Nilo Peçanha, com capacidade para 1.739 espectadores. 15 de agosto: assassinato do escritor Euclides da Cunha por Dilermando de Assis. 29 de novembro: Joaquim José de Carvalho (1850-1918) funda a Academia Paulista de Letras.
Adendo Brasil: 15 de junho: morre o presidente Afonso Pena. Posse de Nilo Peçanha. Seu governo terminará no ano seguinte. A campanha para presidência da República, em 1909-10, foi a primeira efetiva disputa eleitoral da vida republicana. O marechal Hermes da Fonseca, sobrinho de Deodoro, saiu candidato com o apoio do Rio Grande do Sul, de Minas Gerais e dos militares. São Paulo, na oposição, lançou a candidatura de Rui Barbosa, em aliança com a Bahia.
Adendo Geral: Santos-Dumont, em 13 de novembro, em Paris, apresenta outro avião construído por ele, o Demoiselle, oito vezes menor que o 14-Bis, e capaz de voar a 96 km por hora.

1910/11
RA foi internado no “Liceu Coração de Jesus”, dos padres Salesianos, em Lorena (SP), para aprender um ofício;
Adendo Cultural: 9 de junho de 1910: nasce em São João da Boa Vista (SP), Patrícia Rehder Galvão, a Pagu (faleceu em 1962). Em 26 de setembro de 1910: nasce Carlos Lopes de Mattos. Foi filósofo, professor e escritor. Pesquisador de RA, publicou em 1986 o livro: Vida, Paixão e Poesia de Rodrigues de Abreu. Faleceu em Capivari, em 1993. Em agosto de 1911, Oswald de Andrade (1890-1954) e Emílio de Menezes fundam o semanário humorístico O Pirralho. Em 1911, Mário de Andrade (1893-1945) ingressa no Conservatório Dramático e Musical, em São Paulo. 12 de setembro: com apresentação da ópera Hamlet, de Ambrósio Thomas, é inaugurado o Teatro Municipal de São Paulo. 14 de setembro: Morre o poeta Raimundo Correia. Graça Aranha publica Malazarte. Lima Barreto inicia a publicação de Triste Fim de Policarpo Quaresma em folhetins pelo Jornal do Comércio do Rio de Janeiro.
Adendo Brasil: Hermes da Fonseca era eleito presidente da República, em 1º de março de 1910 e, em 15 de novembro toma posse, abalando a “política do café com leite” pondo em prática a chamada “política das salvações”, visando assim acabar com as oligarquias cafeeiras e concentrar o poder. Durante o governo de Hermes da Fonseca ocorreu a Revolta da Chibata (*) no Rio de Janeiro, de 22 a 27 de novembro. Foi um levante de cunho social, realizado em subdivisões da Marinha, sediadas no Rio de Janeiro. O objetivo era por fim às punições físicas a que eram submetidos os marinheiros, como as chicotadas, o uso da santa-luzia e o aprisionamento em celas destinadas ao isolamento. Os marinheiros requeriam também uma alimentação mais saudável e que fosse colocada em prática a lei de reajuste de seus honorários, já votada pelo Congresso. Hermes da Fonseca governou até 1914. O ano de 1910 a tuberculose, considerada Mal do Século, matou mais 3 mil pessoas no Rio de Janeiro. Em 16 de março de 1911, era inaugurado o Sistema de Iluminação na cidade de Bauru (SP).
(*) Santana Mirian, Ilza. In: http://www.infoescola.com/historia/revolta-da-chibata/ - Acesso em junho/2016.

1912
- Os padres acreditavam que RA tinha forte vocação para o Sacerdócio e o encaminharam como aspirante para Cachoeira do Campo, Minas Gerais;
Adendo Cultural: Ronald de Carvalho (1893-1935) publica seu primeiro livro de poesias: Luz Gloriosa.
Adendo Brasil: Em S. Paulo, 17 de maio, começam as greves operárias reivindicando aumento de salário devido o aumento da inflação. Francisco de Paula Rodrigues Alves é o governador do Estado de São Paulo. Seu governo termina no ano seguinte.

1913
- Cursando o segundo ano, RA foi acometido de grave doença nervosa que o forçou a abandonar os estudos e regressar a São Paulo, tratando-se no Instituto Jaguaribe. Nesse ano, RA toma conhecimento das artes literárias e poéticas;
Adendo Cultural: 19 de outubro: nasce no Rio de Janeiro, Vinícius de Moraes. Mário de Andrade é contratado como professor do Conservatório de São Paulo, para lecionar História da Música. Menotti Del Picchia (1892-1988) publica seu primeiro livro de poemas: Poemas do Vício e da Virtude: 1907-1913. Lasar Segall (1891-1957) faz sua primeira exposição individual, em São Paulo, inaugurada no dia 2 de março e encerrada a 5 de abril, à Rua São Bento, 85.
Adendo Brasil: 28 de junho: morre o ex-presidente Campos Sales.

1914
O colégio onde RA estudava é transferido para Lavrinhas, divisa com o Estado do Rio de Janeiro, no Colégio São Manuel. Estudou nesse Colégio durante três anos, até 1916;
Adendo Cultural: Morte do poeta paraibano Augusto dos Anjos. Anita Malfatti (1889-1964) realiza sua primeira exposição em São Paulo após seu retorno da Europa, em maio, à Rua 15 de Novembro, nº 26.
Adendo Brasil: 1º de março, Venceslau Brás (1868-1966) elege-se presidente da República e toma posse em 15 de novembro. É o retorno da política do “café-com-leite”.
Adendo Geral: Julho: na Iugoslávia, o Arquiduque austríaco Francisco Ferdinando é assassinado, em Sarajevo, por Gavrilo Princip, nacionalista sérvio. Esse acontecimento foi um dos estopins da Primeira Grande Guerra que teve início em 4 de agosto, quando a Alemanha declara guerra à França.

1915
– Segundo depoimento do Prof. Galvão de Castro foi nesse ano que RA compôs seu primeiro poema: “O Famélico”, inspirado em Pedro Ivo, de Castro Alves;
Adendo Cultural: Lima Barreto publica Numa e a Ninfa. Cassiano Ricardo (1895-1974) publica Dentro da Noite, seu primeiro livro de poemas.
Adendo Brasil: Nilo Peçanha toma posse com a retaguarda das tropas federais. Rodrigues Alves retorna a governar o Estado de São Paulo. Seu mandato termina no ano seguinte. É aprovado o Código Civil Brasileiro, disciplinando o Direito privado. 8 de setembro: o gaúcho Pinheiro Machado, nascido em 8 de maio de 1851, político influente na esfera federal, é assassinado no Rio de Janeiro.

1916
Outubro: RA deixa o seminário. Vai para São Paulo a procura de emprego. É admitido como professor de latim e português no Liceu Sagrado Coração de Jesus, dos padres salesianos. Nas Edições de Novembro (25/11) e Dezembro (9/12) da revista Ave Maria, são editadas poesias de RA:O Caminho do Exílio” e “A Virgem Maria”, onde o poeta assina “Benedito Abreu”:

O CAMINHO DO EXÍLIO

O imaculado céu, que foi pátria da aurora
e que cobre o país dos filhos de Israel,
cobria a caravana errante e sonhadora
no rumo que seguira Agar mais Ismael...
E mais o canto ardente e a voz larga e sonora
do Alarve dava vida à Pátria de Raquel...
E a tarde que descia, imaculada embora,
vertia uma saudade amarga como fel.
Entanto a Peregrina, a Rosa, a Maga, a Linda,
seguia silenciosa a inquieta caravana
perdendo a vista atrás, as terras da Judéia...
E tinha em seu olhar silente, meigo ainda
o pranto da saudade imensa da serrana
mansão de seus avós, da sua raça hebréia.

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A VIRGEM MARIA

As virações da tarde suspirantes,
pura Maria,
passam gemendo, gemem odorantes,
à flor das vagas tépidas errantes
à luz do dia
do teu nome celeste a melodia...
M A R I A !
E a vaga enfim, ao ser assim beijada,
tem mais poesia!
E a luz do dia pálida e magoada
- se acaso do teu nome é bafejada –
sua agonia
despe. Ridente brilha o que morria
M A R I A !
Porque Rosa, Tu és a mais formosa
Rosa, ó Maria!
Mais pura e linda e mais linda e saudosa
que a filha de Labão triste e chorosa,
doce Maria,
que ela, brilhando em meio da agonia
do ermo imenso, imensa como um dia
M A R I A !
Porque Raquel foi mística miragem,
bela Maria,
de Ti, do Rosto teu! Lassa visagem
que aparecia,
muito imperfeita mas de Ti imagem,
nas tendas do deserto em que vivia
M A R I A !
Linda Maria! quando eu vejo a vida,
calma Maria,
sem porto de esperança, a alma descrida,
na ventania
o fel vertendo vai, lágrima havida,
que me deixou sem luz, sem lar, sem dia,
M A R I A !
Mas Tu, deste deserto, pomba errante,
rósea Maria,
estende a mão do lânguido viajante!
Brilha ao triste pastor gemendo arfante,
doce Maria,
e eu cantarei a tua melodia
M A R I A !
Como o Alarve e também o Beduíno,
pura Maria,
te busco, ó minha Fonte!... Alvor divino
sana a ferida... O ocaso vespertino
e a ventania
chegam; nos braços teus, doce Maria,
acolho-me! Açucena, Virgem Pia
M A R I A !
Adendo Cultural: Oswald de Andrade e Guilherme de Almeida publicam Théâtre Brésilian (prosa).
Adendo Brasil: É publicado por Álvaro Bomilca estudo sobre o preconceito de raça no Brasil. Altino Arantes Marques (1876-1965) assume o governo do Estado de São Paulo.

1917
– Em São Paulo, RA como professor, permaneceu lecionando, até princípios de 1918, no Liceu Sagrado Coração de Jesus;
Adendo Cultural: Manuel Bandeira (1886-1968) publica A Cinza das Horas. Mário de Andrade, com o pseudônimo de Mário Sobral, publica Há uma gota de sangue em cada poema. Cassiano Ricardo publica A frauta de Pã. Guilherme de Almeida publica seu primeiro livro: Nós. Menotti Del Picchia: Juca Mulato e Máscaras. Ano marcado como o “ano chave” para o agrupamento dos intelectuais paulistas (entre eles: Mário e Oswald de Andrade, Guilherme de Almeida) logo após a exposição da pintora Anita Malfatti, em S. Paulo, Rua Líbero Badaró, iniciada no mês de dezembro e concluída em janeiro de 1918, quando Monteiro Lobato (1882-1948) publicou no “Estadinho”, órgão de “O Estado de S. Paulo”, o artigo “Paranóia ou Mistificação”, atacando violentamente a jovem artista. Sérgio Milliet (1898-1966) publica Par le Sentir (Pelo Tato), na França.
Adendo Brasil: 25 de outubro: os alemães afundam o navio brasileiro “Macau”. O Brasil declara guerra à Alemanha. Em São Paulo, greve geral imobiliza todo parque industrial. No Brasil acontece a famosa “queima” de 3 milhões de sacas de café com alegação de evitar a queda de preços no mercado internacional.
Adendo Geral: Acontece a Revolução de Outubro, na Rússia.

1918
– Em maio, a família retorna para Capivari. RA começa a trabalhar na Caixa de Crédito Agrícola, como guarda-livros. Começa a frequentar a redação da Gazeta de Capivari e do O Município, tornando-se colaborador de ambos. Em 2 junho, estreia com o soneto Capivari, na Gazeta e, Olhos Verdes, em O Município. Em 10 de junho, como narrado no O Município, por A. Serrano Castro Neves, RA foi orador numa sessão promovida pelo vigário, Cônego Samuel Fragoso, no teatro, em benefício do Asilo dos Inválidos. Desse dia em diante, o poeta passou a ser o orador oficial da cidade em todos os eventos. 12 de outubro: ressurge o “Capivariano Futebol Clube” e RA torna-se presidente da diretoria. 11 de novembro: de uremia, morre a mãe. Em 8 de dezembro é publicado no O Município, o poema: “Nas Trevas”. 28 de dezembro: morte de Olavo Bilac, e RA dedica-lhe um poema no O Município;
Adendo Cultural: Monteiro Lobato, em maio, adquiri a Revista do Brasil, que a manteve nos sete anos seguintes, até a falência dos seus negócios em 1925, totalizando 113 números. Publica Urupês. 18 de dezembro: morre Olavo Bilac. Lima Barreto remete a Monteiro Lobato os originais do Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá.
Adendo Brasil: A “gripe espanhola” faz milhares de vítimas. Em São Paulo morrem mais de 8 mil pessoas no mês de outubro. No Rio de Janeiro, a situação foi mais grave, pois morreram aproximadamente 17 mil pessoas. 1º de março: Rodrigues Alves é eleito presidente e, vitimado pela epidemia da “gripe espanhola”, falece em 16 de janeiro de 1919, sem tomar posse. Posse de Delfim Moreira da Costa Ribeiro (1868-1920), interinamente na presidência da República. Maria José Rebelo (1891-1936) é aceita no Ministério do Exterior, tornando-se a primeira mulher diplomata brasileira.
Adendo Geral: Em novembro, com a rendição dos alemães, é assinado o Armistício, pondo fim à Primeira Grande Guerra.

1919
– Na imprensa local aparece o nome de RA como centro avante do time “Capivariano Futebol Clube”. Em 20 de março: é eleito presidente honorário do Capivariano Futebol Clube. 20 de maio, como secretário da nova diretoria do Tiro de Guerra de Capivari, participa de uma excursão a Porto Feliz. No dia seguinte, no almoço, fala saudando os atiradores locais. Em 3 de junho, funda-se o Grêmio Literário e Recreativo de Capivari, sob o patrocínio do vigário, Cônego João Loschi. Torna-se secretário e orador. Ainda em junho conclui sua primeira obra, “Noturnos” com o pseudônimo de Benedito de Abreu, um folheto de 44 páginas, impressas em um só lado, nas oficinas da Gazeta de Piracicaba. Em agosto, RA envia telegrama ao conterrâneo Amadeu Amaral, que fora eleito para ocupar a vaga de Olavo Bilac na Academia Brasileira de Letras;
Adendo Cultural: Amadeu Amaral publica Dialeto Caipira. Mário de Andrade faz sua primeira viagem a Minas Gerais. Cecília Meireles (1901-64) publica sua primeira obra literária: Espectros. Lima Barreto publica Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá. Manuel Bandeira publica Carnaval. Guilherme de Almeida publica A Dança das Horas e Messidor. Menotti Del Picchia, Oswald de Andrade e Di Cavalcanti (1897-1976), descobrem o escultor Vitor Brecheret (1894-1955), que havia instalado seu ateliê no Palácio das Indústrias, em São Paulo, em sala cedida pelo engenheiro Ramos de Azevedo. Sérgio Milliet publica na França, Le Départ Sur la Pluie (A Partida da Chuva). Ronald de Carvalho publica o livro de poesias Poemas e Sonetos. Monteiro Lobato publica Ideias de Jeca Tatu e Cidades Mortas.
Adendo Brasil: 2 de janeiro: Delegação brasileira parte para a Conferência de Paz, em Versalhes. 16 de janeiro: vitimado pela gripe espanhola, morre, no Rio de Janeiro, Rodrigues Alves. Epitácio Pessoa (1865-1942), em eleição extraordinária, vence Rui Barbosa e é eleito presidente. Toma posse em 28 de julho.

