sexta-feira, 1 de maio de 2009

MÁRIO DE ANDRADE: - "PARNASIANO ??"

Foto do livro: "Mário de Andrade: Cartas de Trabalho
Correspondência com Rodrigo Mello Franco de Andrade (1936-1945),
Ed. MEC.SPHAN - Pró-Memória, 1981, pág. 56 - foto recortada.

A BALADA DA ÚLTIMA PRINCESA
Mário de Andrade


“O Modernismo foi um toque de alarme. Todos acordaram e viram perfeitamente a aurora no ar. A aurora continha em si tôdas as promessas do dia, só que ainda não era o dia. Mas é uma satisfação ver que o dia está cumprindo com grandeza e maior fecundidade, as promessas da aurora. Ficar nas eternas aurorices da infância, não é saúde, é doença. E a literatura brasileira aí está, bastante sã. Adulta já? Quase Adulta...”
(Mário de Andrade – O Empalhador de Passarinho: Modernismo - 7-1-1940).

Quando concluí a esquematização para pesquisar e estudar a vida e obra do paulistano René Thiollier, um dos “Mecenas da Semana de Arte Moderna de 22”, logo na arregimentação dos livros e matérias, percebi que não iria cumprir exatamente como o planejado, pois a cada “achado” abria-se uma gama de variantes que me obrigavam a deixar a pessoa e a obra do René. Culpo o próprio René por isso. Sua atuação na vida literária paulistana foi mais intensa e eclética do que eu poderia imaginar. A cada página lida, meu esquema foi se transformando num deformado organograma, ou melhor, num “rabiscograma”. Intelectuais de expressão foram sendo adicionados neste meu “rabiscograma”, tais como: Paulo Prado, Alfredo Pujol, Rubens do Amaral, Afonso Schmidt, Francisco Pati, Sud Minnucci, Altino Arantes, Plínio Airosa e muitos outros que não imaginava sua expressão na literatura paulista. Tinha certeza de que surgiriam nomes como: Plínio Salgado, Cassiano Ricardo, Guilherme de Almeida, Sérgio Milliet, Menotti Del Picchia e Mário de Andrade, até então, nenhuma surpresa. Surpresa maior ficou por conta dos textos do René Thiollier e, principalmente, os inúmeros textos inéditos editados na Revista da Academia Paulista de Letras, dirigida pelo Secretário Perpétuo, René Thiollier. Exemplo disso foi o texto com a grafia original: “O Baile dos Pronomes”, postado neste blog, retirado daquela Revista, edição nº 17, de 12 de março de 1942 – apesar de que esse mesmo texto foi editado no “O Empalhador de Passarinho”, na edição comemorativa do 50º Aniversário da Semana de Arte Moderna, em 1972, pela Livraria Martins Editora S.A., em convênio com o Instituto Nacional do Livro & MEC, págs. 263 a 268.

Após este imenso primeiro parágrafo, entro diretamente no assunto pauta desta postagem: - Outro texto, um poema do macunaímico Mário de Andrade (que ele não editou em livro), “Balada da Ultima Princesa”, do ano de 1913. Este poema está na edição nº 3, de 12 de Agosto de 1938, da Revista da Academia Paulista de Letras, págs. 51 a 53. Em 1974, a Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, em contrato com a Secretaria de Cultura, Esportes e Turismo de São Paulo, sob a forma de co-edição, lançou “Mário de Andrade, Um Pouco”, de Oneyda Alvarenga. Neste livro fantástico, Oneyda publica alguns poemas de autoria do Mário. Com o título: POEMAS “MALDITOS” DE MÁRIO DE ANDRADE”, Oneyda faz uma introdução para apresentar vinte e quatro poemas e uma série de quadras, que Mário havia dado a ela em 1944. Assim ela inicia o texto POEMAS “MALDITOS” DE MÁRIO DE ANDRADE (p. 110):

- “No início de 1944, Mário de Andrade me deu os vinte e quatro poemas e a série de quadras que ora publico, acompanhando-os de uma explicação mais ou menos assim: não achava esses versos merecedores de publicação, mas também não tinha coragem de destruí-los; eram meus”. (itálico meu). Segundo Oneyda, esse conjunto de poemas se divide em quatorze composições anteriores a 1917 e onze escritas de 1924 a 1933. Em POESIAS ANTERIORES A 1917, o “Balada da última princesa” é o de número 9 – págs. 119 a 121.

O importante, além de conhecer o poema, é continuarmos estudando a vida e a obra do autor de Paulicéia Desvairada. No prefácio do texto “O Baile dos Pronomes” (
*), mencionei que, para mim, Mário de Andrade continua “indescobrível”. Após cada nova descoberta, acabo admitindo que outros adjetivos podem e devem ser adicionados quando da qualificação deste ícone paulistano e brasileiro, mesmo que muitos deles já utilizados e conhecidos, tais como: indeclinável, indefectível, indefinível, indelebilíssimo, indestronável, imorredouro, etc. Chega. Estou me tornando insuportável. O que mesmo queria dizer é da importância de revermos o Mário de Andrade “antes” da Semana de 22. E este poema nos conduz para este período, principalmente, sabendo que ele foi um dos maiores antropófagos dos passadistas. Segundo o próprio Mário, nem tanto. Vamos refletir partindo do seguinte:

- É totalmente errôneo afirmarmos que, principalmente os literatos modernistas pós Semana de 22, dispensaram permanentemente o academismo, todas as metodologias, conceitos e influências ditas como “passadistas”. Temos exemplos clássicos na literatura e nas artes plásticas. Basta verificarmos o tradicionalismo poético de Guilherme de Almeida, Cassiano Ricardo e Menotti Del Picchia. Nas Artes plásticas, da mesma forma, encontramos Anita Malfatti e Segall com obras simplesmente maravilhosas e inconfundíveis, que os especialistas se perturbam ao classificá-las quanto ao estilo quando o fator “período” da construção da obra é longínquo das obras intituladas como “ofensivas” da década de XX. Não podemos esquecer que Mário de Andrade e Anita Malfatti travaram uma “guerrilha conceitual” através de cartas, lá pelos idos de 1939, pois Mário não aceitou a tendência e o desejo íntimo do expressionismo formalista e a variedade estética do estilo eclético da sua Anitoca. Desta “guerrilha conceitual” que mencionei, podemos conhecer alguns episódios. Um deles, que acho espetacular pela forma apresentada (respeito, educação e até certo grau de melindrismo), está num dos trechos da carta de Mário, datada de 1 de abril de 1939:

“Rio 1-IV-39

Anitoca
(...)
Não sei, Anita, sua carta contendo suas idéias artísticas de agora me preocupou. Meio que não concordo com elas. Mas é tão difícil discutir arte com você, principalmente a sua arte! Você se encrespa logo, pensa que a gente tá querendo dar lição, quando se trata apenas de discutir idéias. Você fala que o artista é apenas um transmissor de beleza e que, desejava ter um Debret e um Rugendas em casa pois está “querendo fazer um quadro com o sabor daquela gente”, como você mesma diz. Ora eu não concordo com isso, Anita. (...)”
. (Ver nota 1).

Hoje, sabemos que Mário, talvez pelo distanciamento pessoa a pessoa entre ele e Anita, não entendeu o intento da “mãe do modernismo brasileiro”, mas isso é assunto para outro estudo – e, voltando à nossa temática, pauta deste texto, é importante sabermos que existem várias passagens das quais o próprio Mário de Andrade, Bandeira e até Brecheret mantiveram o caráter tradicional, ou melhor dizendo, o caráter “passadista” que tanto combateram. Mário e Bandeira, por exemplo, travaram inúmeras discussões a respeito do que é ser modernista e ser moderno. Vejamos, por exemplo, a afirmação que Mário de Andrade fez numa missiva em 1924. Vejamos um trecho interessantíssimo:

“[São Paulo], 29 de dezembro de 1924.

Manuel,

(...). Não sei se já te confessei a minha dificuldade de observação crítica. Todos os meus trabalhos críticos, Manuel, representam uma soma enorme de trabalhos e paciência. Releio muitas vezes uma coisa. Penso, torno a pensar... De repente a observação crítica surge rápida, nua, isso é que me dá raiva. Parece que podia surgir logo no princípio. Os reparos críticos que fiz do teu livro representam não sei quantas, talvez mais de dez leituras completas das poesias. E agora deixa eu te confessar mais uma coisa que foi um sentimento recalcado (como diz Freud) quando escrevi a crítica mas que me surgiu nítido agora com a tua carta. Eu quando escrevi sobre você tive uma intenção oculta. Oculta. Oculta até pra mim, inconsciente, antes subconsciente, mas inexpressa em idéia pela inteligência. Entre nós dois eu vejo uma coisa: escreveste aquela historiada fazendo intrigas com os amigos pelo jornal. (Mário aqui está se referindo a uma crônica escrita por Manuel Bandeira e publicada na Gazeta de Notícias do Rio, na qual, segundo o próprio Bandeira: “caçoava, sem nenhuma intenção maldosa, dos modernistas de São Paulo. Os paulistas e, entre eles, Mário não compreenderam a brincadeira, levaram a coisa a sério e ficaram sentidíssimos”). Mandei-te crítica severa do teu ato. Não te zangaste porque não tens a vaidade de ser gênio infalível. Mandas-me crítica severa dos meus versos. Mas o que a gente vê em torno são uma vaidades impossíveis. (...).
Agora antes de comentar outras partes do teu comentário deixa eu te falar sobre o modernismo e descendência de simbolismo. Teve aqui quem me dissesse mais ou menos: “Então você confessou que o Manuel não é moderno?” Isso é burrada, mas como aí te podem dizer a mesma coisa, vai este comentário. És moderno, és bem moderno. O que eu faço, e talvez já reparaste nisso, é uma distinção entre modernos e modernistas. Sobre isso aquele pedaço da minha crítica está muito intencionalmente escrito “o poeta (você) que é sincero e não se preocupa em fundar escolas e propagar novidades que não salão dele...” Tens aí uma censura do Z... (Nota minha: Esse “Z” era o Graça Aranha) que quer fazer da gente alunos dele e outra pra nós todos, “modernistas”, que andamos (passado) nos preocupando com novidades de França, Itália e Alemanha. Principalmente pra mim que quase me perdi. Toda reação traz exageros. Eu tive porque fui reacionário contra simbolismo. Hoje não sou. Não sou mais modernista. Mas sou moderno, como você. Hoje eu já posso dizer que sou também um descendente do simbolismo. O modernos evoluciona. Está certo nisso. O que também não impede que o modernistas tenham descoberto suas coisas e que se não fossem eles muito moderno de hoje estaria ainda bom e rijo passadista. Não é isso mesmo?“.
(Ver Nota 2).

