quinta-feira, 5 de julho de 2012

segunda-feira, 2 de julho de 2012

A MÚSICA NA SEMANA DE 22: VILLA-LOBOS (REVISADO EM OUTUBRO/2017)


A MÚSICA NA SEMANA DE 22
VILLA-LOBOS: REVISADO

Desenho nanquim, de Luiz de Almeida para o Módulo Música na Semana de 22, para a Exposição Retalhos do Modernismo.



A postagem deste blog: “A Música na Semana de 22: Villa-Lobos e Guiomar Novaes”, de 29/01/2008, foi revista e atualizada em 2012. Com o passar do tempo, novos detalhes foram sendo arregimentados. Agora, em 2017, cumprindo parte dos objetivos do Retalhos do Modernismo, nova atualização. Após novas pesquisas, achei por bem postar o quanto antes os novos dados encontrados, exclusivamente sobre Heitor Villa Lobos. A pesquisa não termina nunca. Essa é a sua grande virtude. Ao encontrar novos fatos, fotos, estudos e evidências pertinentes, basta “remendar” com esses novos “retalhos”. E foi assim. Quando se trata de biografia a pesquisa torna-se mais complexa. Vasco Mariz, o musicólogo e biógrafo, um dos mais eficientes estudiosos do Villa-Lobos, “remendou” a biografia do Maestro e publicou dezenas de livros sobre o nosso grande Maestro. Atualmente: o pesquisador de Villa-Lobos encontra uma infinidade de publicações a respeito, podendo ainda desfrutar do site oficial do Músico (Museu Villa-Lobos), por sinal, espetacular: http://www.museuvillalobos.org.br/.
Sei muito bem que para os aficionados de Villa-Lobos o que mais importa é a sua música. Mas creio que, para conhecer a obra de um artista, independente do seu seguimento, é importantíssimo conhecer sua vida – por isso, a Síntese Biográfica.
Existem vários livros no mercado sobre Villa-Lobos, suas composições, seus métodos, seus estudos e sua biografia. Segundo o escritor Paulo Renato Guérios (autor do livro: Heitor Villa-Lobos: o caminho sinuoso da predestinação, Edição do Autor, Curitiba, 2009), existem mais de quatro dezenas de biografias de Villa-Lobos, escritas nas mais diversas línguas. E, como mencionado, Vasco Mariz foi o autor da primeira obra biográfica sobre Villa-Lobos – isso em 1946, e publicada em 1949, pela Divisão Cultural do Ministério das Relações Exteriores (Mariz era diplomata), com o Villa ainda vivo. Mesmo assim, os dados da infância e da adolescência de Villa são obscuros. Paulo Renato Guérios, na pág. 27, menciona: O musicólogo Luiz Heitor Corrêa de Azevedo, no prefácio que escreveu para a primeira edição do livro (de autoria de Vasco Mariz), não se furta comentar que nenhum especialista de renome (inclusive ele próprio) tinha se disposto a escrever tal obra: “a complexidade da fisionomia artística de Villa-Lobos, a fabulosa extensão e a variedade de sua obra, impunham um respeito quase sagrado”. “A afoiteza da mocidade sobrepôs-se a esse respeito, desconhecendo os escrúpulos dos mais velhos e deu-nos o livro de que precisávamos”. Sendo assim, desde 1946, para falar de Villa-Lobos, obrigatoriamente, temos que passar pela biografia elaborada por Vasco Mariz. 
É do conhecimento de todos os estudiosos e pesquisadores, que o nosso Maestro tinha um defeito que prejudicou muito os seus biógrafos: “Villa era mentiroso. As mentiras eram quando perguntavam sobre a pessoa dele”. Prova disso são as diversas versões que ele deu sobre sua verdadeira idade. A cada vez perguntado, Villa dizia uma data. Apesar da confusão estabelecida, a atitude de Villa acabou propiciando aos biógrafos atenção redobrada nas pesquisas – além da ansiedade provocada aos pesquisadores em acertar. Enfim, o fato das mentiras acabou, intencionalmente, provocando intensificação nas pesquisas e propiciando novas descobertas de outras facetas do biografado.
O Retalhos procura, de forma simples, arregimentar dados dos biógrafos, mestres e pesquisadores existentes e disponíveis. Adiciona um pouco mais de “recheio” na biografia a ser postada aqui com outras informações da época enfocada, dados históricos, depoimentos, cartas e notas pertinentes a intelectuais importantes do período. Esse “recheio”, que não consta na formatação das biografias clássicas, permite que a leitura da biografia torne-se “um pouco” mais agradável, pois quebra a sequência sistemática e repetitiva, tipo relógio-cuco. Somente isso. No caso do Villa-Lobos procurei adicionar algumas cartas trocadas entre Mário de Andrade e Manuel Bandeira (São apenas alguns trechos importantes que nos proporcionam uma visão diferenciada do pensamento e do convívio que tinham com o Villa). Foram adicionados também alguns depoimentos e até textos do próprio Villa.
 Gosto de enfatizar a importância dos livros publicados oriundos de incansável, profunda e responsável pesquisa. É muito cômodo entrar na Internet e “buscar” pelo assunto desejado. Após leitura, desliga-se o computador, permanecendo poucos dados na memória do leitor. As anotações parciais não produzem nada, pois se transformam em apenas “lembretes”. Ainda, graças a Deus, o importante são os livros. Neste nosso caso, Villa-Lobos, cravo aqui, com satisfação, singela divulgação do livro (não tenho esse hábito, pois temo pela minha euforia) de autoria do Paulo Renato Guérios [mestre e doutor em Antropologia Social pelo Museu Nacional / Universidade Federal do Rio de Janeiro (2001/2007), com doutorado sanduíche na École des hautes Études en Sciences Sociales (Paris, 2004). É professor adjunto e chefe do Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Paraná], título mencionado no terceiro parágrafo acima. Os que tiverem a possibilidade de adquirir essa obra vão estar diante de um enorme apanhado da vida e obra de Villa-Lobos. Um trabalho maravilhoso do Guérios, que merece ser turibulado não só pelos pesquisadores, estudantes, músicos e aficionados do Villa, mas por todos aqueles que valorizam os bons escritores e respeitáveis pesquisadores nacionais. Realmente é uma obra de grandiosa importância, que devemos, como brasileiros, ter a honra de conhecer e propagar. Quem se interessar em adquirir essa obra, basta entrar em contato com: Editora Parabolé: contato@parabole.com.br ou no site www.parabole.com.br. A obra de Paulo Renato Guérios é uma exata fotografia do Maestro Villa-Lobos.
O Dileto leitor que conheceu a postagem “A Música na Semana de 22: Villa-Lobos e Guiomar Novaes”, antes da penúltima revisão, estranhará o fato de ter excluído a síntese biográfica da pianista Guiomar Novaes. É falta de tempo mesmo. A pesquisa sobre Guiomar é escassa. Mas ela virá para o Blog Retalhos do Modernismo. Aproveito para solicitar o seguinte: Caso alguém possua algum texto ou informação inédita dessa nossa Pianista, por gentileza: “entre em contato”. Por enquanto, somente “Villa-Lobos”.

