sábado, 28 de junho de 2008

UM DOS "CAUSOS" NA VIDA DE MÁRIO DE ANDRADE


O MÁRIO DE ANDRADE DE ANTES DE ONTEM, ONTEM, HOJE, AMANHÃ, DEPOIS DE AMANHÃ E PARA SEMPRE SERÁ O:
MÁRIO TREZENTOS, TREZENTOS E CINQUENTA...

Mário de Andrade - Amazonas - foto arquivo IEB/USP


Mário de Andrade sempre desejou conhecer o Brasil. Fatos e casos diversos impediram com que ele realizasse totalmente esse seu grande desejo. Se fossemos enumerá-las aqui correríamos os riscos de faltar com a verdade ou exagerar em alguns outros aspectos – uns relevantes, outros nem tanto. Mas esses motivos pouco importam, principalmente agora. O importante é que as suas viagens etnográficas o realizaram de certa maneira tão enaltecedoras que talvez as que deixou de realizar não o importunaram tanto.
Todas as vezes, no entanto, que Mário viajou, que saiu da sua São Paulo querida, fatos importantes e também pitorescos aconteceram na sua vida. Neste texto pretendo narrar um caso (ou "causo") que pode ser classificado de “pitoresco”, “hilário”, quando ele esteve no Pará em 1927, principalmente por ter acontecido com ele – e mais ainda, pela resposta que ele deu ao episódio, que será narrado no extado e de acordo com a formatação que foi dada neste texto.
Antes dessa narrativa, um resumo simplificado de algumas “saídas” do nosso Mário de Andrade da sua Paulicéia:

1) Nas férias de julho de 1905, muito provavelmente, tem seu primeiro encontro com o mar, viajando para Santos a convite de parentes. A lembrança fica na crônica “O mar”, escrito em 12 de julho de 1932 no Diário Nacional – conforme descrito no Táxi e Crônicas no Diário Nacional – Livraria Duas Cidades – SP, 1976 – página 541:

- Vamos pra Santos?
- Mas fazer o quê?
- ... ver o mar.
- ... então vamos.
E assim constantemente, ninguém sabendo, feito os amantes clandestinos, vou pra Santos ver o mar.
A primeira vez que vi o mar, não me esqueço. (...)

2) Em 1913, após a morte do irmão Renato, - Pio Lourenço Correa, o Tio Pio, casado com Zulmira, sobrinha de Maria Luísa, leva Mário para sua fazenda, localizada no município de Araraquara, São Paulo.

3) Em 1916, - Conclui seu voluntariado com o Serviço Militar, em novembro, realizando manobras em Gericinó (RJ).

4) Em Junho de 1919, primeira viagem a Minas Gerais, passando pelas cidades históricas, quando encontra a obra barroca de Aleijadinho e visita Alphonsus de Guimaraens, poeta simbolista de sua admiração.

5) Em outubro de 1921, viaja para o Rio de Janeiro e, em casa do poeta Ronald de Carvalho, localizada na Rua Humaitá, 64, e lá conhece Manuel Bandeira. Conhece Villa-Lobos. A viagem de Mário de Andrade para o Rio de Janeiro teve a finalidade de divulgar o poema “Cenas de Crianças” e os versos de “Paulicéia Desvairada”, ainda em manuscrito.

6) Em 1924 realiza a histórica "Viagem da Descoberta do Brasil", Semana Santa dos modernistas e seus amigos, visitando as cidades históricas em Minas, juntamente com os modernistas Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade e seu filho Nonê (Oswald de Andrade Filho), D. Olívia Guedes Penteado, Paulo Prado, René Thiollier, Gofredo da Silva Telles e o poeta francês Blaise Cendrars.