1920
– Em Agosto, RA entrega para o conterrâneo Amadeu Amaral uma coletânea de poesias, datilografada, intitulada “Folhas”, para apreciação. No dia seguinte, Amadeu Amaral chamou RA e disse: “Depois de Olavo Bilac e Martins Fontes, é o melhor livro de estréia que tenho visto”. Dia 15 de Agosto, Jetro Vaz de Toledo publica um elogioso artigo “Estréia de um Poeta Capivariano”. Em 22 de agosto, Castro Neves escreve sobre RA na crônica “Rabiscando”. No jornal “Gazeta de Capivary”, em 26 de setembro, publica o poema “Bendita Mágoa”. Nesse ano escreve o hino oficial do Capivariano, musicado por João Duarte. Em 15 de dezembro, como RA não encontrara nenhum editor que se interessasse pela edição do seu livro, Amadeu escreve ao autor dizendo que estava tratando da edição. Ainda em 1920, compõe poesias para a peça teatral Capivari em Camisola, juntamente com Celso Epaminondas de Almeida;
Adendo Cultural: Victor Brecheret realiza exposição da primeira maquete do Monumento às Bandeiras, na Casa Byington, em São Paulo. A artista plástica Tarsila do Amaral (1890-1973), viaja a Paris. Cassiano Ricardo publica Jardim das Hespérides (poesia). Menotti Del Picchia publica As Máscaras e Flama e Argila. Chega ao Brasil: John Graz (1891-1980), que participa da Semana de Arte Moderna de 1922. Oswald de Andrade funda a revista Papel e Tinta com o poeta Menotti Dell Picchia. Lima Barreto publica Histórias e Sonhos. Guilherme de Almeida publica O Livro de Horas de Sóror Dolorosa – a que morreu por amor (poemas).
Adendo Brasil: A Ford instalou, em 1920, sua primeira fábrica de montagem no Brasil. Nesse mesmo ano, foi inaugurada a primeira linha de ônibus urbanos de São Paulo. No poder, o Governador Washington Luís (1869-1957) e seu governo vai terminar em 1924. 7 de setembro: criada a Universidade do Rio de Janeiro. Epitácio Pessoa proíbe a participação de jogadores negros no selecionado brasileiro.

1921
– Em 9 de outubro, RA redige na Gazeta de Capivari, crônica elogiosa sobre Amadeu Amaral. 16 de outubro: na assembleia geral da Caixa de Crédito, onde RA trabalhava, resolveu-se a liquidação daquele estabelecimento e poeta, sem emprego. No dia 21 daquele mesmo mês, RA muda-se para São Paulo e vai morar na casa de Amadeu Amaral, que também o leva para trabalhar na revista “A Cigarra”, onde encontra Gelásio Pimenta. Dia 23 de outubro, na Gazeta de Capivari, foi publicada a seguinte matéria:

“BENEDITO ABREU
Com destino à capital do Estado retirou-se ante-ontem de mudança o distinto moço Benedito Rodrigues de Abreu, uma das figuras de maior destaque em Capivari, onde nasceu e onde cometeu o maior pecado da sua vida – tornar-se literato, ser inteligente.
Sem recursos para dirigir uma lavoura, sem habilitação para movimentar uma indústria qualquer e sem maiores esperanças no comércio a que se dedicou, claro é que Benedito Abreu não poderia se manter entre nós com os proventos do seu trabalho literário, arte ou profissão que reclama centros de maior cultura, sociedade mais movimentada.
Contrista-nos escrever estas linhas, mas as escrevemos sem nos afastar da dura realidade, e contrista-nos ter que nos referir a um moço querido e estimado por todos que o conheciam, tais são os serviços que prestou a Capivari, tomando parte ativa nas festas literárias, nas quermesses beneficentes e nos comícios alterosos da caridade em ação.
Folgamos no entanto em afirmar que graças ao auxílio que lhe está prestando o distinto capivariano sr. Amadeu Amaral não será ele em S. Paulo um forasteiro do destino ingrato, a palmilhar sedento e lasso a aridez da miséria.
Fazemos votos, pois, para que na segunda capital do Brasil o nosso Abreu alcance o oásis e descanso nos seus projetos de literatura aos quais se dedica com grande empenho e razão maior”.

- Em 22 de outubro: RA escreve carta para sua amada Aracy:

São Paulo, 22.10.1921

Boa Aracy

Não podes sequer cogitar no quanto sofro com esta distância, com esta saudade; basta dizer que é a primeira vez que isso sucede, depois que nasceste para a minha felicidade.
Espero, porém, porque te amo o quanto humanamente é possível – que o longe será um selo mais forte para a força dessa cadeia linda que no une.
Sinto mesmo que tu vives junto de mim, que estás ao meu lado, que me inspiras; e esta tristeza, adoço-a na verdade de que me esperas.
Reza sempre por mim, pensa em mim, ama-me sempre mais. Boa Aracy, fada piedosa, desse modo, sabendo eu que tu amar-me-ás sempre, poderei lutar e vencer.
Essa verdade é que me alivia a vida, é que me alivia os incertos dias do futuro.
Ontem, estive em casa do Sr. Pinheiro. Amanhã, estarei lá. Sinto-me bom naquela casa, porque lá falamos sobre a tua pessoa, lá me animam.
Escreva-me. Afinal, não poderei passar sem a tua palavra piedosa de consolo.
Sou tão triste, Aracy; sofro tanto longe dos teus olhos que me compreendem.
Longe de ti, tudo é estranho, e a própria glória aborrece e enoja. Nunca me esquecerei de ti.
Sou o teu
Abreu
(Oliveira, J. R. Guedes de. In: Rodrigues de Abreu e suas Cartas de Amor. Jalovi, Bauru, nd, p. 35).

- Ainda nesse ano, RA escreve o poema “Lâmpada Inquieta”. Na redação da revista, conhece Menotti Del Picchia que o aconselha seguir as ideias dos primeiros modernistas;
Adendo Cultural: 9 de janeiro, realizou-se um banquete no Palácio Trianon, São Paulo, para comemorar o lançamento da obra "As Máscaras", de Menotti Del Picchia. Nesse evento, Oswald de Andrade faz um discurso criticando os autores passadistas e exaltando a arte moderna. Morte do poeta mineiro Alphonsus de Guimaraens (1870-). Sérgio Milliet e Rubens Borba de Moraes (1899-1986) voltam da Europa e divulgam os autores europeus de vanguarda. Graça Aranha e Plínio Salgado (1895-1975) aderem ao modernismo. Graça Aranha publica A Estética da Vida. Oswald de Andrade lança Mário de Andrade com seu artigo: “O meu poeta futurista”, na edição do Jornal do Comércio, de 24 de março. 23 de junho: morre no Rio de Janeiro, aos 40 anos, o escritor João do Rio, que usava o pseudônimo de Paulo Barreto. Menotti Del Picchia publica O Pão de Moloch (crônicas) e Laís (romance). Ribeiro Couto (1898-1963) publica O Jardim das Confidências, primeiro livro de poesia.

1922
RA retorna para Capivari no início de Janeiro. Com o evento da Semana de Arte Moderna realizado em Fevereiro no Teatro Municipal de São Paulo, RA toma conhecimento da nova revolução estética, como já o havia falado Menotti Del Picchia. (Cassiano Ricardo, em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, enganou-se ao incluir RA entre os participantes da Semana. Em fevereiro RA estava em Capivari). RA considera-se convertido às novas estéticas modernistas já no início do segundo semestre de 22. Foi influenciado pelo médico Dr. Francisco de Magalhães Viotti, que conhecia alguns modernistas. RA dedica ao Dr. Viotti, em outubro, na Tiptologia, que figura em A Sala, com título Dentro da Noite. O seu contato com os modernistas da Paulicéia resultou a publicação, por Menotti Del Picchia, no Correio Paulistano, em 12 de Agosto, do poema A Sala dos Passos Perdidos, construído em versos livres. Em 14 de outubro, RA envia para Menotti “Nas Cinzas”, que foi transcrita no Correio Paulistano, com a seguinte apresentação de “Hélios”, pseudônimo de Menotti Del Picchia:

“É de Rodrigues de Abreu a deliciosa fantasia que faço presente aos leitores. Não é um nome novo o desse artista estranho e moderno da Sala dos Passos Perdidos. Sua prosa, como seus versos, é sempre deliciosa e tersa e há uma angústia calada, nebulosa, a espiritualizar a sua arte magnífica...”.

Nas Cinzas

Sou tímido desde criança.
Quando eu era criança, já tinha no olhar a origem deste grande espanto que os meus olhos vêem e andam mostrando... Eu era triste como o gato amarelo com o qual filosofava junto às cinzas, na cozinha.
Decerto foi por ter aprendido do gato e das cinzas que eu tenho esta maneira humilde de encarar a Vida. Vivo encolhido!
Um dia eu ri, na sala, perto de ricas pessoas que elevavam, segundo a errônea opinião dos meus pais, a minha família. Ri, numa clara risada, porque a filha dos bons senhores caíra de bruços, ridiculamente... Mas, juro! não vira um filete de sangue arroxeado rolando dos seus finos lábios partidos.
Quando os ricos senhores saíram, meu pai feriu-me nervoso no rosto, chamando-me “perverso”.
Não ri mais, em criança. Ensinaram-me que o riso é perverso, e eu tinha medo dos punhos erguidos.
Cresci. Comigo cresceu o espanto que havia em meus olhos.
Sou tímido e triste. Vivo pensando, comigo mesmo, na inutilidade de tudo... Mas, só comigo. Tenho medo de que me castiguem e aumentem meus dias de vida. Porque penso amargo, eu sou taciturno.
Para que rir?
O Destino – meu pai de hoje – pode ver no meu riso uma perversidade... E são muito grandes as mãos do Destino. Com que desalento as conheço!
Como o gato amarelo, eu ando encolhido nas cinzas inúteis da minha existência...

- Em novembro, RA escreve O Écran..., ocasião que renega o passadismo bradando: “versos futuristas sem rima e sem metro, mas cheios da cadência criadora do Pensamento...”:

O Écran...

Esta vida é um “écran” imenso, onde se projetam os filmes que as gerações passadas criaram...
Algumas vezes criamos novos.
Há, por isso, em todo homem um artista de cinema!
Nunca fui um artista original. Sentimentalista e fraco, vivo, influenciado, imitando e, às vezes, plagiando.
Quando eu tinha 15 anos e lia Michel Zévaco, vivi nas fitas coloridas do “Pathé”. Dei e recebi estocadas brilhantes.
Mais tarde sonhei ser artista de fábrica italiana. com a alma repleta de sonhos românticos, passei a minha polidez de luar pelas ruínas das cidades mortas, namorando estátuas e beijando Bertini.
Rimava então as minhas atitudes com os versos dos poetas tuberculosos...
Quando cheguei aos 20 anos, fiz contrato com uma fábrica americana. Sonhei ser um artista da “Paramount”, ligeiro como um discóbolo, formoso como um patrício romano. Pelos olhos dos que dão voz ao silêncio, no “écran”, exibi o meu desejo por todos os salões do mundo. Já então não rimava atitudes. Gritava versos futuristas sem rima e sem metro, mas cheios de cadência criadora do Pensamento... Eu era atos e impulsos!
Uma noite, porém, brotou em minha alma a dúvida sobre o meu valor. Por isso, num filme movimentado e dramático, falhei desastradamente. Riram no “studio”. Convieram em que eu era um artista do Riso. Deram-me um papel secundário num filme cômico...
Hoje, não rimo atitudes nem sou impulsos e atos.
Sou aquele “vesgo” da “Mack Sennet”, deformado e triste dentro do seu grande espírito. Para que os outros riam, ando levando socos de um “bolchevista” musculoso e idiota...
E como eu há muitos.
Todo homem é um artista de cinema.

- Em 21 de novembro, RA acompanha Amadeu Amaral em visita a Capivari e Raffard. Amadeu fazia sua campanha visando uma cadeira de deputado estadual. A 13 de dezembro, o Clube Democrata de Capivari é revistado pelo Ten. Gordiano Pereira. No dia seguinte realiza-se a eleição. Sobre essa eleição, RA escreveria artigo no Diário da Noroeste, de Bauru, em 1925, narrando todo episódio daquela confusa eleição. Em 18 de dezembro, Amadeu Amaral envia a RA a seguinte carta:

“São Paulo, 18 dezembro 22.

Abreu

Escrevo a diversos amigos, além de v., pedindo informações positivas e breves sobre os acontecimentos do dia 14. Preciso dessa documentação para poder agir, pela imprensa, na Liga Nacionalista, etc. Como não posso escrever a todos, peço que fale com os que se mostrem dispostos a prestar-me este auxílio, transmitindo-lhes o meu pedido. Fala ao Alípio Valente, ao Castanho, ao Juca Leme, ao Corazza, ao dr. Mário, enfim a todos quantos puderem prestar esse depoimento. Amº. Obrº.
Amadeu”
Adendo Cultural: Mário de Andrade publica Paulicéia Desvairada. Em fevereiro, em São Paulo, são realizados os festivais da Semana de Arte Moderna, no Teatro Municipal. Os três dias principais foram: 13, 15 e 17. Era o início do Movimento Modernista no Brasil. Inicia-se em 15 de maio, a publicação da Revista Modernista Klaxon, em São Paulo. Em 1º de novembro, no Rio de Janeiro, falece o escritor Lima Barreto. Menotti Del Picchia publica O Homem e a Morte, a novela A Mulher que Pecou e A Angústia de D. João. Oswald de Andrade publica Os Condenados, primeiro volume da Trilogia do Exílio. René Thiollier (1882-1968) publica seu primeiro livro O Senhor Dom Torres. Thiollier foi um dos mecenas, financiando para os moços modernistas o aluguel do Teatro Municipal de São Paulo para a realização dos Festivais da Semana de Arte Moderna. Ronald de Carvalho publica Epigramas Irônicos e Sentimentais. Guilherme de Almeida publica Era uma vez..., editado pelas Oficinas da casa Mayença (SP), com desenhos de John Graz. O livro começou a ser distribuído pelas livrarias em 15 de fevereiro, um dos dias de festival da Semana de Arte Moderna. Sai a segunda edição de Nós, de Guilherme de Almeida. Em 1º de novembro, no Rio de Janeiro, falece o escritor Lima Barreto.
Adendo Brasil: 5 e 6 de julho: Revolta do Forte de Copacabana. Os jovens tenentes revoltosos marcham pela Av. Atlântica e são fuzilados pelas tropas do Governo, escapando da morte apenas dois tenentes. Dezesseis mortes, dentre elas a de um civil que aderiu à Marcha. Era o início do “tenentismo”. 7 de setembro: primeira emissão de rádio no Brasil durante as Comemorações do Centenário da Independência, realizada no alto do Corcovado, no Rio de Janeiro, transmitindo o discurso do então presidente Epitácio Pessoa. Realiza-se no Rio de Janeiro a exposição comemorativa do Primeiro Centenário da Independência. (Embora na cronologia da comunicação eletrônica de massa brasileira o surgimento do rádio no Brasil é marcado com a fundação da Rádio Clube de Pernambuco por Oscar Moreira Pinto, no Recife, em 6 de abril de 1919). Artur da Silva Bernardes (1875-1955) é eleito presidente da República e assume a presidência sobestado de sítio. Seu governo termina em 1926. Ano de fundação do Partido Comunista Brasileiro.

1923
– Janeiro: RA muda-se para Bauru (SP), a convite de Celso Epaminondas de Almeida, morando numa pensão. Em 21 de janeiro foi nomeado ajudante habilitado de Cartório e suboficial de Ofício de Registro Geral e Anexos. Em 30 de setembro, Luso publica em O Bauru artigo sob o título: “Através da Leitura do Livro A Sala dos Passos Perdidos de Rodrigues de Abreu”. 21 de novembro: RA escreve carta para o pai de Aracy do Prado Valente, pedindo a filha em casamento, como segue parcialmente, respeitada a ortografia original:

Bauru, 21.11.1923

Ilmo. Sr. Dr.
José do Prado
Capivari – SP

Caríssimo amigo.