Clique no link abaixo para ser conduzido 
até a postagem revisada:
 
http://literalmeida.blogspot.com.br/2008/01/msica-na-semana-de-22.html 


(Luiz de Almeida)

quarta-feira, 23 de maio de 2012

SEMANA DE ARTE MODERNA

ANTROPOFAGIA



ANTROPOFAGIA:
QUADRO DE TARSILA DO AMARAL,
EM BREVE NA ESTAÇÃO PINACOTECA (SÃO PAULO)

 Imagem: Divulgação

Em breve o quadro Antropofagia (1929 - Óleo sobre tela, 126 x 142 cm), um dos mais famosos da pintora Tarsila do Amaral, volta a ser exposto na Estação Pinacoteca, cidade de São Paulo, sede da Fundação Nemirovsky, proprietária da obra. A tela foi alugada por R$ 30 mil, pelo CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) do Rio para fazer parte de exposição sobre a artista, que já terminou. A informação foi divulgada pela colunista Mônica Bergamo, da Folha de São Paulo.


sábado, 19 de maio de 2012

LÍBANO MONTESANTI CALIL ATALLAH - DEPOIMENTO


 DEPOIMENTO INÉDITO
DO ARTISTA
LÍBANO M. CALIL ATALLAH
 
Após postar sobre o Manifesto Antropófago = http://literalmeida.blogspot.com.br/2012/04/manifesto-antropofago.html, recebi mensagem do meu amigo, o artista Líbano Montesanti Calil Atallah, contendo um depoimento maravilhoso. E por ser um depoimento inédito não poderia deixar de postar aqui no RETALHOS, pois o “inédito” é um dos seus objetivos principais. Então, sem mais delongas, segue a referida mensagem, exatamente como recebida:

