terça-feira, 22 de janeiro de 2008

UM TOSTÃO DE "MANUEL BANDEIRA"

CRONOLOGIA BIOGRÁFICA E ARTÍSTICA

1886 – 19 de Abril nasce Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho, em Recife – Pernambuco, na Rua da Ventura, atual Joaquim Nabuco, filho do engenheiro civil Manuel Carneiro de Souza Bandeira, e Francelina Ribeiro de Souza Bandeira;
1890 - A família se transfere para o Rio de Janeiro e a seguir para Santos - SP e, novamente, para o Rio de Janeiro. Passa dois verões em Petrópolis;
1892 - A família volta para Pernambuco. Manuel Bandeira freqüenta o colégio das irmãs Barros Barreto, na Rua da Soledade, e, como semi-interno, o de Virgínio Marques Carneiro Leão, na Rua da Matriz;
1896 – A família muda-se para o Rio de Janeiro, na Travessa Piauí, depois na Rua Senador Furtado, depois em Laranjeiras;
1897 – Estuda no Externato do Ginásio Nacional, hoje Colégio Pedro II. Tem como professores Silva Ramos, Carlos França, José Veríssimo e João Ribeiro. Entre seus colegas estão Sousa da Silveira e Antenor Nascentes;
1902 – Forma-se em Bacharel em Letras;
1903 - A família se muda para São Paulo onde Bandeira se matricula na Escola Politécnica, pretendendo tornar-se arquiteto. Estuda também, à noite, desenho e pintura com o arquiteto Domenico Rossi no Liceu de Artes e Ofícios. Começa ainda a trabalhar nos escritórios da Estrada de Ferro Sorocabana, da qual seu pai era funcionário;
1904 – Abandona os estudos por motivo de doença. Fez estações de cura da tuberculose em Campanha, MG, Teresópolis e Petrópolis, RJ;
1910 - Entra em um concurso de poesia da Academia Brasileira de Letras, que não confere o prêmio. Lê Charles de Guérin e toma conhecimento das rimas toantes que empregaria em Carnaval;
1912 - Sob a influência de Apollinaire, Charles Cros e Mac-Fionna Leod, escreve seus primeiros versos livres;
1913 – Viaja para Clavadel – Suíça, para tratamento. Em Clavadel teve como companheiro de sanatório o poeta Paul Eluard. Sua vida poderia ter sido breve, face às lesões que tinha nos pulmões;
1914 - Em virtude da eclosão da Primeira Guerra Mundial, volta ao Brasil em outubro. Lê Goethe, Lenau e Heine (no sanatório reaprendera o alemão que havia estudado no ginásio). No Rio de Janeiro, reside na rua (hoje Avenida) Nossa Senhora de Copacabana e na Rua Goulart, no Leme;
1916 - Falece sua mãe, Francelina;
1917 - Publica seu primeiro livro: A cinza das horas, numa edição de 200 exemplares custeada pelo autor (300 mil-réis), impresso nas oficinas do Jornal do Comércio. João Ribeiro escreve um artigo elogioso sobre o livro. Por causa de um hiato num verso do poeta mineiro Mário Mendes Campos, Manuel Bandeira desenvolve com o crítico Machado Sobrinho uma polêmica nas páginas do Correio de Minas, de Juiz de Fora;
1918 - O autor perde a irmã, Maria Cândida de Souza Bandeira, que desde o início da doença do irmão, havia sido uma dedicada enfermeira;
1919 - Publica seu segundo livro, Carnaval, em edição custeada pelo autor. João Ribeiro elogia também este livro que desperta entusiasmo entre os paulistas iniciadores do modernismo;
1920 - O pai de Bandeira, Manuel Carneiro, falece. O poeta se muda da Rua do Triunfo, em Paula Matos, para a Rua Curvelo, 53 (hoje Dias de Barros), tornando-se vizinho de Ribeiro Couto;
1921 - Numa reunião na casa de Ronald de Carvalho, em Copacabana, conhece Mário de Andrade. Estavam presentes, entre outros, Oswald de Andrade, Sérgio Buarque de Holanda e Oswaldo Orico;
1922Troca correspondências com Mário de Andrade. Bandeira não participa da Semana de arte Moderna, realizada em fevereiro em são Paulo, no Teatro Municipal. Na ocasião, porém, Ronald de Carvalho lê o poema "Os Sapos", de Carnaval. Meses depois Bandeira vai a São Paulo e conhece Paulo Prado, Couto de Barros, Tácito de Almeida, Menotti Del Picchia, Luís Aranha, Rubens Borba de Morais, Yan de Almeida Prado. No Rio de Janeiro, passa a conviver com Jaime Ovalle, Rodrigo Melo Franco de Andrade, Prudente de Morais, neto, Dante Milano. Colabora em Klaxon. Ainda nesse ano morre seu irmão, Antônio Ribeiro de Souza Bandeira;
1924 - Publica, às suas expensas, Poesias, que reúne A Cinza das Horas, Carnaval e um novo livro, O Ritmo Dissoluto;
1925 - Colabora no "Mês Modernista", série de trabalhos de modernistas publicado pelo jornal A Noite. Escreve crítica musical para a revista A Idéia Ilustrada. Escreve também sobre música para Ariel, de São Paulo;
1926 - A serviço de uma empresa jornalística, viaja para Pouso Alto, Minas Gerais, onde na casa de Ribeiro Couto conhece Carlos Drummond de Andrade. Viaja a Salvador, Recife, Paraíba (atual João Pessoa), Fortaleza, São Luís e Belém;
1927 – Vai a Belo Horizonte, passando pelas cidades históricas de Minas Gerais, e a São Paulo. Viaja a Recife, como fiscal de bancas examinadoras de preparatórios. Inicia uma colaboração semanal de crônicas no Diário Nacional, de São Paulo, e em A Província, de Recife, dirigido por Gilberto Freyre. Colabora na Revista de Antropofagia;
1928 – Viaja para Recife como fiscal de bancas examinadoras de preparatórios. Começa escrever crônicas semanais par o Diário Nacional, de São Paulo;
1930 - Publica Libertinagem, em edição de 500 exemplares, como sempre custeada pelo autor. Escreve crítica de cinema para o Diário da Noite, do Rio de Janeiro, e crônicas semanais para A Província, do Recife;
1933 - Muda-se, da Rua do Curvelo para a Rua Morais e Vale, na Lapa;
1935 - É nomeado pelo Ministro Gustavo Capanema, inspetor de ensino secundário;
1936 - Grandes comemorações marcam os cinqüenta anos do poeta, entre as quais a publicação de Homenagem a Manuel Bandeira, livro com poemas, estudos críticos e comentários, de autoria dos principais escritores brasileiros. Publica Estrela da Manhã (com papel presenteado por Luís Camilo de Oliveira Neto e contribuição de subscritores) e Crônicas da Província do Brasil;
1937 - Recebe o prêmio da Sociedade Filipe de Oliveira por conjunto de obra, e publica Poesias Escolhidas e Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Romântica;
1938 - É nomeado professor de literatura do Colégio Pedro II e membro do Conselho Consultivo do Departamento do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Publica Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Parnasiana e Guia de Ouro Preto; Passa a ser membro do Conselho Consultivo do Departamento do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional;
1940 - É eleito para a Academia Brasileira de Letras, na vaga de Luís Guimarães Filho. Toma posse em 30 de novembro, sendo saudado por Ribeiro Couto. Publica Poesias Completas, com a inclusão da Lira dos Cinqüent'Anos (também esta edição foi custeada pelo autor). Publica ainda Noções de História das Literaturas e, em separata da Revista do Brasil, A Autoria das Cartas Chilenas;
1941 - Começa a fazer crítica de artes plásticas em A Manhã, no Rio de Janeiro;
1942 - É nomeado membro da Sociedade Filipe de Oliveira. Muda-se para o Edifício Maximus, na Praia do Flamengo. Organiza a edição dos Sonetos Completos e Poemas Escolhidos de Antero de Quental;
1943 – É nomeado professor de literatura hispano-americana da Faculdade Nacional de Filosofia;
1944 - Deixa o Colégio Pedro II. Muda-se para o Edifício São Miguel, na Avenida Beira-Mar, apartamento 409. Publica Obras Poéticas de Gonçalves Dias, edição crítica e comentada;
1945 - Publica Poemas Traduzidos, com ilustrações de Guignard;
1946 - Recebe o prêmio de poesia do IBEC por conjunto de obra. Publica Apresentação da Poesia Brasileira e Antologia dos Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos;
1948 - São reeditados três de seus livros: Poesias Completas, com acréscimo de Belo Belo; Poesias Escolhidas e Poemas Traduzidos. Publica Mafuá do Malungo (impresso em Barcelona por João Cabral de Melo Neto) e organiza uma edição crítica das Rimas de João Albano;
1949 - Publica Literatura Hispano-Americana e traduz O Auto Sacramental do Divino Narciso de Sóror Juana Inés de la Cruz;
1950 - A pedido de amigos, apenas para compor a chapa, candidata-se a deputado pelo Partido Socialista Brasileiro, sabendo que não tem quaisquer chances de eleger-se;
1951 - Publica Opus 10 e a biografia de Gonçalves Dias. É operado de cálculos no ureter;
1953 - Muda-se para o apartamento 806 do mesmo edifício da Avenida Beira-Mar;
1954 - Publica Itinerário de Pasárgada e De Poetas e de Poesia. Faz conferência no Teatro Municipal do Rio de Janeiro sobre Mário de Andrade;
1955 - Publica 50 Poemas Escolhidos pelo Autor. Traduz Maria Stuart, de Schiler, encenado no Rio de Janeiro e em São Paulo. Em junho, inicia colaboração como cronista no Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, e na Folha da Manhã, de São Paulo. Faz conferência sobre Francisco Mignone no Teatro Municipal do Rio de Janeiro;
1956 - Traduz Macbeth, de Shakespeare, e La Machine Infernale, de Jean Cocteau. É aposentado compulsoriamente, por motivos da idade, como professor de literatura hispano-americana da Faculdade Nacional de Filosofia;
1957 - Traduz as peças June and the Paycock, de Sean O'Casey, e The Rainmaker, de N. Richard Nash. Publica Flauta de Papel. Em julho visita para a Europa, visitando Londres, Paris, e algumas cidades da Holanda. Retorna ao Brasil em novembro. Começa a escreve crônicas bissemanais para o Jornal do Brasil e a Folha de São Paulo;
1958 - Publica Gonçalves Dias, na coleção "Nossos Clássicos" da Editora Agir. Traduz a peça Colóquio-Sinfonieta, de Jean Tardieu. Publicada pela Aguilar, sai em dois volumes sua obra completa -- Poesia e Prosa;
1959 - Traduz The Matchmaker (A Casamenteira), de Thorton Wilder. A Sociedade dos Cem Bibliófilos publica Pasárgada, volume de poemas escolhidos, com ilustrações de Aldemir Martins;
1960 - Traduz o drama D. Juan Tenório, de Zorrilla. Pela Editora Dinamene, da Bahia, saem em edição artesanal Estrela da Tarde e uma seleção de poemas de amor intitulada Alumbramentos. Sai na França, pela Pierre Seghers, Poèmes, antologia de poemas de Manuel Bandeira em tradução de Luís Aníbal Falcão, F. H. Blank-Simon e do próprio autor;
1961 - Traduz Mireille, de Fréderic Mistral. Começa a escrever crônicas semanais para o programa "Quadrante" da Rádio Ministério da Educação;
1962 - Traduz o poema Prometeu e Epimeteu de Carl Spitteler;
1963 - Escreve para a Editora El Ateneo, biografias de Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Junqueira Freire e Castro Alves. A Editora das Américas edita Poesia e Vida de Gonçalves Dias. Traduz a peça Der Kaukasische Kreide Kreis, de Bertold Brecht. Escreve crônicas para o programa "Vozes da Cidade" da Rádio Roquette-Pinto, algumas das quais lidas por ele próprio, com o título "Grandes Poetas do Brasil";
1964 - Traduz as peças O Advogado do Diabo, de Morris West, e Pena Ela Ser o Que É, de John Ford. Sai nos EUA, pela Charles Frank Publications, A Brief History of Brazilian Literature (tradução, introdução e notas de R. E. Dimmick);
1965 - Traduz as peças Os Verdes Campos do Eden, de Antonio Gala. A Fogueira Feliz, de J. N.Descalzo, e Edith Stein na Câmara de Gás de Frei Gabriel Cacho. Sai na França, pela Pierre Seghers, na coleção "Poètes d'Aujourd'hui", o volume Manuel Bandeira, com estudo, seleção de textos, tradução e bibliografia por Michel Simon;
1966 - Comemora 80 anos, recebendo muitas homenagens. A Editora José Olympio realiza em sua sede uma festa de que participam mais de mil pessoas e lança os volumes Estrela da Vida Inteira (poesias completas e traduções de poesia) e Andorinha Andorinha (seleção de textos em prosa, organizada por Carlos Drummond de Andrade). Compra uma casa em Teresópolis, a única de sua propriedade ao longo de toda sua vida;
1967 - Com problemas de saúde, Manuel Bandeira deixa seu apartamento da Avenida Beira-Mar e se transfere para o apartamento da Rua Aires Saldanha, em Copacabana, de Maria de Lourdes Heitor de Souza, sua companheira dos últimos anos;
1968 - Dia 13 de outubro, às 12 horas e 50 minutos, morre o poeta Manuel Bandeira, no Hospital Samaritano, em Botafogo, sendo sepultado no Mausoléu da Academia Brasileira de Letras, no Cemitério São João Batista.
UMA FOTO RARA