Antes do mais, desejo-lhe, e a sua distinta, amável família, muita saúde, coisa que é a verdadeira riqueza e em que, para minha felicidade, sou um notável capitalista.
(...).
Agora, meu caro amigo, é o mais.
Sempre, desde que, num mês claro de maio, há bons anos, surgi de retorno, na terra do meu nascimento, tenho consagrado a uma das suas filhas, à boa Aracy, uma honesta afeição. Tenho sempre desejando, com um grande e justo desejo, construir um lar, de que sou tão amigo, um lar humilde, mas cheio de devotamento e alegria, e no qual, como uma deusa tutelar velando pela minha felicidade, a sua filha vivesse, santa e boa, como a melhor das esposas. E tanto tenho, meu caro amigo, sonhado esse bom sonho, com tal insistência o fiz meu ideal, que seria, além de crueldade o não permitirem a sua realização, quase impossível conformar-me com ela. Nem eu, na minha vida, em que me tenho esforçado por ser bom e puro, mereço o tormento de desiludir-me. Até o presente, em verdade e consciência, nada fiz que me provocasse tamanho castigo. O meu caro amigo é testemunha do meu devotamento e das maneiras sempre dignas com que tenho procedido para com a mulher que elegi. Suportei muito tormento nesse meio que se me tornou hostil; e nessa terra, onde a intriga é um verme que se multiplica e polula, o meu afeto sempre pairou muito alto, tão alto, que nunca jamais ousada que se tornasse a fúria dos partidarismo, o atingiu, com uma frase menos digna, a boca seus inimigos. Tenho, meu caro amigo, não só pelas boas tradições da minha raça, de que nunca me afastarei, mas, principalmente, pelo meu próprio esforço e trabalho, a consciência de me haver, cada vez mais, tornado menos indigno da bondade e da pureza da sua filha.
O caro amigo, que me conhece a alma sensível, de enorme afetividade, pode, como ninguém estimar o quanto sofro, pela distância, na apreensão perpétua, no perpétuo incômodo, no desassossego de uma certeza ainda não bem certa. Disso se acumule ainda a falta de notícias que, só por um ou outro amigo, rareadas, tenho da mulher que amo.
Ora, o caro amigo sabe, por meu intermédio mesmo, e pode crer-me, que vou indo com imprevista felicidade. Não levará muito, colocado meu pai e meu irmão na E. Noroeste, onde conto, pela amizade, com elementos valiosos, estarei independente. Em vista disso, para meu descanso, resolvo novamente pedir Aracy em casamento. Estou longe. O noivado que na mesma cidade é sempre incômodo aos pais da noiva, neste caso não o será. Não estarei ali para atormentá-los. Ficarei aqui, quietinho no meu canto, trabalhando e esforçando-me, com mais valor, se possível, para breve, realizar o meu sonho. E, depois, para mim e para Aracy, será uma espécie de alívio. Corresponder-nos-emos, com ternura e respeito, suavisando esta necessária angústia que a distância trouxe.
Eu poderia meu caro amigo, ter ido a Capivari especialmente para disser-lhe isso. Não tive, porém, “coragem”. Num caso destes a gente fica patife; e, perante o caro amigo, tratando-se desse assunto, sempre fui de uma saliente timidez.
Esperando a sua resposta favorável, e fazendo votos pela felicidade de todos os seus, sou o amigo de sempre, decidido e pronto a executar as suas gratas ordens.
Benedito Rodrigues de Abreu
(Oliveira, J. R. Guedes de. In: Rodrigues de Abreu e suas Cartas de Amor. Jalovi, Bauru, nd, pp. 71/72).

- Em 2 de dezembro, RA recebe carta de Prado Valente, pai de Aracy, respondendo ao pedido casamento, conforme descrição parcial que segue, respeitando a ortografia original:

Capivari, 2 de dezembro de 1923

Meu caro Abreu:

Dou meu poder a tua carta de 21 de novembro próximo passado, cuja resposta vai um pouco demorada por depender de alguma reflexão.
Agradeço, de coração, as tuas imerecidas referências à minha pessoa.
(...)
Quanto ao teu pedido, defiro-o, com prazer, de pleno acordo com a interessada e todos da família, concedendo-lhe as regalias de noivo.
Vou autorizar o O Município a dar a notícia oficial.
Quanto ao prazo, que seja o maior possível, não só para firmares a tua situação, como também e, principalmente, porque não me é possível por enquanto, fazer despesas para o enxoval, mesmo modesto. Com vagar e aos poucos, iremos arranjando alguma coisa.
Meu abraço do
Prado Valente
(Oliveira, J. R. Guedes de. In: Rodrigues de Abreu e suas Cartas de Amor. Jalovi, Bauru, nd, p. 73).

- Em 6 de dezembro, RA escreve para sua amada narrando sua alegria e felicidade por estar noivo. Segue descrição parcial conforme original:

Bauru, 6.12.1923

Boa Aracy

Hoje, em verdade, a alegria da vida entrou na minha alma, como um jorro de sol, iluminando uma casa boa, mas, inabitada. À luz da alegria, descobri, no meu caminho belezas que eram imediatas para a minha vista, e vi, na minha alma, tão súbita doçura, que, só hoje, hoje e somente, posso explicar o luminoso sentido da existência.
Creio, pois creio na tua afeição, talvez superior, na espiritualidade, a toda afeição que arde na terra, - creio que o mesmo deslumbramento inexplicável que me perturba, está pondo elevações na tranquilidade da tua vida. Na paciência, na resignação obediente, com pureza e beleza, nós dois estaremos encontrando a felicidade; parte dela ao menos já a possuímos; a outra, Deus querendo, conseguiremos. Somos já bem felizes. Sempre sonharemos este claro dia, certos de que a ele chegaremos, vendo os nossos, os da tua família, felizes com a nossa felicidade.
(...).
Sempre teu
Abreu
(Oliveira, J. R. Guedes de. In: Rodrigues de Abreu e suas Cartas de Amor. Jalovi, Bauru, nd, p. 74).

- Ainda nesse final de ano, RA e Aracy continuam se correspondendo. RA, no mínimo, escreve quatro cartas: 15/12, 19/12 e duas sem as datas.
Adendo Cultural: A artista plástica e conterrânea de RA, Tarsila do Amaral retorna da Europa. Menotti Del Picchia publica O Nariz de Cléopatra (crônicas) e o romance Dente de Ouro. Lima Barreto publica Bagatelas. Cecília Meireles publica Nunca Mais e Poema dos Poemas.
Adendo Brasil: 1º de março: morre Rui Barbosa. 21 de abril: Edgard Roquete Pinto (1884-1954) e Henry Morize (1860-1930), fundam a primeira estação de rádio brasileira, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro. Em 9 de setembro, falece Hermes da Fonseca.
Adendo Geral: Constituiu-se a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

1924
RA entrega os originais do A Sala dos Passos Perdidos à apreciação de Celso Epaminondas de Almeida. Este, entregou os originais à casa editora de Monteiro Lobato, em São Paulo, solicitando orçamento. RA é internado em Campos do Jordão para tratamento da tuberculose. É publicado, custeado por Celso Epaminondas de Almeida, o primeiro livro de RA: “A Sala dos Passos Perdidos”. Amadeu Amaral indica na Academia Brasileira de Letras o livro A Sala dos Passos Perdidos para o prêmio de Poesia do ano. Não conseguindo êxito na sua propositura Amadeu Amaral pediu demissão de todos os cargos que ocupava na Academia. Nesse ano escreve “Cadeira de Lona”, do seu livro “Casa Destelhada”. Nos arquivos do Poeta constam treze cartas endereças à sua amada Aracy em 1924. Começa a luta do poeta contra a tuberculose. Em fins de julho, sob pressão de sua família, Aracy Prado rompe o noivado com o poeta. Em 26/6, RA, angustiado e triste, escreve a carta que segue, conservada a descrição original:

Bauru, 26.6.1924

Queridíssima Aracy

Deve ter estranhado, boa e querida amiga, a minha demora em responder-te. A tua última carta, porém, deixou-me em tão doloroso espanto, que eu julguei necessárias reflexões e calma para responder-te.
Em verdade, minha pobre querida, no princípio, querendo responder-te, vi na tua carta apenas aridez e hostilidade. Sentia um amaro que me queimava até as entranhas, que punha faiscações amareladas nos meus olhos; e percebi que, se fosse responder-te, seria uma resposta violenta, cheia de todo o profundo amargor de que a minha alma ficou cheia, talvez para toda a minha vida. Naquele momento, Aracy, a tua carta, interpretei-a de um modo agressivo, e a minha resposta seria um insulto.
Hoje, conservando em minha alma a mesma tristeza, o mesmo cansaço e abandono, tenho todavia, mais sinceridade.
Boa Aracy, sempre te amei, como ainda te amo e te amarei, unicamente, absolutamente, com uma sinceridade e um amor tão ilimitado, que até me orgulho de ser capaz de uma tal afeição. E como o verdadeiro amor tem sua principal força na verdade, nunca eu te menti. Sempre me encontraste o mesmo: um tanto de ingênuo e romântico, feliz por ser amado e amar, orgulhoso de ter uma inteligência, que me elevaria, para a construção do meu ninho de felicidade. E sobretudo fui sempre um sincero. Sempre me julguei digno da tua confiança, como merecedor da tua fé. Além disso, tenho um coração bondoso...
Ora, não seria capaz, tendo inteligência e coração, de sacrificar-te ao meu egoísmo, desejando que te unisses a quem tivesse a saúde arruinada. Logo, quando te digo que não sou tuberculoso, falo-te a verdade. Para dizer-te isso, consultei vários médicos; se eu fosse tuberculoso, jamais te sacrificaria a mocidade e a saúde.
A tua carta traz em seu bojo, para mim, estas duas angustiosas questões: - Acreditas em teus pais, e apesar das minhas afirmações, julgas-me doente. Não acreditas em teus pais, crês em mim e julga-me são.
No primeiro caso, na certeza que tenho do teu amor, julgo que tens razão no teu temor. Absolutamente não desejo de ti isso que vai além do amor, e é um sacrifício. Desses heroísmos, fora da vida, de pessoas decididas a sacrificarem a saúde, conscientemente unindo-se a um doente, não exijo de ti, porque bem sei que eles ficaram no passado, com uma geração de românticos alucinados.
No segundo caso, tenho a dizer-te, minha boa amiga, que o único meio, diz que em mim acreditas, seria perpetuar ainda o nosso sofrimento...
Mas, querida Aracy, dizer em tua carta, que tens remorsos de contrariar teus pais; e eu, julgo, também, uma vez que cansaste em sofrer essa tortura, vindo desde os dias longes em que éramos namorados, não poder sacrificar-te, não deves mesmo fazer isso.
Quero ter a certeza que me amas; e se me amas, com verdade, e não podes mais suportar essa agonia, que também sofro, como posso eu dizer-te que continues? Como posso eu, egoisticamente, pedir a alguém que se sacrifique por mim? Saberão de outros, porventura, que eu sou digno de sacrifícios? Valerei, em verdade, a série de sacrifícios que tens feito por mim?
Ingênuo poeta, pobre e roto artista, arrastando uma vida de privações e angústias, jamais deverei supor-me valer alguma coisa, só porque tenho uma lira e faço versos sonoros!
Que valor tem tudo isso, na agitação de hoje, onde valem os que têm sorte, os que a fortuna ajuda, os que passeiam a solenidade do seu bem-estar?
Uma lira, uma boa vontade, e a fé no futuro, que não passa de fé, e um bom coração, e alguma inteligência, não têm valor, no presente, como nunca tiveram, no passado: são varridos, com os seus donos, como coisas inúteis...
Isso é a verdade. Eu não valho o teu sacrifício. Eu um inútil sonhador, que nunca passará de um poeta de província, sem conforto e sem lar, sofrendo privações e fazendo-as sofrer a todos os entes que a ele se ligarem...
Ora, querida e boa amiga, tu estás, agora sofrendo por mim. Julgo que o único meio de fazer cessar este teu sofrimento, que continuará com a continuação do noivado, é desfazeres o nosso contrato de casamento. És boa filha, como serias a melhor das esposas. Deves essa atenção aos teus pais, tu mesmo confessaste.
Por isso, julgo do meu dever deixar em tuas mãos esse extremo recurso, porque isso de romper noivados só deve partir das noivas, para o seu próprio bem...
E espero, boa, querida amiga, que me perdoarás.
Perdoar-me-ás a parte de eu ter entrado no lindo e alegre jardim da tua mocidade, como um vento seco e pernicioso de angústias e desolações. Hás de me perdoar, querida, pelo muito que te amo, o ter eu entristecido a tua aurora, com este meu amor fatal de torturado.
Agradeço-te, boa amiga, essa compreensão que me deste da Vida. Abençoo com o mesmo gesto a alegria e o sofrimento que de ti me vieram...
Hás de, no princípio, ficar abatida; mas, esquecerás...
E não tenhas tristezas de saber que a minha vida sem a tua pessoa, será uma perpétua tortura; não és culpada disso; sou eu mesmo o culpado; somos nós, os poetas, os únicos culpados. É nosso destino, de nós, os poetas, sofrer: somos diferentes dos outros homens; pagamos, com todas as dores, a felicidade de sonhar e compreender a dolorosa e iluminada religião da arte.
Adeus. Sê feliz.
O teu poeta, o teu amigo, o teu todo
Rodrigues de Abreu
(Oliveira, J. R. Guedes de. In: Rodrigues de Abreu e suas Cartas de Amor. Jalovi, Bauru, nd, pp. 98 a 100).
- Em Outubro, RA segue para Campos do Jordão, permanecendo lá cerca de quatro meses.
Adendo Cultural: Cassiano Ricardo publica A mentirosa de olhos verdes (poesia). Manuel Bandeira publica o volume Poesias (A cinza das horas, Carnaval, Ritmo Dissoluto). Menotti Del Picchia publica O Crime Daquela Noite e Chuva de Pedra. Oswald de Andrade publica Memórias Sentimentais de João Miramar e o Manifesto da Poesia Pau-Brasil. Inicia-se a Fase “Pau Brasil” de Oswald de Andrade. Di Cavalcanti elabora a capa de Losango Cáqui, de Mário de Andrade. 5 de fevereiro: Blaise Cendrars (1887-1961) chega ao Brasil, no Rio de Janeiro, é recebido por Graça Aranha, Ronald de Carvalho, Prudente de Moraes, neto (1904-77), Guilherme de Almeida, Sérgio Buarque de Holanda (1902-82) e outros. No dia seguinte segue para Santos (SP), e vai para São Paulo, onde é recebido pelos modernistas: Sérgio Milliet, Luís Aranha (1901-87), Couto de Barros (1896-1966) e Rubens Borba de Moraes. 21 de fevereiro: Cendrars realiza sua primeira palestra no salão do Conservatório Dramático e Musical, em São Paulo. Acontece a viagem do grupo modernista: Mário e Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e Blaise Cendrars às cidades históricas de Minas Gerais. Em São Paulo é realizado o “VI Ciclo de Conferências da Vila Kyrial”, com palestras de Mário e Oswald de Andrade, Blaise Cendrars, Lasar Segall e outros. 19 de junho: Graça Aranha profere na Academia Brasileira de Letras a conferência “O Espírito Moderno” e, em seguida, desliga-se da Academia. Pedro Dantas (Pseudônimo de Prudente de Morais, neto) e Sérgio Buarque de Holanda fundam a revista Estética – a primeira revista é colocada a venda em setembro. Ribeiro Couto publica Poemeto de Ternura e Melancolia. Guilherme de Almeida publica A Frauta que Eu Perdi (canções Gregas) e o livro de prosas Natalika.
Adendo Brasil: Em março, 31, falece Nilo Peçanha. Em julho: Revolução Tenentista, de Isidoro Dias Lopes (1865-1949), em São Paulo. Bombardeio em São Paulo e recuo das tropas até Catanduva, interior de São Paulo. Carlos de Campos (1866-1927) assume o governo de São Paulo.

