quinta-feira, 6 de março de 2008

CURIOSIDADE SOBRE A VIDA DE MANUEL BANDEIRA

NARRATIVA PITORESCA SOBRE
MANUEL BANDEIRA

Luiz de Almeida

Quando estamos arregimentando material para uma pesquisa já definida, deparamos com inúmeras dificuldades. Se as fosse narrar aqui estaria desvirtuando o objetivo do Blog e os do Projeto Retalhos do Modernismo. Mas é excitante estar diante de um amontoado de jornais, revistas e livros (estes repletos de clipes, marcadores de páginas, tiras de papel e até mesmo canetas), “tentando” interagirem, mesmo fora do planejamento, textos, contextos, frases dispersas, etc., e também “tentando” formalizar um diálogo entre eles, na maior parte das vezes, distintos. O trabalho requer uma parcela do princípio da intertextualidade. Quando pensa que está concluindo, encontra-se algo simplesmente espetacular - e o adicionamento é inevitável. Reinicia-se. Ou como diz o poviléu: “cumeça du cumeço travêis”. E foi assim que aconteceu com o artiguete que segue, pois quando já formatado, recebi via e-mail, na íntegra, o que possuía apenas a metade. Conclui. E, modestamente, até que não ficou um artiguete debilitadinho. Para os amantes do poeta Bandeira, como sou, uma pitada de conhecimento que não irá influenciar muito nos estudos da vida ou da obra do Manú, mas é um assunto que classifico como: um “causo” bem pitoresco. E, deixando de proemiar, eis o que interessa:

A PROPOSTA DE CASAMENTO DO PAI DE MANUEL BANDEIRA

Entre os papéis do arquivo pessoal do poeta Manuel Bandeira, parte substancial sob guarda na Casa de Rui Barbosa, figura o original manuscrito da carta que o pai do poeta, Manuel Carneiro de Souza Bandeira, que também assinava Manuel Bandeira, pede ao futuro sogro, o advogado e parlamentar Antônio José da Costa Ribeiro, a mão de sua filha Francelina Ribeiro (a Santinha), com quem haveria de casar-se logo depois, tendo sido o nosso querido poeta Manuel Bandeira o terceiro filho do casal, nascido em 1886, no dia 19 de abril, no Recife, na época Rua da Ventura, hoje Rua Joaquim Nabuco.

Também no arquivo está a certidão de batismo do poeta Bandeira, cerimônia essa realizada aos 20 de maio de 1886, na Matriz da Boa Vista, no Recife, tendo sido celebrante o Padre João José da Costa Ribeiro, então vigário da paróquia, e tio do poeta.

Manuel Bandeira chegou a conhecer seu avô Costa Ribeiro, e em sua obra há várias referências a ele e à sua casa da Rua da União, nº 263, na capital pernambucana, que ao menino parecia “impregnada de eternidade”. Uma referência importante que o poeta faz é no poema Evocação do Recife, inserido no livro “Libertinagem”. Importante ressaltar que o poeta voltou ao Recife em 1892, e foi residir na casa do seu avô, Costa Ribeiro. No livro “Itinerário de Pasárgada”, assim fala o poeta referindo-se àquela moradia da Rua da União:

- “Dos seis aos dez anos, nesses quatro anos de residência no Recife, com pequenos veraneios nos arredores – Monteiro, Sertãozinho de Caxangá, Boa Viagem, Usina do Cabo – construiu-se a minha mitologia porque os seus tipos, um Totônio Rodrigues, uma Dona Aninha Viegas, a preta Tomásia, velha cozinheira da casa de meu avô Costa Ribeiro, têm para mim a mesma consistência heróica das personagens dos poemas homéricos. A Rua da União, com os quatro quarteirões adjacentes limitados pelas Ruas da Aurora, da Saudade, Formosa e Princesa Isabel, foi a minha Tróade, a casa de meu avô, a capital desse país fabuloso”. (....) Quando comparo esses quatro anos de minha meninice a quaisquer outros quatro anos de minha vida de adulto, fico espantado do vazio destes últimos e cotejo com a densidade daquela quadra distante”.

Retornando ao objetivo deste artiguete: “a carta do pai do poeta pedindo a mão da ‘Santinha’, futura mãe do poeta”. A carta documenta também os hábitos da época, mostrando como era formal e cerimonioso o relacionamento entre o pretendente à mão da filha e o futuro sogro – formalidade que atualmente está completamente em desuso e, caso aconteça, é até motivo de zombaria.

Eis a carta na íntegra:

“Amº Dr. Costa Ribeiro

Recife, 12 de agosto de 1881

Venho roubar-lhe alguns momentos de atenção, mas espero, desculpar-me-á, pois tenho em vista ocupar-me de um assunto, que a nós ambos merece a mais subida consideração.

Há já alguns anos que sua filha mais velha inspira-me o mais vivo interesse e ter-me-ia já há muito tempo declarado ao Drs., se mo tivessem permitido minhas circunstâncias; mas muito moço em uma carreira, cujo tirocínio é árduo e penoso, temia ser mal recebido, pois eu mesmo não me julgava em condições de contrair um compromisso desta natureza.

Hoje porém que vejo em parte vencidas as primeiras dificuldades e que uma posição um pouquinho melhor permite-me uma vida relativamente mais fácil, animo-me a vir pedir o seu consentimento para oferecer a ela meu nome e meu futuro.

Espero ansioso sua resposta que terá a bondade de comunicar-me, qualquer que ela possa ser.

Aproveito a ocasião para manifestar-lhe os protestos de consideração e estima do
amº crº obrgº

Manuel Bandeira

-x-x-x-x-x-x-x-

LEMBRETES IMPORTANTES:
1 – A mãe do poeta faleceu no Rio de Janeiro em 1916, um ano antes do poeta publicar seu primeiro livro “A Cinza das Horas”;
2 – O Pai do poeta faleceu no Rio de Janeiro em 1920, um ano após ter custeado o livro Carnaval, de autoria do filho poeta. Dois anos antes do falecimento do pai, Bandeira também viu falecer sua irmã Maria Cândida, a qual fora sua enfermeira deste 1904;
3 – Após o falecimento do pai, Manuel Bandeira muda-se da Rua do Triunfo para a Rua do Curvelo, n.º 53 (atualmente Rua Dias de Barros), tornando-se vizinho de Ribeiro Couto.

FONTES PESQUISADAS:
- Bandeira, Manuel. Estrela da Vida Inteira – Editora José Olympio – 15ª Ed. RJ/1988;
- _____. Libertinagem & Estrela da Manhã – Editora Nova Fronteira – 25ª Impressão – RJ/2000;
- Lopez, Telê Porto Ancona (Org.). Manuel Bandeira: Verso e Reverso – T.A. Queiroz, Editor – 1ª Ed. São Paulo, 1987;
- Moraes, Marcos Antonio (Org.). Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira – Editora Edusp, São Paulo/2001;
- Jornal das Letras – Rio de Janeiro (recorte sem data).

(Este texto faz parte do Acervo da Biblioteca da Exposição Retalhos do Modernismo).

Um comentário:

Urariano Mota disse...

Luiz, vim, vi e gostei. Esse documento do pai de Bandeira é mais que raro. Até hoje eu não havia lido isso em canto nenhum. Sobre o poeta fundamental, deixo-lhe a sugestão de uma tentativa de crítica (na verdade, uma crônica livre) em http://www.interpoetica.com/manuel_bandeira_urariano_mota.htm
Abraço.