Manuel Bandeira, Chico Buarque de Holanda, Tom Jobim e Vinícius de Moraes, num encontro.
- Foto Suplemento “Mais!” da Folha de S.Paulo – de 09/01/1994 –
Pág. 5 – Matéria Chico Buarque volta ao samba e comemora 30 anos de carreira. Foto sem data.

ALGUNS COMENTÁRIOS SOBRE BANDEIRA

De Gilda Salem Szklo: "Tanto Bandeira como Drummond transitam entre o viver cotidiano e as coisas inefáveis. Há em suas crônicas, diríamos, uma dedicação integral à poesia. Da poesia à crônica, os limites são tênues para um e para outro. (...) Memória e lirismo convivem em seus textos em prosa. São narrativas de estruturas simples, com uma linguagem coloquial; primam pela leveza, pela argúcia e pela graça na análise do cotidiano. (...) Pelo Rio de outro tempo se movimenta o cronista-poeta Bandeira, emocionado de rever os lugares amados, absorto no mundo interior, sonhando com 'estrelas da manhã', com outros mundos longe deste, os espaços ideais da Pasárgada na cidade que está crescendo e perdendo seu jeito provinciano e humano de ser."
(Szklo, Gilda Salem. Drummond e Bandeira, os cronistas-poetas – In: Beatriz Rezende – Cronistas do Rio).

De Mário Quintana: “Quando Manuel Bandeira faleceu, em 1968, me lembro que eu tive a impressão de ter havido um terremoto. Pois há criaturas, como Manuel Bandeira, com quem não precisamos ter convívio cotidiano ou conhecimento pessoal, mas que, mesmo à distância, nos faz um grande bem sabermos que estão vivas, respirando conosco, para não nos sentirmos sós, para não desesperarmos deste mundo.
É que, um dia, com a sua poesia ou a sua bondade – não serão a mesma coisa? – fizeram cantar em nós alguma fonte oculta... Enfim, souberam expressar-nos e, portanto desoprimir-nos. Porque um grande poeta, não é o leitor que o descobre, mas é ele quem descobre o leitor.
Assim, enquanto ele vive e o mundo nos aflige com os seus problemas ou nos afligimos com os nossos, logo pensamos: “Ah! O poeta está sentindo isso”, ou “o poeta sentiria isso...”. Em suma, o poeta é o que se sabe ver. Esta, a comunhão que temos com os poetas vivos. Por isso, quando um grande poeta morre, sente-se esta súbita parada no coração do mundo. E, em cada um de nós, aquela sensação de terremoto de que já falei. Não há nada de ser nada: o mundo continua.
E Manuel Bandeira continuará, com o perdão do lugar-comum. Mas a gente é tão sensorial (Ah! não fôssemos poetas...) e eu não me conformo de jamais ouvir aquelas suas risadas em gluglu provocadas por suas próprias anedotas e nunca mais sentir aquele seu sorriso de anjo dentuço, ao me escutar. E dizer-se que toda essa saudosa irreverência é para evitar a solenidade, que ele tanto abominava....
Uma coisa, porém, afirmo: sempre considerei uma bênção do destino ter sido contemporâneo e merecido a amizade de Manuel Bandeira. E também, de Cecília Meireles, a quem nós dois queríamos tanto”.
(Quintana, Mário. Poeta.)

De Stefan Baciu: "Por seu conteúdo, por sua essência e seu estilo as crônicas de Manuel Bandeira representam, no conjunto de sua obra, um amplo terreno, capaz de mostrar ao crítico e ao leitor o desenvolvimento da vida brasileira em quatro décadas. Mesmo não sendo jornalista ("não nasci para jornalista"), foi um observador atento e lúcido dos fenômenos de uma época em que se desenvolveram tantos fatos notáveis para a história da Humanidade. De uma multiplicidade que escapa à leitura avulsa, dia a dia, no jornal, essas crônicas oferecem-nos uma síntese dos mais variados aspectos da vida brasileira, passando, com graça excepcional, do assunto pessoal, diário, quase íntimo, ao fait divers, à anotação crítica ou à pequena reportagem de tipo social e artístico."
(Baciu, Stefan. (1966). O Cronista. In: Manuel Bandeira de Corpo Inteiro.)

De Paulo Leminski: “Os poetas valem pelo que nos ensinam. Com Bandeira, aprendi aos 15 anos que poesia e humor não são incompatíveis. Hoje, acho que são, no fundo, a mesma coisa.
Outra coisa que aprendi com Bandeira foi o extraordinário domínio de formas, de um poeta que ia do soneto ao verso livre no tempo que a gente leva para dizer Manuel Bandeira.
Por fim, sempre admirei a capacidade que Bandeira tinha de extrair poesia das coisas mais insignificantes. Como disse Haroldo de Campos, Bandeira era um desconstelizador. Ele sabia transformar merda em ouro. Isso é alquimia. Isso é poesia. Isso para mim é Manuel Bandeira”.
(Leminski, Paulo. Poeta.)

De Antonio Carlos Villaça: "Suas crônicas são instantes de perfeição literária, pelo tom íntimo, coloquial, pela inteligência aguda, pelo poder de num traço fixar a vida fugaz, pela penetrante compreensão dos homens e dos fatos. Foi um admirável comentador da vida. Sabia retratar um homem, resumir um livro, uma conferência, uma cena, comentar um acontecimento político, ou social, contar uma anedota. Tudo com simplicidade total, despretensão, modéstia, poesia e astúcia".
(Villaça, Antonio Carlos. Estudo Crítico. In: Prosa: Manuel Bandeira).

De Antonio Candido: “A poesia de Manuel Bandeira caracteriza-se pela amplitude do âmbito, testemunhando uma variedade criadora que vem do Parnasianismo crepuscular até às experiências concretistas, do soneto às formas mais audazes de expressão. Doutro lado, conservou e adaptou ao espírito moderno os ritmos e formas mais regulares, de tal maneira que nenhum outro contemporâneo revela tão acentuadamente – mas ao mesmo tempo com tanta liberdade – a herança do mais puro lirismo português, transfundido na mais autêntica pesquisa da nossa sensibilidade. Sob esse aspecto, a sua obra lembra a de Gonçalves Dias.
Em toda ela, com timbre inconfundível, corre a nota da ternura ardente e da paixão pela vida, que vem desde os versos da mocidade até os de hoje, como força humanizadora. Graças a isso, a confidência e a notação exterior se unem numa expressão poética ao mesmo tempo familiar e requintada, pitoresca e essencial, unificando o que há de melhor no lirismo intimista e no registro do espetáculo da vida. Daí uma simplicidade que em muitos modernistas parece afetada, e que nele é a própria marca da inspiração”.
(Candido, Antonio. In: Considerações Gerais – Literatura II – Objetivo – pág. 58).