1925
– Após a publicação de A Sala dos Passos Perdidos, alguns críticos literários, tal como Fernando de Azevedo, classificou-o como “um puro lírico romântico”; Fernando Callage mencionou: “dentro dos processos velhos, sabe despertar emoções novas”. RA escreve ainda em Campos do Jordão, o poema: “Quarto de Doente”. Em abril, RA muda-se para São José dos Campos para tratamento da doença. Em carta a Mário de Andrade, Manuel Bandeira faz referência a RA, indicando assim que o poeta mantinha contato com Mário e Bandeira. Assim escreve Bandeira:

Petrópolis, 5 de março de 1925.

Endereço: Pensão Geoffroy
Rua Marechal Deodoro.

Marioscumque

Estou há quase um mês aqui e só ontem dei um pulo ao Rio, onde encontrei uma velha cartinha sua, queixando-se de neurastenia e de uma ferida arruinada. Mas imagino que você já deve estar restabelecido pelas notícias que tive pelo Rodrigues de Abreu.
(Andrade, Mário de. Moraes, Marcos Antonio de. In: Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira I. Coleção Correspondência de Mário de Andrade, organização de Marcos Antonio de Moraes. Editora EDUSP/IEB, 2ª Edição – São Paulo, SP. 2001 – p. 188).
- Em 17 de Agosto, RA recebe carta de médico de São José dos Campos:

Abreu caríssimo.

Recebi tuas letras, obrigado.
Não me convenci do que me disseste; mande os resultados dos Raios X para eu e o Cardoso tirarmos a prova. Aconselho-te passares dois meses em Rubião Júnior, não em Bauru; em outubro se a nossa opinião for favorável voltarás aqui e iniciarás um pneu relativo. Lá em baixo descongestionarás um pulmão e passado o frio aqui virás, em outubro e faremos-te o Pneu e com as melhoras que hás de ter iremos comprimindo mais o pulmão.
Escreve seguido com detalhes do modo que vás passando.
Exijo obediência a estas minhas ordens, senão brigamos de fato.
Adeus! Não comas ovo, não uses álcool nem café à noite, nem chá; bebe mate à noite. Adeus.
O crd.º Negrão
(Mattos, Carlos Lopes de. In: Vida, Paixão e Poesia de Rodrigues de Abreu. Gráfica e Editora do Lar/Abc do Interior, 1ª Ed. 1986 - pp. 165/166).
- Em setembro e outubro, foram realizados dois festivais em benefício do poeta enfermo. O primeiro, no Conservatório de São Paulo. Amadeu Amaral, nessa ocasião, pronunciou uma conferência literária. RA não pode comparecer ao evento por estar muito doente, conforme carta que enviou a Rosário Capóssoli:
“Infelizmente não poderei ter o prazer de abraçá-lo. Não vou à minha festa em São Paulo. Estou doente, muito doente. A viagem me cansará. Daqui vou diretamente a São José dos Campos, lugar de clima excelente, onde pretendo curar-me desta tuberculose. Eu lhe escreverei, quando for, para Capivari, avisando-o do meu novo endereço. Há um mês que estou em Bauru, havendo descido da estação climatérica por falta de recurso. Mas, voltarei novamente para lá, graças a esses bons rapazes de São Paulo”.
(Mattos, Carlos Lopes de. In: Vida, Paixão e Poesia de Rodrigues de Abreu. Gráfica e Editora do Lar/ABC do Interior. 1ª ed., 1986, p. 167).
- O outro festival aconteceu em outubro, na cidade de Bauru (SP), promovido pelo Diário da Noroeste. Após esse evento, RA escreveu o poema “Bauru”.

Bauru

Moro na entrada do Brasil novo.
Bauru, nome-frisson que acorda na alma da gente
Ressonância de passos em marcha batida
para a conquista soturna do Desconhecido!
Acendi meu cigarro no toco de lenha deixado na estrada,
no meio da cinza ainda morna
do último bivaque dos Bandeirantes...
Cidade de espantos!
Carros de bois geram desastres com máquinas Ford!
Rolls-Royces encalham beijando a areia!
Casas de táboas mudáveis nas costas;
bungalows comodistas roubados da noite para o dia,
as avenidas paulistanas...
Cidade de espantos!
Eu canto a estesia suave dos teus bairros chics,
as chispas e os ruídos do bairro industrial,
a febre do lucro que move os teus homens nas ruas do centro,
e a pecaminosa alegria dos teus bairros baixos...
Recebe o meu canto, cidade moderna!
Onde é que estão, brasileiros ingênuos,
as úlceras feias de Bauru?
Vi homens fecundos que fazem reclamo da Raça!
E eu sei que há mulheres fidalgas que ateiam incêndios
na mata inflável dos nossos desejos!
Mulheres fidalgas que já transplantaram
o Rio de Janeiro para este areal...
A alegria busina e atropela os trustes nas ruas
A cidade se fez a toques de sinos festivos,
a marchas vermelhas de música, ao riso estridente,
de Colombinas e de Arlequins.
Por isso, cidade moderna, a minha tristeza de tuberculoso,
contaminada da doença da tua alegria
morreu enforcada nos galhos em folhas
das tuas raras árvores solitárias...
Eu já tomei cocaína em teus bairros baixos,
onde há Milonguitas de pálpebras murchas
e de olhos brilhantes!
Rua Batista de Carvalho!
O sol da manhã incendeia ferozmente
a gasolina que existe na alma dos homens.
Febre... Negócios... Cartórios, Fazendas... Café...
Mil forasteiros chegaram com os trens da manhã,
e vão, de passagem, tocados da pressa,
para o El-Dorado real da zona noroeste!
... Acendi meu cigarro no toco de lenha deixado ainda aceso
na estrada, no meio da cinza
do último bivaque dos Bandeirantes...
E enquanto o fumo espirala, cerrando os meus olhos,
fatigados do assombro das tuas visões,
eu fico sonhando com o teu atordoante futuro,
Cidade de espantos!
(Abreu, Rodrigues de. In: Poesias Completas. Academia Bauruense de Letras. Joarte Editora e Gráfica, 2ª ed. Bauru/SP., 2007. Págs. 263/264).
- Em 8 de dezembro, RA escreve de São José dos Campos para Aracy. (Segue foto da carta obtida no Acervo da Biblioteca Rodrigues de Abreu, Bauru – SP):



- Carta digitada, conservada a grafia original:

São José dos Campos, 8-12-25

Minha boa Aracy

Fique muito contente ao receber a sua carta. Pois podemos e devemos ser amigos.
Isso de ódio ou amor ou amor ou ódio é uma balela. Não posso, não poderei odiá-la, pela simples razão de que a amei muito e continuo a amá-la. Não pretendo mais nada de você, a não ser um bocado de leal, de sincera amizade. mas o amor que lhe consagrei, por muito puro, não se iria assim rapidamente, só porque se foi a esperança de chama-la minha. Havia nele muito de alto e de espiritual. Isso ainda ficou poderosamente iluminando a minha vida.
Também não maldigo o destino. Tinha quer assim. Era impossível que sobre mim não se desencadeasse o tufão dos espantos e das tragédias. É grande a galeria dos angustiados e sofredores. Todos os homens de gênio se ingressam nela. E eu, infelizmente, não podia ter vida pacata de burguês, sem sustos e sem angústias. Deus acendeu em mim a lâmpada maravilhosa que ilumina para a frente e me deixa no meio dos vasquejos torturantes das atribulações. Você me conheceu unicamente na essência de homem. Mas, eu, sobre isso, nasci poeta. E poeta com alguma missão, porque, fora a modéstia, eu tenho talento.
No princípio naturalmente fiquei revoltado. Mas, serenei-me. Você não é culpada, não o foi. Ao contrário, sofreu sem necessidade, a dor do meu destino. mas, você continua a ser a única, a Gêmea, a Amiga. Todo homem tem de levar em si a felicidade ou a desgraça de um amor. E, ai de mim! se não se debruçasse sobre o lago da minha alma a figura boa de uma mulher!
Aí vai o meu livro. Nele você se reverá. Você anda por aí, pelas minhas melhores páginas.
Madrinha está aqui morando comigo. Anézia vai boa, esperando um entesinho de que serei o padrinho.
Escreva-me sempre. Exerça a sua nova profissão de amizade, enviando-me coragem e consolo.
Muito seu amigo e adeus.
Rodrigues de Abreu
- Em 16 de dezembro, RA escreve a Drummond de Andrade (1902-87):

S. José dos Campos, 16-12-1925 – R. Antônio Saes, 22 A

Meu caro Drummond:

Acabo de receber a sua carta. Me alegrou. Sempre desejei corresponder-me com você, que admiro muito. Os versos que mandei serviram de pretexto. Só.
Gosto muito da “Revista”. Me mandaram do Rio um número. Eu acompanho com muito afeto o trabalho dos novos. Do Mário, do Oswald, do M. Bandeira. Com o Mário e o Manuel mantenho relações muito cordiais. Gosto da ousadia moça de vocês. Me falta envergadura para os seguir. Se eu varrer o romantismo piegas da minha alma, varrerei tudo. Serei artificial. É o que há de natural em mim.
Logo sai a “Sala”. Apenas receba um pedido feito a S. Paulo.
Lhe peço não publicar os versos que mandei. Sofreram modificações fundas, a conselho do Manuel. Depois, quando a “Revista” funcionar, mandarei com alegria e melhores.
Você e o Martins de Almeida são uns bicos. As críticas do Martins são de rara beleza e verdade. Os seus versos são grandes. Eu já os conhecia há tempo. Os nomes de vocês enchem o Brasil.
Um abraço
Rodrigues de Abreu.
(Oliveira, José Roberto Guedes de. In: Meu caro Rodrigues de Abreu. Edição do autor. 1ª edição, Capivari-SP. 2003, p. 191).
- Em 28 de dezembro: RA escreve a Hildebrando Siqueira, sugerindo a realização de uma festa de arte em Campinas, na qual pronunciaria uma conferência sobre os modernistas. Essa festa não chegou a ser realizada;
Adendo Cultural: Guilherme de Almeida publica os livros de poemas: Meu, com capa de Paim e Encantamento, com capa de Correia Dias. (Essa obra foi coroada pela Academia Brasileira de Letras). Publica também: A Flor Que Foi Um Homem – Narciso, com capa e desenhos de J. Wasth Rodrigues (1891-1957), e Raça. Inicia-se a Corrente Verde-Amarela com a participação de Guilherme de Almeida, Menotti Del Picchia, Cassiano Ricardo e Plínio Salgado. Mário de Andrade publica A Escrava que não é Isaura. Surge em Belo Horizonte, em junho e começa a circular em julho, o periódico A Revista, com a direção de Carlos Drummond de Andrade (1902-87) e Martins de Almeida (?), que teve a duração de apenas três edições. Sérgio Milliet publica com Oswald de Andrade e Afonso Schimidt (1890-1964) a revista Cultura. Graça Aranha publica O Espírito Moderno. Cecília Meireles publica Baladas para El-Rei. Oswald de Andrade publica Pau Brasil (poesia).
Adendo Brasil: Acontece na cidade de São Paulo a primeira edição da corrida de São Silvestre, iniciativa do jornalista Cásper Líbero (1889-1943). Em julho: a Coluna Miguel Costa-Prestes inicia sua marcha pelo Brasil.

1926
– 4 de fevereiro, RA volta a Bauru para festejar o carnaval.

Rodrigues de Abreu – Detalhe da foto maior

- Dia 28, escreve carta para Hildebrando Siqueira, enviando dados biográficos, com vários dados incorretos, demonstrando toda a desorganização do poeta, ou, como afirmam outros estudiosos, “os dados incorretos talvez pelo estado depressivo que se encontrava o poeta pela tuberculose”. Apesar dos dados incorretos é uma carta importantíssima – segue conforme descrita por Carlos Lopes de Mattos no Vida, Paixão e Poesia de Rodrigues de Abreu:

Bauru, 28-2-26.

Meu querido Hildebrando Siqueira:

Abraço-o afetuosamente.
Não lhe respondi antes, porque não tenho andado muito bom. Esta vinda a Bauru está me prejudicando. Se soubesse, não teria descido. Aqui está fazendo muito calor. Pretendo, breve, retornar a S. José. Você não se preocupe com o possível fracasso da minha festa em Campinas. Basta-me a boa vontade. O resto conseguiremos mais tarde. Agora é mesmo uma temporada difícil. O carnaval andou por este mundo, há pouco. E depois dele uma festa séria é um caso sério. Vamos esperar, meu bom amigo. Você me escreverá sobre isso para eu resolver a minha ida a S. José dos Campos. Está decidido: avisarei a você, passarei todo um dia em Campinas. Só para conhecê-lo. É maior esse desejo que tudo. Escreva-me, pois, breve, dizendo o que pensa de definitivo sobre a festa em Campinas. Para eu resolver a minha viagem e a visita a você.
A minha vida, querido Hildebrando, nada tem de interessante. Quando estiver ao seu lado, direi o que ela tem sido. Agradeço esse carinhoso interesse. Você é um moço tão pleno de coração como de inteligência.
Nasci em Capivari, linha ituana, em 27 de setembro de 1899, no lugar denominado Picadão, na fazenda do dr. Albano Pimentel, onde os meus pais trabalhavam em formação de café. Cresci por sítios do município de Capivari e de Piracicaba, ajudando os meus pais nas lavouras em que eram jornaleiros. Um dia fui, aos 13 anos, para S. Paulo. Empreguei-me numa farmácia – entregar remédios, lavar vidros – aprendendo as primeiras letras. Aí, devido à proteção de uma bondosa senhora, d. Maria Rosa, fui internado no colégio dos padres salesianos, seguindo para Lorena. Os bons padres descobriram em mim vocação sacerdotal, e segui, como “aspirante”, para Cachoeira do Campo em Minas, “Escolas D. Bosco”, em cuja dependência se estabelecera o aspirantado. Quando cursava o 2.º ano de ginásio, acometeu-me uma grave moléstia nervosa, sendo obrigado a abandonar os estudos, retornando a S. Paulo, onde a expensas dos padres salesianos, fiz rigoroso tratamento no “Instituto Jaguaribe”. Curando-me, depois de um ano, voltei aos estudos em Lavrinhas, Est. de S. Paulo, para onde se transferira o colégio. Quando terminava o 4.º ano ginasial, em 1917, devido a uma série de contrariedades, abandonei definitivamente os estudos para o sacerdócio, indo para a minha família, então em S. Paulo, que lutava com muitas dificuldades. Todo o ano de 1917 e parte de 1918 fiquei em S. Paulo, lecionando no liceu S. Coração de Jesus, e particularmente. Em meados de 1918 segui para Capivari, onde trabalhei em escritas comerciais e aulas particulares. Tentei em 1921 fixar-me em S. Paulo, mas aí só consegui parar uns três meses. O clima era-me muito prejudicial, visto eu estar, desde fins de 1919, atacado da tuberculose. Tornei, pois, a Capivari, onde sempre vivi mais ou menos bem, devido à bondade do clima. Em 1922, porém, perseguido em minha cidade, onde lavrava intensa paixão política, mudei-me para Bauru. Aqui, onde tenho a minha família, exerci o cargo de ajudante habilitado de cartório. Ultimamente, porém, por causa do muito calor reinante em Bauru, não tenho podido exercer nenhuma atividade, tendo vivido de amigos, procurando de vez em quando climas benignos.
Foi nos primeiros tempos de colégio que se me pegou o vírus literário. A minha grande paixão, que continua enchendo a minha vida, foi Castro Alves. Mas, tenho pouca leitura. No colégio lia os clássicos. Amei Virgílio e Ovídio. Hoje, nem penso nessa gente. Sou louco por Baudelaire, Antero e Nobre. E sigo com um interesse, doentio de tão grande, todos os novos da minha terra. Eles estão fazendo uma grande literatura. Tenho dois livros prontos, um de versos e um romance – novela – que não sei quando publicarei. Até breve. Abraços. Muito seu, do coração Rodrigues de Abreu”.
(Mattos, Carlos Lopes de. In: Vida, Paixão e Poesia de Rodrigues de Abreu. Gráfica e Editora do Lar/Abc do Interior, 1ª Ed. 1986 - pp. 177 a 179).
- Em novembro de 1926, no sítio de São Gilberto, em Bauru, RA escreveu “Macega Florida”, última parte de “Casa Destelhada”;
Adendo Cultural: Guilherme de Almeida escreve dois ensaios: Do Sentimento Nacionalista na Poesia Brasileira e Rhythmo, Elemento de Expressão, Tipografia da Casa Garraux, São Paulo, com os quais concorre, como tese, ao cargo de professor de Literatura no ginásio do Estado. António de Alcântara Machado (1901-35) publica em São Paulo, “Pathé-Baby”, prefaciado por Oswald de Andrade e com ilustrações de Paim. Alcântara Machado, Paulo Prado (1869-1943) e Couto de Barros, lançam a revista Terra Roxa e Outras Terras, em São Paulo. Cassiano Ricardo publica Vamos Caçar Papagaios. Mário de Andrade publica Losango Cáqui, poesia e Primeiro andar, contos. Menotti Del Picchia publica Toda Nua (contos). Graça Aranha publica Futurismo: Manifesto de Marinetti e seus companheiros. Ronald de Carvalho publica Toda a América. Plínio Salgado publica A Anta e o Curupira, a ficção O Estrangeiro e Discurso às Estrelas (crônicas). Ribeiro Couto publica Um Homem na Multidão.
Adendo Brasil: 15 de novembro: posse de Washington Luís na presidência. Getúlio Vargas (1883-1954) é nomeado ministro da Fazenda. Surge o Partido Democrático (PD), em São Paulo.