Continuando esse assunto de moderno, modernista, simbolista, passadista e outros istas, Manuel Bandeira volta ao assunto em carta a Mário de Andrade:

“Rio de Janeiro, 3 de janeiro de 1925.

Mário.

Peço-lhe o favor de me mandar o endereço do Guilherme, sim?
Há um juízo errado na sua última carta. Não foi a severidade da crítica que me fez lamentar não conhecer antes de publicadas as Poesias o juízo que você formava dos meus versos. Come que não acho a crítica severa demais. Considero-a, como já lhe disse, fraterna. Interessou-me prodigiosamente. Em nada me magoou. Prestou-me um servição – em todos os sentidos. Lamentei, sim, pelo livro em si. Mas as desculpas que você mandou na cartão são razoáveis. Entedi-as e aceitei-as.
Está certo o que você diz no artigo e na carta sobre modernismo e simbolismo. Sou, de fato, de formação parnasiano-simbolista. Cheguei à feira modernista pelo expresso Verlaine-Rimbaud-Apollinaire. Mas chegado lá, não entrei. Fiquei sapateando de fora. É muito divertido e a gente tem a liberdade de mandar aquilo tudo se foder, sem precisar chorar o preço da entrada.
Quando publiquei o Carnaval, ignorava completamente o movimento moderno. Não sabia que estava “escrevendo moderno”. (...).
(Ver Nota 3).

Poderia estender mais o assunto, mas não é o momento. O que me interessava mesmo, antes de postar o “Balada da Ultima Princesa” do Mário, era tentar deixar evidente que também Mário de Andrade esteve preso ao Parnasianismo e outros ismos combatidos na década de 20, como também os resquícios desse estilo estiveram e permaneceram vivos, tanto em Mário de Andrade, como também em Manuel Bandeira. Eles, assim como Guilherme de Almeida, Cassiano Ricardo, Menotti Del Picchia, Sérgio Milliet e outros, permaneceram nos modelos estilísticos por eles mesmos combatidos. Eles todos combateram e, ao mesmo tempo, em períodos diferentes, defenderam as diretrizes estilísticas do Parnasianismo, do Simbolismo e até do Romantismo. O que eles fizeram com grande maestria foi, digamos, modernizar esses estilos. Não negaram a importância deles. Na verdade, após o estardalhaço da Semana de Arte Moderna, todos os literatos participantes, com o passar dos anos, foram se refazendo dos atos, fatos e dos falatórios antropofágicos que deglutiram sobre o chamado “passadismos” (Parnasianismo, Simbolismo, Romantismo). Podemos afirmar que “eles foram amadurecendo”. Essa afirmativa implica também dizer que: “o moderno ou o modernista” não pariu sem a constante presença dos estilos considerados pelos “moços de 22” como passadistas. Prova disso podemos verificar lendo a carta de Mário de Andrade a Manuel Bandeira, em 5 de Agosto de 1923:

“(...). Sê tradicional. Hoje estou nisso. Vê minha crônica no número de agosto da Revista do Brasil. Vê mais o trecho da Escrava que sairá no número de setembro da América Brasileira. Verás nelas o que penso sobre o tradicionalismo e sobre o hermeticismo. Sei muito bem a repugnância que nos dá, a nós – poetas de nós, qualquer concessão feita aos outros. E essa concessão é necessária, entretanto. É preciso acabar com esse individualismo orgulhoso que faz de nós deuses e não homens. (...)”. (Ver Nota 4).

Para concluir esta apresentação do poema “Balada da Ultima Princesa”, do Mário, postarei um trecho da carta de Bandeira em resposta doutra, onde Mário enviou alguns poemas para que Bandeira os analisasse. E Bandeira respondeu assim:

“Rio de Janeiro, 10 de outubro de 1925.

Mário.

Antes de mais nada: me lembro de ter visto num relatório de comissão da Academia alguma coisa, um comentário sobre “O luar na alameda”. Pode ser que me engane – é uma reminiscência muito vaga que me veio logo à cabeça quando vi o título do seu caderno. (...).
Achei os versos muito ruins, mas tive pena que você não os tivesse publicado em tempo. Agora está impublicável. Apesar de que, acho estes versos melhores do que Há uma gota de sangue. Como você era um romântico atrapalhado pelo parnaso e ainda por cima com infiltrações simbolistas está melhor neste lirismo pessoal do que no anedotário grandeguerrístico do outro livro. Você tem fundo romântico, mas este romantismo aqui é romantismo de puberdade. A puberdade estado de alma ficou em você até depois dos 20 anos, puxa! Eu também fiz versos assim, mas foi até 15 anos. Engraçado: fiz versos a um ipê também! a sua evolução é a coisa mais extraordinária que eu conheço. Lembro-me muito bem de ter ouvido você dizer em casa do Ronald: “- Aos 23 eu era burro, burro! mas de uma burrice incrível!” Não sei que idade você tinha quando fez estes versos, mas sabe que impressão eles me dão? O de um rapaz de 15, 16 anos que não trepou, com uma bruta ternura mas por ser feio acreditando que as pequenas não fazem caso dele, só lendo Varela, Álvares de Azevedo, Bernardo Guimarães e tudo isso nalguma cidade de Minas. (...).
A “Nevrose ao Luar” e “Balada da última princesa” – bom simbolismos, sobretudo a última cuja música octassílaba está muito bem composta, com fino encanto prosódico, aquele fino encanto prosódico do simbolismo. (...)”.
Todos esses versos são interessantíssimos para quem, como eu, gosta de sua poesia de hoje como a melhor que se faz no Brasil. (...).
Se em vez de estarmos escrevendo, estivéssemos conversando, tinha muito que dizer sobre esses versos seus. Mas escrever é o diabo. Sem parar pra pensar, com esta garatuja safada estou escrevendo há 55 minutos! (...).
(Ver Nota 5).

A seguir, o poema “Balada da última princesa”, mantida a grafia original da Revista da Academia Paulista de Letras:


BALADA DA ULTIMA PRINCESA

Mário de Andrade (1913)

Sob o seu roupão de cambráia,
Com os olhos largamente abertos,
Desde que a aurora aos montes ráia,
Ela anda nos salões desertos.

Nas salas êrmas do edifício,
Onde ha silêncio, onde ha mistério,
Ela passa como um bulício
De rezas num eremitério.

Dos quadros olham-na sorrindo
Infanções, condes e donzelas;
E ela, os longos olhos abrindo,
Passa horas longas nas janelas.

Por vezes, pelas tardes frias,
Quando é tudo sombra e repouso,
Ela desce as escadarias
E vagueia no parque umbroso.

E pelos canteiros de malva
Os seus olhos mornos espráia,
Sua tez é muito mais alva
Do que o seu roupão de cambráia.

Vem o vento. São alaridos
De enlaces machucando sedas...
Seus cabelos são tão compridos
Que arrastam pelas alamedas.

Raios de luar, quais serpentinas,
Jazem nos canteiros oblongos,
As suas mãos são finas, finas,
Os seus dedos são longos, longos.

E ela chega aos severos muros
Que a prendem como almas humanas,
E então fecha os olhos escuros
Com o centímetro das pestanas.

E enquanto volta pensativa
E a lua pelo céu desmáia,
Uma lágrima fugitiva
Rola em seu roupão de cambráia.

E ela volta. E pisa o mosáico
Das solenes escadarias.
Depois, reclina-se no arcáico
Leito de ébano e pedrarias.

E dorme. Dedos enlaçados,
Bôca entreaberta, olhos abertos.
E fantasmas de antepassados
Rondam pelos salões desertos.

Entram e sáem pelas portas
E se debruçam nas janelas,
E no luto das horas mortas
Formam tristíssimas sequelas.

Finos nobres de ambos os sexos,
Da mais alta e mais pura láia,
Passam ante ela e, genuflexos,
Beijam-lhe o roupão de cambráia.

Num cravo de sândalo e prata,
Unindo as cabeças formosas,
Um pagem lento e uma açafata
Dedilham músicas mimosas.

Nos dois lânguidos tocadores,
Como o som do cravo, se acentúa
Uma dôr cheia de pudores
À luz assombrada da lua.

Mas enquanto as janelas pasmas
Olham com grandes olhos pretos,
Os alvos, trêmulos fantasmas
Dansam pavanas e minuetos.

Mas a última princesa dorme
Até que a aurora aos montes ráia,
Envôlta numa letargo enorme
E no seu roupão de cambráia.
-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-

NOTAS:

(1) Andrade, Mário de. Cartas a Anita Malfatti (1921-1939) – Edição organizada por Marta Rossetti Batista. Editora Forense Universitária Ltda, Rio de Janeiro – 1989 – p. 145;
(2) Andrade, Mário de & Bandeira, Manuel. Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira. Org. Marcos Antonio de Moraes. Ed. EDUSP/IEB, São Paulo, 2001 – p. 168/169;
(3) Andrade, Mário de & Bandeira, Manuel. Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira. Org. Marcos Antonio de Moraes. Ed. EDUSP/IEB, São Paulo, 2001 – p. 175;
(4) Andrade, Mário de & Bandeira, Manuel. Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira. Org. Marcos Antonio de Moraes. Ed. EDUSP/IEB, São Paulo, 2001 – p. 101 e notas de rodapé n.º 52 e 53;
(5) Andrade, Mário de & Bandeira, Manuel. Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira. Org. Marcos Antonio de Moraes. Ed. EDUSP/IEB, São Paulo, 2001 – p. 247/248;

OUTRAS FONTES DE PESQUISA

– Alvarenga, Oneyda. Mário de Andrade, Um Pouco. Livraria José Olympio Editora, RJ, 1974 – Em contrato com a Secretaria de Cultura, Esporte e Turismo de São Paulo, sob a forma de co-edição;
- Andrade, Mário de. Cartas Mário de Andrade – Oneyda Alvarenga. Livraria Duas Cidades Ltda. São Paulo, 1983;
- _____________. Poesias Completas – Obras Completas de Mário de Andrade, Tomo II. Livraria Martins Editora S.A., São Paulo, 1955;
- _____________. O Empalhador de Passarinho. Livraria Martins Editora S.A., São Paulo, em convênio com o Instituto Nacional do Livro & MEC, 1972;
- Duarte, Paulo. Mário de Andrade Por Ele Mesmo. Ed. Hucitec, São Paulo, co-edição com Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo, 1977;
- Huhne, Lida Miranda. A Estética Aberta de Mário de Andrade: Parte III – Nos Meandros da Estética, Capítulos 1, 2 e 3. Edição da obra adquirida pela UAPÊ Espaço Cultural Barra Ltda., Rio de Janeiro, 2002;
- Lopez, Telê Porto Ancona. Mário de Andrade: Ramais e Caminho. Livraria Duas Cidades, São Paulo, em convênio com o Governo do Estado de São Paulo, Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Turismo, Conselho Estadual de Cultura, 1972;
- Revista da Academia Paulista de Letras, Ano I – 12 de Agosto de 1938, N.º 3 – Direção do Secretário Geral e Perpétuo René Thiollier.

