sábado, 11 de abril de 2009

MÁRIO DE ANDRADE E O BAILE DOS PRONOMES


Mário de Andrade em sua biblioteca em 1938
Foto do Acervo de Yedda Braga Miranda
Livro "Mário de Andrade - Cartas a Murilo Miranda"
Editora Nova Fronteira, RJ - p. 97, 1981.


Recentemente, nossa ortografia passou por nova revisão. Foi aceita por alguns e detestada por muitos. Os que estudam literatura nacional e, principalmente, os que estudam Mário de Andrade nada reclamaram ou acharam absurdas as mudanças ocorridas. Mário de Andrade passou a vida labutando com possíveis mudanças na nossa ortografia, linguagem e “fala brasileira”, como ele dizia. Discutiu o assunto com seus missivistas (Manuel Bandeira e Drummond, por exemplo). Mário tinha o propósito de formatação da “Gramatiquinha”, ou melhor, da “Gramatiquinha da Fala Brasileira” – projeto que não conseguiu ou não quis ou não teve tempo de levar adiante. Ficou na idealização e nos esboços e nos rabiscos e nas anotações marginálias. 
Particularmente, penso que: se Mário continuasse vivo por mais uns dez anos (Utinam diutius vixisset!), teria “talvez” efetivado sua “idealização” – Sei lá! Mário havia travado conhecimento da “Gramatiquinha secundária da língua portuguesa”, de Said Ali, fato que fustigou sua “idealização”. Mas ficou somente no “anteprojeto”. Sobre esse assunto, num texto da Vera Helena Rossi, mestre em Literatura e Crítica Literária e doutoranda em Comunicação e Semiótica pela PUC (SP), consegui pinçar num dos seus textos(1) alguns tópicos interessantíssimos que seguem abaixo:
e.
“(...).
Gramatiquinha


Para Maria Augusta Fonseca, "escrever brasileiro" não foi uma exploração de superfície em Mário de Andrade, pois sempre se amparou em pesquisas de fundo, com detida reflexão sobre a matéria. Segundo ela, o interesse em torno da variante local do português, já manifestado em Paulicéia Desvairada, ganha densidade depois de 1922.
Nesse sentido, lembra que desde as primeiras décadas do século 19 a língua da comunicação diária mobilizou os intelectuais e os escritores.
- Sabemos que nossos modernistas fizeram da variante lingüística brasileira uma de suas bandeiras, em busca de uma identidade literária diferenciada. A Gramatiquinha da Fala Brasileira de Mário de Andrade derivou dessas reflexões - afirma.
Mário de Andrade, com o intuito de criar uma "gramática da fala brasileira", estuda disciplinadamente a fala popular, os usos cotidianos e a diversidade regional. Os fragmentos deixados pelo escritor, dessa obra em processo, foram posteriormente publicados com anotações de Edith Pimentel Pinto.
- Nesses apontamentos inconclusos, Mário de Andrade procurou ordenar mudanças radicais operadas em vários níveis da língua falada no Brasil: do vocabulário aos usos expressivos; da sintaxe à prosódia - detalha Maria Augusta.
Marcos Antônio de Moraes, professor de Literatura Brasileira na USP, afirma que a Gramatiquinha é um projeto de ação:
- Mário não quer realizar a Gramatiquinha, mas colocar em marcha a questão. Sua intenção não era criar uma norma, mas mostrar justamente a variação, as formulações vivas da oralidade brasileira, como uma experiência ampla da língua.
Já na opinião de Maria Augusta, o campo alargado das investigações em torno da língua pelo autor foi assimilado de modo consistente na linguagem poética, de feição culta.
(...)”.

Quem teve a oportunidade, a honrosa oportunidade de estudar “A Gramatiquinha de Mário de Andrade – Texto e Contexto”, de autoria de Edith Pimentel Pinto, edição da Livraria Duas Cidades, patrocinada pela Secretaria de Estado da Cultura – São Paulo, 1990, sabe muito bem qual era o intento Marioandradiano.
Para quem não sabe: “Edith Pimentel Pinto” nasceu na Paulicéia de Mário de Andrade dois anos antes da realização da Semana de Arte Moderna. Chegou a ser professora titular de Filosofia e Língua Portuguesa na USP (SP). Na literatura foi poetisa e autora de obras de ficção. Ensinou português e literatura brasileira, na Eberhard Karls Universitat em Tubingen, Alemanha. Essa hermeneuta faleceu em 1992. Considerada uma das maiores mestras da Língua Portuguesa, com inúmeros livros editados sobre essa temática, entregou-se ativamente aos “rabiscos” marioandradianos. E conseguiu arregimentar tudo o que era possível para editar o seu “A Gramatiquinha de Mário de Andrade”. É um livro difícil de ser lido, pois foi editado para ser estudado e ser um referencial para professores, estudantes, literatos, pesquisadores e para os alucinados pelo estudo da Linguagem. Todos saíram ganhando com o trabalho maravilhoso da Edith.
Sinceramente, não desprezando outros trabalhos similares e espetaculares resultantes de intensa pesquisa, esse eu considero especial por vários motivos: a complexidade das fontes (maioria ou quase todas pertencentes ao Instituto de Estudos Brasileiros de São Paulo), a natureza da pesquisa, a “manha” para decifrar “onde” Mário queria chegar, o manuseio de páginas e mais páginas, contendo verdadeiros “rabiscos”, os inúmeros livros de autores diversos utilizados por Mário, todos “rabiscados” e com anotações a lápis nas margens, setas indicativas, outras rasuradas e uma imensidão de folhas de caderno, frente e verso, com anotações e teorias, etc. Edith foi maravilhosa, pois não é fácil pesquisar e estudar Mário de Andrade. Para estudar e pesquisar Mário de Andrade, obrigatoriamente, tem que tornar-se um Mário. Mário de Andrade não lia, estudava. Pesquisava e monologava e polemizava consigo mesmo. Anotava tudo que brotava na mente. Depois riscava, apagava. E Edith revestiu-se de Mário, o Mário de Andrade: prosélito literário desvaraidado, pertinaz, profético, eficiente, eficaz... Edith conseguiu também ser trezentos e cinqüenta – e assim pariu a “Gramatiquinha de Mário de Andrade”.



Capa do livro de EDITH PIMENTEL PINTO: "A GRAMATIQUINHA DE MÁRIO DE ANDRADE" - Livraria Duas Cidades - SP, 1990.

Achei conveniente este simples prefácio para postar neste humilde blog, um texto de autoria do Mário que encontrei nas amareladas páginas da Revista da Academia Paulista de Letras n.º 17(2), com o título “O Baile dos Pronomes”, que nos oferece uma dimensão delirante do nosso paulistanamente Mário de Andrade. 
Nesse texto conseguimos captar um pouco da dimensão dos seus estudos, dos seus “rabiscos”. Ele desdobrava-se para purificar a nossa linguagem. Queria ele uma “língua brasileira” para o Brasil? Essa pergunta ainda se faz. Em vários textos ele afirmou que sim, noutros ele afirmou que não. Basta verificarmos o seu desabafo numa das centenas de cartas que trocou com Bandeira:
“(...) Eu não tenho a mais mínima pretensão de criar uma língua. Creio até que das minhas maluquices nenhuma não se escriba sobre fato não escrito antes. Às vezes mesmo me assombro como tudo já foi dito. Eu me fiz instrumento duma coisa naturas, e só (...)”(3).
Muitas vezes chegamos a imaginar que Mário de Andrade só lia textos dos autores pós Semana de Arte Moderna. Se assim tivesse agido não seria o Mário que até hoje é estudado e consegue tirar o sono de muitos pesquisadores. Não seria o macunaímico e enigmático Mário de Andrade. Nesse seu texto “O Baile dos Pronomes”, podemos reconhecer um Mário diferente, literariamente eclético. Para mim: Mário de Andrade, por muito e muito e muito tempo continuará sendo “indescobrível”.
Sem mais delongas, eis o texto. (Mantida a grafia original):


O BAILE DOS PRONOMES
Mário de Andrade
Vai acesa em São Paulo a preocupação da “língua brasileira” e de um clássico como o Sr. Mota Coqueiro, como de um novissimo como o sr. Mario Neme, tem sido muitos este ano, nos jornais e revistas do Estado, os depoimentos e as contribuições a respeito dêste nosso gosto e dificilimo escrever. Esta inquietação nova, creio que em grande parte se deve ao discurso em que o sr. Cassiano Ricardo lançou a “língua brasileira” na Academia. Idem, no qual, aliás, com a generosidade costumeira, êle me tratou com tanta elegância intelectual. Achei prudente, portanto, retribuir a atenção que o distinto acadêmico me dispensou com êstes comentários sôbre o pronome átono iniciando frase.
Há pouco menos de vinte anos atrás, quando tambem as minhas impaciências de mocinho me levavam a falar em “língua nacional” como hoje falo, foi êsse um dos problemas que mais me preocuparam. Tempo vivo aquele, em que os meus próprios amigos mais sábios, caíam em cima de mim por causa dos meus abrasileiramentos de linguagem... Eram discussões verdadeiramente angustiosas, sobretudo por causa da incompreensão e da leviandade de julgamento que levavam os meus próprios amigos, às vezes, a imaginar que eu estava querendo “criar” a língua nacional e cousas assim. Foi uma incompreensão inicial destas que me levou a quase romper relações com um dos meus amigos mais queridos. Renato de Almeida, o autor da “História da Música Brasileira”. Com outro, o douto calmante filosófico do nosso grupo, Couto de Barros, resolvemos ambos discutir na máquina de escrever, evitando de ver o numeroso “Não falei isso!” das discussões bocóricas. Couto de Barros me apareceu à noite, sentou à minha “remington” e gravou o primeiro argumento. Lhe respondi do mesmo jeito. E assim se travou uma das discussões mais acolaradas que já tive, sem que uma só palavrinha machucasse o ar dormido do bairro.
Mas um dos que mais me atenazaram foi Manuel Bandeira. Concordando em princípio comigo, me conhecendo suficientemente para não me atribuir mais que a modéstia de contribuição e experiências pessoais, me deixava tonto com duvidinhas e restriçõezinhas que pingavam a cada carta semanal que então recebia dêle, bons tempos... Uma dessas dúvidas foi justamente a de que hoje vou produzir neste artigo as provas que ajuntei. Êle achava que eu não tinha direito de generalizar para toda a série dos pronomes, o caso do “Me parece”, que só frequentava a primeira pessoa do singular. Mas me saí brilhantemente e o grande poeta pernambucano teve a franqueza de reconhecer que eu estava bem escudado, embora discutisse algumas das provas apresentadas por mim.
Porque, a meu ver, muito embora o caso frequente tambem a língua escrita de Portugal, o problema do pronome oblíquo iniciando frase, não é apenas uma questão de maiúscula. Muitas vezes no próprio decorrer da frase a tendência se revela. Pois não se trata apenas de iniciar realmente a frase, com a sua maiúscula erguendo orgulhosamente o pronome átono, o fenômeno é muito principalmente de ritmo, não só de ritmo no tempo, como tambem de ritmo psicológico. Assim, num dos mais bonitos sambas nacionais, o “Vejo Lágrimas”, publicado em disco Columbia n. 22165-B, o cantor argumenta:

Si choras por alguem
que te enganou:
“Te” conforma, pois Jesús
Tambem se conformou.