1927
– No início do ano RA entrega os originais do livro Casa Destelhada para Cassiano Ricardo, que se prontifica a imprimi-lo na Editora Hélios Ltda., doando a edição toda ao autor. Surge assim, em março, o livro “Casa Destelhada”.

 Foto do livro Casa Destelhada, com dedicatória de RA. Esse exemplar pertence ao acervo da Biblioteca Municipal Rodrigues de Abreu, de Bauru(SP). Foto de Luiz de Almeida.

- Sobre sua estada em Campos do Jordão, nesse ano, RA escrevia a Silveira Bueno:

Hoje estou apavorado, cheio de terror infantil, doído. Nem sei explicar o que sinto, meu amigo: Sensação assim angustiante só me veio na vida, há três anos, em Campos do Jordão. Talvez porque me esteja lembrando daquela triste vila de tísicos...
Está caindo uma grande chuva, que cobre as matas, campos e esconde os animais, nada, nada. Quando relampeja vejo nítido tudo. O vulto de uma árvore seca dá galhos horrorizados, espectrantes. Em Campos do Jordão desce o “russo” (sic), uma garoa branca, úmida, como não há o que, fluida que penetra todas as coisas. Ela vem lentamente, cobre a montanha, desce para o vale, e invade a vilazinha. Quando ele vem todos se fecham, nem os sadios querem o seu encontro. Por mais que se feche a casa, o “russo” (sic) penetra sempre mais, não se por onde, e enche tudo de uma umidade de cemitério. E há tosses nos corredores das pensões, mais dores no peito, e uma enorme tristeza como não há igual entre os homens e que só os tísicos sentem.
(Mattos, Carlos Lopes de.In: Vida, Paixão e Poesia de Rodrigues de Abreu. Gráfica e Editora do Lar/Abc do Interior, 1ª Ed. 1986 - p. 160).
- Em março, envia exemplares do Casa Destelhada para vários amigos de São Paulo. Um deles: Mário de Andrade. Em carta datada de 8 de abril, Mário de Andrade escreve a RA (conservada a ortografia original):

Meu sempre Rodrigues de Abreu

Sempre sim, porque isso é que é o importante, eu sabia, você pode cantar alegre, ser forte, ter coragem e continuar o doente comovente que você é. Eu bem falei.
Recebi hoje de manhãzinha o livro de você, são 18 e 37 e acabei a leitura. Andei com ele pelos bondes, por toda parte, lendo toda a comoção sentida de você no Sol mais antitético que se possa imaginar, berrante, rastaqüera, carioca, calorento com um vestido cubista franqueza, indecente pra esta cidade calma discreta e meia escura até. Li todinho, andei riscando alguma coisa, uns versos que me pareceram bons demais pra ficarem no meio dos outros. Agora vou esses na primeira página do livro pra ter sempre à mão as frases melhores que saíram cantadas do sentimento de você.
Que gostei de todo livro igualmente, isso você sabe que não posso falar sem mentir idiotamente. Tem mesmo certos poemas que eu preferia que não estivessem no livro porque me pareceram fracos. Mas em geral, pelo menos você pode bem perceber que amizade que tenho por você, pois me repus com exatidão naquele estado de espírito pos-simbolista com que poderia ler, entender e gozar a maioria dos poemas do livro e que a esse estado-de-espírito correspondem. Já a última parte não careci de nenhum esforço não. Muita gente “modernista” pode falar e até provar que a Macega Florida é passadista. O Osvaldo de quem você me fala que atacou você será um desses. Também me atacou e me chamou o Amar Verbo Intransitivo de passadista. Pois que provem. Pode ter a certeza que a naturalidade e o espírito dessas frases é dessa coisa melhor que todos os passadismos e modernismos, é uma realidade pessoal refletindo sem tendência a contemporaneidade. Está pois muito bem. Agora o que me esqueci de falar é que valeu o esforço que fiz para retomar aquela mentalidade pós-simbolista carecida pra me ambientar dentro das outras partes do livro de você. Valeu porque tive uma porrada de prazeres e duas vezes esse susto que a gente tem de tanta comoção quando topa com uma obra-prima. E adoro o ingênuo do poeta que teve a coragem de escrever esta maravilha de verso: “Haverá Brasil menina que me espere?”. Isto é uma lindeza de verso, Rodrigues de Abreu, e tenho inveja de você ter inventado ele. Nem sei o que dava pra que ele fosse meu e não de você. É uma dessas bobagens puramente comovidas que só mesmo a gente sendo uma besta de poeta bem poeta de deveras que é capaz de escrever, bravíssimo! Não imagine que estou caçoando não. Eu era incapaz de fazer isso pra você. Porém o verso é tão simples que você pode imaginar isso de mim... É simples não tem dúvida, porém é duma simplicidade tão sentida tão... tão simples! Uma lindeza.
Esta carta está encrencadíssima, você nem imagina. Jantei no meio dela, aqui em casa se janta cedo por causa das minhas ocupações noturnas no Conservatório... mesmo nos dias em que não tenho ocupações noturnas no Conservatório. Depois da janta, vem sentei aqui, pronto, telefone está chamando. Não sei o que foi que deu nessa gente de querer falar comigo hoje, já interrompi três vezes a escritura, puxa!
Também agora aposto que não me interrompem mais porque acabo já. Conversei bastantemente e vamos ver se agora você se lembra de me escrever de longe em longe. Primeira carta que me escrever, se escrever depois do 1.º de maio, então escreva ao cuidado de Ascenso Ferreira, Tesouro do Estado, Recife. É melhor escrever sobrecarta pra ele e minha carta dentro que ele me entrega quando eu passar por lá. Pois é, meu caro, afinal parece que chegou a ocasião de eu também fazer a minha viagem grandota. Vou pelo Lóide Brasileiro até creio que Belém, de lá embarco na fluvial e desço o nosso Amazonas até Iquitos no Peru, depois volto até a Madeira-Marmoré dou um pulo na Bolívia e afinal vou parar no Guajará-Mirim cascata linda. A volta não sei bem por onde é. Não é uma viagem cotuba mesmo? Vamos um grupinho, seis ou oito não sei bem.
Abrace este seu amigo de coração e admirador sincero. Afinal me esqueci de fazer as considerações que queria sobre a última parte do livro que pra mim é a melhor. Porém pelas linhas iniciais desta você já pode perceber o teor das considerações que ia fazer. Pode ter certeza que assim conformado corajoso e alegre inda você é mais profundamente comovente. O livro do Manuel segue hoje mesmo. Não deixa de mandar um pro Ribeiro Couto que quer botar você na Antologia de poetas modernos brasileiros que está escrevendo. Não esqueça, heim? Outro Abraço.
Mário.
(Mattos, Carlos Lopes de. In: Vida, Paixão e Poesia de Rodrigues de Abreu. Gráfica e Editora do Lar/Abc do Interior, 1ª Ed. 1986 - pp. 199 a 202).
- Em 20 de abril, RA, de São José dos Campos, escreve carta a Menotti Del Picchia. (A carta poderá ser lida em: “Sínteses de Textos sobre Rodrigues de Abreu”, artigo: Rodrigues de Abreu, o “Primo Pobre do Modernismo brasileiro”, texto de Jácomo Mandatto, no final desta Síntese Biográfica).
- Em maio, RA muda-se para Atibaia, São Paulo, à Rua Coronel João Pires, 29. Em 9 de maio: RA escreve carta para o amigo, jornalista e poeta, Agnelo Rodrigues de Melo, o Judas Isgorogota, conforme descrição, onde foi conservada a ortografia original:

Isgorogota:

Mais algumas almas que, lendo os seus versos, sintam a emoção que senti, e você terá seu público comovido e estará pago do seu trabalho. Publique os seus versos para essas almas.
Lembra-se da visita que me fez, ao quarto do hotel em S. Paulo? Conversámos longamente e, depois, pedi-lhe que me dissesse versos. Quando você saiu, o meu quarto ficou cheio do ritmo dos seus versos comoventes. Mas olhei um pedaço do céu que os telhados permitiam que visse. Estava branco da chuva lenta e cantente! Não há versos, pensei, que não me falem em tarde assim. Está nisso o prestígio dos versos dêsse moço.
Mas, não estava. Mais tarde você me escreveu e a comoção daquela tarde se tem renovado, ao contacto com a sua poesia.
Agora, acabei de reler os seus versos. Dia fulgurante de Atibaia, em que o céu é azul irritado pela excessiva limpidez do dia. O meu pensamento está ágil, com vontade de correr e, como menino inquieto, de fazer travessuras, subir pelas paredes do horizonte e quebrar os quadros maravilhosos que os morros penduram na sala do dia.
E, no entanto, o ritmo dos seus versos, que estou dizendo alto, enche o dia glorioso de maior encantamento e beleza...
Cordialmente,
Rodrigues de Abreu
Atibaia, 9-maio-927
- Em 11 de junho, o jornal O Atibaiense, anunciava, no artigo de fundo, a presença do poeta, troçando-lhe o elogio. Nesse jornal RA publicou as seguintes crônicas: Meio Dia, Mocidade, As Histórias de Amor, Pedaço de Céu, O Homem que Cantava. No final do mês, retorna para a cidade de Bauru, à Rua Costa Ribeiro, 2-36. Debilitado, o poeta mal podia andar. Um amigo vinha toda tarde para datilografar suas últimas poesias. Foi quando o poeta redigiu seu último trabalho: “Balada da Nave de Nuvens”. Conta Carlos Lopes de Mattos que esse amigo, um dia ao chegar no final da tarde na casa do poeta, ela estava às escuras. Perguntou se houvera algum desarranjo na instalação elétrica. RA confirmou a suposição do visitante. De fato, porém, era o senhorio, residente na casa vizinha, que tinha cortado a luz, querendo obrigar o doente a mudar-se, pois temia o contágio. Foi necessário que o delegado interviesse para que a luz fosse de novo ligada. RA, em agosto, retorna a Bauru. Em 1º de setembro, RA escreve ao jornalista e membro da Academia Paulista de Letras, Honório de Sylos, carta essa que se encontra nos arquivos daquela Academia, juntamente com mais 30 cartas de Rodrigues dirigidas ao Honório entre 1922 e 1927, doadas pelo Honório, como também existe no arquivo um lista de subscrições, aberta na Redação de O Estado de S. Paulo, elaborada por Honório, para fazer frente às despesas do enterro de RA. Na sequência a reprodução da última carta de RA para Honório, na data mencionada, conservada a grafia original:

Baurú, 1 Stº 927

Não lhe tenho escripto, queridissimo Honorio, por que ando cansado, apavorado, cheio de um terror infantil e triste. Até ha pouco estava alegre, cheio de paz espiritual. Mas, meu cunhado perdeu o emprego, por que a casa onde era guarda-livros fechou-se. Meu irmão está ainda à procura de emprego. Fui, de novo, pro sítio dos “barbeiros”. Está um diluvio de chuva. Talvez seja o começo do fim. Escreva-me.
Mandei meu irmão escrever a você. Não veio resposta. Reze por mim, para que passe esta angustia que é necessário seja passageira. E diga que me ama. Não quero que me cerque o silencio dos que amo.
Seu de coração
Abreu
O Plínio está forte? E o Cassiano? E o Menotti?
(Theodor, Erwin. In: Tesouros do Arquivo da Academia Paulista de Letras. Revista da Academia Paulista de Letras, comemorativa pela passagem dos 90 Anos da Academia. Imprensa Oficial de São Paulo, São Paulo, 1999, p. 147).

- Bauru, 24 de novembro: Após 8 horas no balão de oxigênio, Rodrigues de Abreu falece. O velório aconteceu na casa de D. Hilda, Rua 13 de Maio, 2-52. Foi sepultado no Cemitério Municipal da Saudade, em Bauru, São Paulo.
Reprodução pelo processo digital

- Em 25 de novembro, Plínio Salgado assim anunciou a morte do poeta no Correio Paulistano:
“E mudou-se, também para a casa da Eternidade. Da Eternidade na memória da Raça, cujo lirismo ele interpretou e expressou num momento. Pois, enquanto o Brasil for Brasil, enquanto a nossa grande expressão racial fora a meiguice, a bondade, o lirismo – Rodrigues de Abreu há de representar essas qualidades na sua altíssima poesia”.
(Mattos, Carlos Lopes de. In: Vida, Paixão e Poesia de Rodrigues de Abreu. Gráfica e Editora do Lar/Abc do Interior, 1ª Ed. 1986 - pp. 209/210).
Adendo Cultural: Primeira vinda do criador do Manifesto Futurista (1909), o escritor, poeta, político egípcio-italiano, Felippo Godoy Tommaso Marinetti, ao Brasil. Chega ao Rio de Janeiro e faz palestra no Teatro Lírico, sendo apresentado por Graça Aranha. Blaise Cendrars faz sua segunda viagem ao Brasil. Mário de Andrade publica Clã do Jabuti e Amar, Verbo Intransitivo. Mário de Andrade entra como crítico de arte no Diário Nacional, de São Paulo. Menotti Del Picchia publica O Curupira e o Carão (em colaboração com Cassiano Ricardo e Plínio Salgado). Menotti publica também Poemas de Amor e Por Amor do Brasil (discursos parlamentares). Oswald de Andrade publica Primeiro Caderno de Poesia do Aluno Oswald de Andrade e O Romance do Exílio II. A Estrela de Absinto, com capa de Victor Brecheret. Alcântara Machado publica Brás, Bexiga e Barra Funda. Sérgio Milliet publica Poemas Análogos.
Adendo Brasil: Washington Luís é eleito presidente. Getúlio Vargas é eleito deputado federal. Júlio Prestes de Albuquerque (1882-1946) é eleito para o governo de São Paulo.

Adendo Final:
- Em 1931, ideia de Mário Thomaso Ferracciu, em Capivari, foi inaugurado, em 22 de março, na Praça Dr. Cesário Mota, a herma de bronze de RA esculpido por Tarsila do Amaral, outra capivariana.