NOTAS MINHAS (NECESSÁRIAS):

(1) Esta pesquisa só foi possível pelo esforço do meu estimado Amigo Mário Amoroso (que reside na Paulicéia do também amoroso Mário de Andrade) e que conseguiu descobrir nos sebos filiados à sua empresa as Revistas da Academia Paulista de Letras – Muitíssimo obrigado;
(2) Agradecimento especial também à minha Dileta Amiga e Professora: Márcia Oliveira, que lapidou e opinou sobre este meu estudo.

(Luiz de Almeida)

sábado, 11 de abril de 2009

MÁRIO DE ANDRADE E O BAILE DOS PRONOMES


Mário de Andrade em sua biblioteca em 1938
Foto do Acervo de Yedda Braga Miranda
Livro "Mário de Andrade - Cartas a Murilo Miranda"
Editora Nova Fronteira, RJ - p. 97, 1981.


Recentemente, nossa ortografia passou por nova revisão. Foi aceita por alguns e detestada por muitos. Os que estudam literatura nacional e, principalmente, os que estudam Mário de Andrade nada reclamaram ou acharam absurdas as mudanças ocorridas. Mário de Andrade passou a vida labutando com possíveis mudanças na nossa ortografia, linguagem e “fala brasileira”, como ele dizia. Discutiu o assunto com seus missivistas (Manuel Bandeira e Drummond, por exemplo). Mário tinha o propósito de formatação da “Gramatiquinha”, ou melhor, da “Gramatiquinha da Fala Brasileira” – projeto que não conseguiu ou não quis ou não teve tempo de levar adiante. Ficou na idealização e nos esboços e nos rabiscos e nas anotações marginálias. 
Particularmente, penso que: se Mário continuasse vivo por mais uns dez anos (Utinam diutius vixisset!), teria “talvez” efetivado sua “idealização” – Sei lá! Mário havia travado conhecimento da “Gramatiquinha secundária da língua portuguesa”, de Said Ali, fato que fustigou sua “idealização”. Mas ficou somente no “anteprojeto”. Sobre esse assunto, num texto da Vera Helena Rossi, mestre em Literatura e Crítica Literária e doutoranda em Comunicação e Semiótica pela PUC (SP), consegui pinçar num dos seus textos(1) alguns tópicos interessantíssimos que seguem abaixo:
e.
“(...).
Gramatiquinha


Para Maria Augusta Fonseca, "escrever brasileiro" não foi uma exploração de superfície em Mário de Andrade, pois sempre se amparou em pesquisas de fundo, com detida reflexão sobre a matéria. Segundo ela, o interesse em torno da variante local do português, já manifestado em Paulicéia Desvairada, ganha densidade depois de 1922.
Nesse sentido, lembra que desde as primeiras décadas do século 19 a língua da comunicação diária mobilizou os intelectuais e os escritores.
- Sabemos que nossos modernistas fizeram da variante lingüística brasileira uma de suas bandeiras, em busca de uma identidade literária diferenciada. A Gramatiquinha da Fala Brasileira de Mário de Andrade derivou dessas reflexões - afirma.
Mário de Andrade, com o intuito de criar uma "gramática da fala brasileira", estuda disciplinadamente a fala popular, os usos cotidianos e a diversidade regional. Os fragmentos deixados pelo escritor, dessa obra em processo, foram posteriormente publicados com anotações de Edith Pimentel Pinto.
- Nesses apontamentos inconclusos, Mário de Andrade procurou ordenar mudanças radicais operadas em vários níveis da língua falada no Brasil: do vocabulário aos usos expressivos; da sintaxe à prosódia - detalha Maria Augusta.
Marcos Antônio de Moraes, professor de Literatura Brasileira na USP, afirma que a Gramatiquinha é um projeto de ação:
- Mário não quer realizar a Gramatiquinha, mas colocar em marcha a questão. Sua intenção não era criar uma norma, mas mostrar justamente a variação, as formulações vivas da oralidade brasileira, como uma experiência ampla da língua.
Já na opinião de Maria Augusta, o campo alargado das investigações em torno da língua pelo autor foi assimilado de modo consistente na linguagem poética, de feição culta.
(...)”.

Quem teve a oportunidade, a honrosa oportunidade de estudar “A Gramatiquinha de Mário de Andrade – Texto e Contexto”, de autoria de Edith Pimentel Pinto, edição da Livraria Duas Cidades, patrocinada pela Secretaria de Estado da Cultura – São Paulo, 1990, sabe muito bem qual era o intento Marioandradiano.
Para quem não sabe: “Edith Pimentel Pinto” nasceu na Paulicéia de Mário de Andrade dois anos antes da realização da Semana de Arte Moderna. Chegou a ser professora titular de Filosofia e Língua Portuguesa na USP (SP). Na literatura foi poetisa e autora de obras de ficção. Ensinou português e literatura brasileira, na Eberhard Karls Universitat em Tubingen, Alemanha. Essa hermeneuta faleceu em 1992. Considerada uma das maiores mestras da Língua Portuguesa, com inúmeros livros editados sobre essa temática, entregou-se ativamente aos “rabiscos” marioandradianos. E conseguiu arregimentar tudo o que era possível para editar o seu “A Gramatiquinha de Mário de Andrade”. É um livro difícil de ser lido, pois foi editado para ser estudado e ser um referencial para professores, estudantes, literatos, pesquisadores e para os alucinados pelo estudo da Linguagem. Todos saíram ganhando com o trabalho maravilhoso da Edith.
Sinceramente, não desprezando outros trabalhos similares e espetaculares resultantes de intensa pesquisa, esse eu considero especial por vários motivos: a complexidade das fontes (maioria ou quase todas pertencentes ao Instituto de Estudos Brasileiros de São Paulo), a natureza da pesquisa, a “manha” para decifrar “onde” Mário queria chegar, o manuseio de páginas e mais páginas, contendo verdadeiros “rabiscos”, os inúmeros livros de autores diversos utilizados por Mário, todos “rabiscados” e com anotações a lápis nas margens, setas indicativas, outras rasuradas e uma imensidão de folhas de caderno, frente e verso, com anotações e teorias, etc. Edith foi maravilhosa, pois não é fácil pesquisar e estudar Mário de Andrade. Para estudar e pesquisar Mário de Andrade, obrigatoriamente, tem que tornar-se um Mário. Mário de Andrade não lia, estudava. Pesquisava e monologava e polemizava consigo mesmo. Anotava tudo que brotava na mente. Depois riscava, apagava. E Edith revestiu-se de Mário, o Mário de Andrade: prosélito literário desvaraidado, pertinaz, profético, eficiente, eficaz... Edith conseguiu também ser trezentos e cinqüenta – e assim pariu a “Gramatiquinha de Mário de Andrade”.



Capa do livro de EDITH PIMENTEL PINTO: "A GRAMATIQUINHA DE MÁRIO DE ANDRADE" - Livraria Duas Cidades - SP, 1990.

Achei conveniente este simples prefácio para postar neste humilde blog, um texto de autoria do Mário que encontrei nas amareladas páginas da Revista da Academia Paulista de Letras n.º 17(2), com o título “O Baile dos Pronomes”, que nos oferece uma dimensão delirante do nosso paulistanamente Mário de Andrade. 
Nesse texto conseguimos captar um pouco da dimensão dos seus estudos, dos seus “rabiscos”. Ele desdobrava-se para purificar a nossa linguagem. Queria ele uma “língua brasileira” para o Brasil? Essa pergunta ainda se faz. Em vários textos ele afirmou que sim, noutros ele afirmou que não. Basta verificarmos o seu desabafo numa das centenas de cartas que trocou com Bandeira:
“(...) Eu não tenho a mais mínima pretensão de criar uma língua. Creio até que das minhas maluquices nenhuma não se escriba sobre fato não escrito antes. Às vezes mesmo me assombro como tudo já foi dito. Eu me fiz instrumento duma coisa naturas, e só (...)”(3).
Muitas vezes chegamos a imaginar que Mário de Andrade só lia textos dos autores pós Semana de Arte Moderna. Se assim tivesse agido não seria o Mário que até hoje é estudado e consegue tirar o sono de muitos pesquisadores. Não seria o macunaímico e enigmático Mário de Andrade. Nesse seu texto “O Baile dos Pronomes”, podemos reconhecer um Mário diferente, literariamente eclético. Para mim: Mário de Andrade, por muito e muito e muito tempo continuará sendo “indescobrível”.
Sem mais delongas, eis o texto. (Mantida a grafia original):


O BAILE DOS PRONOMES
Mário de Andrade
Vai acesa em São Paulo a preocupação da “língua brasileira” e de um clássico como o Sr. Mota Coqueiro, como de um novissimo como o sr. Mario Neme, tem sido muitos este ano, nos jornais e revistas do Estado, os depoimentos e as contribuições a respeito dêste nosso gosto e dificilimo escrever. Esta inquietação nova, creio que em grande parte se deve ao discurso em que o sr. Cassiano Ricardo lançou a “língua brasileira” na Academia. Idem, no qual, aliás, com a generosidade costumeira, êle me tratou com tanta elegância intelectual. Achei prudente, portanto, retribuir a atenção que o distinto acadêmico me dispensou com êstes comentários sôbre o pronome átono iniciando frase.
Há pouco menos de vinte anos atrás, quando tambem as minhas impaciências de mocinho me levavam a falar em “língua nacional” como hoje falo, foi êsse um dos problemas que mais me preocuparam. Tempo vivo aquele, em que os meus próprios amigos mais sábios, caíam em cima de mim por causa dos meus abrasileiramentos de linguagem... Eram discussões verdadeiramente angustiosas, sobretudo por causa da incompreensão e da leviandade de julgamento que levavam os meus próprios amigos, às vezes, a imaginar que eu estava querendo “criar” a língua nacional e cousas assim. Foi uma incompreensão inicial destas que me levou a quase romper relações com um dos meus amigos mais queridos. Renato de Almeida, o autor da “História da Música Brasileira”. Com outro, o douto calmante filosófico do nosso grupo, Couto de Barros, resolvemos ambos discutir na máquina de escrever, evitando de ver o numeroso “Não falei isso!” das discussões bocóricas. Couto de Barros me apareceu à noite, sentou à minha “remington” e gravou o primeiro argumento. Lhe respondi do mesmo jeito. E assim se travou uma das discussões mais acolaradas que já tive, sem que uma só palavrinha machucasse o ar dormido do bairro.
Mas um dos que mais me atenazaram foi Manuel Bandeira. Concordando em princípio comigo, me conhecendo suficientemente para não me atribuir mais que a modéstia de contribuição e experiências pessoais, me deixava tonto com duvidinhas e restriçõezinhas que pingavam a cada carta semanal que então recebia dêle, bons tempos... Uma dessas dúvidas foi justamente a de que hoje vou produzir neste artigo as provas que ajuntei. Êle achava que eu não tinha direito de generalizar para toda a série dos pronomes, o caso do “Me parece”, que só frequentava a primeira pessoa do singular. Mas me saí brilhantemente e o grande poeta pernambucano teve a franqueza de reconhecer que eu estava bem escudado, embora discutisse algumas das provas apresentadas por mim.
Porque, a meu ver, muito embora o caso frequente tambem a língua escrita de Portugal, o problema do pronome oblíquo iniciando frase, não é apenas uma questão de maiúscula. Muitas vezes no próprio decorrer da frase a tendência se revela. Pois não se trata apenas de iniciar realmente a frase, com a sua maiúscula erguendo orgulhosamente o pronome átono, o fenômeno é muito principalmente de ritmo, não só de ritmo no tempo, como tambem de ritmo psicológico. Assim, num dos mais bonitos sambas nacionais, o “Vejo Lágrimas”, publicado em disco Columbia n. 22165-B, o cantor argumenta:

Si choras por alguem
que te enganou:
“Te” conforma, pois Jesús
Tambem se conformou.