Num caso dêstes, si não estivesse presente ao poeta e ao cantor a constância rítmico-verbal brasileira, tudo o levaria a dizer “conforma-te”, não só o movimento musical que para em som mais longo ao fim de “enganou”, como a própria pontuação intelectual da frase. Com efeito, terminada uma proposição dubitativa, o sentido do texto não conclue sôbre ela, mas inicia outra proposição que é um conselho, e que o sentido inteiro do texto anterior, mesmo sem a proposição dubitativa, era suficiente para justificar. Mas na publicação impressa do texto, o poeta, a quem de-certo puxaram as orelhas, substituiu o “Te conforma” por um paciente “Tem paciência”...
Já desde os tempos de Gregório de Matos, essa tendência se manifestava. Num dos sonetos ao governador Antonio Luiz, êle escreve:

Com olhos sempre postos na ordinária,
“Vos” dou os parabens...

Sintaxe, que, embora gramaticalmente aceitavel, juro que muito gramaticoide evitaria, tal a ênfase com que o pronome “enclitico” , iniciando o verso, e refugando a posposição, nos fere portuguesmente o ouvido e o olhar. Da mesma forma, em propostas de caráter enumerativo, cada uma delas é bem uma frase isolada e não é a virgula que pode nos dar satisfação sintáxica. Como nestes passos de Darci Azambuja em “No Galpão”: “mas o gambá pediu muito, “se” ajoelhou, fez muita lábia”... E eis mais um bom e insistente caso popular, com o Se o Lhe, publicado no folheto paraibano “Conselhos de Padre Cícero a Lampeão”:

Disse-lhe (sic) o padre:
- Meu filho,
Não persista no pecado,
Deixa a carreira dos crimes,
“Se” torne regenerado,
Si me promete deixar,
“Lhe” prometo trabalhar
pra (sic) você ser perdoado.

Primor de estilo pachorrentamente padresco, como se vê... E ainda a tendência pode ser entrevista no caso do pronome intercalado entre o verbo auxiliar e o no infinito. Se observe êste exemplo deliciosamente ofensivo, que colho no folheto da literatura de cordel nordestina, “Bento, O Milagroso de Beberibe”:

“Fiz Romano atropelar-se (sic)
E fiz Germano correr,
Abocanhei Ugolina
Porém não pude “o” morder.

Mas vamos aos casos insofismaveis. A obliquação do pronome da primeira pessoa do singular, quasi nem merece exemplos, por todos reconhecida como normal em nossa língua. Não citarei dela nenhum exemplo popular. Mario Marroquim já os recenceou com riqueza em “A Língua do Nordeste”. Lembro apenas três exemplos eruditos. Nas “Minas de Prata”, José de Alencar, santo patrono da língua brasileira, faz Estácio dizer ao amigo velho: - “Me” guiareis com a vossa experiência (Garnier, I v., p. 67). Aluizio de Azevedo tambem aceita que um dos seus personagens do “Cortiço”, diga ao vendeiro: - “Me” avie, seu Domingos! (Garnier, p. 57). E vemos Fagundes Varela encampar a sintaxe no “Evangelho nas Selvas”:
- Naida! – Padre, “vos” espero, vamos.
- O que fazias, filha? – “Me” lembrava...
E ainda no Canto VI, bem psicologicamente, são usados os dois ritmos numa só frase: “Me” interrogaste em nome do Senhor... “cala-te e escuta”.
A segunda pessoa tambem dará exemplos numerosissimos. “Te vejo, te procuro” inicia Gonçalves Dias uma das estrofes dos “Harpejos”, insofismavelmente. E ainda nas pródigas “Minas de Prata” (III, 168), Raquel ameaça o pai judeu: “Te denunciarei sim”!. “Nos Matizes” (1887) F. A. Nogueira da Gama inicia a fala da cidade do Rio se dirigindo a São Paulo: “Te saúdo caipirinha”... E outro paulista da gema, Brasilio Machado nas suas “Madresilvas” de 1876, nos oferece uma poesia instituida “Te Esqueceste”, que é a da maior força... Aliás, creio que foi João Ribeiro quem analisou primeiramente diferenciação psicológica entreo mansinho “Se sente” nosso e o mais imperativo “Sente-se” dêsses portugueses, durante vários séculos acostumados a mandar nas suas colônias. Eu reconheço o valor da psicologia organizando as sintaxes nacionais, mas tenho um pouco de medo disso. Levaria a generalizações monótonas e sem sabor estilistico. Creio que o fenômeno das diferenciações sintáxicas é muito mais um problema fonético de ritmo verbal. Silva Ramos (Revista de Cultura, I, p.22) fornece argumentação justamente contrária ao valor imperativo do enclítico: “A mim, por exemplo diz êle, ser-me-ia impossivel ou escrevendo, iniciar uma proposição por pronome átono, e, entretanto, tendo uma vez, posto em dúvida a um colega que um projeto de lei nos interessava tivesse parecer favoravel, êle me atirou com um “te garanto que êle será aprovado”, com tal intimativa ferindo com enfase o pronome, que confesso me senti mais garantido”... E para acabar com o Te, colho na “Revista da Academia (fevereiro, 1933), um evento folclorico de Goiaz:

“Te” compreendo, morena,
Já sei que queres dizer,
Como cangussú ou tigre,
Felizes temos de ser.

Com a terceira pessoa do singular, sito primeiro um exemplo erudito, o dr. Severino de Sá Brito no seu “Trabalho e Costumes dos Gauchos”, que na p.30 assim abre parágrafo: “Se cultivava muito milho, tambem feijões, abóboras, melancias”... Semieruditamente, um anuncio de cabaré paulistano avisa os concorrentes dum campeonato de tango: “Se recebem (sic) as inscrições nas gerências”. E Mario Marroquim nos fornece um exemplo popular:

“Se” vendo o compadre pobre
Naquela vida apertada...

No plural, a primeira pessoa é reconhecida por Lucio Cardoso na boca de um homem do alto São Francisco, em “Maleita”: “Nos salve agora”. Conheço outro exemplo impresso, num folheto recifense “História do Menino da Floresta” do célebre cantador Martins de Ataide, em frase brasileira até debaixo dágua:

“Nos” faças esta caridade,
Deus há – de lhe (sic) agradecer.

Da segunda pessoa, além das “Minas de Prata” (III, 400) em que vem a pergunta: “Vos serve êste meio?”, conheço uma quadra paulista da dansa de S. Gonçalo (Rev. do Arquivo, XXXIII, 108) que canta:

“Vos” peço, meu S. Gonçalo,
Com muito gosto e alegria,
Aceitai esta promessa
E tambem nossa romaria.

Com Lhe e Lhes, não me ocorre exemplo, é mais provavel eu ter perdido alguma nota. Mas assim como nos Açores, nas festas do Espírito Santo o povo, se referindo à cora, diz ao Imperador:

“A” coloque no altar

O padre disse: “O” projeto!
protegendo com a mesma energia a sintaxe nacional. Com tudo isso, como esquecer o epigrama de Alberto Ramos...


Me dá! – Dá-me! – Me dá! digo eu. – Erra, imbecil!

- Bruto! erro em Portugal, acerto no Brasil!


(Andrade, Mario de. O Baile dos Pronomes. In: Revista da Academia Paulista de Letras, Ano V, Vol. 17.º, de 12 de março de 1942 – Direção de René Thiollier (Secretário Perpétuo e A. Ramos Tavares, Secretário Administrativo. Seção: Notas Diversas: págs. 151 a 154. Depositários: Vieira Campos & Cia. Livraria Teixeira, São Paulo – Tipografia Cupolo, São Paulo ).


Capa da Revista da Academia Paulista de Letras, n.º 17
INDICADORES:
(1) revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=11505;
(2) Revista da Academia Paulista de Letras, Ano V, Vol. 17.º, de 12 de março de 1942 – Direção de René Thiollier (Secretário Perpétuo e A. Ramos Tavares, Secretário Administrativo. Seção: Notas Diversas: págs. 151 a 154. Depositários: Vieira Campos & Cia. Livraria Teixeira, São Paulo – Tipografia Cupolo, São Paulo);
(3) Castelo, José Aderaldo. In: A Literatura Brasileira – Origens e Unidade. Vol. II – Edusp, SP., 2004 - Reimpressão da 1ª Edição (1999), p. 98.


OUTRAS FONTES PESQUISADAS:
- ANDRADE, Mário de – Taxi e Crônicas no Diário Nacional – Estabelecimento de texto, introdução e notas de Telê Porto Ancona Lopez. São Paulo, Livraria Duas Cidades, 1976.
- _______ , Mário de – Os Filhos da Candinha. Vol. XV da Obras Completas de Mário de Andrade. São Paulo, Livraria Martins Editora, 1963.
- _______ , Mário de – Macunaíma – O Herói sem Nenhum Caráter. Edição crítica de Telê Porto Ancona Lopez. Rio, LTC – Livros Técnicos e Científicos Editora S.A., 1978.
- MORAES, Marcos Antonio de (Org.) – Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira. São Paulo, Edusp & IEB, 2001;
-
www.algumapoesia.com.br

sábado, 7 de março de 2009

LUÍS ARANHA: POETA MODERNISTA BISSEXTO

LUÍS ARANHA:
NAS TEIAS DO MODERNISMO
(Luiz de Almeida)

Luís Aranha - Foto de 1928 - (Acervo da Família).


Se perguntarmos aos paulistas, aos paulistanos, como também aos estudantes de literatura:

- Conhecem Luís Aranha? O Luís Aranha Pereira?
Com toda certeza teremos como resposta:

– Quem? Luís Aranha? Qual mesmo o outro sobrenome? O que esse tal faz na vida?
- Deixa. Esquece.