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ARTIGUETE SOBRE A MUSA ARACY

ARACY, A MUSA AMADA DE RODRIGUES DE ABREU
Luiz de Almeida (*)

Lendo Abreu, ninguém, mas ninguém mesmo duvida que Aracy foi a sua musa, a sua amada. Mas, se estudarmos a obra e a vida de Abreu, iremos categoricamente afirmar que Aracy foi para o poeta o mesmo que Beatriz foi para Dante Alighieri. Não é nenhum absurdo essa similitude. Vejamos:

As musas, originadas na mitologia grega, eram as mulheres que habitavam no templo museion (museu), como as nove filhas de Zeus e Mnemosyne, que eram as fontes de inspiração nas artes. No sentido figurado, utilizava-se o termo “musa” para designar a mulher amada. Nessa mesma mitologia, a “musa” é aquela que preenche a existência de seus eleitos. É a inspiração do poeta. Portanto, nada de contraditório ou desvario a comparação de Aracy de Abreu com Beatriz de Dante. As duas foram as musas amadas e inspiradoras. E não só na poesia, mas na vida, pois os dois poetas viveram, sofreram e se eternizaram em detrimento das duas.

Abreu e Dante trataram as duas como divindades dignas de alta adoração. Foram as agitações do emocional dos dois poetas, pois fizeram com que eles, por várias vezes na vida, desligassem suas mentes dos seus corpos raquíticos. Na vida e na obra de Dante e de Abreu, Beatriz e Aracy proporcionaram ações dominadoras, pois os protagonistas, da vida e da obra dos dois poetas foram: a musa, o amor e a melancolia – que dominaram as almas dos poetas.

- Dante tratou Beatriz como “Gentilíssima” (nobre);
- Abreu tratou Aracy como “Queridíssima”;
- Dante chamou Beatriz de donna angelo (mulher anjo);
- Abreu chamou Aracy de “doce criatura”;
- O amor de Dante por Beatriz consumiu o coração do poeta;
- A alegria do amor de Abreu por Aracy transformou-o em tristimania;
- O amor por Beatriz conduziu Dante ao Purgatório (espera pela felicidade) e ao Paraíso (transfiguração perpétua);
- O amor por Aracy conduziu Abreu ao Ante Purgatório (espera pelo enlace) e ao Paraíso (solidão perpétua);
- Beatriz foi a guia de Dante para vencer os obstáculos da vida – e o fez poeta: obcecado, feliz e realizado ;
- Aracy foi o desejo de Abreu para ser feliz – e o fez poeta: atribulado, sofredor e desgostoso.
- Dante e Abreu, Abreu e Dante: poetas e amantes. Ambos em frenética busca das suas musas para a realização do amor.
- Dante e Abreu, quando imaginavam Beatriz e Aracy, pensavam como o poeta Homero: “Ella non parea figliuola d’uomo mortale, ma de Deo”Ela não parecia filha de homem mortal, mas de Deus.

Enfim, enfocando somente o nosso Rodrigues de Abreu, fica evidenciado na sua obra e nas suas cartas, que ele viveu em função do seu amor pela musa e noiva Aracy. Não conseguiu realizar o seu grande sonho: te-la ao seu lado por toda a vida.

Abreu viveu de amor, viveu de Aracy, viveu por Aracy e... Morreu sem que a sua musa amada pudesse estar com ele no momento da sua passagem do Purgatório terrestre para o Paraíso celeste.

Sendo assim, façamos genuflexão.
(*) Artiguete elaborado para a Exposição: “Abreu – Cartas de Amor de Sonhos”, com curadoria de Raquel Fayad e Luiz de Almeida, realizada na Pinacoteca Municipal de Bauru (SP) – Casa Ponce Paz, em setembro/2016.

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COMENTÁRIOS E DEPOIMENTOS BREVES:

- Paulo Setúbal: “Dois traços caracterizam a poesia de Rodrigues de Abreu: a humildade e a resignação”.
(Abreu, Rodrigues de. In: Poesias Completas. Ed. Joarte, Bauru/SP., 2ª ed., 2007, pág. 63).
- Menotti Del Picchia: “O espírito de humildade iluminava o seu lirismo”.
(Abreu, Rodrigues de. In: Poesias Completas. Ed. Joarte, Bauru/SP., 2ª ed., 2007, pág. 63).

- A SEGUIR - DEPOIMENTOS RETIRADOS DE: J. R. Guedes de Oliveira, ensaísta, biógrafo e historiador, in:
- Cassiano Ricardo: “Rodrigues de Abreu acordará, na sensibilidade de quem o ler, uma sonora repercussão de tristeza. Não é possível admirá-lo num dia de Carnaval. Mas é possível chorar com ele, num dia de sofrimento”.
- Afonso Schmidt: “Rodrigues de Abreu era uma dessas pequeninas flores anônimas que abrem no meio da relva, e que a gente, para bem admirá-las, tem de se por de joelhos”.
- Jamil Almansur Haddad: “Rodrigues de Abreu foi uma das coisas mais sérias da poesia no Brasil”.
- Agripino Grieco: “Rodrigues de Abreu era bem um poeta por dom inato. Sente-se-lhe a tristeza congênita de quem andou pelo mundo, para aplicar-lhe uma expressão que lhe era grata, como por uma Sala dos passos perdidos”.
- Gabriel Castilho de Almeida: Numa ocasião em que Abreu estava doente e em grande penúria, o Centro Bauruense lhe fez uma festa de arrecadação de fundos. Ao término destas festividades, os sócios deram a palavra final ao poeta. E o seu discurso, erudito, além de muito aplaudido, foi seguido de lágrimas, por todos os presentes. E no final de suas palavras, ele dizia com aquele olhar de poeta universal e de espírito altamente cristão: ‘O que mais me comove é a gentileza dos promotores desta festa, homenageando o artista, para socorrer o homem’. Este episódio foi relatado pelo Dr. Maringoni e pelo seu estimado amigo Pupo”.
- Andrade Muricy: “Esse moço paulista foi, na geração, o irmão deserdado, o irmão doente. Entre desportivos e gozadores, coube-lhe o quinhão da morte e o choro baixinho e humilde”.
- Cassiano Nunes: “Rodrigues de Abreu foi um trovador saudável, um poeta que amava doidamente a vida, e toda a sua obra de doente, de candidato prematuro à Morte, é um Hino à existência, uma glorificação do mundo”.
- Herculano Pires: “Esse poeta que é talvez o mais legítimo intérprete do aspecto literário do temperamento brasileiro”.
- Fernando de Azevedo: “Rodrigues de Abreu foi um doce e melancólico sonhador”.
- Silveira Bueno: “Serão necessários milênios para que, ao gotejar contínuo dos olhos torturados da humanidade, reponte, enfim, a joia rara de um cantor igual ao que a morte nos roubou”.
- Nestor Vítor: “Rodrigues de Abreu foi uma linda inteligência de pensador e uma alma vastamente simpática”.
- Narbal Fontes: “A poesia de Rodrigues de Abreu é como o ar, azul de tanto diáfano, e é através dela que nos chega sua dor infinita, peneirada em lágrimas, como chuva benéfica”.
- Correia Júnior: “Há na poesia de Rodrigues de Abreu, acima da beleza de seus ritmos, acima das imagens que a cada passo nos põe aos olhos a poeira fluídica e doirada do encantamento – uma virtude que já vai rareando nos poetas, virtude, entretanto, que, a meu ver, constitui a única razão de ser da poesia: a sinceridade”.
- Francisco Galvão: “Rodrigues de Abreu é o caminhante esguio e sonâmbulo da A sala dos passos perdidos. De olhos fechados, cismarentos, ele a atravessa com a displicência cômoda de um príncipe em exílio, esflorando lírios e pétalas de rosas no tapete lírico da alma da gente”.
- Honório de Syllos: “Rodrigues de Abreu semelhava, com aquelas barbas pretas, que ele deixou crescer para não se lembrar que os barbeiros não têm alma, um suave e boníssimo missionário. Apóstolo e missionário”.
- Maragliano Júnior: “Rodrigues de Abreu se fez poeta, e fez-se amado, pelo coração. Seus versos, como um fio d’água, escorriam da fonte da bondade, insinuando-se humildemente pela floresta das almas humanas”.
- Dr. João Maringoni: Um trecho da palestra feita nos salões do Automóvel Clube de Bauru, no dia 2 de setembro de 1946, falando sobre a figura do amigo Rodrigues de Abreu.
Dizia ele, naquela noite,
“que Rodrigues de Abreu falava com uma correção e desenvoltura sem par, e tinha uma palavra colorida de todas as nuânces, que seduzia e arrebatava. Na oratória era tão grande como na poesia.
Lembro-me de uma festa, que os amigos lhe fizeram, já nos últimos tempos de sua vida, para mantê-lo em São José dos Campos. Foi no Centro Bauruense, onde hoje está o Grêmio. Fizemos música. Moças recitaram e cantaram; Jorge de Castro, o jornalista insigne, que lhe seguiu na rota do sofrimento e da morte, organizou um número de jornal falado do “Diário da Noroeste”, que os vitoriosos da Revolução de 1930 destruíram e queimaram, como se fora possível queimar e destruir o pensamento e a luz.
No número falado do jornal, eu fiz o artigo de fundo, por deferência especial dos que me fizeram diretor daquele órgão; Breno Pinheiro, jornalista vigoroso, desses que escrevem com sentimento e ardor, deu-nos uma de suas produções rica de imaginação e graça; Rafael de Holanda, outro amigo ardoroso de brasilidade, fez uma doutrinação patriótica; Jorge de Castro, com sua pena de pluma e seu verbo de fato, uma crônica de modas, num estilo brilhante e macio; e todos fizeram a sua parte, naquele número de novidade, que surpreendeu pela forma e encanto pelo fundo. Rodrigues de Abreu pediu-nos, na hora, uma coluna e ele disse, na seção livre do jornal falado, o seu agradecimento.
Só quem esteve naquela noite no Centro poderá dizer o que foi o agradecimento do orador assim homenageado. Uma coisa inenarrável, um hino de louvor à terra que o acolhera, e aos amigos que o amparavam. Era tal o brilho e o transporte com que falava, que todos vibravam com ele, fremiam com ele, choravam com ele, com ele formando uma só cadeia de crença e de fé, uma só vida, uma só alma! Eletrizou, por fim, a assistência, que se quedou num silêncio de sepulcro, e a sala se esvaziou numa triste mudez de orfandade e de luto... Foi essa uma das últimas produções, porque pouco tempo depois, rodeado de amigos dedicados, como Alípio dos Santos e Jorge de Castro, e tendo à cabeceira, a lhe iluminarem a partida, dois círios humanos – Anésia de Abreu Cara e Hilda de Barros Monteiro – Rodrigues de Abreu, a 24 de novembro de 1927, voava para as regiões etéreas e ia, longe da terra e dos homens, na mansão sagrada dos justos, buscar a felicidade do seu eterno descanso.
Rodrigues de Abreu, operário agrícola nos sítios e fazendas de Capivari e Piracicaba, mestre-escola e escrevente de cartório, poeta e orador, foi um raio de luz que passou pela terra”.
- J. R. Guedes de Oliveira: “Seja como for, Rodrigues de Abreu merece mais estudos tanto sobre a sua vida como de sua arte. A penúria vivida por ele, por de passou, sempre ajudado, porém, por mãos amigas, é um vastíssimo manancial de poemas úmidos e tristes. Lembrá-lo é uma necessidade como parte de uma paga a quem fez da vida e da obra um exemplo dignificante”.
- Do livro Rodrigues de Abreu: Poesias Completas, Ed. Joarte, Bauru-SP., 2007 – Organização do Prof. Joaquim Simões Filho, membro fundador da Academia Bauruense de Letras – p. 71, assim escreve no encerramento do ensaio:
“O presente estudo pode ser acusado de chegar ao fim sem ter dedicado um capítulo à análise da técnica poética de Rodrigues de Abreu e à linguagem do poeta, sob o ponto de vista da poesia e da sintaxe. Quanto ao segundo caso, devemos dizer que Abreu não era nenhum filosofo nem mesmo um escritor cuidadoso. Escrevia naturalmente, com os defeitos e a graça da linguagem falada. // No que diz respeito à técnica, é necessário considerar que a poesia de Rodrigues se divide em duas partes distintas. Na primeira, Abreu – e esta observação já a ouvimos de Jamil Almansur Haddad – os poetas modernistas intercalavam versos de várias medidas, mas sempre sujeitos à cadência tradicional. Abreu rompeu com essa praxe, talvez sob a influência de Whitman (traduzido) e Tagore. Muitos de seus versos aparentemente livres, entretanto, são exatíssimos em seu ritmo clássico. De qualquer modo, a face técnica da poesia de Abreu não nos parece a mais importante de sua obra, e pouco resultaria de um exame da mesma”.
- Ainda Dr. João Maringoni: “Rodrigues de Abreu teve, em Bauru, os seus melhores dias e a prova aí está: para se expandir dessa maneira e produzir como produzia, desfolhando as mais belas flores do jardim do seu talento, era preciso que ele sentisse na alma a expansão da poesia, que é a mais bela expressão humana, como o cantar das aves, o marulhar das fontes, o luzir dos astros num céu todo estrelado”.
(Depoimento transcrito do livro Rodrigues de Abreu – Antologia, Ed. Joarte, Bauru-SP. – 1ª Edição, 1983 – Comemoração da “Semana Rodrigues de Abreu – 1983”, págs. IV-V).

SÍNTESE DE DEPOIMENTOS SOBRE
RODRIGUES DE ABREU

(...), Rodrigues de Abreu, falecido em 1927, foi, como assinalou Andrade Muricy, “o irmão deserdado, o irmão doente”. Irremediavelmente prostrado pela tuberculose em plena adolescência, não teve tempo de amadurecer em cantos definitivos. Mas em dois livros apenas, A Sala dos Passos Perdidos (1924) e Casa Destelhada, de publicação póstuma, deixa-se entrever o tesouro de sensibilidade que havia nesse rapaz cuja poesia comove como “um gesto carinhoso de despedida”, cujos ritmos largos, paralelísticos, e mais o tom augural e grave nos temas da noite, da morte, da religião antecipam a futura mensagem de Augusto Frederico Schmidt:
Em dia vindouro, nevoento,
Porque há de ser sempre de névoa esse dia supremo,
Eu partirei numa galera frágil
(...).
(Bandeira, Manuel. In: Apresentação da Poesia Brasileira. Livraria Editora da Casa do Estudante do Brasil. 3ª ed. Rio de Janeiro, 1957. Págs. 152/153).

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O poeta tísico Rodrigues de Abreu (1897-1927), de quem Manuel Bandeira ressalta na Apresentação da poesia brasileira, “o tesouro de sensibilidade” e a poesia de “ritmos largos, paralelísticos, e mais o tom augural e grave nos temas da noite, da morte, da religião”, publicou em vida apenas A sala dos passos perdidos (1924). O livro teve alguma repercussão e obteve críticas favoráveis de Menotti Del Picchia e Amadeu Amaral. (...).
(Nota de número 19 da p. 189, Marcos Antonio de Moraes, organizador do livro: Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira. Editora EDUSP/IEB, São Paulo, 2000).