De Davi Arrigucci Jr: "A poesia de Bandeira (...) tem início no momento em que sua vida, mal saída da adolescência, se quebra pela manifestação da tuberculose, doença então fatal. O rapaz que só fazia versos por divertimento ou brincadeira, de repente, diante do ócio obrigatório, do sentimento de vazio e tédio, começa a fazê-los por necessidade, por fatalidade, em resposta à circunstância terrível e inevitável. O Itinerário de Pasárgada é o relato, também na forma do discurso humilde, dessa experiência poética dentro da moldura inarredável de sua condição trágica. Ironicamente, a morte não vem; o poeta viverá oitenta e dois anos, e sua existência marcada estará obrigada ao convívio cotidiano com a ameaça fatal: o 'mau destino', que se faz uma imagem sempre presente desde a 'epígrafe' de A Cinza das Horas, em 1917. A existência esvaziada pela doença é, por assim dizer, preenchida pela poesia, capaz de transformar a sensação de perda numa forma de resgate de tudo, como se lê na 'Canção do Vento e da Minha Vida'. Mas a idéia de morte, posta no horizonte de expectativa de cada dia, se transforma ela própria também, como tema poético de uma obrigada convivência diária, despindo-se de toda grandeza solene, como um risco que se fizesse, entre outros, um elemento do cotidiano, matéria principal, de onde o poeta maduro irá extrair sua poesia".
(Arrigucci Jr, Davi – Humildade, paixão e morte: a poesia de Manuel Bandeira – Davi é considerado um dos melhores críticos da obra de Manuel Bandeira).

De Carlos Drummond de Andrade: "Livre entre os mais livres, inquietante na largueza e nos seus ritmos e na amargura do seu pensamento, é o sr. Manuel Bandeira, o primeiro em ordem cronológica dos nossos modernos poetas, pois que o seu Carnaval é a publicação anterior a toda nossa agitação literária. Nele a tortura interior, surgindo face do público, tornou-se vulgar. Dir-se-ia que a sua face faz caretas de dor. Isso não impede de manejar as cordas da sátira e ser impiedoso para com os sapos do parnasianismo."

FRAGMENTOS DE CARTAS: MANUEL E MÁRIO

Trecho de carta de Mário a Bandeira: “Creio nas afinidades eletivas. Sou teu irmão desde uma nunca esquecida tarde de domingo, em que num táxi o Guilherme disse-me do aparecimento do ‘Carnaval’ e recitou de cor alguns versos esparsos de tua obra. No dia seguinte procurei o livro. Quando, para ler a ‘Paulicéia’ na casa do Ronald, exigi dos amigos tua presença, não foi porque tivesse a curiosidade de te conhecer fisicamente. Foi para um reconhecimento. Emprego a palavra com a sutileza dos poetas japoneses no seus haicais. Com todas as significações e associações que ela desperta. E daí em diante esse reconhecimento não cessou de aumentar, florir, frutificar. Hoje és, e não te ofenderás com a metáfora, és uma propriedade minha”.
Mário de Andrade – 22 de maio de 1923.

Trecho de carta de Bandeira a Mário:
“Antes de entregar os meus versos à tipografia, mandei-os a você, pedindo-lhe que os criticasse: o meu desejo era que você fizesse com eles o que eu, a seu pedido, faço com os seus: uma espinafração isenta de qualquer medo de magoar ou melindrar – crítica de sala de jantar de família carioca, de pijama e chinelo sem meia. Você tirou o corpo fora e limitou-se a aconselhar a supressão de um soneto. Se você tivesse me dado outros conselhos, o meu livro sairia mais magro porém certamente mais belo”.
Manuel Bandeira – 27 de dezembro de 1924.

Trecho de carta de Mário a Bandeira: “A sinceridade sem vergonha que o modernismo às vezes usou é um erro. Daí aquela minha dúvida expressa no prefácio do ‘Losango cáqui’, se temos o direito de chamar de poemas aos nossos movimentos líricos. Eu também me entusiasmei pela sinceridade sincera na arte. A ‘Escrava’ que é de princípios de 1922 dia isso. Hoje eu me entusiasmo mais pela sinceridade artística que por ser artística não deixará de ser psicológica, e real. A história é que versos agente faz pro outros lerem”.
Mário de Andrade – 29 de dezembro de 1924.

Trecho de carta de Bandeira a Mário:
“Macunaíma chegou e eu gostei dele. Eu estava de pé atrás com o herói. Você deve ter notado que quando você me falava dele eu não mostrava lá muito entusiasmo. me parecia que você estava preparando uma bruta caceteação em cima da gente. Me explico: você me dizia que era uma história escrita sobre lendas do Amazonas. Ora quase todas essas lendas me aporrinham, é um defeito meu, eu luto para me emendar mas qual. Bem entendido ano são todas que me aporrinham: são principalmente as que explicam a origem das coisas. Porque é que cai orvalho de manhãzinha, - e lá vem uma historiada comprida com uns nomes filhos da puta pelo meio. Sei da importância enorme de tudo isso, mas quê que hei de fazer, como dizia Macunaíma, me aporrinha. Agora as sacanagens, as histórias de bicho, etc., isso é comigo. Comecei a ler e a gostar”.
Manuel Bandeira – 31 de outubro de 1927.

O SORRISO INTROSPECTIVO
DE BANDEIRA
Um Sorriso

Vinha caindo a tarde. Era um poente de agosto.
A sombra já enoitava as moutas. A umidade
Aveludava o musgo. E tanta suavidade
Havia, de fazer chorar nesse sol-posto.
A viração do oceano acariciava o rosto
Como incorpóreas mãos. Fosse ágoa ou saudade,
Tu olhavas, sem ver, os vales e a cidade.
- Foi então que senti sorrir o meu desgosto...
Ao fundo o mar batia a crista dos escolhos...
Depois o céu... e mar e céus azuis: dir-se-ia
Prolongarem a cor ingênua de teus olhos...
A paisagem ficou espiritualizada.
Tinha adquirido uma alma. E uma nova poesia
Desceu do céu, subiu do mar, cantou na estrada...

Poema típico para inúmeras análises e concepções.
Um Sorriso: Provavelmente escrito em 1912. Faz parte dos últimos poemas do A Cinza das Horas, que inicia com o poema Epígrafe, escrito em 1917.
Ao analisarmos uma obra literária, não podemos, de forma alguma, caso isso não seja feito é pura perda de tempo, preferível ler um gibi do Homem Aranha ou de outro herói (efêmero, com certeza); deixar, antes de tudo, estudar e conhecer a vida do escritor, do seu dia-a-dia nas mais profundas anotações ou notificações pertinentes. Existem alguns escritores que esse procedimento não funciona. Bandeira, Mário de Andrade, Guilherme de Almeida, Menotti Del Picchia, Oswald de Andrade, Pagu, não podemos deixar de conhecê-los intimamente. Somente após esse "conhecimento" é que poderemos dissertar sobre seus textos. Na pintura, esse procedimento é mais abrangente e também inevitável, casos específicos dos modernistas: Anita Malfatti, Guignard, Di e Segall. Brecheret e Tarsila, nem tanto.
O poema “Um Sorriso” é um dos do livro A Cinza das Horas, editado pelo próprio Bandeira em 1917. Esse foi o seu primeiro livro cujos poemas trazem traços parnasianos e simbolistas. Então, ao analisarmos um poema do Bandeira, mesmo que seja uma simples palavra ou frase pinçadas de um texto qualquer, temos que verificar primeiramente a data que o poema (ou texto) foi escrito, e principalmente, como estava a vida e o cotidiano do poeta. Sendo assim, podemos iniciar uma pesquisa para “traduzir” Um Sorriso, partindo de alguns tópicos especiais e necessários.
Vejamos:- Segundo a biografia do Bandeira, em 1917, ano que editou o A Cinza das Horas, ele estava no Rio de Janeiro e lecionava na Faculdade Nacional de Filosofia;
- Nessa época, Bandeira vivia angustiado, solitário e macambúzio por causa da tuberculose. Não podemos esquecer que a manifestação dessa doença, naquela época, inevitavelmente era a morte. Ele, portanto, vivia cotidianamente com sentimentos de temor, desânimo e vazio interior. Ele preenchia todo seu tempo escrevendo. Era um meio de desabafo, de espantar o medo da morte, de esquecer a descrença e a solidão. Ele utilizou a escrita para deixar cravado todos esses sentimentos negativos provocados pela não aceitação imediata do seu estado de saúde. Sem muito analisar, cravava no papel palavras extremamente amargas, chorosas e de desalentos que medravam do seu íntimo, dos seus sentimentos e da mente conturbada e preocupada. A doença tornou Bandeira uma pessoa frustrada. Então, nos momentos de ócio da doença, o lápis deslizava brutalmente sobre as folhas de papel, demonstrando em versos a constante perspectiva do sofrimento contínuo e da morte. Isso ficou evidente no próprio depoimento de Bandeira: “Eu não tinha intenção de iniciar carreira literária quando publiquei o A Cinza das Horas. Desejava apenas dar-me a ilusão de não viver inteiramente ocioso”. Desse depoimento tiramos uma conclusão óbvia: Bandeira, quando não estava escrevendo estava sofrendo, se martirizando pelo fato de estar doente;
- O livro A Cinza das Horas é considerado um livro que transcende um tom fúnebre. Como mencionado, esse livro é puramente parnasiano e simbolista. O estilo Parnasiano tinha algumas características particulares: A descrição era obrigatoriamente pormenorizada e repleta de detalhes – (muitos sem importância para o texto e para o contexto); era exigência o emprego de palavras raras, aquelas incomuns no vocabulário popular ou do cotidiano; preferencialmente, ou melhor, obrigatoriamente, utilizava-se de rimas ricas ou preciosas, desprezando completamente a rima pobre (Rimas Ricas: quando rimam palavras de classe gramática diferente. Rimas Preciosas: quando rimam uma palavra e uma combinação de palavras, como “estrela/vê-la”. Rimas Pobres: quando rimam palavras da mesma classe gramatical); a constante busca pelos temas exóticos ou históricos; visão mais carnal que espiritual do amor (a poesia amorosa dos parnasianos está mais próxima do relacionamento humano comum). Não serve como exemplo explícito dessa característica parnasiana, mas no A Cinza das Horas, dois poemas nos aproximam, mesmo que sorrateiramente – são eles: Poemeto Irônico e Poemeto Erótico; e um exagerado interesse pelo Universalismo, ou seja, preferência pelos assuntos universais, em vez do individualismo que revela o estado de espírito das pessoas e os procedimentos mais íntimos. (Apesar de que os parnasianos brasileiros não seguiram à risca essas convenções, preferindo a não universalização e sim assuntos nacionais, tais como: paisagens específicas do Brasil e fatos de nossa história);
- Bandeira sempre tomou como tema para seus poemas os fatos corriqueiros do dia-a-dia. Utilizou-se também de temas tradicionais, mas sempre os recriava e os reinventava. Usou de ironia, de sarcasmo e humor quando poetizou a morte, a doença, a dor, a solidão, o medo e a falta de uma mulher para amar. (Não podemos deixar de lembrar que a grande paixão de Bandeira foi uma holandesa de nome Fredy Blank, que ele a chamava de Madame Blank. Ele a conheceu na juventude, antes de ir para Clavadel. Era culta e sensível, que já tinha duas filhas. Essa paixão se estendeu por mais de 40 anos e terminou na velhice, quando Madame Blank, doente, voltou para a Holanda, pois o velho poeta não podia cuidar dela). Bandeira nunca foi muito religioso ou espiritualista, como sempre dizia. Apesar disso, nunca se despojou de um rico potencial de religiosidade. Apesar de pertencer a uma família religiosa, sempre foi um católico relaxado, mas mantinha suas devoções e guardava com carinho crucifixos e imagens de santos, especialmente as que lhe davam prazer estético na contemplação;
- Na análise do livro A Cinza das Horas, precisamos lembrar sempre do depoimento do próprio Bandeira a respeito dos poemas contidos nesse livro: “Nada tenho a dizer desses versos, senão que ainda me parecem hoje, como me pareciam então, não transcender a minha experiência pessoal, como se fossem simples queixumes de um doente desenganado, coisa que pode ser comovente no plano humano, mas não no plano artístico (...)” – (in: Itinerário de Pasárgada). O escritor Fábio Lucas, no artigo: Manuel Bandeira, Poeta Menor? (in: Manuel Bandeira: Verso e Reverso – 1ª Edição - Editora T. A. Queiroz, Editor – SP – 1987 – Org. por Telê Porto Ancona Lopez – pág. 4), afirma: “(...) Bandeira dificilmente sai do campo de suas dores e de seu mundo interior, (...)”. A afirmativa desse escritor praticamente traduz o depoimento de Bandeira e reafirma o já mencionado neste texto sobre a constante preocupação do poeta com o seu eu interior e doentio.
E, para concluir sobre o A Cinza das Horas, antes de efetuar a releitura do poema Um Sorriso, é saber que o livro contém cinqüenta poemas, introduzidos pela “Epígrafe”, poema que praticamente conduz a temática dos outros 49 poemas, onde está implicado a “felicidade do passado” e a “melancolia” e a “frustração”, pertinentes na vida do poeta, mais enfaticamente no período de 1904 a 1935, quando ele começou a desprezar o seu próprio medo da morte.Agora, vamos tentar fazer uma releitura do "Um Sorriso":