“Em 1924 não vim só, como da primeira vez. Veio uma grande caravana de jornalistas e intelectuais de São Paulo, com a intenção de assistir às tradicionais solenidades de Semana Santa. Era uma turma grande, onde não faltava o elemento feminino, representado por D. Olívia Penteado, muito elegante, e que transportara na viagem todos os seus hábitos de grande dama, inclusive uma secretária e a artista Tarsila do Amaral. Rodamos grande parte do interior de Minas. Em certa cidade, fomos objeto da curiosidade popular, devido ao grande número de pessoas e de bagagens. E, quando procedíamos a contagem das malas no hotel, fui abordado por um popular que desejava saber se éramos do circo. Aí, num momento de inspiração, perguntei a Tarsila: E os elefantes, onde estão?... Não se pode calcular o sucesso da pseudo-companhia de circo na cidadezinha tranqüila.” (ANDRADE, Mário de. “Entrevista”. In: Folha de Minas, 1939).

7) Em 1926, férias na “chacra” de Tio Pio, isto é, na Chácara da Sapucaia, em Araraquara. Primeira versão de Macunaíma, entre 16 e 23 de dezembro; a segunda, entre a última data e 13 de janeiro. O título não traz o aposto; os capítulos são dezessete, seguidos pelo epílogo. De acordo com o índice do primeiro momento, o capítulo final tinha por título “Torre Eiffel”. Dezembro: Férias em Araraquara.

- No depoimento de Gilda e Antonio Candido de Mello e Souza (professores da Universidade de São Paulo), na Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, SP, 36 – 1994, na Apresentação intitulada “A Lembrança Que Guardo de Mário”, na pág. 9, Gilda dá o seguinte depoimento:

“Deve ter sido no verão de 1926, depois da estadia costumeira na chácara que, vindo terminar as férias em nossa fazenda, brindou-nos com uma versão expurgada de Macunaíma. Tinha acabado de montar a narrativa na chácara, em seis dias de trabalho ininterrupto e, provavelmente, se divertia em testar os achados de sua grande criação junto a um público infantil, ávido de peripécias, afeito à esperteza dos bichos e ao mau caratismo dos gigantes. Era com ansiedade que esperávamos o cair da tarde, quando a porta de seu quarto se abria pra o corredor e ele já encontrava de banho tomado, acocorados no chão.
Te tudo que nos transmitiu, naquelas sessões memoráveis do terraço, guardamos sobretudo a imagem aterrorizadora do gigante Piaimã, que, como vou relatar, não nos apresentou como o duplo de Venceslau Pietro Pietra. Impulsionado pela nossa exaltação, nosso pavor crescente, o nervosismo de nossos apartes, ia fazendo alterações sucessivas no relato e incorporando-as, divertido, à nossa experiência local. Ora, aconteceu que meu pai atravessava um período tenso e perigoso, mantendo com um sitiante da redondeza, de nome Arinari, uma disputa por causa de caminhos. Todas as vezes que se preparava para ir à cidade, nós o víamos pôr o revólver na cintura e avisar minha mãe que, se encontrasse por acaso a passagem bloqueada, não responderia pelo que pudesse acontecer. (...).
Mário nos encontrou nessa atmosfera de presságios e, como era levemente sádico com as crianças, em vez de atenuá-las, explorou-a para curtir melhor a nossa reação. Uma tarde em que provavelmente nos encontrou mais motivados e receptivos, não se conteve: demorou-se na caracterização diabólica do terrível gigante e quando este já havia assumido aos nossos olhos a malvadeza absoluta do INIMIGO, perguntou com voz cavernosa: “E vocês sabem quem era afinal o gigante Piaimã?” Esperou uns segundos, correu os olhos pelo nosso pavor deliciado e, como ninguém conseguisse responder, concluiu sinistro: “O gigante Piaiamã era o ASINARI!”. Para nós quatro que o ouvíamos, Maria com dez anos, Carlos com oito, eu com seis, Fernando com quatro, foi a emoção mais violenta de nossa infância”. (...).