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RODRIGUES DE ABREU (Benedito Luís de Abreu)
Benedito Luís de Abreu – que adotaria para os seus livros seu nome de família Rodrigues de Abreu – nasceu numa fazenda do município de Capivari, Estado de S. Paulo, em 1897, e faleceu em Bauru, vítima de tuberculose, em 1927. Teve vida difícil e humilhada desde a infância: auxiliou os pais na colheita de café na fazenda de que eram assalariados, empregou-se como lavador de garrafas e auxiliar de entregas numa farmácia e foi, mais tarde, modesto escrevente de cartório. Em busca da saúde, andou por Campos do Jordão, s. José dos Campos e Atibaia. Seminarista, abandonou logo os estudos eclesiásticos. Seus principais livros são; “A Sala dos Passos Perdidos” e “Casa Destelhada”, sendo que naquele “o autor transitava do neoparnasianismo e do simbolismo para a escola modernista, representada por alguns poemas finais”, e neste, “realizava, a seu modo, o modernismo poético”. A observação é de Domingos Carvalho da Silva, que demonstra haver o poeta adotado, das correntes inovadoras, o que nelas “havia de antiformalismo e de libertário”. Sua poesia, confessional e subjetiva, girando em tôrno do tema da morte e da obsessão da vida, dotada de acentos místicos, constitui, segundo o seu melhor crítico, Domingos Carvalho da Silva, “um depoimento sincero e comovente das suas impressões em face do mundo”, e foi êle, como poeta, “alto valor que não chegou a realizar-se, mas que manteve sempre a sua individualidade”. Na sua poesia foi observada pelos críticos reminiscências de Bilac e influências de Tagore, S. Francisco de Assis e da Bíblia, de Whitman, Antônio Nobre, Cesário Verde, Antero do Quental e Verlaine. Manuel Bandeira lembra que os versos de Rodrigues de Abreu, pelos seus “ritmos largos, paralelísticos, e mais o tom augural e grave nos temas da noite, da morte e da religião, antecipam a futura mensagem de Augusto Frederico Schmidt”.
(Brito, Mário da Silva. In: Panorama da Poesia Brasileira, Vol. VI – O Modernismo. Editora Civilização Brasileira S.A. Rio de Janeiro, 1959. Exemplar nº 2974, pág. 80).

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Rodrigues de Abreu: “É considerado pré-modernista, algo romântico, de lirismo nostálgico”.
(Oliveira, Cândido de. In: Súmulas de Literatura Brasileira – Editora Gráfica Biblos Ltda. 13ª Edição, S. Paulo, sd. P. 178, tópico nº. 16).

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A Difusão do Simbolismo”:

- (...) Rodrigues de Abreu, que oscilou entre a maneira do vate negro e um confidencialismo de ritmos livres que já tem algo de modernista (A Sala dos Passos Perdidos, 1924; A Casa Destelhada, 1927).
(Bosi, Alfredo. In: História Concisa da Literatura Brasileira – Editora Cultrix Ltda. S. Paulo, 3ª Edição, 1992-1997, p. 321).

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- (...) //Outro paulista, de Capivari, atravessaria, isolado e doente, os anos cruciais do Modernismo: Benedito Luís RODRIGUES DE ABREU (1897-1927). Ao longo de sua breve existência, precocemente ceifada pela tuberculose, publicou três livros de poesia: Noturnos (1919), A Sala dos Passos Perdidos (1924) e Casa Destelhada (1927), enfeixados, juntamente com poemas dispersos, nas Poesias Completas (1952). Conquanto evidenciasse, nas tentativas de extroverter-se e de empregar o verso livre à Walt Whitman, o desejo de adaptar-se à contemporaneidade, Rodrigues de Abreu passou ao largo da revolução modernista. “Sentimentalista e fraco (...), com a alma repleta de sonhos românticos”, confessa ele no prefácio a A Sala dos Passos Perdidos, como a prevenir o leitor para os poemas que iria oferecer-lhe, versos de “poeta triste”, como diz no poema de abertura. O quadro todo é dum verdadeiro êmulo de Antonio Nobre: romântico anacrônico, imaginando-se, noutra vida, “menestrel de muita fidalguia”, invoca “Nossa Senhora da Saudade” ou “Meu Santo Antônio Nobre” - (Ver Rodrigues de Abreu, Poesias Completas, São Paulo, Panorama, 1952, pp. 111, 170, 172). Se bem que o núcleo sentimental e triste, aureolado de misticismo, permaneça no curso dos poemas, Casa Destelhada parece mais fruto da experiência real que A Sala dos Passos Perdidos, ainda marcada de transpiração. A certeza de estar enfermo dum mal incurável àquela altura, um mal romântico, aguça-lhe o estado de espírito que, lembrando francamente o poeta do , o convida à inócua extroversão, espécie de compensação in extremis para a fatal egolatria. Cultivando o soneto bilaquiano, mas sem apego à “Forma complicada” (Ver Rodrigues de Abreu, Poesias Completas, São Paulo, Panorama, 1952, p. 104), em torno da Dor e do Amor, Rodrigues de Abreu é nitidamente um herdeiro do Simbolismo desgarrado no tempo e desterrado em Bauru e Campos do Jordão, onde, concentrado a ouvir as vozes interiores, nem mesmo atentava para a dos irmãos em Letras que se agrupavam em redor de Festa.
(Moisés, Massaud. In: História da Literatura Brasileira: Vol. V - Modernismo (1922 – Atualidade) – Editora Cultrix/Editora da Universidade de São Paulo, 1ª Edição, São Paulo, 1989, pp. 62/63).

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Bauru querida
- Havia um homem que, tentando inutilmente curar-se de sua doença profunda, atroz, resolveu morar, por algum tempo, em Atibaia. O ar da estância seria benéfico aos seus pulmões e poderia reanimá-lo para a vida.
Triste sorte, porém, desse homem que, mal chegando à cidade, uma forte crise o deixaria horas em poder articular uma palavra que fosse. E com a chegada de seus familiares distantes, sua boca angustiada conseguiu implorar:
– Bauru! Bauru! Bauru!
E este homem, levado de volta a sua terra adotiva, via férrea, aproximando-se de Bauru e ao avistá-la pôs-se a chorar de alegria, como uma criança que volta ao seu lar.
Este homem de que falamos, não é senão o nosso querido e saudoso poeta Rodrigues de Abreu que fez de sua poesia, de sua “via crucis” um hino de amor e de louvor à vida e à virtude, através também da sua literatura.
Tinha ele uma paixão por Bauru, pela sua gente, pelas suas ruas e pelas suas coisas. A Cidade dos Espantos, como ele definia em versos, crescia em ritmo de um novo Eldorado. Eram as ferrovias que traçavam o Brasil e Bauru, como ponto de encontro de três delas, representava o ponto fulgurante desse desenvolvimento acelerado.
Importava o progresso numa região distante, de calor imenso, de terras ainda para serem desbravadas e de figuras de donos-de-fazendas e pastagens.
Foi com este pensamento que o dr. Carlos Lopes de Matos(1910-1993), pronunciou, em 1954, uma ardorosa conferência a respeito do poeta, descortinando, a todos os bauruenses dados biográficos até então desconhecidos sobre o criador da “Casa Destelhada” e aspectos de sua vida de lutas em Capivari, por volta de 1918 a 1922, amparado que fora por figuras admiradoras, entre as quais citamos Amadeu Amaral, Rosário Capóssolli, Honório de Syllos e outros tantos.
//(...).
Dona Hilda de Barros Monteiro, senhora benemérita de Bauru, assim descreveu sobre o poeta e este tempo:
- Rodrigues de Abreu, com o seu temperamento alegre e folgazão, tornou-se logo conhecidíssimo e muito estimado por toda a sociedade de Bauru. Não havia festa, em clubes ou reuniões particulares em que o Abreu não fosse figura indispensável, e o centro de onde emanava sempre a alegria, a jovialidade, o espírito. Todos lhe reconheceram em pouco tempo a supremacia do talento.
E foi então que, instado por amigos que se maravilhavam com a beleza inédita de seus versos, resolveu reunir uma parte deles para serem publicados. Foi assim que surgiu “A Sala dos Passos Perdidos”, publicada em princípio de 1924. Para isso muito contribuíram os seus amigos drs. Alípio dos Santos, Celso de Almeida, Octávio Brisola e João Maringoni – que foram os verdadeiros estimuladores, os que incutiram no Abreu confiança bastante no sucesso e no renome que alcançaria com o aparecimento do livro.
Infelizmente, o sucesso literário correspondeu exatamente ao fracasso amoroso, e a mais rude e dolorosa das desilusões veio amargurar para sempre a sua vida. Sem uma desculpa plausível – verdadeiramente de surpresa – aquela que enchia a sua vida e que era a sua razão de lutar, porque, dizia ele, “pensava que a enchia de orgulho a sua subida” – resolveu desfazer o laço que os ligava e reclamou a restituição da palavra que empenhara. Vimos, então, transformado o Abreu, lutador corajoso e cheio de esperanças, em um desiludido, que viveria daí por diante por viver, sem mais escopo para o futuro.
Este depoimento de dona Hilda de Barros Monteiro é a própria síntese da história da vida de Abreu, com toda essência de um amor impossível.
(...).
(Oliveira, José Roberto Guedes de. (Poeta, ensaísta e biógrafo de Rodrigues de Abreu). In O Poeta da Humildade e da Resignação. Fonte: http://capivarisocial.com.br/artigos/93-o-poeta-da-humildade-e-da-resignacao) – Acesso em 2015.

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(...) A POESIA DE RODRIGUES DE ABREU: A HUMILDADE E A RESIGNAÇÃO.

(...),
(Paulo) Setúbal havia estudado “carinhosamente”, frisou Vinício Stein Campos, a poesia de Rodrigues de Abreu, autor dos livros A sala dos passos perdidos e Casa destelhada. A vida de Rodrigues, que faleceu em 1927, vítima da tuberculose, apresentava diversas analogias com a de Paulo (Setúbal). Nascera no município de Capivari, em 1897, e pertencia a uma família pobre, esteve num seminário salesiano, porém logo desistiu de seguir a carreira eclesiástica. Jovial, amigo de festas, bom dançarino, tudo depois lhe parecia favorável, mas a doença o atacou. Na ausência de se libertar da tuberculose, andou por Atibaia, Campos do Jordão e São José dos Campos. Muitas pessoas se afastaram dele, temendo o contágio. Adorava a sua noiva. Essa foi a primeira a abandoná-lo. Aí não há semelhança com a vida de Setúbal, pois o autor de A bandeira de Fernão Dias sempre teve na sua Chiquita uma companheira leal e dedicada. Paulo afirmou:
“Dois traços, acima de tudo, dois traços acentuados, caracterizam a poesia de Rodrigues de Abreu: a humildade e a resignação”.
Manuel Vitor de Azevedo nos disse, no seu depoimento oral, que Paulo se emocionava, as lágrimas escorriam-lhe pelo rosto, quando se punha a declamar este poema de Rodrigues de Abreu, do livro Casa destelhada:
“A minha vida é uma casa destelhada
por um vento fortíssimo de chuva.
(As goteiras de todas as misérias
estão caindo com lentidão perversa,
na terra triste do meu coração).
A minha alma, a inquilina, está pensando
que é preciso mudar-se, que é preciso
ir para uma casa bem coberta...
(As goteiras estão caindo,
lentamente, perversamente,
na terra molhada do meu coração).
Mas a minha alma está pensando
em adiar, quanto mais, a mudança precisa.
Ela quer muito à velha casa
em que já foi feliz...
E encolhe-se, toda transida de frio,
fugindo às goteiras que caem lentamente
na terra esverdeada do meu coração!
Oh! a felicidade estranha
de pensar que a casa aguenta mais
um ano
na paredes oscilantes!
Oh! a felicidade voluptuosa
de adiar a mudança, demora-la,
ouvindo a música das goteiras tristes,
que caem lentamente, perversamente,
na terra gelada do meu coração!”
Paulo Setúbal, como poeta, amava a rima, a fixidez do ritmo, a equitativa distribuição dos acentos tônicos na estrofe, mas ele soube compreender e sentir a beleza dos versos sem rima de Rodrigues de Abreu, das suas poesias despojadas de métrica, de cesuras, de pausas, de acentos obrigatórios.
Num artigo publicado no jornal A Razão, o escritor revelou como conheceu Rodrigues:
“Ainda me recordo, com dolorido carinho, daquele moço pálido, cor de cera velha, que um dia surgiu, muito tímido, pela minha casa adentro. Era magro. Tinha os cabelos longos e negros. Vinha trajado, não com simplicidade, mas com marcada pobreza.”
Rodrigues de Abreu entrou na casa do romancista e sentou-se. Cheio de respeito, de “infinita doçura”, ele proferiu a seguinte frase, humildemente:
- Eu queria falar com o doutor Paulo Setúbal.
O escritor soltou estas palavras:
- Sou eu mesmo. Que é que o senhor quer?
- Eu me chamo Rodrigues de Abreu – disse o poeta – e vim para...
Paulo não se conteve:
- Quê? Você é o Rodrigues de Abreu? Você? E você a me chamar assim de doutor? Que é isso? Dá cá um abraço, Rodrigues! E outro... E ainda outro...
Deixemos o próprio Setúbal narrar o episódio:
“Abracei-o com alvoroço. Abracei-o com entusiasmos quentes. Abracei-o com o maior e com o mais puro enternecimento. Estava ali, diante de mim, naquele rapaz, humílimo, um dos mais altos valores da minha geração. Estava ali, naquele rapaz andrajoso, naquele vendido, um dos maiores, e, talvez, num certo sentido, o maior poeta moderno do seu tempo.”
O drama de Rodrigues de Abreu, as angústias que ele sentia, a sua moléstia, fizeram de Setúbal um seu irmão na dor. (...).
(Jorge, Fernando. In: Vida, Obra e Época de Paulo Setúbal - Um homem de alma ardente. Geração Editorial, Belo Horizonte – MG. 2ª ed., 2008 – Págs. 280 a 282).

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“Uma jovem escritora paulista conseguiu publicar 244 páginas sobre Autores Contemporâneos Brasileiros sem citar o nome de Rodrigues de Abreu”.
Paulo Setúbal escrevia: “Esse indiferentismo dos coevos, essa obscuridade em que ele afundou na morte, é coisa de que a posteridade há de rir. Essas duas obras lançá-lo-ão à imortalidade e à glória. Podem já agora correr os anos: o ingrato olvido terreno não o atingirá mais. Dia virá, estou certo, em que a justiça dos homens, às vezes ai! tão tarda, há de erguer num pedestal o nome de Rodrigues de Abreu, do poeta pobrezinho e desvalido que morreu tísico em Bauru, e, clangorosamente, triunfalmente, ao som de trombetas e rufos, há de coroá-lo de rosas e de guirlandas. Ele bem merece!”.
(Mattos, Carlos Lopes de. In: Vida, Paixão e Poesia de Rodrigues de Abreu. Gráfica e Editora do Lar/Abc do Interior, 1ª Ed. 1986 – p. 215).

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RODRIGUES DE ABREU,
O “PRIMO POBRE DO MODERNISMO BRASILEIRO”.