Num caso dêstes, si não estivesse presente ao poeta e ao cantor a constância rítmico-verbal brasileira, tudo o levaria a dizer “conforma-te”, não só o movimento musical que para em som mais longo ao fim de “enganou”, como a própria pontuação intelectual da frase. Com efeito, terminada uma proposição dubitativa, o sentido do texto não conclue sôbre ela, mas inicia outra proposição que é um conselho, e que o sentido inteiro do texto anterior, mesmo sem a proposição dubitativa, era suficiente para justificar. Mas na publicação impressa do texto, o poeta, a quem de-certo puxaram as orelhas, substituiu o “Te conforma” por um paciente “Tem paciência”...
Já desde os tempos de Gregório de Matos, essa tendência se manifestava. Num dos sonetos ao governador Antonio Luiz, êle escreve:

Com olhos sempre postos na ordinária,
“Vos” dou os parabens...

Sintaxe, que, embora gramaticalmente aceitavel, juro que muito gramaticoide evitaria, tal a ênfase com que o pronome “enclitico” , iniciando o verso, e refugando a posposição, nos fere portuguesmente o ouvido e o olhar. Da mesma forma, em propostas de caráter enumerativo, cada uma delas é bem uma frase isolada e não é a virgula que pode nos dar satisfação sintáxica. Como nestes passos de Darci Azambuja em “No Galpão”: “mas o gambá pediu muito, “se” ajoelhou, fez muita lábia”... E eis mais um bom e insistente caso popular, com o Se o Lhe, publicado no folheto paraibano “Conselhos de Padre Cícero a Lampeão”:

Disse-lhe (sic) o padre:
- Meu filho,
Não persista no pecado,
Deixa a carreira dos crimes,
“Se” torne regenerado,
Si me promete deixar,
“Lhe” prometo trabalhar
pra (sic) você ser perdoado.

Primor de estilo pachorrentamente padresco, como se vê... E ainda a tendência pode ser entrevista no caso do pronome intercalado entre o verbo auxiliar e o no infinito. Se observe êste exemplo deliciosamente ofensivo, que colho no folheto da literatura de cordel nordestina, “Bento, O Milagroso de Beberibe”:

“Fiz Romano atropelar-se (sic)
E fiz Germano correr,
Abocanhei Ugolina
Porém não pude “o” morder.

Mas vamos aos casos insofismaveis. A obliquação do pronome da primeira pessoa do singular, quasi nem merece exemplos, por todos reconhecida como normal em nossa língua. Não citarei dela nenhum exemplo popular. Mario Marroquim já os recenceou com riqueza em “A Língua do Nordeste”. Lembro apenas três exemplos eruditos. Nas “Minas de Prata”, José de Alencar, santo patrono da língua brasileira, faz Estácio dizer ao amigo velho: - “Me” guiareis com a vossa experiência (Garnier, I v., p. 67). Aluizio de Azevedo tambem aceita que um dos seus personagens do “Cortiço”, diga ao vendeiro: - “Me” avie, seu Domingos! (Garnier, p. 57). E vemos Fagundes Varela encampar a sintaxe no “Evangelho nas Selvas”:
- Naida! – Padre, “vos” espero, vamos.
- O que fazias, filha? – “Me” lembrava...
E ainda no Canto VI, bem psicologicamente, são usados os dois ritmos numa só frase: “Me” interrogaste em nome do Senhor... “cala-te e escuta”.
A segunda pessoa tambem dará exemplos numerosissimos. “Te vejo, te procuro” inicia Gonçalves Dias uma das estrofes dos “Harpejos”, insofismavelmente. E ainda nas pródigas “Minas de Prata” (III, 168), Raquel ameaça o pai judeu: “Te denunciarei sim”!. “Nos Matizes” (1887) F. A. Nogueira da Gama inicia a fala da cidade do Rio se dirigindo a São Paulo: “Te saúdo caipirinha”... E outro paulista da gema, Brasilio Machado nas suas “Madresilvas” de 1876, nos oferece uma poesia instituida “Te Esqueceste”, que é a da maior força... Aliás, creio que foi João Ribeiro quem analisou primeiramente diferenciação psicológica entreo mansinho “Se sente” nosso e o mais imperativo “Sente-se” dêsses portugueses, durante vários séculos acostumados a mandar nas suas colônias. Eu reconheço o valor da psicologia organizando as sintaxes nacionais, mas tenho um pouco de medo disso. Levaria a generalizações monótonas e sem sabor estilistico. Creio que o fenômeno das diferenciações sintáxicas é muito mais um problema fonético de ritmo verbal. Silva Ramos (Revista de Cultura, I, p.22) fornece argumentação justamente contrária ao valor imperativo do enclítico: “A mim, por exemplo diz êle, ser-me-ia impossivel ou escrevendo, iniciar uma proposição por pronome átono, e, entretanto, tendo uma vez, posto em dúvida a um colega que um projeto de lei nos interessava tivesse parecer favoravel, êle me atirou com um “te garanto que êle será aprovado”, com tal intimativa ferindo com enfase o pronome, que confesso me senti mais garantido”... E para acabar com o Te, colho na “Revista da Academia (fevereiro, 1933), um evento folclorico de Goiaz:

“Te” compreendo, morena,
Já sei que queres dizer,
Como cangussú ou tigre,
Felizes temos de ser.

Com a terceira pessoa do singular, sito primeiro um exemplo erudito, o dr. Severino de Sá Brito no seu “Trabalho e Costumes dos Gauchos”, que na p.30 assim abre parágrafo: “Se cultivava muito milho, tambem feijões, abóboras, melancias”... Semieruditamente, um anuncio de cabaré paulistano avisa os concorrentes dum campeonato de tango: “Se recebem (sic) as inscrições nas gerências”. E Mario Marroquim nos fornece um exemplo popular:

“Se” vendo o compadre pobre
Naquela vida apertada...

No plural, a primeira pessoa é reconhecida por Lucio Cardoso na boca de um homem do alto São Francisco, em “Maleita”: “Nos salve agora”. Conheço outro exemplo impresso, num folheto recifense “História do Menino da Floresta” do célebre cantador Martins de Ataide, em frase brasileira até debaixo dágua:

“Nos” faças esta caridade,
Deus há – de lhe (sic) agradecer.

Da segunda pessoa, além das “Minas de Prata” (III, 400) em que vem a pergunta: “Vos serve êste meio?”, conheço uma quadra paulista da dansa de S. Gonçalo (Rev. do Arquivo, XXXIII, 108) que canta:

“Vos” peço, meu S. Gonçalo,
Com muito gosto e alegria,
Aceitai esta promessa
E tambem nossa romaria.

Com Lhe e Lhes, não me ocorre exemplo, é mais provavel eu ter perdido alguma nota. Mas assim como nos Açores, nas festas do Espírito Santo o povo, se referindo à cora, diz ao Imperador:

“A” coloque no altar

O padre disse: “O” projeto!
protegendo com a mesma energia a sintaxe nacional. Com tudo isso, como esquecer o epigrama de Alberto Ramos...


Me dá! – Dá-me! – Me dá! digo eu. – Erra, imbecil!

- Bruto! erro em Portugal, acerto no Brasil!


(Andrade, Mario de. O Baile dos Pronomes. In: Revista da Academia Paulista de Letras, Ano V, Vol. 17.º, de 12 de março de 1942 – Direção de René Thiollier (Secretário Perpétuo e A. Ramos Tavares, Secretário Administrativo. Seção: Notas Diversas: págs. 151 a 154. Depositários: Vieira Campos & Cia. Livraria Teixeira, São Paulo – Tipografia Cupolo, São Paulo ).


Capa da Revista da Academia Paulista de Letras, n.º 17
INDICADORES:
(1) revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=11505;
(2) Revista da Academia Paulista de Letras, Ano V, Vol. 17.º, de 12 de março de 1942 – Direção de René Thiollier (Secretário Perpétuo e A. Ramos Tavares, Secretário Administrativo. Seção: Notas Diversas: págs. 151 a 154. Depositários: Vieira Campos & Cia. Livraria Teixeira, São Paulo – Tipografia Cupolo, São Paulo);
(3) Castelo, José Aderaldo. In: A Literatura Brasileira – Origens e Unidade. Vol. II – Edusp, SP., 2004 - Reimpressão da 1ª Edição (1999), p. 98.


OUTRAS FONTES PESQUISADAS:
- ANDRADE, Mário de – Taxi e Crônicas no Diário Nacional – Estabelecimento de texto, introdução e notas de Telê Porto Ancona Lopez. São Paulo, Livraria Duas Cidades, 1976.
- _______ , Mário de – Os Filhos da Candinha. Vol. XV da Obras Completas de Mário de Andrade. São Paulo, Livraria Martins Editora, 1963.
- _______ , Mário de – Macunaíma – O Herói sem Nenhum Caráter. Edição crítica de Telê Porto Ancona Lopez. Rio, LTC – Livros Técnicos e Científicos Editora S.A., 1978.
- MORAES, Marcos Antonio de (Org.) – Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira. São Paulo, Edusp & IEB, 2001;
-
www.algumapoesia.com.br

sábado, 7 de março de 2009

LUÍS ARANHA: POETA MODERNISTA BISSEXTO

LUÍS ARANHA:
NAS TEIAS DO MODERNISMO
(Luiz de Almeida)

Luís Aranha - Foto de 1928 - (Acervo da Família).