Creio que somente os que estudam ou estudaram Literatura Nacional e as obras de Mário de Andrade, Sérgio Milliet, José Lino Grunewald, Cassiano Ricardo, Wilson Martins, Mário da Silva Brito, Alfredo Bossi, Francisco Alambert – e aqueles que recentemente tiveram contato com o trabalho organizado por Nelson Ascher e Rui Moreira Leite, saberão responder. Poderia, para complicar um pouco mais, colocar mais nomes nessa interrogativa, em substituição ao de Luís Aranha, tais como: “Tácito de Almeida”(
1), “Rui Ribeiro Campos” (Nascido na cidade de Santos - SP, em 1898 e que faleceu em Paris, em 1963), “Antônio Alcântara Machado” (?). – E estou mencionando somente nomes de paulistas. Se mencionasse, por exemplo: “Ronald de Carvalho”, “Raul Bopp”, “Renato Almeida”, talvez tornassem as respostas ainda mais complicadas. Todos os mencionados e os por mim esquecidos são os literatos mais injustiçados da primeira fase modernista. Os lembrados são: Mário e Oswald de Andrade, Guilherme de Almeida, Menotti Del Picchia, Sérgio Milliet, Manuel Bandeira, Cassiano Ricardo (nem tanto), Lima Barreto e João do Rio (este pelos cariocas, talvez) e todos da segunda fase do modernismo: Drummond, Murilo Mendes, Jorge de Lima (outro que também, nem tanto), Cecília Meireles, Vinícius de Morais, etc. Enfim, é assim mesmo o processo. Uns: celebérrimos. Outros: esquecidos e injustiçados, como é o caso do nosso personagem e tema deste tópico: LUÍS ARANHA, o Dr. Luís Aranha Pereira.
Sobre Luís Aranha, o próprio Mário de Andrade, no ensaio elaborado em 1932: “Luís Aranha ou a Poesia Preparatoriana”, na Revista Nova n.º 7, ao tentar explicar o motivo pelo qual Luís Aranha “largou a arte pra que ela não o devorasse”, diz:

“(...). Faz justo dez anos que emudeceu. E estudando-o agora, numa obra que embora pequena, é completa em si, ao mesmo tempo que nos culpo do esquecimento em que o deixamos, (...)”.

Para os que não sabem: Luís Aranha foi um poeta. Participou ativamente da Semana de Arte Moderna de 1922. Escreveu pouco (catalogados apenas vinte e seis poemas). Sobre seus poucos poemas, Mário de Andrade o definiu assim:

“Luis Aranha faz a poesia preparatoriana. Essa é a sua grande originalidade. Note-se: não estou dizendo que ele cantou a poesia dos exames de preparatórios. Isso não seria de grande proveito, apenas um assunto poético a mais. A originalidade, a contribuição curiosíssima de Luís Aranha está em ter realizado o estado lírico da psicologia do preparatoriano. Luís Aranha é o poeta ginasial por excelência, o único poeta ginasial que conheço. (...) Não é tanto a avidez de saber o que distingue esse ginasialismo, porem o estado pernóstico do rapaz que aprende e gosta logo de praticar o que aprendeu. A poesia dele se torna um popurrí de noções livrescas, (...)”.
(Fragmentos do ensaio de Mário de Andrade: “Luís Aranha ou a Poesia Preparatoriana”, já mencionado acima).
Em outra ocasião, Mário de Andrade chegou afirmar que Luís Aranha, em 1922, talvez sob influência de Guilherme de Almeida, já produzia Haicais, podendo ser encontrados no Poema Giratório que, ainda segundo Mário de Andrade, não se trata de um poema de haicais, mas entremeado por alguns deles.

Para não ficar discorrendo aqui colocações, como é um personagem desconhecido da maioria, vamos direto para a Biografia (por sinal, fraquíssima, mas foi o que consegui até o momento e também com ajuda do livro de Nelson Ascher, que estarei comentando no bojo deste texto).

BIOGRAFIA
1901 – 17 de maio, filho de Maria de Barros Aranha e Dr. Antonio Veriano Pereira (advogado, fundador da Campanha Paulista de Seguros, juntamente com outros amigos), nasce Luís Aranha Pereira, na cidade de São Paulo;
1909/1910 – Internado com escarlatina. Estudou no Colégio dos Irmãos Maristas até 1919;
1919 – Trabalhou como balconista na Drogaria Bráulio, na Rua São Bento;
1920 – Conhece Mário de Andrade. Começa a escrever seus poemas;
1921 – Continuou tendo contato com os futuros modernistas da Semana de Arte Moderna;
1922 – Participa ativamente da Semana de Arte Moderna, nos Festivais de Fevereiro. Após a Semana, continua em contato com os principais modernistas e participa da Revista Klaxon. Foi nesse mesmo ano que iniciou o curso de direito no largo São Francisco. Publica, em Junho, na Revista Klaxon n.º 2, pág. 7, o poema “O Aeroplano”. Em Agosto, na Revista Klaxon n.º 4, pág. 11, publica o poema “Paulicèa Desvairada. Em Outubro, na Revista Klaxon n.º 6, págs. 3 e 4, publica o poema Crepúsculo. E no número duplo da Revista Klaxon, n.º 8/9, em Dezembro de 22 e Janeiro de 23, págs. 18 e 19, publica “Projectos” ;
1923 – Continuou colaborando com a Revista Klaxon até o último número – como mencionado acima;
1924 – Mário de Andrade faz menção ao poeta, em “A Escrava que não é Isaura” (Considerada talvez a primeira menção ao nome de Luís Aranha após as suas publicações na revista Klaxon;
1926 – Formou-se em Bacharel. Sérgio Milliet, no jornal “Terra Roxa”, talvez tenha sido o primeiro a publicar artigo propriamente dito sobre o poeta Luís Aranha. Em 1932, Milliet viria republicar o artigo, com algumas alterações, no seu volume “Terminus Seco”;
1929 – Nomeado por concurso (obteve o primeiro lugar) para o Ministério das Relações Exteriores. Serviu, nos anos seguintes, em Portugal, Itália, Vaticano, Venezuela, Chile, Alemanha, Japão e Ceilão;
1932 – Teve alguns de seus poemas publicados no ensaio “Luís Aranha ou a Poesia Preparatoriana”, de Mário de Andrade, na Revista Nova n.º 7. Esse mesmo ensaio foi publicado em “Aspectos da Literatura Brasileira”, Mário de Andrade, Livraria Martins Editora – São Paulo, com o mesmo título, págs. 47 a 87, em 1943;
1933 – Casa-se com Dulce Lajes;
1934 – Exerceu a diplomacia em Lisboa, até 1936;
1938 – Delegado da delegação brasileira nas conferências panamericanas de Lima e Quintandinha. Conselheiro da delegação brasileira na Conferência de Paz em Paris; Exerceu a diplomacia em Roma, até 1942;
1942 – Exerceu a diplomacia em Caracas, até 1945;
1943 – Mário de Andrade publica o ensaio “Luís Aranha ou a Poesia Preparatoriana”, em “Aspectos da Literatura Brasileira” – (Ver detalhes em 1932, acima);
1946 – Integrou o Conselho da Delegação Brasileira na Conferência da Paz, em Paris (França). Manuel Bandeira escreve nota introdutória para uma breve seleção de poemas de Luís Aranha na sua “Antologia de Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos – Ed. Zélio Valverde S.A. – Rio – págs. 115-123”;
1948 – Volta a exercer a diplomacia em Roma, até 1950;
1950 – Exerce a diplomacia em Valparaiso, até 1952;
1952 – Exerce a diplomacia em Hamburgo, até 1958;
1958 – Exerce a diplomacia em Kobi-Osaka, até 1962, encerrando a carreira, por limite de idade, servindo como embaixador no Ceilão;
1959 – Péricles Eugênio da Silva Ramos menciona Luís Aranha no seu ensaio sobre “O Modernismo na Poesia”;
1961 – Na Tese “22 e a Poesia de Hoje”, Cassiano Ricardo ressaltou a importância do poeta Luís Aranha, traçando paralelos entre seus procedimentos e aqueles praticados pelos jovens poetas concretos;
1962 – Na descrição de Nelson Ascher, no livro Cocktails (no final deste texto), na pág. 19, menciona maravilhosamente: “(...) No quadragésimo aniversário da “Semana”, em fevereiro de 1062, Domingos Carvalho da Silva publicaria um artigo que, entre outros temas correlatos, dava ao poeta um destaque inédito, aproximando-o a Maiakósvik (e não a Whitman ou Verhaeren, como se fizera até então) e buscando, no julgamento severo de Mário, uma explicação para seu silêncio. Foi, porém, no mês seguinte que Luis Aranha mereceu sua mais completa reavaliação crítica, obra do poeta e ensaísta José Lino Grunewald, ligado ao grupo concreto. José Lino foi o primeiro autor, desde 1932, a dedicar-lhe todo um ensaio, e sua revisão, trabalho fundamental, seria complementada, dez anos depois, por outro artigo mais abrangente. A tentativa de se determinar, portanto, quem foi seu real redescobridor, é de fato inútil e acadêmica. O poeta foi redescoberto independentemente por vários críticos (todos poetas) sensíveis ao valor de uma obra que a mudança de padrões estéticos começava a tornar legível. (...)”;
1972 – O historiador Mário da Silva Brito incorpora Luis Aranha dentre os modernistas maiores;
1984 – Nelson Ascher, paulistano nascido em 1958, escritor, mestre em teoria literária na PUC-SP., lançou o livro de COCKTAILS – POEMAS DE LUIS ARANHA, pela Editora Brasiliense – SP. O próprio Ascher explica, na página 7, em “Agradecimentos” (na verdade a Introdução, Ascher, a editou com o título: “Uma órbita excêntrica no modernismo” – da página 9 até a 21), que: “Com exceção dos quatro poemas publicados em Klaxon (“O Aeroporto”, “Paulicéia Desvairada”, “Crepúsculo” e “Projetos”), todos os poemas reunidos neste volume provém de um original datilografado, entregue na década de 20 pelo autor a Mário de Andrade. Estes originais foram conservados por Mário e pertencem atualmente ao Arquivo Mário de Andrade do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo. (...). A capa do presente volume foi baseada em um desenho do próprio autor, esboçado nos anos 20, no verso de um programa da “Semana de Arte Moderna” e encontrado no arquivo acima mencionado”. (Ver capa do livro ainda no desenvolvimento deste texto);
1987 – 29 de junho: Luís Aranha morre, no Rio de Janeiro.
DEPOIMENTOS E COMENTÁRIOS

De Mário da Silva Brito:- “Luís Aranha Pereira, nascido em São Paulo em 1901, não publicou nenhum livro, mas teve papel de destaque no movimento renovador de 22, tendo estado no palco do Teatro Municipal na agitada noite de 15 de fevereiro. Suas produções apareceram em Klaxon, a famosa revista do modernismo bandeirante. Aproximou-se de Mário de Andrade quando, em 1921, se viu este cercado pelo escândalo, provocado com a publicação de seus versos no corpo de um artigo de Oswald de Andrade: - “O meu poeta futurista”.
“Estava já poeta que extravagava muito da ambiência cultural brasileira, fazendo poemas que às mais das vezes nasciam sob o signo de Whitman e Verhaeren”, escreve Mário de Andrade a propósito dos versos do então moço de vinte anos, que logo abandonaria as sugestões desses modelos “pra sujeitar a sua qualidade poética aos impulsos da exclusiva experiência pessoal”. Passou a praticar a associação de imagens como princípio básico de sua criação poética, aproveitando-se do processo com virtuosidade inigualável. Mário de Andrade acentua que “a originalidade, a contribuição curiosíssima de Luís Aranha está em ter realizado o estado lírico da psicologia do preparatoriano. Luís Aranha é o poeta ginasial por excelência, o único poeta ginasial que conheço. A poesia dele cheira a ginásio. Há nele uma sofreguidão de ajuntar noções aprendíveis de cor que nos dá a imagem palpável dos fins de ano letivo”.
Associacionismo, dinamismo, velocidade, enumeração, apelo ao subconsciente, temas da civilização mecânica, como o túnel, a ponte, o trem, caracterizam a sua obra. Como Rimbaud, abandonou a poesia. Foi seguir a carreira diplomática. Não reuniu em livro as suas tão originais composições esparsas pelas revistas modernistas. Não escreveu mais poesias e não se ouviu mais falar dele. (...)”.
(Brito, Mário da Silva. In: Poetas Paulistas da Semana de Arte Moderna – Antologia – Livraria Martins Editora – 1972 – São Paulo – Páginas 133-134).