Ainda em 1926, Mário havia projetado uma viagem para o Nordeste, pensando talvez realizar o que chama “trabalho etnográfico”, ou seja, coleta de documentação. Numa carta de 19 de maio de 1926, Mário conta esse seu plano de viagem ao amigo Manuel Bandeira. Porém, os planos de Mário não se concretizaram nesse ano, mas sim em 1927.

8) 1927 - Primeira viagem do Turista Aprendiz, ao norte, entre maio e agosto. A 7 de maio, Mário parte de São Paulo para encontrar-se com os companheiros no Rio e juntos tomarem o vapor “Pedro I”, do Loide Brasileiro. No dia 13 de maio, partem do Rio de Janeiro a chamada “Comitiva da Rainha do Café” – D. Olívia Guedes Penteado, Paulo Prado, Mário de Andrade, Margarida Guedes Nogueira (Mag), sobrinha de D. Olívia, e Dulce do Amaral Pinto (Dolur), filha de Tarsila do Amaral. A excursão percorre grande parte da Amazônia, chegando a Iquitos e Nanai no Peru e à fronteira da Bolívia. Durante a viagem Mário escreve o diário do Turista Aprendiz, mas não o publica em vida (edição póstuma em 1977). O diário, as fotos da viagem e as legendas testemunham a repercussão da viagem em Macunaíma. Mário tinha um propósito nessas suas viagens: “conhecer o povo brasileiro”. D. Olívia era a Rainha do Café. Todas as cidades do Norte-Nordeste, onde tinham sido projetadas as paradas do vapor Pedro I, os políticos locais receberam essa mensagem:

“Recebam a Comitiva da Rainha do Café, Dona Olívia Guedes Penteado”.

Provavelmente numa dessas paradas da Comitiva no Estado do Pará, assim está narrado no livro Mário de Andrade – O Turista Aprendiz – Editora Duas Cidades, em co-edição com a Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia, SP, 1976 – com Estabelecimento de Texto, Introdução e Notas de Telê Porto Ancona Lopez, págs. 149 e 150:

“(...). Pelas oito horas chegou-se a Porto Velho, com Sto. Antonio do Mato Grosso, ma mesma margem, no outro estado do Brasil, a meia hora de olhar. Recepção oficial. Uma escola pública, com a professora num estado maravilhoso de elegância gorduchinha, coisa linda! acompanhando dona Olívia. Apresentações em penca. Visitas. Mercado sem caráter. Jornal. Almoço a bordo. Enfim posso sair mais livremente. Telegrafo. Fotografias.
- Dr. Mário de Andrade, secretário da Rainha do Café.
Desta vez arrebentei, porque arrebentei!
- Mas... eu não sou secretário de Dona Olívia...
- Mas!... o Sr. não veio na companhia dela, então!
- Sim... somos muito amigos, viemos...
- Então o Sr. está fazendo a viagem por sua conta!!!
Nem era possível zangar com o homem, tal o pasmo dele, vendo alguém que não era uma rainha enfarada e decerto meia maluca, andar passeando por aquelas paragens. (...)”.


Após esse acontecimento, eis aqui o ponto planejado deste texto, e que pode ser definido como “pitoresco” na vida de Mário de Andrade:

No jornal O Estado do Pará, foi editado matéria sobre a Comitiva visitante, onde o colunista, no texto, provavelmente tenha sido o mesmo que dialogou com Mário de Andrade, conforme descrito acima, talvez supondo que Mário de Andrade estivesse escondendo sua verdadeira identidade ou patente, ou não tendo mesmo o que escrever sobre Mário, inventou:

“Dr. Mário de Andrade, Secretário particular de S. Excia. o Dr. Washington Luiz quando presidente de S. Paulo”.