Se perguntarmos aos paulistas, aos paulistanos, como também aos estudantes de literatura:

- Conhecem Luís Aranha? O Luís Aranha Pereira?
Com toda certeza teremos como resposta:

– Quem? Luís Aranha? Qual mesmo o outro sobrenome? O que esse tal faz na vida?
- Deixa. Esquece.

Creio que somente os que estudam ou estudaram Literatura Nacional e as obras de Mário de Andrade, Sérgio Milliet, José Lino Grunewald, Cassiano Ricardo, Wilson Martins, Mário da Silva Brito, Alfredo Bossi, Francisco Alambert – e aqueles que recentemente tiveram contato com o trabalho organizado por Nelson Ascher e Rui Moreira Leite, saberão responder. Poderia, para complicar um pouco mais, colocar mais nomes nessa interrogativa, em substituição ao de Luís Aranha, tais como: “Tácito de Almeida”(
1), “Rui Ribeiro Campos” (Nascido na cidade de Santos - SP, em 1898 e que faleceu em Paris, em 1963), “Antônio Alcântara Machado” (?). – E estou mencionando somente nomes de paulistas. Se mencionasse, por exemplo: “Ronald de Carvalho”, “Raul Bopp”, “Renato Almeida”, talvez tornassem as respostas ainda mais complicadas. Todos os mencionados e os por mim esquecidos são os literatos mais injustiçados da primeira fase modernista. Os lembrados são: Mário e Oswald de Andrade, Guilherme de Almeida, Menotti Del Picchia, Sérgio Milliet, Manuel Bandeira, Cassiano Ricardo (nem tanto), Lima Barreto e João do Rio (este pelos cariocas, talvez) e todos da segunda fase do modernismo: Drummond, Murilo Mendes, Jorge de Lima (outro que também, nem tanto), Cecília Meireles, Vinícius de Morais, etc. Enfim, é assim mesmo o processo. Uns: celebérrimos. Outros: esquecidos e injustiçados, como é o caso do nosso personagem e tema deste tópico: LUÍS ARANHA, o Dr. Luís Aranha Pereira.
Sobre Luís Aranha, o próprio Mário de Andrade, no ensaio elaborado em 1932: “Luís Aranha ou a Poesia Preparatoriana”, na Revista Nova n.º 7, ao tentar explicar o motivo pelo qual Luís Aranha “largou a arte pra que ela não o devorasse”, diz:

“(...). Faz justo dez anos que emudeceu. E estudando-o agora, numa obra que embora pequena, é completa em si, ao mesmo tempo que nos culpo do esquecimento em que o deixamos, (...)”.

Para os que não sabem: Luís Aranha foi um poeta. Participou ativamente da Semana de Arte Moderna de 1922. Escreveu pouco (catalogados apenas vinte e seis poemas). Sobre seus poucos poemas, Mário de Andrade o definiu assim:

“Luis Aranha faz a poesia preparatoriana. Essa é a sua grande originalidade. Note-se: não estou dizendo que ele cantou a poesia dos exames de preparatórios. Isso não seria de grande proveito, apenas um assunto poético a mais. A originalidade, a contribuição curiosíssima de Luís Aranha está em ter realizado o estado lírico da psicologia do preparatoriano. Luís Aranha é o poeta ginasial por excelência, o único poeta ginasial que conheço. (...) Não é tanto a avidez de saber o que distingue esse ginasialismo, porem o estado pernóstico do rapaz que aprende e gosta logo de praticar o que aprendeu. A poesia dele se torna um popurrí de noções livrescas, (...)”.
(Fragmentos do ensaio de Mário de Andrade: “Luís Aranha ou a Poesia Preparatoriana”, já mencionado acima).
Em outra ocasião, Mário de Andrade chegou afirmar que Luís Aranha, em 1922, talvez sob influência de Guilherme de Almeida, já produzia Haicais, podendo ser encontrados no Poema Giratório que, ainda segundo Mário de Andrade, não se trata de um poema de haicais, mas entremeado por alguns deles.

Para não ficar discorrendo aqui colocações, como é um personagem desconhecido da maioria, vamos direto para a Biografia (por sinal, fraquíssima, mas foi o que consegui até o momento e também com ajuda do livro de Nelson Ascher, que estarei comentando no bojo deste texto).

BIOGRAFIA
1901 – 17 de maio, filho de Maria de Barros Aranha e Dr. Antonio Veriano Pereira (advogado, fundador da Campanha Paulista de Seguros, juntamente com outros amigos), nasce Luís Aranha Pereira, na cidade de São Paulo;
1909/1910 – Internado com escarlatina. Estudou no Colégio dos Irmãos Maristas até 1919;
1919 – Trabalhou como balconista na Drogaria Bráulio, na Rua São Bento;
1920 – Conhece Mário de Andrade. Começa a escrever seus poemas;
1921 – Continuou tendo contato com os futuros modernistas da Semana de Arte Moderna;
1922 – Participa ativamente da Semana de Arte Moderna, nos Festivais de Fevereiro. Após a Semana, continua em contato com os principais modernistas e participa da Revista Klaxon. Foi nesse mesmo ano que iniciou o curso de direito no largo São Francisco. Publica, em Junho, na Revista Klaxon n.º 2, pág. 7, o poema “O Aeroplano”. Em Agosto, na Revista Klaxon n.º 4, pág. 11, publica o poema “Paulicèa Desvairada. Em Outubro, na Revista Klaxon n.º 6, págs. 3 e 4, publica o poema Crepúsculo. E no número duplo da Revista Klaxon, n.º 8/9, em Dezembro de 22 e Janeiro de 23, págs. 18 e 19, publica “Projectos” ;
1923 – Continuou colaborando com a Revista Klaxon até o último número – como mencionado acima;
1924 – Mário de Andrade faz menção ao poeta, em “A Escrava que não é Isaura” (Considerada talvez a primeira menção ao nome de Luís Aranha após as suas publicações na revista Klaxon;
1926 – Formou-se em Bacharel. Sérgio Milliet, no jornal “Terra Roxa”, talvez tenha sido o primeiro a publicar artigo propriamente dito sobre o poeta Luís Aranha. Em 1932, Milliet viria republicar o artigo, com algumas alterações, no seu volume “Terminus Seco”;
1929 – Nomeado por concurso (obteve o primeiro lugar) para o Ministério das Relações Exteriores. Serviu, nos anos seguintes, em Portugal, Itália, Vaticano, Venezuela, Chile, Alemanha, Japão e Ceilão;
1932 – Teve alguns de seus poemas publicados no ensaio “Luís Aranha ou a Poesia Preparatoriana”, de Mário de Andrade, na Revista Nova n.º 7. Esse mesmo ensaio foi publicado em “Aspectos da Literatura Brasileira”, Mário de Andrade, Livraria Martins Editora – São Paulo, com o mesmo título, págs. 47 a 87, em 1943;
1933 – Casa-se com Dulce Lajes;
1934 – Exerceu a diplomacia em Lisboa, até 1936;
1938 – Delegado da delegação brasileira nas conferências panamericanas de Lima e Quintandinha. Conselheiro da delegação brasileira na Conferência de Paz em Paris; Exerceu a diplomacia em Roma, até 1942;
1942 – Exerceu a diplomacia em Caracas, até 1945;
1943 – Mário de Andrade publica o ensaio “Luís Aranha ou a Poesia Preparatoriana”, em “Aspectos da Literatura Brasileira” – (Ver detalhes em 1932, acima);
1946 – Integrou o Conselho da Delegação Brasileira na Conferência da Paz, em Paris (França). Manuel Bandeira escreve nota introdutória para uma breve seleção de poemas de Luís Aranha na sua “Antologia de Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos – Ed. Zélio Valverde S.A. – Rio – págs. 115-123”;
1948 – Volta a exercer a diplomacia em Roma, até 1950;
1950 – Exerce a diplomacia em Valparaiso, até 1952;
1952 – Exerce a diplomacia em Hamburgo, até 1958;
1958 – Exerce a diplomacia em Kobi-Osaka, até 1962, encerrando a carreira, por limite de idade, servindo como embaixador no Ceilão;
1959 – Péricles Eugênio da Silva Ramos menciona Luís Aranha no seu ensaio sobre “O Modernismo na Poesia”;
1961 – Na Tese “22 e a Poesia de Hoje”, Cassiano Ricardo ressaltou a importância do poeta Luís Aranha, traçando paralelos entre seus procedimentos e aqueles praticados pelos jovens poetas concretos;
1962 – Na descrição de Nelson Ascher, no livro Cocktails (no final deste texto), na pág. 19, menciona maravilhosamente: “(...) No quadragésimo aniversário da “Semana”, em fevereiro de 1062, Domingos Carvalho da Silva publicaria um artigo que, entre outros temas correlatos, dava ao poeta um destaque inédito, aproximando-o a Maiakósvik (e não a Whitman ou Verhaeren, como se fizera até então) e buscando, no julgamento severo de Mário, uma explicação para seu silêncio. Foi, porém, no mês seguinte que Luis Aranha mereceu sua mais completa reavaliação crítica, obra do poeta e ensaísta José Lino Grunewald, ligado ao grupo concreto. José Lino foi o primeiro autor, desde 1932, a dedicar-lhe todo um ensaio, e sua revisão, trabalho fundamental, seria complementada, dez anos depois, por outro artigo mais abrangente. A tentativa de se determinar, portanto, quem foi seu real redescobridor, é de fato inútil e acadêmica. O poeta foi redescoberto independentemente por vários críticos (todos poetas) sensíveis ao valor de uma obra que a mudança de padrões estéticos começava a tornar legível. (...)”;
1972 – O historiador Mário da Silva Brito incorpora Luis Aranha dentre os modernistas maiores;
1984 – Nelson Ascher, paulistano nascido em 1958, escritor, mestre em teoria literária na PUC-SP., lançou o livro de COCKTAILS – POEMAS DE LUIS ARANHA, pela Editora Brasiliense – SP. O próprio Ascher explica, na página 7, em “Agradecimentos” (na verdade a Introdução, Ascher, a editou com o título: “Uma órbita excêntrica no modernismo” – da página 9 até a 21), que: “Com exceção dos quatro poemas publicados em Klaxon (“O Aeroporto”, “Paulicéia Desvairada”, “Crepúsculo” e “Projetos”), todos os poemas reunidos neste volume provém de um original datilografado, entregue na década de 20 pelo autor a Mário de Andrade. Estes originais foram conservados por Mário e pertencem atualmente ao Arquivo Mário de Andrade do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo. (...). A capa do presente volume foi baseada em um desenho do próprio autor, esboçado nos anos 20, no verso de um programa da “Semana de Arte Moderna” e encontrado no arquivo acima mencionado”. (Ver capa do livro ainda no desenvolvimento deste texto);
1987 – 29 de junho: Luís Aranha morre, no Rio de Janeiro.
DEPOIMENTOS E COMENTÁRIOS