De Mário de Andrade:- (Comentário feito sobre o poema de Luís Aranha na revista Klaxon: “Poema Pitágoras”). “Página genial, dum sopro épico raro conseguido em poesia brasileira. Na secura exterior esconde uma tristeza, uma fúria pessoas que range as suas possibilidades, e um amor humano verdadeiro que forneceu ao poeta a imagem do coração – esponja absorvendo a tristeza da terra. O maior dos seus versos”. (Andrade, Mário de. In: Aspectos da Literatura Brasileira – transcrição parcial feita por Mário da Silva Brito em Poetas Paulistas da Semana de Arte Moderna – Antologia – Livraria Martins Editora – 1972 – São Paulo – Página 134).

De José Lino Grünewald:- (Comentando sobre as composições de Luís Aranha) – “Lances de uma técnica jornalística de linguagem, escrevendo poemas em que há trechos que constituem verdadeiras montagens, análogas às do cinema, de retalhos impressionistas em torno de eventos e objetos. Nisso ele está mais próximo de Ezra Pound ou de um Maiakovski do que de Walt Whitman. É poeta que se inspira na civilização industrial, identificando-se com o mundo tecnológico”. (Grünewald, José Lino. Artigos publicados no Correio da Manhã, Rio de Janeiro, em 24/3/1962 e 27/2/1972 - transcrição parcial feita por Mário da Silva Brito em Poetas Paulistas da Semana de Arte Moderna – Antologia – Livraria Martins Editora – 1972 – São Paulo – Página 134).

De Antonio Risério:- "(...) a obra incompleta de Luis Aranha aponta para o futuro. Seus poemas estão entre as criações mais arrojadas que o modernismo produziu em seus disparos iniciais. Um projeto poético inovador, radical, engajado até a medula na criação de uma poesia adequada às novas realidades do mundo urbano-industrial. Aranha foi uma antena captando os signos da modernidade estética e experimentado-os na prática. Para isso, armou-se de temas fundamentalmente urbanos, procurando tratá-los numa linguagem nova. Violentou a sintaxe para captar o atropelo veloz dos eventos modernos. Incorporou à fatura do poema a técnica da redação jornalística, atirando a anotação precisa do repórter no jorro das imagens futuristas. Refez temas líricos, como o da recusa amorosa, a partir de conceitos técnicos, buscando lirificar palavras do repertório científico. Apelou para a estrutura de montagem e a visualidade precisa e insólita do haicai. Adotou o estilo de cortes dos telegramas e chegou mesmo a transcrever num poema, com as modificações necessárias, um boletim médico. Foi, enfim, o nosso poeta futurista. Embora, como todo mundo, negasse publicamente o futurismo." (Risério, Antonio [1978]. Colméias e telégrafos. In: Aranha, Luis. Cocktails: poemas. Pág. 139).

De Wilson Martins:- “Marinetti celebrava os caracteres sinaléticos da modernidade: os bondes de dois andares, os automóveis esfomeados, a beleza da velocidade e os aeroplanos que começavam a cruzar os ares em remígios espantosos. É fácil encontrar as harmônicas e os reflexos de tudo isso na poesia daqueles tempos (mais do que nos nossos, em que todas as novidades se banalizaram), sem excluir, claro está, a de Luís Aranha, na qual Mário de Andrade viu, algo paternalisticamente, uma literatura de ginasiano, sem perceber que ali estava, embora em germe, o verdadeiro mestre do moderno entre nós”. (Martins, Wilson. Escritor e literato, in:- Prosa & Verso, O Globo, 14.12.86).

De Sérgio Milliet:- "É um homem pequenino. Magríssimo. De óculos. Sinais característicos: pomo de Adão excessivamente desenvolvido. Profissão: funcionário do Ministério do Exterior. Assim como há o caso de Rimbaud, há o caso de Luis Aranha. Apareceu com a Semana de Arte Moderna. Viveu em Klaxon. E nunca mais. Felizmente Mário e eu possuíamos alguns versos dele. Versos da primeira fase modernista. Defeituosos graças a Deus. Deliciosos, porém de inspiração. Nossos apesar da técnica francesa. Francesa? Não. Essa técnica pertence a todos. Não deu a Manuel Bandeira sua expressão mais ingênua? Mais pessoal? Não reverteu em liberdade para os do grupo Verde? Então é de todos. Não se analisa um poema de Luis Aranha. Lê-se comovido sua poesia. Cita-se um verso a um amigo. Desvirgina-se um trecho numa página de revista. Não se critica porque é inédito, e que o será provavelmente sempre. É para o nosso gozo íntimo." (Milliet, Sérgio [1926]. Inéditos. In: Aranha, Luis. Cocktails: Poemas. Pág. 107-108).

De Sérgio Milliet:- “(...) Luís Aranha, o poeta do “poema giratório”, que abandonou as musas pela diplomacia, (...)”. (Milliet, Sérgio. Diário Crítico – Vol. I (1940-1943) - Livraria Martins Editora & EDUSP, 2ª Ed. 1981 – pág. 255).

De Sérgio Milliet:- “(...) A meu ver Ismael Nery e Luís Aranha não deveriam ser classificados entre os bissextos. (...). O segundo porque, se encerrou sua carreira de poeta muito cedo, não se dedicou entretanto a nenhuma outra atividade artística ou literária. Foi poeta, exclusivamente poeta, e durante os poucos anos de produção produziu intensamente. Não publicou livros, em verdade, mas colaborou regularmente nas revistas do modernismo. (...)”. (Milliet, Sérgio. Diário Crítico – Vol. III (1945) - Livraria Martins Editora & EDUSP, 2ª Ed. 1981 – pág. 168).

De Francisco Alambert:- (...). “O ano de 1922 marcou ainda o silenciamento voluntário de um dos mais interessantes poetas surgidos no contexto da Semana de Arte Moderna: Luiz Aranha. Esse jovem poeta, celebrado por Mário de Andrade e muitos outros, teve alguns de seus poemas lidos durante a Semana, recolhendo-se depois na carreira diplomática, que seguirá por toda a sua vida. Só muito recentemente os parcos e excelentes poemas que compõem sua obra foram reunidos em livro”. (Alambert, Francisco. In: A Semana de 22 – A aventura Modernista no Brasil. Editora Scipione – Pág. 58 – 2.ª Edição – 1944. Francisco Alambert é Bacharel em História pela PUC-SP; Mestre em História pela USP e Professor de História Contemporânea na Universidade Federal Fluminense - Moderador do Blog Retalhos do Modernismo).

De Mário da Silva Brito:- Dentre os muitos poetas, nacionais e estrangeiros, divulgados por Klaxon, um merece especial destaque. É Luís Aranha, cuja produção, embora escassa, reflete expressivamente o espírito de 22. Aplicou, entre nós, recursos de composição de tal modo inusitados que afeavam a estrutura poética tradicional. Razão por que Mário de Andrade o considerava autor “que extravagava muito da ambiência cultural brasileira”. Amigo do cantor de Paulicéia Desvairada, Luís Aranha, moço de vinte anos, dele se aproximou quando, em 1921, este se viu envolvido pelo escândalo provocado pelos versos inseridos no artigo O Meu Poeta Futurista, de Oswald de Andrade – escândalo que o promoveu “a lobo-mor da intelectualidade urbana de São Paulo”, para usar palavras do próprio Mário de Andrade (in:- Aspectos da Literatura Brasileira – pág. 51 – Livraria Martins Editora – São Paulo – s/d.).
Luís Aranha não publicou nenhum livro e seus poemas são conhecidos graças à revista Klaxon e ao ensaio Luís Aranha ou A Poesia Preparatoriana, de Mário de Andrade, publicado no número 7 da Revista Nova e depois incluído no livro Aspectos da Literatura Brasileira (1), ensaio em que o exegeta reproduz textos completos ou fragmentos desse poeta que, já em 1922, silenciava sua voz e desaparecia do cenário intelectual para se incorporar ao quadro de funcionários do Ministério do Exterior. Assim como há o caso Rimbaud, há o “caso Luís Aranha” – lembra Sérgio Milliet (In:- Terminus Seco e Outros Cock-tails – Estabelecimento Gráfico Irmãos Ferraz – 1923-1932 – Pág. 282).
Fazia “poemas que às mais das vezes nasciam sob o signo de Whitman e Verhaeren”, detecta Mário de Andrade, que também esclarece quais os autores mais lidos pelo poeta: Blaise Cendrars, Max Jacob, Apollinaire e Cocteau, alguns dos quais aparecem citados em poemas de sua autoria. Luís Aranha conhecia também alguns teóricos do bolchevismo.
Esse poeta erigiu como princípio básico de sua criação artística a associação de idéias – “associações de idéias admiravelmente violentadas”, acentua Sérgio Milliet. Associacionismo, dinamismo, “tempestades de imagens”, velocidade, paráfrases, enumeração, paródia, apelo ao subconsciente, caracterizam a sua obra, que evoluiu, em curto espaço de tempo, “dos metros normais e das rimas” ou “de um lirismo conceituoso”, ressaibo de sua fase sonetística, para “os impulsos da exclusiva experiência pessoal”, vindo a alcançar em algumas páginas “um sopro épico raro conseguido em poesia brasileira”, conforme Mário de Andrade.
“José Lino Grünewald, nos estudos que vem dedicando a Luís Aranha, realça-o como um épico do mundo da máquina, da velocidade, dos inventos”, poeta que muitas vezes se vale de “lances de uma técnica jornalística de linguagem”, escrevendo poemas em que há trechos “que constituem verdadeiras montagens, análogas às do cinema, de retalhos impressionistas em torno de eventos e objetos. Nisso ele está mais próximo de um Ezra Pound ou de um Maiakovski, do que de Walt Whitman”. Afirma que Luiz Aranha “foi um poeta de intensa imagética, a fenopéia poundiana”. Além de “rebentar a sintaxe” consuetudinária, de praticar “uma linguagem telegráfica”, de desprezar propositadamente a pontuação – assim adjetivando certos substantivos e operando o desvio semântico de determinadas frases – Luís Aranha também se utiliza dos “recursos de espacialização das palavras e variação tipográfica” e, ainda, da fisiognomonia sonora por aliteração intensa”, como no caso do verso “corisco arisco risca no céu” (In:- Um Poeta Esquecido – Correio da Manhã, em 24/3/1962 – e Um Marco Esquecido: Luís Aranha – Correio da Manhã, em 27/2/1972 – matéria de José Lino Grünewald.).
(...).