Vinha caindo a tarde. Era um poente de agosto.
A sombra já enoitava as moitas. A umidade
Aveludava o musgo. E tanta suavidade
Havia, de fazer chorar nesse sol-posto.
A viração do oceano acariciava o rosto
Como incorpóreas mãos. Fosse mágoa ou saudade,
Tu olhavas, sem ver, os vales e a cidade.
- Foi então que senti sorrir o meu desgosto...
Ao fundo o mar batia a crista dos escolhos...
Depois o céu... e mar e céus azuis: Dir-se-ia
Prolongarem a cor ingênua de teus olhos...
A paisagem ficou espiritualizada.
Tinha adquirido uma alma. E uma nova poesia
Desceu do céu, subiu do mar, cantou na estrada...

Bandeira inicia o poema com tom melancólico. O período entre o pôr do sol e a chegada da noite, naturalmente é um período sombrio. É um espaço temporário onde a natureza trava uma batalha incógnita: é a luz do sol que se permite esmaecer ou é a escuridão que se apropria do espaço ofuscando a claridade? Bandeira utiliza-se de simbolismo na primeira afirmação quando emprega o verbo “cair”. O entardecer não “cai” como implica o significado literal do verbo “cair” = ir ao chão, ir de cima para baixo, tombar. Ele usa como sinonímia de “baixar”. O “cair” da tarde (entardecer) é um período que tem significado melancólico, pois é um curto espaço de tempo em que, o sumiço da luz - (Luz tem figuração de Vida), opõe-se ao da chegada da noite, da escuridão – (Escuridão tem figuração de ausência de Vida). Para um indivíduo mórbido, esse período é de extrema tristeza, de abatimento físico e mental. Quem teme a morte ou quem está constantemente preocupado se vai morrer a qualquer momento, como era o caso de Bandeira em decorrência da tuberculose, o entardecer é realmente tenebroso e assustador. Na continuação ele afirma: “A umidade aveludava o musgo”. Musgo são plantas que crescem em lugares sombrios, normalmente entre as pedras, onde há pouca incidência de luz solar. Implica aqui mais um termo que Bandeira expressa sua melancolia, aliás, dois termos: umidade e musgo. Antes disso o poeta utiliza-se de outros dois termos similares: “A sombra já enoitava as moitas”. “Sombra” é ausência de luz, obscuridade. “Enoitava” é anoitecer, que é o período em que a luz se esmaece. É um verbo puramente de característica do parnasianismo: “a utilização de palavras incomuns do cotidiano”, como é o caso também do “aveludava”, que tem como significado “suavizava”, que em seguida ele repete: “E tanta suavidade havia, de fazer chorar nesse sol-posto”. Aqui ele demonstra um estado de espírito totalmente descontrolado. Algo suave não pode fazer um estado de espírito normal cair em prantos.
Mas, para o solitário, o amargurado, nenhuma manifestação, por mais branda que possa ser, consegue modificar ou incitar alterações nos seus sentimentos.
O segundo verso provoca uma grande incógnita. “A viração do oceano...”. O significado de viração relacionado ao mar é: vento fresco e suave que costuma soprar à tarde do mar para a terra; brisa marinha. Esse vento fresco e suave “acariciava o rosto como incorpóreas mãos”. Mais uma vez o poeta usa de simbolismo empregando o verbo acariciar. O vento no rosto, quando fraco e suave, não causa transtornos, pois o impacto do seu fluxo e desviado pela área arredonda desse rosto. Aqui ele utiliza-se da poética quando dá ao vento o simbolismo de “mãos” imaginárias. (Poeticamente lindíssima a construção, bem própria do estilo bandeiriano). Tem um significado aqui de carência afetiva. Bandeira sofreu de carência afetiva, pois foi um solitário.
Na seqüência desse segundo verso, Bandeira volta-se para o seu interior, subliminarmente expresso no uso do “tu”. Ele direciona-se para o seu interior, magoado, repleto de medos e tristezas. Esse seu interior, diante do anoitecer, mesmo estando figurativamente à beira-mar, estava absorto no espaço físico e totalmente voltado pra si mesmo. É aquele olhar perdido que olha, mas não vê, absorto e totalmente cegado pelos sentimentos de tristimania, (mágoa) ou “saudade”. Saudade do tempo em que o seu interior não era ainda possuído por sentimentos negativos, quando não havia nenhuma manifestação da doença. Nesse final do segundo verso, o poeta volta-se para o “todo” do seu ser. Descobre-se nesse período que este absorto, fora de si, ele, num todo, “senti sorrir”, um sorriso disfarçado, digamos, aquele sorriso de não se conformar com a situação – aqueles momentos foram de total desprendimento.
Mas ele volta a se auto-classificar ao utilizar o termo “desgosto”, que significa: falta de gosto, de prazer, de alegria; aborrecimento, contrariedade, desprazer, estado de espírito de pessoas desgostosas, pesar, tristeza, falta de gosto, de simpatia, de amor por desafeto, grande insatisfação, mortificação, tribulação, estado de quem se sentiu ofendido mágoa, melindre. O grande “desgosto” de Bandeira fora a doença. Por isso ele se auto-define como “desgosto” ao inserir o pronome possessivo “meu”. Simbolicamente ele afirmou: “Foi então que mesmo na minha constante tribulação eu sorri”. Então, ele completa e explica o motivo desse sorriso. “Escolhos” são recifes ou rochas à flor da água. “Ao fundo o mar batia a crista dos escolhos...”. O poeta relembra aqui o olhar disperso e distante: “ao fundo” aqui tem significado de “distante”, ficando configurado como simbolismo quando do emprego de: “Depois o céu...”. E ele volta a afirmar figurativamente esse olhar disperso: “e mar e céus azuis: dir-se-ia prolongarem a cor ingênua de teus olhos...”. O fato de estar absorto o fez sorrir sorrateiramente. Provocou, por instantes, o esquecimento das aflições, como que, simbolicamente, um garoto torna-se extasiado diante de um brinquedo. E conclui esse motivo no último verso: Tudo em sua volta, pelo menos naquele momento, seus sentimentos e o seu eu interior voltam (ou tornam-se) como ele sempre gostaria que fossem: sem tristezas e sentimentos negativos e com o corpo sem doença. “A paisagem ficou espiritualizada”. O seu mundo torna-se livre e ganha vida, pois “Tinha adquirido uma alma”. “E uma nova poesia desceu do céu, subiu do mar, cantou na estrada...”. A poesia sempre tinha sido um meio de escape para Bandeira. Escape das suas preocupações e tristezas e principalmente um escape para não se preocupar com a doença, como ele mesmo declarou em depoimento já mencionado neste texto.
Essa “nova poesia”, simbolicamente, significa um novo alento que surgia após momentos de devaneio que o fez sorrir por estar naquele estado de pura indignação de si mesmo. Simbolicamente, Bandeira deixou exposto um momento de reflexão sobre o seu eu interior sofrido. Por um momento ele concluiu que toda aquela sua preocupação com a doença era vã. Então, esse novo alento que despertou dos seus sentimentos mais profundos, que ele mesmo define simbolicamente que não sabia exatamente de onde viera, quando afirma: “desceu do céu, subiu do mar(...)”.
Por essa sua “descoberta” que o fez sorrir, mas não foi um sorriso qualquer – foi “Um Sorriso” interior, pois uma nova coragem de continuar vivendo “cantou na estrada...”, ou seja, foi decisória para continuar “vivendo” seu dia-a-dia, simbolizado pela “estrada”.