2 de maio, 2012.
Olá
Luiz de Almeida
Como tem passado V.Sa.?
Foi com satisfação que acessei o seu Blog, para acompanhar a notícia sobre o Manifesto de Oswald de Andrade.
Dona Tarsila, em 1971, me disse que fez um quadro para impressionar Oswald, era dia de seu aniversário e ele havia saído. Ela pintou a composição, mas na hora de escolher um título embasbacou-se. Resolveu então tomar em mãos um dicionário de Tupi Guarany, até hoje muito raro, do Padre Antonio Ruiz Montoya. Folheou-o rapidamente, primeiro apareceu à palavra abá ou homem, em seguida continuou folheando, apareceu a palavra purú ou carne humana. Para ela, Dona Tarsila valeu como “Abá-Purú”, ou "O Homem Que Come Carne Humana”. Satisfeita com a expressão acabou por adotá-la como título da obra.
Quando Oswald chegou, em casa, à noite, ela noticiou-lhe sobre a obra dizendo que havia pintado um quadro para ele. Hora! Então vamos ver. Ela descobriu o quadro enquanto Oswald surpreso comentou assustado: "Nossa, mas o que é isso?!", Dona Tarsila é o Abá-Purú. O que vem a ser isso? Perguntou-lhe Oswald. Homem que come carne humana! Eufórico Oswald imediatamente proclamou o Movimento Antropofágico, "Então vamos fazer um movimento em torno deste quadro". O que culminou com o lançamento do manifesto publicado na Revista Klaxon.
Esse depoimento foi-me dado pela própria Dona Tarsila eu o levei para minha escola, em uma fita k7, na época eu ainda estudava na escola Professor Gualter da Silva, a professora de Educação Artística me deu nota dez. Não podia me esquecer, eu era mui arteiro, sempre ficava no vermelho. Na verdade não tinha nem me dado conta do feito. Só mais tarde quando todos nós brasileiros, que logo ao nascer, já nos acostumamos com a obra “Abá-Purú” e sua autora. O maior nome da história de nossa arte. Agora o quadro, já viu né, que furo! Vamos ter que vê-lo lá na Argentina.
Além disso, o quadro pertencia ao colecionador Érico Stickel, eu convivia com o ele em seu escritório, na época, instalado na Rua São Francisco, depois transferido para a Rua Bela Cintra, onde logo em seguida o vendeu. Dr. Érico sentiu a falta do quadro. Eu Tambien!