(1) – Em Aspectos da Literatura Brasileira, Mário de Andrade publica, como apêndice ao seu estudo, a versão integral do Poema Giratório.

(Brito, Mário da Silva. In:- O Poeta Luís Aranha – Parte da introdução da Coletânea “Klaxon – Mensário de Arte Moderna – fac-símile – co-edição com a Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo – Impresso em 1976, no transcorrer do Cinqüentenário da Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais – São Paulo – Livraria Martins Editora).

Manuel Bandeira, em carta escrita em 7 de outubro de 1925, endereçada ao Mário de Andrade, no segundo parágrafo tece elogios ao autor de “Drogaria de Éter”, Luís Aranha. A carta, na íntegra, pode ser lida no livro “Correspondência – Mário de Andrade & Manuel Bandeira”, organizado por Marcos Antonio de Moraes, Editora Edusp, pág. 244:-

"(...).
Não te ofendas com as opiniões do grupinho. Certamente eles não têm intenção nenhuma de te ofender. Acho que não vale a pena dar importância: acho-os fraquinhos, muito fraquinhos, menos Oswald, cuja crítica não tem valor algum porque é toda de parti-pris. Couto sabe pensar, mas não tem temperamento, me parece puramente cerebral. Com franqueza São Paulo – Você, Oswald e Luís Aranha. Há muito tempo andava de expectativa com o Luís Aranha. Não achava graça no que conhecia dele. A sua admiração, porém, e aquele ar de passarinho estupefacto que via na sua casa me impunham respeito. Hoje posso dizer que é um poetão pois li a “Drogaria e Éter” e achei estupendo (alguma influência sua, mas que não desmerece em nada o valor do poema que me pareceu personalíssimo). A propósito, quando estiver com ele, dê-lhe um grande abraço de minha parte”.

NOTAS IMPORTANTES:-

Nota 1 – No livro acima mencionado, Marcos Antonio de Moraes, assim escreve na Nota de Página, de nº 150, pág. 245:
- “Como um novo Rimbaud”, Luís Aranha Pereira (1901-?) se cala após a admirável explosão lírica simultaneísta e rica em associações imagéticas delirantes. Quatro poemas em Klaxon, três poemas de “verdadeiro fôlego poético”: “Drogaria de éter e de sombra (1921)”, “Poema Pitágoras” (1922), “Poema giratório” (1922), um projeto de livro (Cocktails), atiçam a curiosidade de MB, que o inclui entre os bissextos contemporâneos. MA, devota-lhe, em 1932, “Luís Aranha ou a poesia preparatoriana”, longo ensaio em que atribui “a originalidade, a contribuição curiosíssima” do poeta estava na realização do “estado lírico da psicologia do preparatoriano” (hoje, “vestibulando”). “Há nele uma sofreguidão de ajuntar noções aprendíveis de cor que nos dá a imagem palpável dos fins de ano letivo.” (Aspectos da literatura brasileira, p. 59);

Nota 2 – Ainda na pág. 245, Marco Antonio de Moraes, transcreve carta do Mário para Bandeira, constando a mesma data: 7 de outubro de 1925, onde MA, no final da carta (pág. 246), diz ter gostado da opinião de MB sobre Luís Aranha:
“(...).
A carta de você tem outros assuntos que quereria responder. Mas estou com sono vou dormir. Gostei da opinião de você sobre o Luís.”;

Nota 3 – Nesse mesmo livro, pág. 676, em carta data de 7 de agosto de 1944, Bandeira escreve a seguinte carta:

Rio de Janeiro, 7 de Agosto de 1944

Mário

Do Carlos Queirós recebi para você o prospecto que lhe envio.
Mando-lhe um cartão de agradecimento para o Alfredo Mesquita, cujo endereço ignoro.
Vai também para você uma cópia do retrato do Taci. A fotografia original, com a chapa que mandei fazer, serão entregues à viúva por intermédio do Guilherme. Muito obrigado.
Consegui o retrato do Aranha com o sogro (que nunca leu um verso do genro). Acho que a antologia dos bissextos vai ficar bem boa. Já entreguei todo o material ao Múcio Leão para Autores e Livros.
Às pressas um abraço do

Manu.

Nota 4 – A expressão “poeta bissexto” é explicada por Marco Antonio no rodapé da pág. 677, nota n.º 26, da seguinte forma:
- A expressão “poeta bissexto” significa “todo poeta que só entra em estado de graça de raro em raro”, inédito em livro. (Antologia dos poetas bissextos contemporâneos, “Prefácio da 1ª edição”).
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ICONOGRAFIA

Grupo dos Organizadores da Semana de 22: Luís Aranha, de óculos, sentado entre Rubens Borba de Moraes e Tácito de Almeida, atrás de Oswald de Andrade, sentado no chão, primeiro plano.
(Foto Arquivo IEB/USP)


Capa do COCKTAILS – Luís Aranha – Poemas
Organizados por Nelson Ascher e Rui Moreira Leite,
lançado em 1984.

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ALGUNS POEMAS DE

LUÍS ARANHA


POEMA Pitágoras

Meu cérebro e coração pilhas elétricas
Arcos voltaicos
Estalos
Combinações de idéias e reações de sentimentos
O céu é uma vasta sala de química com retortas cadinhos tubos provetes e todos os
Vasos necessários
Quem me quitaria de acreditar que os astros são balões de vidros
Cheios de gases leves que fugiram pelas janelas dos laboratórios
Todos os químicos são idiotas
Não descobriram nem o elixir da longa vida nem a pedra filosofal
Só os pirotécnicos são inteligentes
São mais inteligentes do que os poetas pois encheram o céu de planetas novos
Multicores
Astros arrebentam como granadas
Os núcleos caem
Outros sobem da terra e têm uma vida efêmera
Asteróides asteriscos
Bolhas de sabão!
Os telescópios apontam o céu
Canhões gigantes
De perto
Vejo a lua
Acidentes da crosta resfriada
O anel de Anaxágoras
O anel de Pitágoras
Vulcões extintos
Perto dela
Uma pirâmide fosforescente
Pirâmide do Egito que subiu ao céu
Hoje está incluída no sistema planetário
Luminosa
Com a rota determinada por todos os observatórios
Subiu quando a biblioteca de Alexandria era uma fogueira iluminando o mundo
Os crânios antigos estalam nos pergaminhos que se queimam
Pitágoras a viu ainda em terra
Viajou no Egito
Viu o rio Nilo os crocodilos os papiros e as embarcações de sândalo
Viu a esfinge os obeliscos a sala de Karnak e o boi Apis
Viu a lua dentro do tanque onde estava o rei Amenemas
Mas não viu a biblioteca de Alexandria nem as galeras de Cleopatra
Nem a dominação dos ingleses
Maspero acha múmias
E eu não vejo mais nada
As nuvens apagaram minha geometria celeste
No quadro negro
Não vejo mais a sua nem minha pirotécnica planetária
Rojões de lágrimas
Cometas se desfazem
Fim da existência
Outros estouram como demônios da Idade Média e feiticeiros do Sabbath
Fogos de antimônio fogos de Bengala
Eu também me desfarei em lágrimas coloridas no meu dia final
Meu coração vagará pelo céu estrela cadente ou bólido apagado como agora erra
Inflamado pela terra
Estrela inteligente estrela averroísta
Vertiginosamente
Enrolando-o na fieira da Via-Láctea joguei o pião da terra
E ele ronca
No movimento perpétuo
Vejo tudo
Faixas de cores
Mares
Montanhas
Florestas
Numa velocidade prodigiosa
Todas as cores sobrepostas
Estou só
Tiritante
De pé sobre a crosta resfriada
Não há mais vegetação
Nem animais
Como os antigos creio que a terra é o centro
A terra é uma grande esponja que se embebe das tristezas do universo
Meu coração é uma esponja que absorve toda a tristeza da terra
Uma grande pálpebra azul treme no céu e pisca
Corisco arisco risca no céu
O barômetro anuncia chuva
Todos os observatórios se comunicam pela telegrafia sem fio
Não penso mais porque a escuridão da noite tempestuosa penetra em mim
Não posso matematizar o universo como os pitagóricos
Estou só
Tenho frio
Não posso escrever os versos áureos de Pitágoras !...

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A seguir apenas a primeira parte do Poema Drogaria de Éter e de Sombra
DROGARIA DE ÉTER E DE SOMBRA

DROGARIA
SOCIEDADE ANÔNIMA

Produtos Químicos e Farmacêuticos
Especialidades em artigos para toilette
Perfumarias Finas
Aparelhos e objetos de cirurgia
Importação direta
Atacado e varejo
Preços módicos
Informações gratuitas
As contas são liquidáveis invariavelmente
No fim de cada mês
Vende-se
Livro de Ouro do Veterinário
Manual do Farmacêutico
Formulário de Chernoviz
Tratado de Versificação

Eu era poeta...
Mas o prestígio burguês dessa tabuleta
Explodiu na minha alma como uma granada.
Resolvi um dia,
Incômodo mensal das musas,
Ir trabalhar numa drogaria
E executei o meu projeto.
Processo financeiro dos milionários
norte-americanos
Que via no cinematógrafo:
Multiplicação incessante da riqueza
De ano em ano
Com acumulação dos juros ao capital...
Procriação e desenvolvimento das drogas na prateleira
Pelos métodos científicos moderníssimos...
Prestígio dos comerciantes fortes
Desvalorização crescente da poesia...
Minha musa romântica
Morreu após o seu primeiro parto,
Que foi para a cesta com mal de sete dias.

No centro da cidade,
Triângulo de ouro e sol,
A Drogaria era uma gruta de sombra...
Como na Itália
A gruta do cão
Cheia de ácido carbônico
Na Drogaria o éter tomava conta da atmosfera...
Não obstante,
Minha pituitária se habituou a ele
Como a vista se habitua à sombra...

Armários em toda extensão da casa...
Eu os arrumava na minha inexperiência de empregado novo...
Iniciação.
Oh! Prateleiras da minha mocidade
“Castelo de sonhos” do meu bazar de drogas!
Janelas ogivais correndo sobre trilhos!
Castelãs cheias de rótulos e fórmulas!...
Como era feliz entre vós,
Castelãs que fiáveis
Nos vossos fusos silenciosos
O bordado setíneo das teias de aranha!...

Meu “sonho de ouro”
Contemplação de Urracas namoradas!
Minha cruzada de metal
Oh! Meus cruzados ideais!...

Sabia
O nome a todas as formosas,
Que amava muito mais que vendia mais
Embrulhadas todas em papel de seda,
Mantos de cores nacionais...
Morfina
Cocaína
Benzina
Aspirina
Quina
Sina
Atropina
Examina
Gelatina
Heroína
Fenacetina
Antipirina
Papaína
Exalgina
Digitalina
Aconitina
Estricnina
E tantas outras que não me lembro mais!
(...)