sábado, 19 de janeiro de 2008

TARSILA DO AMARAL & ANITA MALFATTI

TARSILA & ANITA
Luiz de Almeida
Apesar de alguns (especuladores negligentes) tentarem afirmar que Tarsila do Amaral e Anita Malfatti foram inimigas - desconhecendo o fato das duas terem iniciado uma sólida amizade quando foram alunas de Pedro Alexandrino (1918...), desconhecendo também que Anita manteve Tarsila informada (na Europa) dos acontecimentos daqui, como assim fez quando da realização da Semana de Arte Moderna, antes de postar qualquer texto-estudo sobre a Tarsila, deixo aqui três tópicos importantíssimos: o primeiro é o desenho-retrato que Anita fez de Tarsila - provavelmente em 1919; o segundo: a foto das duas quando da Mostra de Anita no Masp, em 1955, tendo ao centro o Desenho-Retrato de Tarsila; e o terceiro: uma crônica de Tarsila sobre Anita. Assim:


Retrato de Tarsila por Anita Malfatti
(Pastel, 43 x 32 cm - 1919)
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Tarsila do Amaral e Anita Malfatti (1955)
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TERCEIRO TÓPICO:
DO LIVRO "TARSILA CRONISTA"
Anita Malfatti
6.12.1945

No próximo dia 11 encerra-se no Instituto dos Arquitetos, à rua 7 de Abril, a exposição de pintura de Anita Maltatti.
Fez muito bem a artista em apresentar de novo ao público alguns dos quadros que lhe restam da célebre exposição que realizou em fins de dezembro de 1916. Era essa a primeira exposição de arte moderna que se via no Brasil, e mesmo na América do Sul. Esses quadros, que nossos olhos educados admiram hoje como quem admira a paisagem cotidiana, já foram alvo de injúrias e anátemas.
Anita, que nesse tempo era uma simples menina corajosa, enfrentou o público de São Paulo, apresentando uma pintura nunca dantes vista nem sequer imaginada nestas paragens. Foi, portanto, um perfeito escândalo. Acham-se agora algumas dessas telas no Instituto dos Arquitetos, dando-nos a oportunidade de verificar a evolução do povo daquela época.
Bem poucos a compreenderam. Sei que Wasth Rodrigues, pintor que representava uma arte bastante avançada para o meio, lamentava não saber pintar como Anita. Imagine-se o efeito dessa confissão entre os nossos artistas!
O falecido professor Elpons, que mantinha em São Paulo um curso de pintura, deixando boas influências, fez-lhe também grandes elogios e chamava a atenção para alguns desenhos de colegas da artista, os quais figuravam entre os quadros expostos no salão térreo da rua Líbero Badaró. Esses desenhos eram para o público uma charada de bem difícil decifração: figuras em movimento, de caráter cubista.
Anita chegava dos Estados Unidos, para onde fora depois de um breve curso de pintura na Alemanha. Em Nova York, uma colega de academia disse-lhe uma vez: “Vamos para uma escola livre. Lá você poderá pintar como quiser”. Era a “Independence School of Art”, dirigida por Homer Boss, onde se reunia um pequeno grupo heterogêneo: pintores, dançarinos, artistas dramáticos. Eram poucos, mas pesavam bem na balança dos valores: Isadora Duncan e seu irmão, Raymond Duncan; Juam Gris; Baylinson, cujos desenhos foram expostos por Anita, assim como os de Sara Friedman e Floyd O´Neal, de linhagem aristocrática, sobrinha de Mac Adoo, secretário do gabinete do presidente Wilson. Também faziam parte o grupo a grande bailarina russa Napierkwska, que na Primeira Guerra Mundial refugiara-se nos Estados Unidos; Marcel Duchamp e um neto de Claude Monet. Napierkowska, depois de seis meses de estadia na América do Norte, celebrizou-se como artista dramática, representando durante dois anos seguidos a notável peça “War´s Bride”.
O Ministro da Guerra, Daniels, ia freqüentemente de Washington a Nova York par passear com Anita, Sara Friedman, Floyd O´Neal e uma sobrinha sua, de nome Evelyn Hope Daniels, que pertencia também ao grupo da “Independence School of Art”. Faziam freqüentes excursões, mas o que as encantava era ver Isadora Duncan no Estádio da Universidade de Columbia.
Anita se recorda com saudades desses amigos. A vida era mais ou menos surrealista. Quando se tratava de almoçar, o secretário Baylinson se apresentava entre os estudantes e corria o chapéu, com o cuidado de cobri-lo bem para que ninguém vise o dinheiro ali depositado, escondido antes na mão fechada. A maior parte, em dificuldades financeiras, não deixava cair nem um cêntimo, mas o chapéu era milagroso e dinheiro não faltava. Um dia Baylison disse a Anita em segredo: “Não seja boba. Não dê nada, porque aqui trabalham dois milionários que se fingem de pobres; uma senhora e o rei do aço”. (O rei do aço talvez saísse da imaginação de Baylinson). Esses ricaços queriam uma vida simples, com estímulo e conforto espiritual entre os alunos. A escola ficava muitas vezes em pé de fechar. Não havia dinheiro para o aluguel. Todos lamentavam, choravam juntos, mas no dia seguinte as contas estavam pagas e a vida recomeçava. Tudo isso era por causa de uma gaveta mágica na mesa do secretário, onde todos depositavam às ocultas as suas moedas para as despesas.
Seria mais interessante essa história contada pela própria Anita, que poderia também ser, se o quisesse, uma grande escritora. Conservo com carinho algumas de suas cartas, comprovadoras do que acabo de afirmar. Entre elas acha-se uma que escreve, com agilidade e espírito, o que foi a célebre Semana de Arte Moderna. Nessa época eu me achava em Paris, estudando pintura e não me nego a dizer que fiquei chocada ao saber que em São Paulo se atacava Olavo Bilac e outros nomes consagrados. Era essa a atitude daqueles que em 1916-1917 deram apoio a Anita. Todos os organizadores da Semana se confraternizaram em torno da pintora e se conheceram durante a sua exposição. Di Cavalcanti foi o primeiro a apresentá-la a Oswald de Andrade. Casualmente, apareceu na exposição Mário de Andrade, que voltou depois levando à artista um soneto parnasiano, dedicado ao “Homem Amarelo”, quadro que adquiriu mais tarde para a sua coleção. Oswald de Andrade, Menotti Del Picchia e Armando Pamplona escreveram artigos elogiosos no Correio Paulistano.
E os anos se passaram. Hoje, todos, unânimes, reconhecem em Anita uma precursora, cujo nome está definitivamente ligado à história da pintura brasileira. Seus quadros já estão sendo disputados pelos colecionadores conscientes de que é maior a sua valorização em cada ano que passa.
Do período de exaltação da sua primeira exposição, onde as cores são violentas e às vezes agressivas, a pintora atinge agora o período de suavidade. Ao entrar no salão do Instituto dos Arquitetos, deparamo-nos com um conjunto de cores luminosas, agradáveis, que se espalham com espiritualidade pelas suas flores e nas suas telas tipicamente brasileiras.

(Amaral, Tarsila. In Tarsila Cronista. Introdução e Organização de Aracy Amaral – São Paulo. Edusp, 2001 – 1ª Edição. Anita Malfatti - Págs. 207 a 210).

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

SÉRGIO MILLIET


Sérgio Milliet (Foto Reprodução do livro Paulicéia)

CRONOLOGIA BIOGRÁFICA E ARTÍSTICA

1898 – 20 de setembro, nasce Sérgio Milliet da Costa e Silva, filho de Fernando da Costa e Silva e Aída Milliet, na cidade de São Paulo;
1900 – Morre sua mãe Aída, em São Paulo;
1905 – Frequenta o curso primário no Grupo Escolar Maria José e Escola Americana, em São Paulo;
1909 – Frequenta o curso secundário nos ginásios São Bento e Macedo Soares, em São Paulo;
1912 – Inicia o curso de Ciências Econômicas e Sociais na Escola de Comércio de Genebra – Suíça. É caixeiro de livraria, arquivista da Sociedade das Nações e professor de tango;
1918 – Foi colaborador e diretor da revista Le Carmel e publicou seus primeiros livros de poesia, Par le Sentier e En Singeant;
1922 – Conclui o Curso de Ciências Econômicas e Sociais, em Berna – Suíça. Retorna ao Brasil e liga-se ao Grupo dos Modernistas de São Paulo. Participa com artigos na revista Klaxon;
1923 – Viaja para Bélgica e Paris. traduziu poemas dos modernistas brasileiros na revista francesa LUMIÉRE;
1925 – Retorna ao Brasil, para São Paulo;
1929 – Casa-se com Lourdes Duarte, irmã do jornalista Paulo Duarte;
1930 – Nasce o filho Paulo Sérgio;
1931 – Passa a exercer as funções de bibliotecário da Faculdade de Direito e, secretário e tesoureiro da Escola de Sociologia e Política até 1946;
1932 – Adere ao Movimento Constitucionalista de São Paulo, realizando missões diplomáticas;
1935 – Inicia sua participação na elaboração do projeto do Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo;
1937 – Começa a lecionar na Escola de Sociologia e Política em São Paulo. Viaja novamente para Paris e recebe Menção honrosa pelo trabalho realizado na Divisão de Documentação Histórica e Social do Departamento de Cultura de São Paulo. Publica o livro “Poemas”;
1938 – Inicia sua colaboração como crítico de arte e de literatura do jornal O Estado de S. Paulo;
1939 – É eleito membro da Academia Paulista de Letras, cadeira 25, patrono Varnhagen Paulista;
1940 - Dedica-se às artes plásticas publicando Pintores e Pinturas;
1942 – Publica “A Marginalidade da Pintura Moderna”, em São Paulo. Participa da Sala dos Intelectuais da Exposição do Sindicato dos Artistas Plásticos, em São Paulo. Participa da caravana de escritores a Belo Horizonte – MG, a convite do então prefeito Juscelino Kubitschek;
1943 – Publica “Pintura Quase Sempre”. É nomeado diretor da Biblioteca Municipal de São Paulo, além de presidente da Associação Brasileira de Escritores e do Congresso Internacional de Críticos de Arte. Viaja aos Estado Unidos. Publica o livro: “Oh! valsa latejante...1922-1943”;
1945 – Começa a pintar e a fazer portraits – charges, em São Paulo. Inaugura na Biblioteca Municipal de São Paulo a Seção de Arte. Passa a militar a Esquerda Democrática, em São Paulo;
1947 – Candidata-se a vereador pelo Partido Socialista em São Paulo;
1949 – Morre seu filho, em São Paulo. Ë o organizador e diretor artístico do Museu de Arte Moderna de São Paulo. É condecorado com a Cruz de Cavaleiro da Legião de Honra pelo governo francês, em Paris;
1952 – Viaja para Itália e representa o Brasil na Bienal de Veneza;
1954 – Participa da Comissão de Eventos comemorativos do IV Centenário da Cidade de São Paulo. Organizador da Cátedra de Estudos Brasileiros da Universidade de Lausanne na Suíça;
1956 – Viaja para Itália e Suíça;
1959 – Publica: “Cartas à dançarina”;
1960 - Publica o livro de crônicas De Ontem, de Hoje, de Sempre;
1962 – Publica o segundo volume do livro De Ontem, de Hoje, de Sempre;
1964 – Lança o livro de crônicas De Cães, de Gatos, de Gente;

1966 – 9 de novembro, falece em São Paulo.