Líbano Montesanti Calil Atallah

segunda-feira, 30 de abril de 2012

MANIFESTO ANTROPÓFAGO


O MANIFESTO ANTROPÓFAGO
DO OSWALD INCOMODADOR

Há 84 anos, em 1º de maio de 1928, “Ano 374 da Deglutição do Bispo Sardinha”, Oswald de Andrade publicava no nº 1 da Revista de Antropofagia, sob a direção de Antônio de Alcântara Machado e de Raul Bopp, o “Manifesto Antropófago”, composto de 52 parágrafos, que persiste até hoje na pauta dos críticos, pesquisadores e mestres literários, nas tentativas de definições menos vagas e deduções dos mais prováveis intentos do autor – este, ainda incomodando muitos eruditos da intelectualidade brasileira. 
O objetivo do Retalhos é apenas cravar a lembrança da data que foi editado o Manifesto Antropófago e do seu conteúdo, para que não nos esqueçamos de estudá-lo e discuti-lo, como também, guardada as devidas proporções do conteúdo desta postagem, relembrar o último apelo de Oswald de Andrade, dirigido aos participantes de um encontro de intelectuais, realizada no Rio de Janeiro, em 1954, e enviada ao artista plástico Di Cavalcanti, clamando pela continuidade de sua obra, especialmente do conceito de “antropofagia” cunhado por ele 1928:
 “A reabilitação do primitivo é uma tarefa que compete aos americanos. (...).
Devido ao meu estado de saúde, não posso tornar mais longa esta comunicação que julgo essencial a uma revisão de conceitos sobre o homem da América. Faço pois um apelo a todos os estudiosos desse grande assunto para que tomem em consideração a grandeza do primitivo, o seu sólido conceito de vida como devoração e levem avante toda uma filosofia que está para ser feita”. (Almeida, Maria Cândida Ferreira de. In: “Só me interessa o que não é meu”: a antropofagia de Oswald de Andrade – Ensaio da autora, ICBV, sd – p. 1).
Alguns historiadores sustentam que o nascimento do Manifesto Antropófago deu-se quando, em 1928, Tarsila pinta uma tela para ser presenteada ao marido Oswald, em seu aniversário – uma figura gigantesca, de cabeça pequenina, pernas e pés enormes. Oswald e Raul Bopp dão ao quadro o nome de Abaporu: em tupi abá, “homem” + poru, “que come gente” = antropófago. Outros alegam que a obra de Tarsila serviu apenas para “aguçar” Oswald a concluir o referido manifesto.
Várias são as deduções sobre o intento oswaldiano e sobre a própria síntese estética do Manifesto Antropófago defendidas por respeitáveis críticos e mestres, como: “O Manifesto Antropófago é a grande síntese estética e cultural da primeira fase modernista, envolvida com as especulações das vanguardas europeias” – conforme a identificação de João Luiz Lafetá: “O Manifesto Antropófago é o projeto estético para diferenciar do projeto ideológico” da segunda fase. (Lafetá, João Luiz. 1930: a crítica e o modernismo. Duas Cidades, São Paulo, 1974, pp. 11 a 25); outra, mais evidente, significando as verdadeiras propostas estéticas e culturais do autor, onde ele declina toda sua radicalização (tratando-se de Oswald de Andrade “tudo é radicalidade”), está nas linhas e nas entrelinhas do ensaio sobre a poesia oswaldiana: “Uma Poética da Radicalidade” (1965), do Haroldo de Campos [Obras Completas de Oswald de Andrade: Pau Brasil – 1990, Ed. Globo, parceria com a Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, edição compilada na edição de Pau-Brasil, Cancioneiro de Oswald de Andrade, prefaciado por Paulo Prado, iluminado por Tarsila, 1965; impresso pelo “Sans Pareil” de Paris – 37, Avenue Kléber. (É bom mencionar que esse ensaio de Haroldo de Campos foi traduzido em 2010, na França, por Antoine Chareyre: “Une poétique de la radicalité: Essai sur la poésie d’Oswald de Andrade”)].
Muitos críticos, inclusive o próprio Haroldo de Campos, afirmam que o Manifesto Antropófago foi uma espécie de “amadurecimento estético” de Oswald, originado nos poemas de Pau-Brasil. Ao contrário, Wilson Martins (Martins, Wilson – O Modernismo. Cultrix, São Paulo, sd. p. 9), afirma que a Antropofagia defendia o mesmo programa do Pau-Brasil, apenas com “um pouco mais de nervo” e “com certa prolixidade enxundiosa”.
Muitos ainda questionam: - Qual foi o verdadeiro propósito oswaldiano com o Manifesto Antropófago? – Estava Oswald realmente preocupado com uma nova identidade da cultura nacional? – Afinal, ao escrever o Manifesto Antropófago, Oswald teria se aproveitado das ideias futuristas contidas num texto do francês Pierre Albert-Birot?; – e, mais diretamente, das de Jean-Pierre Brisset, outro francês tido por excêntrico e até por enfermo mental, como afirmam alguns críticos? – Qual foi o nível de influência de Blaise Cendrars, o professor de modernidade de Oswald de Andrade? – Através do Manifesto Antropófago, Oswald pretendeu lançar um novo modelo de pensamento cultural que reforçava os projetos lançados na Semana de 22?
Atualmente ainda buscamos por respostas – mas:
- Quais os verdadeiros motivos do escritor Oswald de Andrade e do seu Manifesto Antropófago, incomodarem tanto a intelectualidade brasileira??? - Até hoje??? – Quais as razões de não colocarem mais nas pautas de debates os 52 parágrafos do Manifesto? – Não seria oportuna uma releitura voltada para a política e a cultura? (Atuais??).   
Sem mais perguntas e concluindo, cravo parte do texto do mestre em Literatura Brasileira da Universidade Federal da Bahia, Jorge de Souza Araújo, no “Manifesto Antropófago: um breve comentário”, editado pelo D.O. Leitura, da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, edição nº 102, de 9/11/1990, p. 7 - onde afirma:
“(...).//É preciso, contudo, verificar que o Manifesto Antropófago transpõe o limiar da questão estética e, em sua síntese transgressora, visa a uma releitura, radical e multifária, da cultura brasileira. O primeiro parágrafo deixa bem claro o propósito: só a antropofagia no une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. //Em outras palavras, só a devoração cultural abrirá os caminhos para nossa identidade. (...). O ponto central está no parágrafo: Tupy or not tupy that is the question – em que o corte parodístico do discurso já alerta para a necessidade de encarar, sem influências estrangeiras, o problema da nacionalidade".
Apesar do Manifesto Antropófago ser do conhecimento de todos, segue na íntegra, conforme editado pela Paz e Terra, São Paulo, 1966 – Coleção Leitura, pp. 17-27. (Conservada a ortografia original da editora. Utilizadas as cores preta e vermelha para diferenciação dos parágrafos).