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COCKTAIL

HOTEL RESTAURANTE BAR
A cadeira guincha
Garçon
No espelho “Experimente nosso COCKTAIL”
Champagne cocktail
Gin cocktail
Álcool
Absinto
Açúcar
Aromáticos
Sacode num tubo de metal
É frio estimulante e forte
Cocktail
Cocteau
Cendrars
Rimbaud cabaretier
Espontaneidade
Simultaneísmo
O só plano intelectual traz confusão
Associação
Rapidez
Alegria
Poema
Arte moderna
COCKTAIL PARA UM!
Não; para todos
Vinde encher o copo do coração com o meu cocktail sentimental
Sentimental?!

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CREPÚSCULO

Pantheon de cimento armado
A luz tomba
Refluxo de cores
Mel e âmbar
Há liras de Orfeu em todos os automóveis
Reses das nuvens em tropel
Céu matadouros da Continental
Todas as mulheres são translúcidas
Ando
Músculos elásticos
Andar com a força de todos os automóveis
Com a força de todas as usinas
Com a força de todas as associações comerciais e
industriais
Com a força de todos os bancos
Com a força de todas as empresas agrícolas e as
explorações de linhas férreas
Os capitais amontoados em pilhas elétricas
Forças presidenciais e forças diplomáticas
A força do horizonte vulcânico
As forças violentas as forças tumultuosas de Verhaeren
Sou um trem
Um navio
Um aeroplano
Sou a força centrífuga e centrípeta
Todas as forças da terra
Todas as distensões e todas as liberdades
Sinto a vida cantar em mim uma alvorada de metal
O meu corpo é um clarim
Muita luz
Muito ouro
Muito rubro
Meu sangue
Eu sou a tinta que colore a tarde!

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CONCLUSÃO NECESSÁRIA

Não poderia concluir este texto sem mencionar o artigo: “Sem Essa, Aranha”, de autoria da livre-docente em Literatura Brasileira na UNESP – Instituto de Letras de Assis, Sra. Maria Alice Faria. Não sei qual jornal publicou o referido artigo, pois recebi apenas um recorte, sem nenhuma referência, mas concluí ter sido escrito em 1984, onde Maria Alice menciona o lançamento do Cocktails (sem mencionar o nome do autor: Ascher) – mas vale como registro importante, pois o artigo é excelente. Conjeturo também que a autora, inteligente e intencionalmente, tenha se utilizado do título do filme “Sem essa, aranha” (1970), do cineasta Rogério Sganzerla, levando os leitores desavisados e pouco atentos aos poetas modernistas, assanharem-se e, lendo seu artigo iniciassem, mesmo que induzidos subliminarmente, buscarem pelos textos do poeta Luís Aranha. O artigo da Maria Alice Faria é deleitoso. Por ser muito extenso, transcrevo apenas os quatro parágrafos finais, cujo subtítulo é: Timidez e Anacronismo.

“(...).

TIMIDEZ E ANACRONISMO

Numa visão história da literatura brasileira, não há como se chegar a juízos absolutos do tipo do de José Lino Grunewald, ao afirmar que a poesia de Luís Aranha é “uma épica da civilização industrial”. Se, por exemplo, encararmos a Paulicéia Desvairada do ponto de vista estritamente da literatura brasileira, ela representa efetivamente uma renovação literária em confronto com a literatura praticada nessa época no Brasil. Colocada dentro do contexto mais amplo da vanguarda européia, a Paulicéia é uma proposta de inovações tímida e mesmo anacrônica. O mesmo se poderá dizer de Luís Aranha, se conhecermos de perto os poetas de vanguarda francesa (para só ficar neles), devorados pelo jovem paulista, segundo o testemunho de Mário de Andrade e Sérgio Milliet.
São fontes diretas de Luís Aranha, que se serve dos mesmos processos poéticos utilizados à saciedade por escritores franceses de segunda linha e diluidores de um ou outro poeta maior, ainda pouco conhecido como tal, aqui apontados e lidos avidamente por Mário de Andrade e seus amigos. Nesta perspectiva ampla, a poesia, de Luís Aranha é uma miscelânea de tendências, temas e estilos variados, inclusive distanciados no tempo, alguns até anacrônicos, misturando processos que vão de Verhaeren a Cendrars, o todo acondicionado no molho de crepuscularismo brasileiro, estudado por Norma S. Goldstein em Do Penumbrismo ao Modernismo (Ática, 1983).
Se, entretanto, encaramos os 26 poemas publicados pela Brasiliense dentro do contexto literário brasileiro, não há como não se dar conta, em primeiro lugar, da precedência de Luís Aranha sobre os nomes consagrados do Modernismo, quanto à experimentação de processos renovadores de nossa poesia. Em segundo lugar, estão evidentes a desenvoltura e espontaneidade com que ele se utilizou de técnicas de vanguarda que o cauteloso Mário de Andrade não quis ou não soube experimentar naquele momento; que Oswald de Andrade levaria ainda algum temo para tentar; e que Menotti Del Picchia e Guilherme de Almeida nunca conseguiriam dominar. Assim, não me parece descabido pensar-se que, conscientemente ou não, tenha havido por arte dos escritores mais velhos e já conhecidos, atitudes de desencorajamento do jovem Luís Aranha, sem dúvida precursor de todos eles. Se poderia até mesmo arriscar a opinião de que o estudo de Mário de Andrade, “Luís Aranha e a Poesia Preparatoriana”, constitui-se numa castração definitiva das veleidades poéticas do seu jovem protegido.
Portanto, não tomaria Luís Aranha como um gênio incompreendido agora descoberto, mas como um elemento importante para a avaliação da nossa acanhada vanguarda de 1920. O essencial, a meu ver, é ficar-se com os pés na terra em relação à nossa literatura – “pobre e fraca”, mas “a que nos exprime”, no dizer de Antonio Cândido. E trabalhar no sentido de se levantarem dados para uma compreensão serena de nossos movimentos literários sem cair na tentação do ufanismo, praga oriunda de um complexo de inferioridade centenário, que destrói a credibilidade de parte de nossa crítica desde o Romantismo. Ou que, na melhor das hipóteses, revela sua ingenuidade, ao nos colocar no centro de movimentos literários nos quais até agora tivemos apenas participação periférica”.

FONTES PESQUISADAS:

- Alambert, Francisco. In: A Semana de 22 – A aventura Modernista no Brasil. 2ª Ed. Editora Scipione – São Paulo, 1944;
- Andrade, Mário de. In: Aspectos da Literatura Brasileira. 5ª Ed. – Livraria Martins Editora – São Paulo, 1974;
- Aranha, Luís; Ascher, Nelson (org.). In: Cocktails Poemas. 1º Ed. – Editora Brasiliense – São Paulo, 1984;
- BANDEIRA, Manuel. Luis Aranha. In: Antologia de poetas brasileiros bissextos contemporâneos. 2ª Ed. Revisada e Aumentada. Rio de Janeiro: Org. Simões, 1964.
- Batista, Marta Rossetti. & Lopez, Telê Porto Ancona. & Lima, Yone Soares de. In: Brasil: 1º Tempo Modernista – 1917/29 – Documentação. Instituto de Estudos Brasileiros da USP – São Paulo, 1972;
- Bosi, Alfredo. In: História Concisa da Literatura Brasileira. 3ª Ed. Editora Cultrix Ltda. – São Paulo, 1997;
- Brito, Mário da Silva. In: Poetas Paulistas da Semana de Arte Moderna – Antologia – Livraria Martins Editora – São Paulo, 1972;
- Coutinho, Afrânio. In: A literatura no Brasil. Rio de Janeiro, Livraria São José Editora, 1959.
- Duarte, Paulo. In: Mário de Andrade por ele mesmo. São Paulo. Hucitec/Secretaria Municipal de Cultura, 1985.
- Faria, Maria Alice. In: Sem essa, Aranha. (Fonte desconhecida);
- Milliet, Sérgio. In: Diário Crítico – Vol. I (1940-1943). 2ª Ed. – Livraria Martins Editora & EDUSP – São Paulo, 1981;
- _________. In: Diário Crítico – Vol. III (1945). 2ª Ed. – Livraria Martins Editora & EDUSP, 1981;
- Revista klaxon – Obra publicada em co-edição com a Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo. Impressão em 1976, pelo método offset, com filmes fornecidos pelo Editor – Livraria Martins Editora, feita pela Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais S.A. – São Paulo. Introdução de Mário da Silva Brito, contendo as 8 (oito) edições do Mensário Klaxon (Maio de 1922 – Dezembro de 1922 & Janeiro de 1923).
- Texto do Acervo da Biblioteca da Exposição RETALHOS DO MODERNISMO - 2009 - (Luiz de Almeida)

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

RETALHOS RECEBE PRÊMIO

RETALHOS DO MODERNISMO
RECEBE O:

PRÊMIO DARDOS

RETALHOS DO MODERNISMO recebe o “Prêmio Dardos”, conferido pela Professora Pedagoga, Mestra em Educação e Especialista em Educação Infantil pela UFRN, Poetisa e Escritora: “HERCÍLIA FERNANDES”, de Caícó – RN, do Blog “HF DIANTE DO ESPELHO” = http://fernandeshercilia.blogspot.com/

A poetisa, na apresentação no seu Blog “HF DIANTE DO ESPELHO”, deixa evidente sua proposta:

"A poucas pessoas me mostro, realmente, como sou. A outras, apenas disfarço a minha dor; Porque não me vejo em todo olhar; Há espelhos capazes de me revelar, outros, só ofuscam o meu pesar".

E se define:
"Sou um pouco de tudo: dispersão e pragmatismo se misturam e 'deformam' minha personalidade. Sou como um verso mudo, entrecruzado nas entrelinhas de tantos discursos e vãs verdades. Por fim, sou o que sou e isso é tudo! O resto é controverso nas linhas da transitoriedade".

Tive a imensa satisfação de conhecer seu trabalho e principalmente o seu empenho em valorizar a cultura, não só da sua terra, como de todos que demonstram vontade em produzir e partilhar algo da nossa cultura. Para mim foi um honra, não só ter tido o privilégio de poder interagir virtualmente, como ser reconhecido por uma mestra, que já havia se tornado uma das minhas poetisas preferidas – juntamente com a minina Taninha do Nascimento, que vem parindo poemas de valores extremados de imensa beleza e formosa composição e estilo.
Eu não consigo, mesmo que esforce, transcrever minha emoção. Quero utilizar-me desse reconhecimento para continuar elaborando cada vez mais minhas pesquisas, mesmo que necessite continuar passando noites e noites trabalhando, tendo até mesmo que substituir, novamente, as lentes dos óculos – mas, enquanto estiver percebendo que meu trabalho não está sendo em vão... continuarei, continuarei...
Deixo aqui a minha sincera e amiga e amável gratidão, para a eternidade, a Você, minha Dileta Hercília.