COMENTÁRIOS E CRÍTICAS

De Francisco Alambert Júnior:-
"Ao contrário da voga/nacionalista de vários matizes que tomou a cultura modernista, principalmente após a Semana, Milliet conservou sempre uma postura desconfiada e até mesmo irônica com a obrigatoriedade de se ter 'as coisas do Brasil' como material obrigatório para se pensar a modernidade, ao contrário do 'ufanista crítico' Oswald de Andrade (como o definiu Roberto Schwartz) ou do otimismo da brasilidade de Mário de Andrade.".

Francisco Alambert Júnior (crítico)

De Quirino da Silva:-
"Desde que passou a pintar, seu conceito sobre pintura se modificou. A tal ponto compreendeu o problema pictórico que o seu primeiro gesto foi afastar-se da crítica de artes plásticas. Aos seus amigos íntimos, mormente pintores, dizia repetidas vezes: ´Se soubessem como é difícil pintar, não escreveriam tanto sobre pintura´. Em ´Considerações Inatuais´, Sérgio, entre outras coisas, diz: ´Sempre me pareceu ridículo acreditar o crítico no valor normativo de suas elucubrações. Pior é considerar-se ele um ser superior que existiria mesmo sem o artista...´ Mais adiante, assegura: ´A função da arte é exprimir a emoção através da qual nos elevamos acima do vulgo, participamos do humano profundo que é na realidade o divino´. Poderia prolongar-se nesta nota sobre Sérgio. Foi ele um e muitos. Sua vida - sempre ilustrada por humano traço - esplendeu sem o colorido do fogo-fátuo... Partiu o nosso amigo, partiu sem avisar a ninguém, de um instante para outro e sem atoarda publicitária. Partiu acompanhado do grande silêncio."
(in HOMENAGEM a Sérgio Milliet. Apresentação de José Geraldo Vieira e Quirino da Silva. São Paulo: MAM, 1969).


De Carlos Soulié do Amaral:- "A característica mais marcante da personalidade de Sérgio Milliet enquanto crítico e pensador, foi sua permanente preocupação com o caráter e com a ética. As duas palavras talvez tenham muito a ver com sua formação genebrina. Quando o conheci, em 1963, ele mantinha uma coluna semanal no jornal O Estado de S. Paulo, por onde deixava vazar suas reflexões sob o título De ontem, de hoje, de sempre.
Numa delas, confessou: "Libertado da obrigação de criticar, avesso à polêmica das escolas, só me abalanço agora ao comentário quando me deparo com qualidades que me agradam particularmente: honestidade de propósito e personalidade; só me interesso pela obra quando percebo em seu autor a vontade de passar por essa porta estreita que conduz à realização, quando vejo que escreve, desenha, pinta, esculpe ou compõe, por necessidade interior, sem concessões." A referida honestidade de propósito implica a sinceridade da exteriorização de valores, de posicionamentos éticos. A ausência de concessões implica uma expressão individual de caráter, de personalidade. Sérgio Milliet sempre alertou que o fazer artístico depende do domínio técnico, do manejo do metiê, das regras de composição e do conhecimento de soluções já asseguradas, para que o artista possa realizar, com mais naturalidade, a expressão de suas intenções, para que a forma seja um recurso e uma ferramenta do projeto interior."

(Amaral, Carlos Soulié do. [1998]. Sérgio Milliet, um intérprete da cultura brasileira. O Estado de S. Paulo, 24 out. 1998).


De Mário da Silva Brito:- "Nos últimos anos, já aposentado do funcionalismo e desinteressado da crítica literária (que abandonou), da obrigação profissional de escrever sobre livros e ideias, passou a compor artigos e crônicas de liberta e desgarrada fantasia. Neles captava cenas e situações do cotidiano, flagrantes do momento que passa. Neles falava de cães vira-latas, de gatos capciosos, da esquiva e ardilosa Elysée, de amigos de bar, de horas vadias de praia. Ou então evocava velhos tempos, especialmente amigos antigos, como Brecheret e Tarsila, para citar apenas dois. Eram trabalhos redigidos ao correr da pena e construídos ao sabor da associação de ideias ou de imagens. Alguns foram recolhidos no livro de memórias De Ontem de Hoje, de Sempre - talvez o seu melhor trabalho, isoladamente considerado, e aquele em que melhor se revela como homem."

(Brito, Mário da Silva. [1969]. Quase verbete de Sérgio Milliet. In: ___. Ângulo e Horizonte.p.87-91).


UM JEITO SINGULAR DE VER AS ARTES

Leila Kiyomura Moreno

Um pensador singular. Didático. Discreto e aberto à compreensão dos movimentos, correntes, ideias. E sempre reticente às grandes certezas. É com esta postura que o crítico Sérgio Milliet marcou presença na cultura brasileira. Para lembrar a sua trajetória pelas artes e homenagear os cem anos de seu nascimento, será realizado o simpósio "Modernidade e Crítica no Século XX: Literatura e Artes Plásticas". O evento irá acontecer entre os dias 21 a 24 no Memorial da América Latina.
"Através de palestras e debates, a programação pretende analisar a contribuição da crítica de artes plásticas e de literatura ao longo do século XX", explica Lisbeth Rebollo Gonçalves, professora da Escola de Comunicações e Artes da USP e integrante da comissão organizadora. "Iremos enfocar especialmente a época da modernização artística dos primeiros 50 anos do século no Brasil, estabelecendo confrontos com a experiência de outros países da América Latina."
O simpósio pretende destacar as realizações da crítica de artes plásticas e literatura, abrindo para questões atuais. Neste contexto, será lembrada a coerência do pensamento de Sérgio Milliet. "Esta reunião tem uma importância científica muito grande", observa Lisbeth. "Vale acentuar que são poucos os estudos sobre crítica de artes plásticas, não existindo um trabalho que sistematize as contribuições deste século. Os resultados do evento podem então tornar-se produto fundamental para uma pesquisa específica."
Os debates contarão com a participação de especialistas em artes plásticas, literatura e história da USP e de outras universidades do País e da América Latina. A comissão científica reúne os pesquisadores Carlos Guilherme Mota, Regina Campos e Lisbeth Rebollo Gonçalves (da USP). E a comissão organizadora é integrada por Fábio Magalhães e Marina Heck (do Memorial da América Latina), Francisco Alambert (da Unesp) e Silvia Quintanilha Macedo (das Faculdades Integradas de Osasco).

CRÍTICO HÁBIL

"Talvez seja este escritor o único verdadeiro crítico de pintura que tenhamos atualmente. Ele reúne ao hábil e sempre presente manejo das ideias estéticas gerais, o conhecimento histórico e técnico do seu assunto”.
A definição é de Mário de Andrade. Na avaliação do escritor e crítico, Sérgio Milliet tinha um olhar inusitado sobre as artes. Não se deixava influenciar por movimentos, tendências. "Ele parte sempre de um evento do cotidiano: dos salões modernos, dos temas tratados em conferência por companheiros intelectuais, de assertivas correntes na opinião pública, de livros que lê ou cabe resenhar, construindo, a partir daí, sua reflexão", observa Lisbeth.
O projeto crítico de Milliet tem como meta, segundo a pesquisadora, introduzir a compreensão da arte moderna na comunidade. "Procurava priorizar o fato artístico, a formação dos artistas e a informação do público. Neste caso, preocupando-se em romper definitivamente as barreiras do gosto estabelecido, de forma a abrir condições para o acolhimento e para o interesse pela arte do presente”.
Em seus artigos, Milliet se posicionava como um observador atento. Sua preocupação quando apresentava uma exposição, por exemplo, era de chamar a atenção para os detalhes dos trabalhos. "Suas matérias serviam como uma espécie de roteiro para as pessoas observarem melhor o conteúdo das obras", conta Lisbeth. "Toma posição de quem oferece meios para compreender o fenômeno em pauta. Define conceitos, explica. É mediador. Avalia sem julgar, considerando os prós e os contras”.