De Mário da Silva Brito:- “Luís Aranha Pereira, nascido em São Paulo em 1901, não publicou nenhum livro, mas teve papel de destaque no movimento renovador de 22, tendo estado no palco do Teatro Municipal na agitada noite de 15 de fevereiro. Suas produções apareceram em Klaxon, a famosa revista do modernismo bandeirante. Aproximou-se de Mário de Andrade quando, em 1921, se viu este cercado pelo escândalo, provocado com a publicação de seus versos no corpo de um artigo de Oswald de Andrade: - “O meu poeta futurista”.
“Estava já poeta que extravagava muito da ambiência cultural brasileira, fazendo poemas que às mais das vezes nasciam sob o signo de Whitman e Verhaeren”, escreve Mário de Andrade a propósito dos versos do então moço de vinte anos, que logo abandonaria as sugestões desses modelos “pra sujeitar a sua qualidade poética aos impulsos da exclusiva experiência pessoal”. Passou a praticar a associação de imagens como princípio básico de sua criação poética, aproveitando-se do processo com virtuosidade inigualável. Mário de Andrade acentua que “a originalidade, a contribuição curiosíssima de Luís Aranha está em ter realizado o estado lírico da psicologia do preparatoriano. Luís Aranha é o poeta ginasial por excelência, o único poeta ginasial que conheço. A poesia dele cheira a ginásio. Há nele uma sofreguidão de ajuntar noções aprendíveis de cor que nos dá a imagem palpável dos fins de ano letivo”.
Associacionismo, dinamismo, velocidade, enumeração, apelo ao subconsciente, temas da civilização mecânica, como o túnel, a ponte, o trem, caracterizam a sua obra. Como Rimbaud, abandonou a poesia. Foi seguir a carreira diplomática. Não reuniu em livro as suas tão originais composições esparsas pelas revistas modernistas. Não escreveu mais poesias e não se ouviu mais falar dele. (...)”.
(Brito, Mário da Silva. In: Poetas Paulistas da Semana de Arte Moderna – Antologia – Livraria Martins Editora – 1972 – São Paulo – Páginas 133-134).

De Mário de Andrade:- (Comentário feito sobre o poema de Luís Aranha na revista Klaxon: “Poema Pitágoras”). “Página genial, dum sopro épico raro conseguido em poesia brasileira. Na secura exterior esconde uma tristeza, uma fúria pessoas que range as suas possibilidades, e um amor humano verdadeiro que forneceu ao poeta a imagem do coração – esponja absorvendo a tristeza da terra. O maior dos seus versos”. (Andrade, Mário de. In: Aspectos da Literatura Brasileira – transcrição parcial feita por Mário da Silva Brito em Poetas Paulistas da Semana de Arte Moderna – Antologia – Livraria Martins Editora – 1972 – São Paulo – Página 134).

De José Lino Grünewald:- (Comentando sobre as composições de Luís Aranha) – “Lances de uma técnica jornalística de linguagem, escrevendo poemas em que há trechos que constituem verdadeiras montagens, análogas às do cinema, de retalhos impressionistas em torno de eventos e objetos. Nisso ele está mais próximo de Ezra Pound ou de um Maiakovski do que de Walt Whitman. É poeta que se inspira na civilização industrial, identificando-se com o mundo tecnológico”. (Grünewald, José Lino. Artigos publicados no Correio da Manhã, Rio de Janeiro, em 24/3/1962 e 27/2/1972 - transcrição parcial feita por Mário da Silva Brito em Poetas Paulistas da Semana de Arte Moderna – Antologia – Livraria Martins Editora – 1972 – São Paulo – Página 134).

De Antonio Risério:- "(...) a obra incompleta de Luis Aranha aponta para o futuro. Seus poemas estão entre as criações mais arrojadas que o modernismo produziu em seus disparos iniciais. Um projeto poético inovador, radical, engajado até a medula na criação de uma poesia adequada às novas realidades do mundo urbano-industrial. Aranha foi uma antena captando os signos da modernidade estética e experimentado-os na prática. Para isso, armou-se de temas fundamentalmente urbanos, procurando tratá-los numa linguagem nova. Violentou a sintaxe para captar o atropelo veloz dos eventos modernos. Incorporou à fatura do poema a técnica da redação jornalística, atirando a anotação precisa do repórter no jorro das imagens futuristas. Refez temas líricos, como o da recusa amorosa, a partir de conceitos técnicos, buscando lirificar palavras do repertório científico. Apelou para a estrutura de montagem e a visualidade precisa e insólita do haicai. Adotou o estilo de cortes dos telegramas e chegou mesmo a transcrever num poema, com as modificações necessárias, um boletim médico. Foi, enfim, o nosso poeta futurista. Embora, como todo mundo, negasse publicamente o futurismo." (Risério, Antonio [1978]. Colméias e telégrafos. In: Aranha, Luis. Cocktails: poemas. Pág. 139).

De Wilson Martins:- “Marinetti celebrava os caracteres sinaléticos da modernidade: os bondes de dois andares, os automóveis esfomeados, a beleza da velocidade e os aeroplanos que começavam a cruzar os ares em remígios espantosos. É fácil encontrar as harmônicas e os reflexos de tudo isso na poesia daqueles tempos (mais do que nos nossos, em que todas as novidades se banalizaram), sem excluir, claro está, a de Luís Aranha, na qual Mário de Andrade viu, algo paternalisticamente, uma literatura de ginasiano, sem perceber que ali estava, embora em germe, o verdadeiro mestre do moderno entre nós”. (Martins, Wilson. Escritor e literato, in:- Prosa & Verso, O Globo, 14.12.86).

De Sérgio Milliet:- "É um homem pequenino. Magríssimo. De óculos. Sinais característicos: pomo de Adão excessivamente desenvolvido. Profissão: funcionário do Ministério do Exterior. Assim como há o caso de Rimbaud, há o caso de Luis Aranha. Apareceu com a Semana de Arte Moderna. Viveu em Klaxon. E nunca mais. Felizmente Mário e eu possuíamos alguns versos dele. Versos da primeira fase modernista. Defeituosos graças a Deus. Deliciosos, porém de inspiração. Nossos apesar da técnica francesa. Francesa? Não. Essa técnica pertence a todos. Não deu a Manuel Bandeira sua expressão mais ingênua? Mais pessoal? Não reverteu em liberdade para os do grupo Verde? Então é de todos. Não se analisa um poema de Luis Aranha. Lê-se comovido sua poesia. Cita-se um verso a um amigo. Desvirgina-se um trecho numa página de revista. Não se critica porque é inédito, e que o será provavelmente sempre. É para o nosso gozo íntimo." (Milliet, Sérgio [1926]. Inéditos. In: Aranha, Luis. Cocktails: Poemas. Pág. 107-108).

De Sérgio Milliet:- “(...) Luís Aranha, o poeta do “poema giratório”, que abandonou as musas pela diplomacia, (...)”. (Milliet, Sérgio. Diário Crítico – Vol. I (1940-1943) - Livraria Martins Editora & EDUSP, 2ª Ed. 1981 – pág. 255).

De Sérgio Milliet:- “(...) A meu ver Ismael Nery e Luís Aranha não deveriam ser classificados entre os bissextos. (...). O segundo porque, se encerrou sua carreira de poeta muito cedo, não se dedicou entretanto a nenhuma outra atividade artística ou literária. Foi poeta, exclusivamente poeta, e durante os poucos anos de produção produziu intensamente. Não publicou livros, em verdade, mas colaborou regularmente nas revistas do modernismo. (...)”. (Milliet, Sérgio. Diário Crítico – Vol. III (1945) - Livraria Martins Editora & EDUSP, 2ª Ed. 1981 – pág. 168).

De Francisco Alambert:- (...). “O ano de 1922 marcou ainda o silenciamento voluntário de um dos mais interessantes poetas surgidos no contexto da Semana de Arte Moderna: Luiz Aranha. Esse jovem poeta, celebrado por Mário de Andrade e muitos outros, teve alguns de seus poemas lidos durante a Semana, recolhendo-se depois na carreira diplomática, que seguirá por toda a sua vida. Só muito recentemente os parcos e excelentes poemas que compõem sua obra foram reunidos em livro”. (Alambert, Francisco. In: A Semana de 22 – A aventura Modernista no Brasil. Editora Scipione – Pág. 58 – 2.ª Edição – 1944. Francisco Alambert é Bacharel em História pela PUC-SP; Mestre em História pela USP e Professor de História Contemporânea na Universidade Federal Fluminense - Moderador do Blog Retalhos do Modernismo).

De Mário da Silva Brito:- Dentre os muitos poetas, nacionais e estrangeiros, divulgados por Klaxon, um merece especial destaque. É Luís Aranha, cuja produção, embora escassa, reflete expressivamente o espírito de 22. Aplicou, entre nós, recursos de composição de tal modo inusitados que afeavam a estrutura poética tradicional. Razão por que Mário de Andrade o considerava autor “que extravagava muito da ambiência cultural brasileira”. Amigo do cantor de Paulicéia Desvairada, Luís Aranha, moço de vinte anos, dele se aproximou quando, em 1921, este se viu envolvido pelo escândalo provocado pelos versos inseridos no artigo O Meu Poeta Futurista, de Oswald de Andrade – escândalo que o promoveu “a lobo-mor da intelectualidade urbana de São Paulo”, para usar palavras do próprio Mário de Andrade (in:- Aspectos da Literatura Brasileira – pág. 51 – Livraria Martins Editora – São Paulo – s/d.).
Luís Aranha não publicou nenhum livro e seus poemas são conhecidos graças à revista Klaxon e ao ensaio Luís Aranha ou A Poesia Preparatoriana, de Mário de Andrade, publicado no número 7 da Revista Nova e depois incluído no livro Aspectos da Literatura Brasileira (1), ensaio em que o exegeta reproduz textos completos ou fragmentos desse poeta que, já em 1922, silenciava sua voz e desaparecia do cenário intelectual para se incorporar ao quadro de funcionários do Ministério do Exterior. Assim como há o caso Rimbaud, há o “caso Luís Aranha” – lembra Sérgio Milliet (In:- Terminus Seco e Outros Cock-tails – Estabelecimento Gráfico Irmãos Ferraz – 1923-1932 – Pág. 282).
Fazia “poemas que às mais das vezes nasciam sob o signo de Whitman e Verhaeren”, detecta Mário de Andrade, que também esclarece quais os autores mais lidos pelo poeta: Blaise Cendrars, Max Jacob, Apollinaire e Cocteau, alguns dos quais aparecem citados em poemas de sua autoria. Luís Aranha conhecia também alguns teóricos do bolchevismo.
Esse poeta erigiu como princípio básico de sua criação artística a associação de idéias – “associações de idéias admiravelmente violentadas”, acentua Sérgio Milliet. Associacionismo, dinamismo, “tempestades de imagens”, velocidade, paráfrases, enumeração, paródia, apelo ao subconsciente, caracterizam a sua obra, que evoluiu, em curto espaço de tempo, “dos metros normais e das rimas” ou “de um lirismo conceituoso”, ressaibo de sua fase sonetística, para “os impulsos da exclusiva experiência pessoal”, vindo a alcançar em algumas páginas “um sopro épico raro conseguido em poesia brasileira”, conforme Mário de Andrade.
“José Lino Grünewald, nos estudos que vem dedicando a Luís Aranha, realça-o como um épico do mundo da máquina, da velocidade, dos inventos”, poeta que muitas vezes se vale de “lances de uma técnica jornalística de linguagem”, escrevendo poemas em que há trechos “que constituem verdadeiras montagens, análogas às do cinema, de retalhos impressionistas em torno de eventos e objetos. Nisso ele está mais próximo de um Ezra Pound ou de um Maiakovski, do que de Walt Whitman”. Afirma que Luiz Aranha “foi um poeta de intensa imagética, a fenopéia poundiana”. Além de “rebentar a sintaxe” consuetudinária, de praticar “uma linguagem telegráfica”, de desprezar propositadamente a pontuação – assim adjetivando certos substantivos e operando o desvio semântico de determinadas frases – Luís Aranha também se utiliza dos “recursos de espacialização das palavras e variação tipográfica” e, ainda, da fisiognomonia sonora por aliteração intensa”, como no caso do verso “corisco arisco risca no céu” (In:- Um Poeta Esquecido – Correio da Manhã, em 24/3/1962 – e Um Marco Esquecido: Luís Aranha – Correio da Manhã, em 27/2/1972 – matéria de José Lino Grünewald.).
(...).