"O Prêmio Dardos é o reconhecimento dos valores que cada blogueiro mostra a cada dia no empenho em transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, em demonstrar, em suma, sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras."
Há algum tempo, o prêmio Dardos vem circulando na Blogosfera, atribuindo mérito aos trabalhos dos poetas na Internet. Dentre os artistas homenageados com o selo, podem-se destacar os poetas portugueses
Vieira Calado, Vicente Ferreira da Silva e a poetisa Glória Pires. Ambos, autores de sensível e notória arte poética e publicações em livro. Na blogosfera brasileira destacam-se os poetas Fabrício Fortes, Bianca Feijó, Carol Porner; e, recentemente, Assis de Mello.

Plagiando a conclusão do texto da Dileta Hercília Fernandes, cravo aqui este meu poema:

POEPARTO

Não existe semente de poeta
pois poeta
não nasce em canteiro
Não existe cultivo de poeta
pois poeta
não nasce em canteiro
O poeta
é gerado no cio da necessidade
pois poeta
não nasce em canteiro
O poeta
tem seu parto na realidade
pois poeta
não nasce em canteiro
Não existe
semente de poeta
Não existe
cultivo de poeta
Pois poeta
não nasce em canteiro
O poeta não morre
e não tem idade
O poeta
apenas adormece
muda de meio
e se estabelece na eternidade...
Pois poeta
não nasce em canteiro
(Luiz de Almeida)
Luiz de Almeida - Piraju - São Paulo, 19 de Novembro de 2008 - Dia em que o Blog Retalhos do Modernismo recebeu a Bandeira do "Prêmio Dardos".
Nota: Os meus indicados estão dispostos no Painel Layout do lado esquerdo da página de rosto do Blog.

domingo, 9 de novembro de 2008

¨1922: DEPOIMENTO INÉDITO" (CASSIANO RICARDO)

DEPOIMENTO DE:
CASSIANO RICARDO

(Cassiano Ricardo - Foto Reprodução: Acervo de B.J. Duarte)

PREFÁCIO:

- “... um poeta filósofo”. Foi assim que Sérgio Milliet intitulou Cassiano Ricardo, na página 193 do seu Diário Crítico – 10º Volume (1955-1956), lançado pela Livraria Martins Editora – SP., (1959), em 29 de Julho de 1956, comentando a respeito do livro “O arranha-céu de vidro”, de Cassiano: “(...). Eis um livro de idéias de um poeta filósofo. E eis a mais pura e bela poesia dos últimos tempos em nossa literatura. (...)”.
Quando a Livraria José Olympio do Rio, em 1957, lançou “Poesias Completas”, de Cassiano Ricardo, editou Prólogo de Tristão de Athayde, escrito em 1950, onde esse prefaciador e amigo de Cassiano, não deixou um só parágrafo sem tecer elogios ao autor de Martim Cererê (1928) – que, segundo Drummond: “é uma peça clássica da poesia moderna brasileira”; - obra essa, creio ser até hoje, a mais conhecida daquele poeta. E, falando “em hoje”, no Brasil, Cassiano Ricardo merece um reconhecimento maior. No entanto: (?). Bem, lendo o referido Prólogo do Tristão, fica evidente que ele o concluiu sem querer concluí-lo – Tristão queria escrever mais e mais e mais. E, para não deixar o dito pelo não mostrado, transcrevo, na seqüência, cinco, dos seis parágrafos finais do Prólogo, onde mantive a grafia original:

“(...).
Mas o poeta do tropicalismo verde e amarelo não se satisfez com o triunfo do seu nacionalismo modernista. Poderia ter dormido sôbre os louros e sôbre os apodos. Já tinha o seu lugar ao sol. Outros se contentariam com o que êle havia conquistado. Êle não. Teimoso, com um dêsses bandeirantes avoengos seus, que tanto o atormentaram tôda a vida, não se contentou. Manteve ardente a chama interior. Renovou sua inspiração. Interiorizou-se. Na hora mesma em que uma nova geração, a de 1945, e com isso uma nova fase do modernismo, apareciam no horizonte literário, o velho poeta se mostrou, aos olhos assombrados dos que o acompanhavam desde 1915, como um poeta novo, com a sua inspiração totalmente modificada. Era o homem maduro que agora falava. Era o poeta-filósofo que agora se exprimia. Era o mundo interior que vinha dizer agora a sua mensagem e despedir-se da natureza tropical que enchera os livros da fase mediana. E a partir de 1943, em O Sangue das Horas, Um Dia Depois do Outro (1947) e agora A Face Perdida (1950), o poeta se apresenta em sua feição universal, metafísica, abstrata, mas não menos carregada dessa carga profunda de poesia autêntica, que nas três fases do seu périplo vem acompanhando êsse grande tipo de nossas letras.
Cassiano Ricardo é hoje uma expressão viva do que é a poesia, quando se apodera de uma criatura humana. De 1915 a 1950 sua presença poética é a própria imagem do fluxo da poesia brasileira.
Tanto em sua fase parnasiana ou anacrônica, como em sua fase nacionalista e agora em sua fase filosófica, é o mesmo grande coração de Poeta bate sempre, poderoso, sereno, truculento por vêzes, ora misterioso, obscuro, ora luminoso e patético, mas sempre pulsando com uma energia nova como a dêsses pés de sete léguas que de São Paulo trilharam o Brasil inteiro e lhe deram a sua configuração atual.
O paulistanismo de Cassiano Ricardo não lhe tolheu o sôpro nacional, como o pitoresco ou o lirismo não lhe prejudicaram os altos requintes metafísicos e abstratos de sua poesia intelectualista.
Em todos os momentos de sua evolução, o Poeta está sempre presente e sua obra será, para o futuro, um dos testemunhos mais irrespondíveis de que a nossa geração tinha alguma coisa a dizer e deixou de si alguma coisa que o futuro não esquecerá.
(...)”.

Particularmente, quanto ao Poeta Cassiano Ricardo, prefiro seu lado nacionalista, e partilho com diagnóstico do historiador Wilson Martins: “No Brasil de Cassiano Ricardo, todos são gigantes” (Martins, Wilson. A Literatura Brasileira. Vol. VI – O Modernismo. São Paulo: Editora Cultrix, pág. 191). Mas, o que importa neste estudo é o “depoimento” de Cassiano ao professor Luiz Toledo Machado, em 1972, quando se comemorava o Cinqüentenário da Semana de Arte Moderna, transladado na seqüência e na íntegra [mantida a grafia original].

(Luiz de Almeida)

DEPOIMENTO DE CASSIANO RICARDO

“Como entrei no Modernismo?”
- Não estive presente à instalação da Semana no Municipal em 22, por me achar fora de São Paulo, como tantas vezes tenho esclarecido. O mesmo aconteceu com Tarsila, a nossa grande pintora, que na mesma ocasião se encontrava em Paris. O álibi sem razão, de partida, a indagação que às vezes me fazem, sobre esse ponto. Entrei é verdade, no movimento modernista, porém só achei depois de melhor analisar seus intuitos, causas e concausas emocionais e econômicas. O que fiz foi apoiar o Modernismo, simples e lealmente, dado o seu alto espírito de brasilidade. Nele entrei, de boa fé, como todos os meus companheiros. Apoiar é uma coisa. Aderir é outra. Mesmo porque só participei da revolução literária de 22, de modo mais ativo e até polêmico, como dissidente, já de dois aspectos com os quais não podia concordar:
a) o de haver a Semana começado logo depois dos 7 dias, a importar ‘ismos’ europeus e contra os ideais com que foi inaugurada. Criamos o verdeamarelismo para se opor ao dadaísmo ‘francês’, ao expressionismo ‘alemão’, ao futurismo ‘italiano’ que outros modernistas iam buscar na Europa.
b) o de ser tornado um pretexto para ‘festanças’ e ‘regabofes’ (como declarou o próprio Mário de Andrade no seu opúsculo O Modernismo, p.47) na opulentas fazendas de Paulo Prado e dona Olívia Guedes Penteado.
O Manifesto do grupo Verdeamarelo foi escrito numa das mesas do Café Guarani (Rua 15) e, portanto, opunha-se ao salonismo dos outros grupos. Nasceu não em suculentos banquetes, mas em contacto com o povo. Social mas não mundano. Num simples café e não num salão rico – esclareceu o autor de Martin Cererê.
Foi então que publiquei o meu Vamos Caçar Papagaio, isto é, vamos caçar os macaqueadores empenhados em descobrir o Brasil no próprio Brasil, isto é, no original. Sem figurinos. Alguém poderia supor que eu era xenófobo, e conseqüentemente aderindo ao verdeamarelismo, não estaria aderindo ao integralismo que tinha raízes fascistas? O engano é evidente. O nosso grupo combatia os ‘ismos’ importados – como fiz notar – por uma questão de coerência com as causas que denotaram o movimento contestador de 22. O grito de guerra tinha sido: Chega de copiar. Vamos voltar às raízes do Brasil na sua natureza agreste e nativa. Éramos todos, antes de tudo, radicalmente brasileiros. Foi o verdeamarelismo que trouxe de novo a estudo nomes até então esquecidos, como os de Tavares Bastos, Alberto Torres, Couto de Magalhães, Barbosa Rodrigues, com suas lições magistrais sobre a realidade do nosso País e o papel que o Brasil devia representar no mundo, oferecendo aos outros povos sua palavra de amor ao homem e à terra. Também organizou – prosseguiu – o grupo Verdeamarelo, a nossa primeira ‘brasiliana’, isto é, a primeira coleção de cunho nacional, no domínio da sociologia e da antropologia, Raça de Gigantes; do romance social O Estrangeiro; do ensaio e da pesquisa histórica Introdução ao Pensamento Nacional da poesia tipicamente marcada pela linguagem e cor tropical Borrões de Verde e Amarelo e Chuva de Pedra, antecipando o imaginismo cromático, que Ezra Pound hoje chama de ‘fanopéia’; e o visual cinético também posto em voga como novidade pelo vanguardismo de hoje.
Repelíamos, por isso, o fascínio das idéias e os modismos europeus. A questão era equacionada da seguinte forma: ou sabíamos o que queríamos essencialmente dependendo um programa mínimo ou então pergunto – pra que tanto barulho em 22? A Semana não podia perder altura e força dando um grande salto para trás. Podia?
Queríamos exportar nossa criação literária e artística assim como os jovens brasileiros de hoje (no plano da música, por exemplo) falam em ‘som livre’ e ‘música exportação’.
“Xenófobo, portanto, é que eu não era. Exercia, isto sim vigilância constante para que não merecêssemos o famoso apelo dos escritores franceses chefiados por Benjamim Crenieux na mensagem que nos mandou por intermédio de Renata Almeida. ‘Não nos copieis mais’ – suplicavam. Sede apenas cordiais conosco”.
Veja-se – comentou Cassiano, até os europeus, sem saber, estavam com o grupo verdeamarelo.
Foi este modesto poeta, hoje seu entrevistado, foi quem redigiu, ao lado de Plínio e de Menotti (trabalhávamos os três no ‘Correio Paulistano’) o manifesto verdeamarelo. Outra pergunta curiosa que me tem sido feita: ‘Que tal se surgisse uma nova Semana, já que a literatura nacional está um pouco indecisa? Simplesmente não haveria condições para surgir uma nova Semana – disse Cassiano. E explicou: ‘A Semana de 22 não encerrou ainda o seu ciclo histórico. Nem a literatura brasileira está indecisa. Considere-se que não se pode falar em indecisão quando aparecem romances como os de Guimarães Rosa, Jorge Amado, Mário Palmério, Josué Montello, Otávio de Faria, Maria Alice Barroso, Ariano Suassuna, traduzidos para muitas outras línguas. Os críticos de agora são estudiosos e mestres de alto nível. Aí estão, por exemplo, Euryalo Canabrava, Nelly Novaes Coelho, Oswaldino Marques, Tristão de Atayde, Osmar Pimentel, Fábio Lucas, Antonio Cândido, Nogueira Moutinho, César Leal, Gilberto Mendonça Teles. E os poetas? Drummond (sempre novo), José Paulo Paes, Carlos Nejar, Homero Homem, Walmir Ayala, Mauro Mota, Paulo Mendes Campos, entre os mais presentes à nova problemática compositiva e semântica. Poderia citar muitos outros se não me arriscasse a alguma injustiça’.
- “Que nos diz sobre a poesia de vanguarda? Só lhe posso dar uma resposta informacional. Não sou adesista de nenhuma experiência novidadeira que tenha aparecido. Em todo caso, melhor direi que sou, de fato, interessado sempre no que produzem os de vanguarda. Como sabe o meu caro professor, a vanguarda, em todos os tempos, contém uma fascinante problemática inaugural. Isso já é uma tradição: “la tradition du nouveau” (Rosemberg). Tanto um como outro dos ‘ismos’, a que se refere, foram por mim criticamente estudados em dois ensaios: ‘22 e a Poesia de hoje’ e ‘Praxis e 22’. Não nos esqueçamos que toda revolução artística contém duas etapas principais: a demolidora, polêmica, para derrubar mitos caducos (1ª etapa de 22, por exemplo) e a segunda mais refletida, para um trabalho de reconstrução, ou seja, de permanente e livre pesquisa estética. É a que está em vigência agora. Pesquisa, invenção, visualismo, viagens à sua nova terminologia e outras formas de independência estilística de que o artista necessita para fazer coisa nova e original, no original contexto de hoje”.