(Luiz de Almeida)


MANIFESTO ANTROPÓFAGO

Só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.
Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz.
Tupi, or not tupi that is the question.
Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos.
Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.
Estamos fatigados de todos os maridos católicos suspeitosos postos em drama. Freud acabou com o enigma mulher e com outros sustos da psicologia impressa.
O que atropelava a verdade era a roupa, o impermeável entre o mundo interior e o mundo exterior. A reação contra o homem vestido. O cinema americano informará.
Filhos do sol, mãe dos viventes. Encontrados e amados ferozmente, com toda a hipocrisia da saudade, pelos imigrados, pelos traficados e pelos touristes. No país da cobra grande.
Foi porque nunca tivemos gramáticas, nem coleções de velhos vegetais. E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental. Preguiçosos no mapa-múndi do Brasil.
Uma consciência participante, uma rítmica religiosa.
Contra todos os importadores de consciência enlatada. A existência palpável da vida. E a mentalidade pré-lógica para o Sr. Lévy-Bruhl estudar.
Queremos a Revolução Caraíba. Maior que a revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem. Sem nós a Europa não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem.
A idade de ouro anunciada pela América. A idade de ouro. E todas as girls.
Filiação. O contato com o Brasil Caraíba. Où Villegaignon print terre. Montaigne. O homem natural. Rousseau. Da Revolução Francesa ao Romantismo, à Revolução Bolchevista, à Revolução Surrealista e ao bárbaro tecnizado de Keyserling. Caminhamos.
Nunca fomos catequizados. Vivemos através de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará.
Mas nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós.
Contra o Padre Vieira. Autor do nosso primeiro empréstimo, para ganhar comissão. O rei-analfabeto dissera-lhe: ponha isso no papel mas sem muita lábia. Fez-se o empréstimo. Gravou-se o açúcar brasileiro. Vieira deixou o dinheiro em Portugal e nos trouxe a lábia.
O espírito recusa-se a conceber o espírito sem o corpo. O antropomorfismo. Necessidade da vacina antropofágica. Para o equilíbrio contra as religiões de meridiano. E as inquisições exteriores.
Só podemos atender ao mundo orecular.
Tínhamos a justiça codificação da vingança. A ciência codificação da Magia. Antropofagia. A transformação permanente do Tabu em totem.
Contra o mundo reversível e as idéias objetivadas. Cadaverizadas. O stop do pensamento que é dinâmico. O indivíduo vitima do sistema. Fonte das injustiças clássicas. Das injustiças românticas. E o esquecimento das conquistas interiores.
Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros.
O instinto Caraíba.
Morte e vida das hipóteses. Da equação eu parte do Cosmos ao axioma Cosmos parte do eu. Subsistência. Conhecimento. Antropofagia.
Contra as elites vegetais. Em comunicação com o solo.
Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval. O índio vestido de senador do Império. Fingindo de Pitt. Ou figurando nas óperas de Alencar cheio de bons sentimentos portugueses.
Já tínhamos o comunismo. Já tínhamos a língua surrealista. A idade de ouro.
Catiti Catiti
Imara Notiá
Notiá Imara
Ipeju.
A magia e a vida. Tínhamos a relação e a distribuição dos bens físicos, dos bens morais, dos bens dignários. E sabíamos transpor o mistério e a morte com o auxílio de algumas formas gramaticais.
Perguntei a um homem o que era o Direito. Ele me respondeu que era a garantia do exercício da possibilidade. Esse homem chamava-se Galli Mathias. Comi-o.
Só não há determinismo onde há mistério. Mas que temos nós com isso?
Contra as histórias do homem que começam no Cabo Finisterra. O mundo não datado. Não rubricado. Sem Napoleão. Sem César.
A fixação do progresso por meio de catálogos e aparelhos de televisão. Só a maquinaria. E os transfusores de sangue.
Contra as sublimações antagônicas. Trazidas nas caravelas.
Contra a verdade dos povos missionários, definida pela sagacidade de um antropófago, o Visconde de Cairu: – É mentira muitas vezes repetida.
Mas não foram cruzados que vieram. Foram fugitivos de uma civilização que estamos comendo, porque somos fortes e vingativos como o Jabuti.
Se Deus é a consciência do Universo Incriado, Guaraci é a mãe dos viventes. Jaci é a mãe dos vegetais.
Não tivemos especulação. Mas tínhamos adivinhação. Tínhamos Política que é a ciência da distribuição. E um sistema social-planetário.
As migrações. A fuga dos estados tediosos. Contra as escleroses urbanas. Contra os Conservatórios e o tédio especulativo.
De William James e Voronoff. A transfiguração do Tabu em totem. Antropofagia.
O pater famílias e a criação da Moral da Cegonha: Ignorância real das coisas+ fala de imaginação + sentimento de autoridade ante a prole curiosa.
É preciso partir de um profundo ateísmo para se chegar à idéia de Deus. Mas a caraíba não precisava. Porque tinha Guaraci.
O objetivo criado reage com os Anjos da Queda. Depois Moisés divaga. Que temos nós com isso?
Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade.
Contra o índio de tocheiro. O índio filho de Maria, afilhado de Catarina de Médicis e genro de D. Antônio de Mariz.
A alegria é a prova dos nove.
No matriarcado de Pindorama.
Contra a Memória fonte do costume. A experiência pessoal renovada.
Somos concretistas. As idéias tomam conta, reagem, queimam gente nas praças públicas. Suprimamos as idéias e as outras paralisias. Pelos roteiros. Acreditar nos sinais, acreditar nos instrumentos e nas estrelas.
Contra Goethe, a mãe dos Gracos, e a Corte de D. João VI.
A alegria é a prova dos nove.
A luta entre o que se chamaria Incriado e a Criatura – ilustrada pela contradição permanente do homem e o seu Tabu. O amor cotidiano e o modusvivendi capitalista. Antropofagia. Absorção do inimigo sacro. Para transformá-lo em totem. A humana aventura. A terrena finalidade. Porém, só as puras elites conseguiram realizar a antropofagia carnal, que traz em si o mais alto sentido da vida e evita todos os males identificados por Freud, males catequistas. O que se dá não é uma sublimação do instinto sexual. É a escala termométrica do instinto antropofágico. De carnal, ele se torna eletivo e cria a amizade. Afetivo, o amor. Especulativo, a ciência. Desvia-se e transfere-se. Chegamos ao aviltamento. A baixa antropofagia aglomerada nos pecados de catecismo – a inveja, a usura, a calúnia, o assassinato. Peste dos chamados povos cultos e cristianizados, é contra ela que estamos agindo. Antropófagos.
Contra Anchieta cantando as onze mil virgens do céu, na terra de Iracema, – o patriarca João Ramalho fundador de São Paulo.
A nossa independência ainda não foi proclamada. Frape típica de D. João VI: – Meu filho, põe essa coroa na tua cabeça, antes que algum aventureiro o faça! Expulsamos a dinastia. É preciso expulsar o espírito bragantino, as ordenações e o rapé de Maria da Fonte.
Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud – a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciárias do matriarcado de Pindorama.