FONTE DE TESES

O olhar do paulista Sérgio Milliet da Costa e Silva sobre as artes é o tema das teses defendidas por Lisbeth Rebollo, Regina Campos, Francisco Alambert e Silvia Quintanilha. Desde o ano passado, os quatro pesquisadores vêm se mobilizando para lembrar o centenário do crítico e poeta em diversos eventos. "Nossa preocupação é resgatar a sua contribuição na cultura brasileira", observa Alambert. "Estamos vivendo um momento atípico da falência das ideias. Um tempo de dúvidas, de novas certezas. Daí ser muito importante lembrar Milliet e mostrar a sua postura reflexiva que o destaca como uma figura sempre contemporânea”.
A pesquisadora Silvia lembra Sérgio Milliet como uma figura conciliadora, que registrou, com empenho e discrição, as décadas borbulhantes de 20, 30 e 40. "Era chamado de homem-ponte. Ele não gostava do apelido, mas foi atribuído porque realmente atuou como uma espécie de elo entre a geração modernista e os novos artistas que apareceram nas décadas de 30 e 40. Foi um grande animador cultural”.
Regina apresentou o pensamento de Milliet em sua tese de doutorado no Departamento de Letras Modernas, em 1990. "Milliet era uma pessoa extremamente curiosa. Estava sempre atento ao trabalho dos novos poetas, dos novos pintores. Tinha um olhar de caleidoscópio", define brincando. "Ele escrevia conversando com o leitor. Acreditava na inteligência do interlocutor e seus textos se colocavam contra os donos da verdade. Suas críticas ao trabalho de Clarice Lispector e Nelson Rodrigues, por exemplo, ficaram na história. Sua grande meta era fazer avançar o Brasil e a sua cultura”.
Milliet teve uma trajetória atuante e agitada. Em 1912, quando tinha 14 anos, foi estudar na Suíça. Voltou ao Brasil em 1920, relacionando-se com os jovens intelectuais que organizaram a Semana de Arte Moderna. Participou como poeta junto com Mário de Andrade, Menotti Del Picchia, Renato Almeida, entre outros. "Nos decênios 1930 e 40, foi ampla a produção de Milliet voltada para as artes plásticas", afirma Lisbeth. "Em 1935, atua no Departamento de Cultura do Município de São Paulo, criando, em 1945, a Seção de Arte da Biblioteca Municipal. É também um dos participantes da organização do Museu de Arte Moderna, em 1948-49, e de sua Bienal em 1951”.

A INVENTIVA DOS MEIOS TONS DE REBOLO
(Sérgio Milliet - O Estado de São Paulo, junho de 1961)


- ...Aluguei com Rebolo Gonsales uma casa no Morumbi para os fins de semana. Era quase uma viagem, esse Morumbi de estradas lamacentas e íngremes. Do sensível paisagista suburbano do "Grupo Santa Helena" ao pintor e gravador delicado de hoje vai um longo caminho que ele percorreu sem pressa, assimilando todas as liberdades que pudessem não lhe perturbar a personalidade.
Pela libertação que alcançou, finalmente, pode-se verificar que essa personalidade não era feita sobretudo de ingenuidade, como parecia, e sim de sutileza e de matizamento. Ei-lo numa fase em que a sensualidade da matéria enriquece a economia das formas. A fonte de informação não abandonou seus temas prediletos. Simplificou-os, porém, mais ainda, tornando-os realmente pretextos para a expressão de um temperamento terno, carinhoso, de um lirismo sempre precavido contra os dós do peito. Uma das constantes da arte tem sido a riqueza inventiva, a capacidade de jogar da maneira mais variada possível com uma escala de valores extremamente simples. Uns apelam para os contrastes, outros para os acordes de meios tons. Esta solução, que leva a criação de uma atmosfera, é a que prefere Rebolo. Trata-se de um impressionista, sem dúvida, pelo seu desapego ao desenho, mas um impressionista que renova sua técnica, aproveitando as licença da linguagem de hoje. É, entretanto, um artista bem de São Paulo, tão paulista que até Veneza, de cores variegadas, e Roma, a luminosa, viu com olhos amorosos dos cinzas. Mestre De Fiori referia-se carinhosamente à "sujeira gostosa" das paisagens rebolianas. Mas acrescentava que elas nada tinham de inexperiência, antes resultavam de um conhecimento grande, consciente ou instintivo, do ofício.
Quando nosso artista ganhou o prêmio de viagem à Europa e embarcou para Roma, ficamos todos com receio de que voltasse desnorteado e com sua pureza já bastante conspurcada. Não foi o que aconteceu. Ele viu muito, estudou muito, e soube escolher sem perder sua originalidade.

Capa do livro: "Sérgio Milliet - 100 anos (Reprodução)

TÁCITO DE ALMEIDA - FOTO

Tácito de Almeida


Capa de "Túnel e Poesias Modernistas - 1922/23"
de Tácito de Almeida


Foto dos Organizadores da Semana de 22
Tácito de Almeida é o 1º sentado da direita para esquerda



TÁCITO DE ALMEIDA - O MODERNISTA ESQUECIDO

TÁCITO DE ALMEIDA:
CRONOLOGIA BIOGRÁFICA E CULTURAL

1899 – 14 de Julho, nasce em Campinas – SP, Carlos Tácito Alberto de Almeida Araújo, o Tácito de Almeida, apelidado de Taci pelos amigos, quarto filho do Dr. Estevam de Araújo Almeida e de D. Angelina de Andrade Almeida;
1900 – Transferindo-se a família para São Paulo, cursa o Colégio Macedo Soares e o Ginásio N. Sra. do Carmo;
1910 – Exerce papel importante na criação da Liga Nacionalista;
1917 – Adere à Liga Nacionalista. O irmão primogênito Guilherme de Almeida, estréia na literatura com o livro de poemas “ “Nós”. Entra para a faculdade de Direito;
1919 – Formado aos 20 anos, viaja pelo interior durante a campanha de Rui Barbosa à presidência da República. Em São Manuel, em sessão cívica no cinema, conhece Guilhermina Pinho. Casa-se com ela;
1921 - Guilhermina morre de febre puerperal, deixando Flávio que será criado pelos avós maternos;
1922 – Participa ativamente na realização da Semana de Arte Moderna de 22. Escreve no “mensário de arte moderna”: Klaxon (cuja redação ficava no seu escritório), sob o pseudônimo de Carlos Alberto de Araújo. Na Klaxon, Tácito de Almeida e Guilherme de Almeida encarregam-se do planejamento e põem mãos à obra na execução gráfica quase artesanal da revista na Tipografia Paulista de José Napoli, à Rua da Assembléia, em São Paulo. Com Antonio Carlos Couto de Barros, amigo de faculdade, monta escritório na Rua Direita, nº 33. Milita no Diário Nacional, órgão do Partido Democrático;
1923 – Paralisa a produção poética e inicia a produção de textos jurídicos e políticos. Na casa holandesa em que mora com os pais, à Rua Fausto Ferraz, no Paraíso, transforma a mansarda em apartamento moderno e minúsculo, depois de ter aplaudido a mise-en-scène do filme de Wiene, O gabinete do Dr. Caligari. Inaugura-o com festa ao som de jazz;
1926 – Escreve o conto “Um homem bondoso” para o primeiro número da revista modernista “Terra roxa... e outras terras”;
1932 – Em maio, casa-se pela segunda vez com Nina von Riesenkampf, refugiada russa, filha de almirante do czar. Nina é irmã da pintora Moussia Pinto Alves, casada com Carlos Pinto Alves, jurisconsulto, grande amigo de Tácito. Os filhos com Nina são Eduardo Luís Paulo e Beatriz. Participa ativamente da Revolução Constitucionalista;
1933 – É um dos fundadores da Escola Livre de Sociologia e Política, onde lecionou Ciência Política;
1940 – 03 de setembro, morre em São Paulo.
 

COMENTÁRIOS E CRÍTICAS

De Mário da Silva Brito: “O canto de Tácito de Almeida transfigura o descritivo buscando integrar o homem e a natureza. Tende ao lirismo meditativo. Este emerge de versos dotados de certa pompa imagística ou de polida ironia. Irônico é o poema Paz Universal, em que exalta a alegria e a concórdia – esperanças acalentadas pelos homens recém-saídos do conflito bélico de 1914-1918. Não se esquece, porém, de que a vida é luta, uma outra guerra. Os modernistas da primeira hora, entre os quais Tácito figura historicamente, empenhavam-se em opor a alegria à dor. O poema Paz Universal é representativo dessa direção do espírito, embora o envolvam as sombras do pessimismo”.(Brito, Mário da Silva – in: Poetas Paulistas da Semana de Arte Moderna – pág. 148 – Editora Martins – 1972).De Manuel Bandeira:- (MB foi admirador da poesia de Tácito no primeiro momento modernista). Em 1924, quando os caminhos se diversificavam, o autor de Libertinagem renega Pau-Brasil e invectiva os modernistas de São Paulo, com exceção de Mário de Andrade: "Mas eu não adiro. E vou começar a fazer intrigas. Há muita insinceridade nesse chamado movimento moderno. Fala-se mal dos outros pelas costas. Cada qual vai fazendo hipocritamente o seu joguinho pessoal. Oswald chama Guilherme de Almeida de campeão peso-leve da poesia nacional, e com outros lhe opõe perfidamente o irmão Tácito, que assina Carlos Alberto de Araújo com receio de perder os clientes de advocacia”.(BANDEIRA, Manuel - "Poesia Pau-Brasil". In: Andorinha, andorinha. dSeleção e coordenação de textos de Carlos Drummond de Andrade. 2ª ed. Rio de Janeiro, José Olympio, 1986. p. 247-48.(texto de 1924, conforme o organizador; sem indicação de periódico).
POEMAS DE TÁCITO DE ALMEIDAPAZ UNIVERSAL
A Graça Aranha


Alegria!

Só no meu país a terra ainda é vermelha.
Esforço para germinar,
ou para suportar o peso dos homens....

Não há mais sangue sobre o mundo.
Ele está todo branco,
linfático,
cor de cidade, cor de riso...

Alegria!

Os povos,
as grandes ruas iluminadas,
e os homens felizes,
esquecidos das trincheiras,
afastados da dor,
amputados da dor...

O passado perdeu-se,
e não conhece mais os caminhos,
os caminhos das almas...
E ninguém sabe que nesta hora,
em toda a parte há pessoas que agonizam,
e há veias que se esvaziam
e há corpos ainda quentes sob a terra fria...

ALEGRIA! ALEGRIA!

A vida na frente de cada homem,
como uma espada polida
que eles vão brandindo.

ALEGRIA!

PAZ UNIVERSAL!

Nunca houve tanta guerra,
tanta luta entre os homens!

Luta amarga para viver,
luta ardente para amar,
luta dolorosa para sorrir...

ALEGRIA!

PAZ UNIVERSAL!

( Editado na revista KLAXON – n.’s 8 e 9 – Dez. 1922 – Jan. 1923 – págs. 17 e 18 – São Paulo )

SALVAR
Mais um desejo, amigo!
É preciso soltar,
Pelas florestas frias e adormecidas,
Todos os nossos desejos tímidos,
Procurando mesmo assombrá-los,
Para que fujam, para que corram
E se desviem por todos os lados...