(Fonte de Pesquisa do Texto “Depoimento de Cassiano Ricardo”: D.O. Leitura N.º 149, de 13 de outubro de 1994 – São Paulo, págs. 13 e 14 – Matéria: Modernismo – 1922: depoimentos inéditos – Autoria de Luiz Toledo Machado).

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UM POUCO MAIS DE:
CASSIANO RICARDO
(Cassiano Ricardo - Foto Reprodução - Site da Academia Brasileira de Letras)

CRONOLOGIA BIOGRÁFICA E ARTÍSTICA

1895 – 26 de julho, nasce Cassiano Ricardo Leite, em São José dos Campos – SP, filho de Francisco Leite Machado e Minervina Ricardo Leite;
1902 – Inicia em São José os estudos primários;
1906 – Inicia em Jacareí, São Paulo, os estudos ginasiais no Ginásio Nogueira da Gama;
1907 – Atraído para as letras, fundou, em sua cidade natal, a revista "Íris";
1911 – Funda o Quatro Paus, jornal polêmico com caricaturas de figuras ilustres da cidade, em São José dos Campos;
1913 – Inicia curso de Direito em São Paulo;
1915 – Publica seu primeiro livro de poesia: “Dentro da Noite”. Recebe o Prêmio Azevedo Marques de melhor orador, concedido pela Faculdade de Direito de São Paulo;
1917 – Publica “A Flauta de Pã” – poesia. Conclui o curso de Direito no Rio de Janeiro. Funda em São Paulo a revista Panóplia;
1923 – Inicia seu trabalho como redator no Correio Paulistano. Participa na Revolução, ao lado de Assis Brasil, com os maragatos no Rio Grande do Sul;
1924 – Funda a revista literária “Novíssima”, dedicada à causa dos modernistas e ao intercâmbio cultural pan-americano;
1926 – Funda com Menotti Del Picchia e Plínio Salgado, o movimento Verde-Amarelo, em São Paulo. Publica “Vamos Caçar Papagaios”;
1928 – Divergiu de Plínio Salgado e, com Menotti Del Picchia e Cândido Motta Filho, fundou o Grupo da Bandeira que, embora tivesse objetivo político, se opunha a qualquer ideologia caracterizada como demolidora e exótica. Publica “Martim Cererê” – poesia;
1929 – Casa-se com a poetisa Jaci Gomide Ricardo;
1930 – Deixa o Correio Paulistano. Criador da revista “Planalto”;
1931 – Publica “Deixa Estar Jacaré” – poesia. Torna-se Diretor de Expediente da Secretaria de Estado Negócios do Governo. Diretor-geral da Secretaria do Governo de São Paulo;
1932 - Durante a Revolução Constitucionalista de São Paulo, deflagrada contra o governo federal, Cassiano Ricardo fez discursos radiofônicos na série "Em defesa da revolução", baseados nos poemas de Martim Cererê. Nesta ocasião foi nomeado secretário do governo Pedro de Toledo. Foi preso durante a Revolução Constitucionalista;
1935 – Torna-se novamente secretário de governo;
1936 – Publica “O Brasil no Original” – prosa;
1937 – 9 de Setembro: é eleito membro da Academia Brasileira de Letras – Cadeira nº 31, na sucessão de Paulo Setúbal. Dia 28 de dezembro, foi recebido na Academia por Guilherme de Almeida. Fundou com Menotti Del Picchia e Mota Filho, a “Bandeira”, movimento político que se contrapunha ao integralismo. Dirigiu também o jornal O Anhangüera, que defendia a ideologia da Bandeira, condensada na fórmula: "Por uma democracia social brasileira, contra as ideologias dissolventes e exóticas”. Foi o Relator da Comissão de Poesia, que redigiu parecer concedendo a láurea ao livro Viagem, de Cecília Meireles - primeiro livro da corrente moderna consagrado na Academia;
1938 – Publica “Discurso na Academia Brasileira” e “O Negro na Bandeira” – prosas;
1939 – Publica “A Academia e a Poesia Moderna” e “Pedro Luís Visto Pelos Modernos” – prosas. Torna-se diretor da revista Brasil Novo, do Departamento Nacional de Propaganda (DIP). Em São Paulo funda com Orígenes Lessa a revista Planalto;
1940 – Dirige no Rio de Janeiro o jornal “A Manhã”. Como historiador e ensaísta, publica o livro “Marcha para Oeste”, em que estuda o movimento das entradas e bandeiras;
1943 – Publica “O Sangue das Horas” – poesia, e “A Academia e a Língua Brasileira” – prosas;
1944 – Deixa o jornal A Manhã;
1946 – É eleito Membro da Academia Paulista de Letras, cadeira no. 11, patrono Bartolomeu de Gusmão;
1947 – Publica “Um Dia Depois do Outro” – poesia;
1948 – Criou o Clube da Poesia em São Paulo;
1950 – Publica o livro de poesias: “A Face Perdida” e “Poemas Murais”. É eleito presidente do Clube da Poesia em São Paulo, onde criou curso de Poética e iniciou a publicação da coleção "Novíssimos", destinada a publicar e apresentar valores representativos daquela fase da poesia brasileira;
1951 – Dirige a editora A Noite;
1952 – Publica “Sonetos” – poesia;
1953 – Publica o livro de prosa: “A Poesia na Técnica do Romance”. Foi chefe do Escritório Comercial do Brasil em Paris. O seu livro “Marcha para Oeste” foi traduzido pelo Fondo de Cultura Económica do México, com o título “La Marcha hacia el Oeste”. “Martim Cererê”, do qual Gabriela Mistral já havia traduzido alguns poemas, foi vertido para o castelhano, pela escritora cubana Emília Bernal, e publicado em Madri, pelo Instituto de Cultura Hispânica;
1954 – Deixa a chefia do Escritório Comercial do Brasil em Paris. Publica “O Tratado de Petrópolis” – prosa. É nomeado Diretor-Geral da Secretaria dos Negócios do Governo de São Paulo;
1956 – Publica “João Torto e a Fábula” e “O Arranha-céu de Vidro” – poesias. Recebe o Prêmio Paula Brito, pelo livro O Arranha-céu de Vidro, no Rio de Janeiro;
1957 – Publica “Poesias Completas” – poesias;
1959 – Publica “O Homem Cordial” – prosa;
1960 – Publica “Montanha Russa” e “A Difícil Manhã” – poesias. Recebe o prêmio Jabuti, concedido pela Câmara Brasileira do Livro, pelo livro A Difícil Manhã;
1962 – Publica o livro de prosa: “22 e a Poesia de Hoje”. Cria a revista “Invenção”;
1964 – Publica “Jeremias Sem Chorar” e “Antologia Poética” – poesias, “O Indianismo de Gonçalves Dias” – prosa. Recebe o Prêmio Jorge de Lima, pelo livro Jeremias Sem-Chorar, concedido pela UBE – União Brasileira de Escritores;
1965 – Recebe o Prêmio Juca Pato – Intelectual do Ano, concedido pela UBE – União Brasileira de Escritores. Em São José do Campos é criada a “Semana Cassiano Ricardo”, em homenagem pelo cinqüentenário de vida literária e pelos setenta anos de idade do escritor;
1966 – Publica “Poesia, Práxis e 22” e “Reflexos sobre a Poética de Vanguarda” – prosas;
1967 – Torna-se membro do Conselho Federal de Cultura;
1972 – Recebe o Prêmio Literário de Poesia, concedido na II Bienal Internacional do Livro;
1974 – 14 de janeiro: morre no Rio de Janeiro.

FONTES PESQUISADAS:

- Martins, Wilson. A Literatura Brasileira. Vol. VI – O Modernismo. Editora Cultrix. São Paulo, 1ª Edição, s/d;
- Milliet, Sérgio. Diário Crítico – Vol. X. Livraria Martins Editora. São Paulo, 1ª Ed. - 1959;
- Ricardo, Cassiano. Martim Cererê. José Olympio Editora. Rio de Janeiro, 22ª Ed. – 2003;
- _______________. Poesias Completas. Livraria José Olympio Editora. RJ – 1º Ed. – 1957;
- Silva Brito, Mário da. História do Modernismo Brasileiro. I: Antecedentes da Semana de Arte Moderna. Editora Saraiva. São Paulo, 1958;
- _______________. Panorama da Poesia Brasileira. Vol. VI – O Modernismo. Editora Civilização Brasileira. Rio de Janeiro, 1ª Edição – Exemplar nº 2074, 1959;

PERIÓDICO:

- D.O. Leitura. – Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Edição Nº 149, 13 de outubro de 1994.

SITES:

www.academia.org.br/.../sys/start.htm?sid=295
www.fccr.org.br/cassiano/cartilha1.htm
http://www.fccr.org.br/cassiano/index.htm