(1) – Em Aspectos da Literatura Brasileira, Mário de Andrade publica, como apêndice ao seu estudo, a versão integral do Poema Giratório.

(Brito, Mário da Silva. In:- O Poeta Luís Aranha – Parte da introdução da Coletânea “Klaxon – Mensário de Arte Moderna – fac-símile – co-edição com a Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo – Impresso em 1976, no transcorrer do Cinqüentenário da Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais – São Paulo – Livraria Martins Editora).

Manuel Bandeira, em carta escrita em 7 de outubro de 1925, endereçada ao Mário de Andrade, no segundo parágrafo tece elogios ao autor de “Drogaria de Éter”, Luís Aranha. A carta, na íntegra, pode ser lida no livro “Correspondência – Mário de Andrade & Manuel Bandeira”, organizado por Marcos Antonio de Moraes, Editora Edusp, pág. 244:-

"(...).
Não te ofendas com as opiniões do grupinho. Certamente eles não têm intenção nenhuma de te ofender. Acho que não vale a pena dar importância: acho-os fraquinhos, muito fraquinhos, menos Oswald, cuja crítica não tem valor algum porque é toda de parti-pris. Couto sabe pensar, mas não tem temperamento, me parece puramente cerebral. Com franqueza São Paulo – Você, Oswald e Luís Aranha. Há muito tempo andava de expectativa com o Luís Aranha. Não achava graça no que conhecia dele. A sua admiração, porém, e aquele ar de passarinho estupefacto que via na sua casa me impunham respeito. Hoje posso dizer que é um poetão pois li a “Drogaria e Éter” e achei estupendo (alguma influência sua, mas que não desmerece em nada o valor do poema que me pareceu personalíssimo). A propósito, quando estiver com ele, dê-lhe um grande abraço de minha parte”.

NOTAS IMPORTANTES:-

Nota 1 – No livro acima mencionado, Marcos Antonio de Moraes, assim escreve na Nota de Página, de nº 150, pág. 245:
- “Como um novo Rimbaud”, Luís Aranha Pereira (1901-?) se cala após a admirável explosão lírica simultaneísta e rica em associações imagéticas delirantes. Quatro poemas em Klaxon, três poemas de “verdadeiro fôlego poético”: “Drogaria de éter e de sombra (1921)”, “Poema Pitágoras” (1922), “Poema giratório” (1922), um projeto de livro (Cocktails), atiçam a curiosidade de MB, que o inclui entre os bissextos contemporâneos. MA, devota-lhe, em 1932, “Luís Aranha ou a poesia preparatoriana”, longo ensaio em que atribui “a originalidade, a contribuição curiosíssima” do poeta estava na realização do “estado lírico da psicologia do preparatoriano” (hoje, “vestibulando”). “Há nele uma sofreguidão de ajuntar noções aprendíveis de cor que nos dá a imagem palpável dos fins de ano letivo.” (Aspectos da literatura brasileira, p. 59);

Nota 2 – Ainda na pág. 245, Marco Antonio de Moraes, transcreve carta do Mário para Bandeira, constando a mesma data: 7 de outubro de 1925, onde MA, no final da carta (pág. 246), diz ter gostado da opinião de MB sobre Luís Aranha:
“(...).
A carta de você tem outros assuntos que quereria responder. Mas estou com sono vou dormir. Gostei da opinião de você sobre o Luís.”;

Nota 3 – Nesse mesmo livro, pág. 676, em carta data de 7 de agosto de 1944, Bandeira escreve a seguinte carta:

Rio de Janeiro, 7 de Agosto de 1944

Mário

Do Carlos Queirós recebi para você o prospecto que lhe envio.
Mando-lhe um cartão de agradecimento para o Alfredo Mesquita, cujo endereço ignoro.
Vai também para você uma cópia do retrato do Taci. A fotografia original, com a chapa que mandei fazer, serão entregues à viúva por intermédio do Guilherme. Muito obrigado.
Consegui o retrato do Aranha com o sogro (que nunca leu um verso do genro). Acho que a antologia dos bissextos vai ficar bem boa. Já entreguei todo o material ao Múcio Leão para Autores e Livros.
Às pressas um abraço do

Manu.

Nota 4 – A expressão “poeta bissexto” é explicada por Marco Antonio no rodapé da pág. 677, nota n.º 26, da seguinte forma:
- A expressão “poeta bissexto” significa “todo poeta que só entra em estado de graça de raro em raro”, inédito em livro. (Antologia dos poetas bissextos contemporâneos, “Prefácio da 1ª edição”).
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ICONOGRAFIA

Grupo dos Organizadores da Semana de 22: Luís Aranha, de óculos, sentado entre Rubens Borba de Moraes e Tácito de Almeida, atrás de Oswald de Andrade, sentado no chão, primeiro plano.
(Foto Arquivo IEB/USP)


Capa do COCKTAILS – Luís Aranha – Poemas
Organizados por Nelson Ascher e Rui Moreira Leite,
lançado em 1984.

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ALGUNS POEMAS DE

LUÍS ARANHA


POEMA Pitágoras

Meu cérebro e coração pilhas elétricas
Arcos voltaicos
Estalos
Combinações de idéias e reações de sentimentos
O céu é uma vasta sala de química com retortas cadinhos tubos provetes e todos os
Vasos necessários
Quem me quitaria de acreditar que os astros são balões de vidros
Cheios de gases leves que fugiram pelas janelas dos laboratórios
Todos os químicos são idiotas
Não descobriram nem o elixir da longa vida nem a pedra filosofal
Só os pirotécnicos são inteligentes
São mais inteligentes do que os poetas pois encheram o céu de planetas novos
Multicores
Astros arrebentam como granadas
Os núcleos caem
Outros sobem da terra e têm uma vida efêmera
Asteróides asteriscos
Bolhas de sabão!
Os telescópios apontam o céu
Canhões gigantes
De perto
Vejo a lua
Acidentes da crosta resfriada
O anel de Anaxágoras
O anel de Pitágoras
Vulcões extintos
Perto dela
Uma pirâmide fosforescente
Pirâmide do Egito que subiu ao céu
Hoje está incluída no sistema planetário
Luminosa
Com a rota determinada por todos os observatórios
Subiu quando a biblioteca de Alexandria era uma fogueira iluminando o mundo
Os crânios antigos estalam nos pergaminhos que se queimam
Pitágoras a viu ainda em terra
Viajou no Egito
Viu o rio Nilo os crocodilos os papiros e as embarcações de sândalo
Viu a esfinge os obeliscos a sala de Karnak e o boi Apis
Viu a lua dentro do tanque onde estava o rei Amenemas
Mas não viu a biblioteca de Alexandria nem as galeras de Cleopatra
Nem a dominação dos ingleses
Maspero acha múmias
E eu não vejo mais nada
As nuvens apagaram minha geometria celeste
No quadro negro
Não vejo mais a sua nem minha pirotécnica planetária
Rojões de lágrimas
Cometas se desfazem
Fim da existência
Outros estouram como demônios da Idade Média e feiticeiros do Sabbath
Fogos de antimônio fogos de Bengala
Eu também me desfarei em lágrimas coloridas no meu dia final
Meu coração vagará pelo céu estrela cadente ou bólido apagado como agora erra
Inflamado pela terra
Estrela inteligente estrela averroísta
Vertiginosamente
Enrolando-o na fieira da Via-Láctea joguei o pião da terra
E ele ronca
No movimento perpétuo
Vejo tudo
Faixas de cores
Mares
Montanhas
Florestas
Numa velocidade prodigiosa
Todas as cores sobrepostas
Estou só
Tiritante
De pé sobre a crosta resfriada
Não há mais vegetação
Nem animais
Como os antigos creio que a terra é o centro
A terra é uma grande esponja que se embebe das tristezas do universo
Meu coração é uma esponja que absorve toda a tristeza da terra
Uma grande pálpebra azul treme no céu e pisca
Corisco arisco risca no céu
O barômetro anuncia chuva
Todos os observatórios se comunicam pela telegrafia sem fio
Não penso mais porque a escuridão da noite tempestuosa penetra em mim
Não posso matematizar o universo como os pitagóricos
Estou só
Tenho frio
Não posso escrever os versos áureos de Pitágoras !...