OSWALD DE ANDRADE

Em Piratininga
       Ano 374 da Deglutição do Bispo Sardinha.
    (Revista de Antropofagia, Ano 1, Nº 1, maio de 1928)

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SOBRE OSWALD DE ANDRADE
NO BLOG RETALHOS:


- Link importante para os interessados em conhecer a Revista Antropofágica, como também o excelente conteúdo do site da Brasiliana/USP:

FONTES PESQUISADAS:

- Andrade, Oswald. Pau-Brasil. Obras Completas. Ed. Globo e Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo. 1ª Edição, São Paulo, 1990;
- Brito, Mário da Silva. As Metamorfoses de Oswald de Andrade. Conselho Estadual de Cultura do Estado de São Paulo. Imprensa Oficial do Estado, São Paulo, 1972;
- Campos, Haroldo. “Uma poética da radicalidade” En Oswald de Andrade - Obras Completas - v. VII, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1974;
- Eleutério, Maria de Lourdes. Oswald: Itinerário de um Homem sem Profissão. Editora Unicamp, Campinas – São Paulo, 1989;
- Fonseca, Maria Augusta. Oswald de Andrade: Biografia. Art Editora & Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, 1990;
- Teles, Gilberto Mendonça. Vanguarda europeia e modernismo brasileiro: apresentação e crítica dos principais manifestos vanguardistas. 3ª ed. Vozes, Petrópolis, 1976.
- Outras: citadas no corpo do texto.