Mais um desejo!
É preciso que a pálida vida,
Nos seus longos passeios desoladores,
Encontre sempre um desejo perdido
Que ela saivá salvar...

( Editado na revista KLAXON – nº 6 – pág. 6 – em 15 de outubro de 1922 – São Paulo )

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

GUILHERME DE ALMEIDA - SÍNTESE BIOGRÁFICA

GUILHERME DE ALMEIDA
O “Príncipe dos Poetas Brasileiros”

SÍNTESE REFEITA EM 2016
CLICAR EM:
http://literalmeida.blogspot.com.br/2016/07/biografia-de-guilherme-de-almeida_29.html
 

PRINCIPAIS OBRAS DE GUILHERME DE ALMEIDA

PRINCIPAIS OBRAS

Poesia

Nós (1917) – São Paulo. Seção de Obras de O Estado de S.Paulo, com ilustrações de Correia Dias e retrato de J. Wasth Rodrigues;
A Dança das Horas (1919) – São Paulo. Seção de Obras de O Estado de S.Paulo, com desenhos de Di Cavalcanti;
Messidor (1919) – São Paulo. O Livro: obra que inclui “Nós”, “A Dança das Horas e outros poemas sob o título de “Suave Colheita”, traduzida para o francês por Serge Milliete e editada na Antuérpia em 1923;
Livro de Horas de Sóror Dolorosa (1920) – São Paulo. Oficinas de O Estado de S.Paulo, com desenhos de J. Wasth Rodrigues, no qual introduz a simil-rima, com apoio somente na vogal tônica, ao gosto medieval;
Era uma vez... (1922) – São Paulo. Mayenca. Com desenhos de John Graz;
O Festim (1922) – São Paulo. Em datilografia, livro idealizado por Franco Zampari, executado por A. Sandri, limitado a 25 cópias, tendo sido destruídas as chapas;
A Frauta que Eu Perdi (Canções Gregas) (1924) – Rio de Janeiro. Anuário do Brasil. Um livro de temas antigos com roupagem nova;
A Flor que foi um homem (Narciso) (1925) – São Paulo. Livraria do Globo. Capa de J.W.R., teatro em versos;
Meu (1925) – São Paulo. Com capa de Paim. Livro de estampas;
Raça (1925) – São Paulo. Com capa de Yan de Almeida Prado. Este livro, juntamente com “Meu”, são os que mais se aproximam do Modernismo, não só pelo tema como linguagem inovadora do ponto de vista formal e visual, com versos de acentuado ritmo;
Encantamento (1925) – São Paulo. Livraria do Globo e Irmãos Marano. Livro premiado pela Academia Brasileira de Letras;
Simplicidade (1929) – São Paulo. Companhia Editora Nacional;
Você (1931) – São Paulo. Companhia Editora Nacional. Ilustrações de Anita Malfatti, com temas novos em versos velhos;
Carta a Minha Noiva (1931) – São Paulo. Companhia Editora Nacional;
Poemas Escolhidos (1931) – Rio de Janeiro. Waissman, Reis & C. ltda;
Castas que eu não mandei (1932) – Rio de Janeiro. Separata de Encantamento;
Acaso – Versos de Todo Tempo (1938) – São Paulo;
Cartas do Meu Amor (1941) – São Paulo. Martins;
Tempo (1944) – São Paulo. Flama. Com prefácio de Jamil Almansur Haddad e ilustrações de Quirino – Seleção de 17 obras do poeta, de 1914 a 1944;
Poesia Vária (1947) – São Paulo. Martins. Traz o Capítulo “peregrinação”, haicais as chaves-de-oiro para onze sonetos que não foram escritos, a Camoniana em linguagem propositadamente arcaizada, e o Cancioneirinho que relembra canções de amor e de amigo;
O Anjo de Sal (1951) – São Paulo. Alarico. Com poemas mais herméticos e haicais;
Toda a Poesia (1952) – São Paulo. Martins. Em seis volumes, contendo: Tomo I: Simplicidade (1912-1914), Na Cidade da Névoa (1915-1916), Suave Colheita (1912-1919); Tomo II: Messidor com Nós (1914-1917), A Dança das Horas (1918-1919); Tomo III: Era uma Vez... (1931), Sheherazada (1921 – um ato em versos – Mensão Honrosa Excepcional da Academia Brasileira de Letras) e Narciso (1921); Tomo IV: Canções Gregas (1921-1922), O Festim (1922), Meu (1922-1923) E Raça (1925); Tomo V: Encantamento (1921-1925), Acaso (1924-1928) e Você (1931); Tomo VI: Cartas do Meu Amor (1921-1941), 1932 (1932-1946), Poesia Vária (1944-1947) e o Anjo de Sal (1949-1951);
Acalanto de Bartira (1954) – São Paulo. Pocai. Capa de Zamboni, vinhetas de Brecheret e ornatos de Guidal;
Camoniana ( 1956) – Rio de Janeiro. José Olympio. Separata de “Poesia Vária”, com prefácio de Afrânio Peixoto;
Pequeno Romanceiro (1957) – São Paulo. Martins. Com desenhos de Gomide e letras de Abigail, inspirado na singeleza dos temas provindos da alma do povo;
Rua (1961) – São Paulo. Martins. Os poemas manuscritos aparecem acompanhados de fotos de Eduardo Ayrosa, e revelam instantâneos fixados com muito vigor em poemas curtos;
Rosamor (1965) – São Paulo. Martins. Com capa de Zamboni e ilustrações de Noêmia e dois desenhos póstumos de Wash Rodrigues. Um livro todo dedicado à rosa, alguns poemas com rimas muito preciosas;
Meus Versos Mais Queridos (1967) – Rio de Janeiro. Ediouro – Tecnoprint;
Os Sonetos de Guilherme de Almeida (1968) – São Paulo. Martins. Capa de Renato Zamboni. Cento e oito poemas escritos pelo poeta, à partir de “Morte”, edição comemorativa do Cinqüentenário da publicação de “Nós”;

Prosa

Théatre Brésilien (1916) – Duas peças escritas em francês: Mon coeur balance e Leur Ame, em colaboração com Oswald de Andrade;
Natalika (1924) – Rio de Janeiro. Candeia Azul;
Do Sentimento Nacionalista na Poesia Brasileira (1926) – Tese;
Ritmo, Elemento de Expressão (1926) – Tese;
Gente de Cinema (1929);
O Meu Portugal (1933) – São Paulo. Companhia Editora Nacional – Crônicas;
A Casa (1935);
O Sonho de Marina (1941) – História Infantil;
Gonçalves Dias e o Romantismo (1945) – Conferência realizada na Academia Brasileira de Letras em 15 de dezembro de 1943;
Histórias, Talvez... (1948) – São Paulo. Melhoramentos;
Baile de Formatura (1953);
Cosmópolis – São Paulo/29 (1962) – São Paulo. Editora Nacional. Oito reportagens com carvões de Gomide;

Traduções

Eu e Você (1932) – (Toi et Moi) de Paul Géraldy. São Paulo. Companhia Editora Nacional. Poesia;
O “Gitanjali” (1932) – de Rabindranath Tagora. Rio de Janeiro. Ed. José Olympio. Prosa Poética;
Poetas de França (1936) – São Paulo. Companhia Editora Nacional. Com poemas de 24 autores, em edição bilíngüe;
“Suíte” Brasileira (1936) – Terceira Parte de “Quatre Continents”, de Luc Durtain. Poesia;
O Jardineiro (1939) – De Rabindranath Tagore. Prosa Poética;
João Pestana (1941) – De Hans Christian Andersen. Prosa;
João Felpudo (1942) – De Wilhelm Busch. Prosa;
O Amor de Bilitis – Algumas Canções (1943) – De Pierre Louys. Rio de Janeiro. Ed. José Olympio. Prosa;
O Camondongo e Outras Histórias, Corococó e Caracacá, O Fantasma Lambão (1943) – De Wilhelm Busch. Prosa;
Pinocchio (1943) – De Collodi. Prosa. Versão Livre;
Flores das “Flores do Mal” (1944) – De Baudelaire. Rio de Janeiro. Ed. José Olympio. Com 21 poemas de Baudelaire, em edição bilíngüe, com carvões de Quirino;
Paralelamente a Paul Verlaine (1945) – São Paulo. Martins. Poesia com “Minha Carta a Paul Verlaine no Centenário do seu Nascimento”;
A Mosca (1946) – De Wilhelm Busch. Prosa;
Uma Oração de Criança (1946) – De Rachel Fields. Prosa;
As Palavras de Buda (1948) – Prosa;
Entre Quatro Paredes (1950) – (Huis Clos), de Jean-Paul Sartre. Peça levada dois anos antes no Teatro Brasileiro de Comédia, do qual o poeta foi um dos diretores;
A Cartola (1951) – De Wilhelm Busch. Prosa;
A Antígone de Sófocles (1952) – São Paulo. Alarico. Drama em versos, traduzido diretamente do grego, apresentado posteriormente por Adolfo Celi no Teatro Brasileiro de Comédia;
Na Festa de São Lourenço (1956) – De José de Anchieta. Auto em versos – tradução das partes em tupi e castelhano;
Jornal de um Amante (1961) – (Journal d’un Amant), de Simon Tygel. Rio de Janeiro. Ed. Civilização Brasileira. Prosa;
Festival (1965) – De Simon Tygel. Poesia em edição bilíngüe;
Arcanum (1965) – De Niles Bond. Poesia em edição bilíngüe. Capa e desenhos de Guilherme de Faria;
História de uma Escada (1964) – De Antonio Buero Vallejo. Peça Teatral.

Outros Trabalhos

As Armas (1926) – Filme de Cassiano Gabus Mendes. Colaborador;
O Estudante Poeta (1940) – Peça teatral, em colaboração com Jayme Barcelos, lida no Teatro Boa Vista;
A Marquesa de Santos (1941) – Colaborou na versão portuguesa desse filme;
Iara (1946) – Fez o argumento do bailado “Iara”, apresentado no Teatro Municipal de São Paulo, com música de Francisco Mignone e cenários de Portinari;
Filmes (1951) – Trabalhou nos diálogos dos filmes “Terra sempre Terra” e “Apassionata”.