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A seguir apenas a primeira parte do Poema Drogaria de Éter e de Sombra
DROGARIA DE ÉTER E DE SOMBRA

DROGARIA
SOCIEDADE ANÔNIMA

Produtos Químicos e Farmacêuticos
Especialidades em artigos para toilette
Perfumarias Finas
Aparelhos e objetos de cirurgia
Importação direta
Atacado e varejo
Preços módicos
Informações gratuitas
As contas são liquidáveis invariavelmente
No fim de cada mês
Vende-se
Livro de Ouro do Veterinário
Manual do Farmacêutico
Formulário de Chernoviz
Tratado de Versificação

Eu era poeta...
Mas o prestígio burguês dessa tabuleta
Explodiu na minha alma como uma granada.
Resolvi um dia,
Incômodo mensal das musas,
Ir trabalhar numa drogaria
E executei o meu projeto.
Processo financeiro dos milionários
norte-americanos
Que via no cinematógrafo:
Multiplicação incessante da riqueza
De ano em ano
Com acumulação dos juros ao capital...
Procriação e desenvolvimento das drogas na prateleira
Pelos métodos científicos moderníssimos...
Prestígio dos comerciantes fortes
Desvalorização crescente da poesia...
Minha musa romântica
Morreu após o seu primeiro parto,
Que foi para a cesta com mal de sete dias.

No centro da cidade,
Triângulo de ouro e sol,
A Drogaria era uma gruta de sombra...
Como na Itália
A gruta do cão
Cheia de ácido carbônico
Na Drogaria o éter tomava conta da atmosfera...
Não obstante,
Minha pituitária se habituou a ele
Como a vista se habitua à sombra...

Armários em toda extensão da casa...
Eu os arrumava na minha inexperiência de empregado novo...
Iniciação.
Oh! Prateleiras da minha mocidade
“Castelo de sonhos” do meu bazar de drogas!
Janelas ogivais correndo sobre trilhos!
Castelãs cheias de rótulos e fórmulas!...
Como era feliz entre vós,
Castelãs que fiáveis
Nos vossos fusos silenciosos
O bordado setíneo das teias de aranha!...

Meu “sonho de ouro”
Contemplação de Urracas namoradas!
Minha cruzada de metal
Oh! Meus cruzados ideais!...

Sabia
O nome a todas as formosas,
Que amava muito mais que vendia mais
Embrulhadas todas em papel de seda,
Mantos de cores nacionais...
Morfina
Cocaína
Benzina
Aspirina
Quina
Sina
Atropina
Examina
Gelatina
Heroína
Fenacetina
Antipirina
Papaína
Exalgina
Digitalina
Aconitina
Estricnina
E tantas outras que não me lembro mais!
(...)

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COCKTAIL

HOTEL RESTAURANTE BAR
A cadeira guincha
Garçon
No espelho “Experimente nosso COCKTAIL”
Champagne cocktail
Gin cocktail
Álcool
Absinto
Açúcar
Aromáticos
Sacode num tubo de metal
É frio estimulante e forte
Cocktail
Cocteau
Cendrars
Rimbaud cabaretier
Espontaneidade
Simultaneísmo
O só plano intelectual traz confusão
Associação
Rapidez
Alegria
Poema
Arte moderna
COCKTAIL PARA UM!
Não; para todos
Vinde encher o copo do coração com o meu cocktail sentimental
Sentimental?!

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CREPÚSCULO

Pantheon de cimento armado
A luz tomba
Refluxo de cores
Mel e âmbar
Há liras de Orfeu em todos os automóveis
Reses das nuvens em tropel
Céu matadouros da Continental
Todas as mulheres são translúcidas
Ando
Músculos elásticos
Andar com a força de todos os automóveis
Com a força de todas as usinas
Com a força de todas as associações comerciais e
industriais
Com a força de todos os bancos
Com a força de todas as empresas agrícolas e as
explorações de linhas férreas
Os capitais amontoados em pilhas elétricas
Forças presidenciais e forças diplomáticas
A força do horizonte vulcânico
As forças violentas as forças tumultuosas de Verhaeren
Sou um trem
Um navio
Um aeroplano
Sou a força centrífuga e centrípeta
Todas as forças da terra
Todas as distensões e todas as liberdades
Sinto a vida cantar em mim uma alvorada de metal
O meu corpo é um clarim
Muita luz
Muito ouro
Muito rubro
Meu sangue
Eu sou a tinta que colore a tarde!

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CONCLUSÃO NECESSÁRIA

Não poderia concluir este texto sem mencionar o artigo: “Sem Essa, Aranha”, de autoria da livre-docente em Literatura Brasileira na UNESP – Instituto de Letras de Assis, Sra. Maria Alice Faria. Não sei qual jornal publicou o referido artigo, pois recebi apenas um recorte, sem nenhuma referência, mas concluí ter sido escrito em 1984, onde Maria Alice menciona o lançamento do Cocktails (sem mencionar o nome do autor: Ascher) – mas vale como registro importante, pois o artigo é excelente. Conjeturo também que a autora, inteligente e intencionalmente, tenha se utilizado do título do filme “Sem essa, aranha” (1970), do cineasta Rogério Sganzerla, levando os leitores desavisados e pouco atentos aos poetas modernistas, assanharem-se e, lendo seu artigo iniciassem, mesmo que induzidos subliminarmente, buscarem pelos textos do poeta Luís Aranha. O artigo da Maria Alice Faria é deleitoso. Por ser muito extenso, transcrevo apenas os quatro parágrafos finais, cujo subtítulo é: Timidez e Anacronismo.

“(...).

TIMIDEZ E ANACRONISMO

Numa visão história da literatura brasileira, não há como se chegar a juízos absolutos do tipo do de José Lino Grunewald, ao afirmar que a poesia de Luís Aranha é “uma épica da civilização industrial”. Se, por exemplo, encararmos a Paulicéia Desvairada do ponto de vista estritamente da literatura brasileira, ela representa efetivamente uma renovação literária em confronto com a literatura praticada nessa época no Brasil. Colocada dentro do contexto mais amplo da vanguarda européia, a Paulicéia é uma proposta de inovações tímida e mesmo anacrônica. O mesmo se poderá dizer de Luís Aranha, se conhecermos de perto os poetas de vanguarda francesa (para só ficar neles), devorados pelo jovem paulista, segundo o testemunho de Mário de Andrade e Sérgio Milliet.
São fontes diretas de Luís Aranha, que se serve dos mesmos processos poéticos utilizados à saciedade por escritores franceses de segunda linha e diluidores de um ou outro poeta maior, ainda pouco conhecido como tal, aqui apontados e lidos avidamente por Mário de Andrade e seus amigos. Nesta perspectiva ampla, a poesia, de Luís Aranha é uma miscelânea de tendências, temas e estilos variados, inclusive distanciados no tempo, alguns até anacrônicos, misturando processos que vão de Verhaeren a Cendrars, o todo acondicionado no molho de crepuscularismo brasileiro, estudado por Norma S. Goldstein em Do Penumbrismo ao Modernismo (Ática, 1983).
Se, entretanto, encaramos os 26 poemas publicados pela Brasiliense dentro do contexto literário brasileiro, não há como não se dar conta, em primeiro lugar, da precedência de Luís Aranha sobre os nomes consagrados do Modernismo, quanto à experimentação de processos renovadores de nossa poesia. Em segundo lugar, estão evidentes a desenvoltura e espontaneidade com que ele se utilizou de técnicas de vanguarda que o cauteloso Mário de Andrade não quis ou não soube experimentar naquele momento; que Oswald de Andrade levaria ainda algum temo para tentar; e que Menotti Del Picchia e Guilherme de Almeida nunca conseguiriam dominar. Assim, não me parece descabido pensar-se que, conscientemente ou não, tenha havido por arte dos escritores mais velhos e já conhecidos, atitudes de desencorajamento do jovem Luís Aranha, sem dúvida precursor de todos eles. Se poderia até mesmo arriscar a opinião de que o estudo de Mário de Andrade, “Luís Aranha e a Poesia Preparatoriana”, constitui-se numa castração definitiva das veleidades poéticas do seu jovem protegido.
Portanto, não tomaria Luís Aranha como um gênio incompreendido agora descoberto, mas como um elemento importante para a avaliação da nossa acanhada vanguarda de 1920. O essencial, a meu ver, é ficar-se com os pés na terra em relação à nossa literatura – “pobre e fraca”, mas “a que nos exprime”, no dizer de Antonio Cândido. E trabalhar no sentido de se levantarem dados para uma compreensão serena de nossos movimentos literários sem cair na tentação do ufanismo, praga oriunda de um complexo de inferioridade centenário, que destrói a credibilidade de parte de nossa crítica desde o Romantismo. Ou que, na melhor das hipóteses, revela sua ingenuidade, ao nos colocar no centro de movimentos literários nos quais até agora tivemos apenas participação periférica”.

FONTES PESQUISADAS:

- Alambert, Francisco. In: A Semana de 22 – A aventura Modernista no Brasil. 2ª Ed. Editora Scipione – São Paulo, 1944;
- Andrade, Mário de. In: Aspectos da Literatura Brasileira. 5ª Ed. – Livraria Martins Editora – São Paulo, 1974;
- Aranha, Luís; Ascher, Nelson (org.). In: Cocktails Poemas. 1º Ed. – Editora Brasiliense – São Paulo, 1984;
- BANDEIRA, Manuel. Luis Aranha. In: Antologia de poetas brasileiros bissextos contemporâneos. 2ª Ed. Revisada e Aumentada. Rio de Janeiro: Org. Simões, 1964.
- Batista, Marta Rossetti. & Lopez, Telê Porto Ancona. & Lima, Yone Soares de. In: Brasil: 1º Tempo Modernista – 1917/29 – Documentação. Instituto de Estudos Brasileiros da USP – São Paulo, 1972;
- Bosi, Alfredo. In: História Concisa da Literatura Brasileira. 3ª Ed. Editora Cultrix Ltda. – São Paulo, 1997;
- Brito, Mário da Silva. In: Poetas Paulistas da Semana de Arte Moderna – Antologia – Livraria Martins Editora – São Paulo, 1972;
- Coutinho, Afrânio. In: A literatura no Brasil. Rio de Janeiro, Livraria São José Editora, 1959.
- Duarte, Paulo. In: Mário de Andrade por ele mesmo. São Paulo. Hucitec/Secretaria Municipal de Cultura, 1985.
- Faria, Maria Alice. In: Sem essa, Aranha. (Fonte desconhecida);
- Milliet, Sérgio. In: Diário Crítico – Vol. I (1940-1943). 2ª Ed. – Livraria Martins Editora & EDUSP – São Paulo, 1981;
- _________. In: Diário Crítico – Vol. III (1945). 2ª Ed. – Livraria Martins Editora & EDUSP, 1981;
- Revista klaxon – Obra publicada em co-edição com a Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo. Impressão em 1976, pelo método offset, com filmes fornecidos pelo Editor – Livraria Martins Editora, feita pela Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais S.A. – São Paulo. Introdução de Mário da Silva Brito, contendo as 8 (oito) edições do Mensário Klaxon (Maio de 1922 – Dezembro de 1922 & Janeiro de 1923).
- Texto do Acervo da Biblioteca da Exposição RETALHOS DO MODERNISMO - 2009 - (Luiz de Almeida)