(...).
Composta de apenas três livros – Noturnos, Casa Destelhada e A Sala dos Passos Perdidos -, essa pequena bagagem já recebeu acentuado número de estudos por parte de críticos renomados e por outros menos afamados, mas todos reconhecendo a excelente qualidade da poesia do vate cuja existência não passou dos trinta anos. Rodrigues de Abreu foi, talvez, o ultimo dos grandes poetas brasileiros que a tuberculose arrebatou em plena mocidade; como já acontecera com Rodrigues de Abreu, Castro Alves, Cruz e Souza, Paulo Gonçalves (este, como Rodrigues, nascido também em 1897 e falecido em 1927, poucos meses antes de Abreu).
Entre os nomes expressivos que se dedicaram ao estudo da poesia de Rodrigues de Abreu podem ser lembrados os de Nestor Victor, Fernando de Azevedo, Carlos Burlamaqui Kopke, Domingos Carvalho da Silva, Paulo Setúbal, Plínio Salgado, Menotti Del Picchia e, ainda agora, Roque Luzzi, com o livro Relembrando Rodrigues de Abreu: o poeta da resignação e ternura.
Essas manifestações, mesmo espaçadas, sobre Rodrigues de Abreu, fazem com seu nome e sua produção não caiam em total olvido, pois esse parecer o triste inevitável destino a que estão relegados os escritores brasileiros pouco depois de sua partida desta para a outra vida.
Tenho à minha frente um recorte do antigo e já extinto jornal paulistano “A Platéia”, de 24 de novembro de 1934, onde, em reportagem de três colunas, sob o título “Sou irmão dos mendigos”, Menotti Del Picchia, “brilhante poeta e escritor paulista”, falava “sobre a vida do poeta doloroso que foi Rodrigues de Abreu, no dia do sétimo aniversário de sua morte”. Hoje, dificilmente alguém falará de um poeta sete dias após seu falecimento...
Amigo pessoal do autor de Casa Destelhada, Menotti Del Picchia dizia ao repórter d’ “A Platéia”: “Conheci Rodrigues de Abreu em Bauru. Era a pessoa menos importante da cidade. Nesse tempo havia chefes, capitalistas, autoridades, muitos homens importantes... Pois veja o que é o destino: todos ‘esses homens importantes’ ninguém hoje tem seu nome nas praças e sua imagem eternizado no bronze... ele me procurava sempre e, tímido que era, mandava-me de Bauru as poesias que ia escrevendo ‘para saber o que eu pensava’. E eu pensava que ele criava, com aquelas humildes estrofes, a própria imortalidade”.
Inveterado missivista, não deixando de atender a quem quer que fosse, mesmo com um pequeno cartão, Menotti deve ter-se correspondido fartamente com Rodrigues de Abreu, desde o aparecimento de Noturnos, em 1919, até fins de 1927, quando morreu. Onde estarão essas cartas? Teria a família de Abreu guardado a correspondência por ele recebida? Em caso positivo, onde estará, agora, esse valioso material? E as cartas de Rodrigo a Menotti, onde estarão? Provavelmente conservadas em pacotes, em caixas, em pastas, entre milhares de outras, recebidas de centenas de amigos com os quais sempre se correspondeu.
Há poucos meses, quando iniciei a organização da “Casa de Menotti Del Picchia”, em Itapira (um memorial que preservará grande parte do acervo literário, político e pessoal do atual Príncipe dos Poetas Brasileiros), tive permissão de Menotti e seus familiares para levar tudo quanto interessasse à referida Casa, inclusive seu fardão acadêmico, material esse que juntei ao meu (originais do “Juca Mulato”, coleção do jornal “O Grito”, fotografias, documentos diversos dos tempos de Menotti em Itapira) e com ele montei o museu desde 29 de março deste ano está instalado no Parque Juca Mulato, acontecimento que foi amplamente noticiado pela imprensa.
Entre a batelada de livros empoeirados – muitos deles irremediavelmente devorados pelo cupim – que se achavam num cômodo nos fundos da casa de Menotti, em São Paulo, deparei com algumas caixas onde descobri muitas cartas, recentes e antigas, assinadas por nomes dos mais expressivos do mundo cultural e político do Brasil e do Exterior. Aquela descoberta era de valor inestimável e acontecera em boa hora. Um pouco mais de tempo e o cupim e o mofo dariam cabo daquele tesouro epistolar! Ao proceder à limpeza e ao arrolamento dessas cartas fui deparando com nomes conhecidos como os de Juscelino Kubistchek de Oliveira, Joaquim Inojosa, Carlos Drummond de Andrade, Nóbrega de Siqueira, Guilherme de Almeida, Villa-Lobos, Mário de Andrade, Jorge Amado, Plínio Salgado, Cassiano Ricardo, Lygia Fagundes Telles, Josué Montello, José Cândido de Carvalho, e outros e muitos outros. E entre esses muitos outros lá estava uma carta, apenas uma, com duas laudas de papel descorado, assina por Rodrigues de Abreu, escrita poucos meses antes de sua morte, quando o poeta capivariano já estava irreversivelmente condenado a morrer vitimado pela tuberculose. Com que emoção eu sustinha nas mãos aquelas folhas amareladas e com que maior emoção – coração em disparada! – eu li aquela carta do desventurado poeta paulista, um documento comovedor que expressa o quanto grato estava Rodrigues de Abreu pela atenção que seus irmãos de arte lhe dedicavam, especialmente Menotti, aquém chamava de “altíssimo poeta”. Observe-se, também, a preocupação do poeta em conseguir com Menotti um exemplar do “Juca Mulato” para uma sua colega de infortúnio, a “Yayá”, de “Olhos febrentos de tísica”. A transcrição tem ortografia atualizada:

“São José dos Campos, 20-4-27

Meu querido Menotti:

Vivo sempre ensaiando escrever-lhe uma carta muito longa, em que diga do contentamento extraordinário que tenho sentido ao ler os últimos artigos de você, do Cassiano e do Plínio, em que luminosamente enveredam pelo caminho certo que fará do Brasil o país intelectualmente independente. Paulo Setúbal vem amiudadas vezes ao meu quarto, e ficamos os dois comentando vocês três, que são em verdade os mais seguros, sinceros e úteis espíritos desta geração paulista, a mais formidável que já apareceu no Brasil. Paulo Setúbal é um admirador profundo de vocês. Eu, nem se diga. Fica essa longa missiva para um dia de coragem. Eu preciso conversar muito com você, vagarosamente.
Esta carta é para agradecer-lhe o que tem feito por mim. Nada valho. Você é iludido pela sua bondade. Mas, esteja certo que eu acredito na sinceridade das suas palavras. A você eu devo a felicidade de poder desmanchar em versos a dor que Deus me deu em abundância. Desde o tempo remoto de Capivari, quando você nem sabia que eu era doente, nem me conhecia pessoalmente, vive em você esse entusiasmo pela minha pobre arte. A você devo não ter esmorecido, e à sua amizade de artista genial. E se hoje não blasfemo, e canto, é pela felicidade suprema de ter amigos constantes e bons como você, ó meu altíssimo poeta! Obrigado.
Esta também é para pedir-lhe que me mande um exemplar do Juca Mulato. Não é para mim. Para a senhorinha Maria José de Oliveira (Yayá). É uma moça de intensa cultura. E sensível, e boa, e linda, Menotti. Ela tem adoração por você. Tem todos os seus livros. Entre eles idolatra o Juca Mulato. Sabe todo o poema de cor. Eu lhe disse que quando fosse a São Paulo, pediria a você, com dedicatória para ela, o livro que ela mais ama. Se você visse o contentamento que brilhou nos seus grandes olhos febrentos de tísica! Eu vi, e não quis demorar-lhe esse prazer. Vim (?) escrever esta carta, certo de que pela volta do correio você me mandará Juca Mulato, com uma dedicatória a essa moça. Ela ficará contente, e eu também. Seu, de coração. Rodrigues de Abreu”.
(Mandatto, Jácamo. In: D.O. Leitura. Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, nd. Jácomo Mandatto (1933-2009), itapirense, jornalista, poeta, escritor e historiador).

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R O D R I G U E S DE A B R E U
(Conservada a grafia original)

Morreu o suave cantor da amargura. No empório do Noroeste, onde se juntam as três grandes linhas de penetração do Estado, na cidade — creança, surgida hontem, cheia de claridade e de movimento, esfervilhante de negócios e de transacções commerciaes, em Bauru, fechou os olhos para sempre, em plena mocidade, o Leopardi brasileiro, o poeta que fez um poema do seu mal e diluiu o fel que o seu organismo distillava em canções de ternura e de melancolia.
Nascido em Capivary, na terra do maior poeta contemporâneo, apoderou-se do seu corpo débil a "deusa dos olhos taciturnos", aquella terrível apaixonada que não perdoa: a tuberculose.
E nos seus carmes dolentes, compostos na sua maioria já sob o jugo da traiçoeira moléstia, não explode nunca o grito lancinante da cólera nem a convulsão espumante da revolta. Resignou-se ao seu destino. Amparava-o a doce e comovida lembrança de sua Mãe :
"... nestes dias infindáveis de moléstia, sinto quasi alegria ao pensar que você morreu antes de eu ficar doente".
E sustentava-o a bondade infinita dessa irmã que cuidou delle, durante toda a longa e atroz enfermidade, com o affecto e o carinho de um anjo. Foi por ella que exclamou: "'
"Vou rasgar o papel êm que puz estes versos.
Sinto o riso de minha irmã que vae entrar...
E eu não quero que a minha irmã tenha vontade de chorar!"
Morreu levando para o túmulo um supremo desconsolo: o de reconhecer que a sua exquesita e extranha sensibilidade lhe vinha do tremendo mal que o victimou e não de uma especial conformação de seu temperamento. E no seu pudor pelo envilecimento da carne, que elle não desejaria denunciar aos outros, ficou-lhe um travo de magua inenarrável:
"Já perdi a belleza de soffrer,
Minha tristeza vem deste mal physico.
Foi-se o bem de ser doente sem saber...
Antes nunca soubesse que sou tísico".
Pobre Rodrigues de Abreu! Como Moacyr de Almeida, como Paulo Gonçalves, pagaste o pesado tributo de ter alma grande demais para a fragilidade de seu envolucro. O corpo foi incapaz de a conter... E tu te foste antes que a tua obra, arrancada fibra a fibra de teu enorme coração, coasse no teu cérebro em filigranas de cruel emotividade...
(A redação. Revista Arlequim nº 4, de 1º de dezembro de 1927. Direção de Sud Mennucci, Maurício Goulart e Américo R. Netto, São Paulo).

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DE PROFUNDIS
Para Rodrigues de Abreu
(Wellington Brandão)
(Grafia atualizada)

Fontes do meu coração, rebentai! rebentai!
O Poeta que morreu,
esse luminoso e profundo Rodrigues de Abreu,
esse tuberculoso meigo como uma criança,
ó fontes! entranhou-se em ternura
nos veios puros em que vos escondeis...
O seu gesto de despedida,
ao partir da sua grande Casa Destelhada,
foi tão cheio de alegria e de resignação,
que um filho do meu coração
acenou naquele gesto suave e triste
como o ultimo beijo de uma boca de criança.
Jesus Cristo e S. Francisco de Assis:
recebei o vosso irmão
e amparai-o, que vai desfalecido de meiguice.
E si olhardes pra nós, os seus irmãos menos dignos,
ajoelhados na dor desta saudade,
perdoai-nos e encorajai-nos!
(Brandão, Wellington. A redação. Revista Arlequim nº 5, de 8 de dezembro de 1927. Direção de Sud Mennucci, Maurício Goulart e Américo R. Netto, São Paulo).



CAPAS DE LIVROS DE RODRIGUES DE ABREU
E SOBRE RODRIGUES DE ABREU
(Fotos ilustrativas – processo digital)
 














(*)“As mulheres na poesia de e na vida de Rodrigues de Abreu”, conferência proferida por Carlos Lopes de Mattos (1910-93) e publicada pela Revista dos Tribunais, 27p., em 1951.



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OUTRAS IMAGENS

Detalhe da herma de Rodrigues de Abreu, em Capivari (SP)
Busto de Rodrigues de Abreu. Biblioteca Rodrigues de Abreu, Bauru (SP) – Foto de Luiz de Almeida
 Rodrigues, 18 anos. Foto reproduzida da original pertencente ao acervo da Biblioteca Rodrigues de Abreu, Bauru (SP) – Foto de Luiz de Almeida

 Foto de Rodrigues de Abreu – Reprodução
 Foto de Rodrigues de Abreu (no centro), com dois amigos, em Bauru – Foto tirada da original pertencente ao acervo da Biblioteca Municipal Rodrigues de Abreu, Bauru(SP), por Luiz de Almeida.
 Foto da pasta onde se encontram arquivadas as cartas originais de Rodrigues para Aracy. As fitas (em rosa) eram usadas pelo poeta para amarrarem as cartas para Aracy. Pasta pertence ao acervo da Biblioteca Municipal Rodrigues de Abreu, Bauru(SP) – Foto de Luiz de Almeida.
  
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FONTES PESQUISADAS:

Obras:
- Almeida, Guilherme. Meus versos mais queridos. Edições de Ouro, Rio de Janeiro, sd;
- Amaral, Amadeu. Tradições Populares. Editora Hucitec, 2º ed. São Paulo, 1976;
- Bandeira, Manuel. Apresentação da Poesia Brasileira. Livraria Editora da Casa do Estudante do Brasil. 3ª ed. Rio de Janeiro, 1957;
- Bosi, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. Cultrix, São Paulo, 3ª ed., 1997;
- Brito, Mário da Silva. Poesia do Modernismo. Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2ª Ed., Exemplar nº 2653, 1968;
- Conselho de Ação Cultura do Município de Bauru. Rodrigues de Abreu: Antologia. Editora Joarte, Bauru (SP), 1ª ed., 1983;
- Filho, Joaquim Simões & Academia Bauruense de Letras. Rodrigues de Abreu, Poesias Completas. Editora Joarte, Bauru (SP), 2ª ed., 2007;
- Jorge, Fernando. Vida, Obra e Época de Paulo Setúbal - Um homem de alma ardente. Geração Editorial, Belo Horizonte (MG), 2ª ed., 2008;
- Marins, Wilson. A Literatura Brasileira – Vol. VI – O Modernismo. Cultrix, São Paulo, 1ª ed., 1965;
- Mattos, Carlos Lopes de. Vida, Paixão e Poesia de Rodrigues de Abreu. Gráfica e Editora do Lar & ABC do Interior, Capivari (SP), 1ª ed. 1986;
- Moisés, Massaud. História da Literatura Brasileira. Vol. V – Modernismo(1922 - Atualidade. Cultrix & Edusp, São Paulo, 1ª Ed., 1989;
- Moraes, Marcos Antonio de. Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira. Edusp & IEB, São Paulo, 2ª ed., 2001;
- Oliveira, Cândido de. Súmulas de Literatura Brasileira – Editora Gráfica Biblos Ltda. 13ª Edição, S. Paulo, nd;
- Oliveira, José Roberto Guedes de. Rodrigues de Abreu e suas Cartas de Amor. Jalovi, Bauru – SP., nd;
- ___________. Meu Caro Rodrigues de Abreu. Edição do autor. 1ª ed. Capivari – SP., 2003;
- Theodor, Erwin. In: Os Tesouros do Arquivo – Acervo de mais de 900 peças – Revista da Academia Paulista de Letras – 90 Anos. Imprensa Oficial do Estado de S. Paulo, São Paulo, 1999 – p.147;
- Vale, José Misael Ferreira de. Geografia e Poesia. RBEP, Brasília, 188, nº 219, p. 274 a 290, 2007;
- Victor Civita (editor) da Abril S.A. Cultural. Coleção Nosso Século. Vol. I e II (1900-1910), Vol. III e IV (1910-1930). Edição exclusiva para o Círculo do Livro, São Paulo, 1985;
- _____________. Coleção Literatura Comentada. Volumes: Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Guilherme de Almeida, Lima Barreto, Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Machado de Assis e Euclides da Cunha. São Paulo, 1981;
- (*) Demais não relacionadas: ver nas referências no bojo da Síntese Biográfica.

Sites: (Acessados em 2014, 15 e 16)

Notas Necessárias:
1 - A elaboração desta Síntese Biográfica sobre Rodrigues de Abreu foi baseada com a colaboração do livro “Rodrigues de Abreu e Suas Cartas de Amor”, de autoria do capivariano, contabilista, fundador da Academia Indaiatuba de Letras, membro fundador da Fundação Capivariana de Cultura e do Conselho Consultivo da Fundação Pró-Memória de Indaiatuba, escritor e autor também do livro “Capivari em Duas Décadas (1900 a 1921)”, José Roberto Guedes de Oliveira. Deste escritor também foi utilizado o livro por ele organizado: “Meu Caro Rodrigues de Abreu”, Ed. do Autor, 2003;

2 – Sem o conteúdo do livro “Vida, Paixão e Poesia de Rodrigues de Abreu”, de autoria do filósofo, mestre e escritor Dr. Carlos Lopes de Mattos (1910-93), também seria impossível conhecer mais sobre o Poeta Rodrigues de Abreu;

3 – Pesquisa também realizada na Biblioteca Rodrigues de Abreu, em Bauru (SP);

Luiz de Almeida

Última atualização: 06/09/2016