Mário não se conformou. Havia sido confundido como Secretário da Rainha do Café (D. Olívia Penteado). Negara. Então, imediatamente escreveu uma carta que foi editada naquele jornal, como segue, inclusive não sendo alterada a grafia:


UMA CARTA

O distineto literato dr. Mario de Andrade, que fez parte da comitiva da exma. sra. Guedes Penteado, enviou-nos hontem a seguinte carta:

Sr. redator d’O ESTADO DO PARÁ

Li hoje no seu excellente jornal as saudações amáveis que essa redacção dirigiu á exma. sra. Guedes Penteado e seus companheiros desta viagem pelo valle amazônico. Venho lhe trazer os nossos agradecimentos muito sinceros.

E aproveito o momento para uma retificação. O seu jornal me deu como secretario particular de S. Excia. o Dr. Washington Luiz quando presidente de S. Paulo. Não o fui e me apresso em retirar dos hombros essa benemerência. E o faço com a maxima liberdade pois que pelo que já experimentei posso afirmar a desnecessidade de qualquer titulo para que um brasileiro seja recebido fraternalmente por este povo admiravel do Pará.

Certo de que esta rectificação terá acolhida no seu jornal, sou do sr. Redactor o mais grato dos patricios.

MARIO DE ANDRADE

O texto acima, como já mencionado, era a temática principal deste texto. O objetivo, principalmente para quem estuda e – ou pesquisa a vida do autor macunaímico, e mesmo para quem está tendo contato pela primeira vez, é deixar cravado que “realmente” a vida de Mário de Andrade foi mesmo “trezentos, trezentos e cinqüenta, e sessenta e setenta e...

O historiador Robério Braga, em seu artigo “Mário de Andrade em Manaus", no site www.visitamazonas.com.br/, narra que Mário de Andrade, ao chegar em Manaus foi recebido como:

“Famoso, figura de proa do movimento modernista que explodira em 1922, (....)”.

Robério, inclusive narra parte de uma entrevista de Mário de Andrade falando de Manaus:

“Manaus é uma deliciosa mulher de duas idades.
Manaus foi uma virgem linda.
Hoje é uma mulher fecunda que ainda traz na sua atualidade a presença do passado.
Nos tempos áureos da borracha viveu se enfeitando: vosso teatro, vosso monumento a abertura dos portos amazônicos, vosso Palácio Rio Negro, inda são as jóias desse tempo leviano. Depois... jucurutu agourenta regongou os vossos telhados”.

Assim era Mário. Por onde passava deixava sua marca registrada. Quando ficava em silêncio realizando suas pesquisas, tirando suas fotos, pensando, meditanto ou fazendo suas anotações, as pessoas falavam dele o que bem entendiam, dando ao nosso Mário vários títulos, encargos e denominações que até hoje ainda vão aos poucos sendo descobertas pelos pesquisadores - trazendo para nós a certeza de que Mário de Andrade, além de escritor, poeta, colecionador, palestrante, romancista, contista, missivista, crítico, trezentos, trezentos e cinqüenta, etc... foi imã de fatos, casos, causos, lendas, histórias e historietas totalmente hilariantes e pitorescas. Esse FOI, É e SERÁ para sempre o nosso Mário.

Somente para concluir, Mário ainda deixaria sua Paulicéia em:

- 1928: Entre dezembro de 1918 até início de março de 1929, realiza a segunda “viagem etnográfica”, demorando-se no nordeste destinado a recolher dados e documentos sobre a música, o folclore, danças dramáticas, romances e a cultura popular da região, etc. Encontra no nordeste com Chico Antônio, cantador que reputa genial; transforma-o em personagem do romance abandonado O Café e de Vida do cantador (1944).
- 1929: Em junho, conferencista disputado, fala em Piracicaba sobre a música brasileira
- 1934: Em janeiro “estação de águas”, viaja para Lindóia – estado de São Paulo. Faz conferência sobre o assunto na Sociedade Felipe de Oliveira, do Rio; trabalho com os documentos recolhidos na viagem ao Nordeste.
- 1938: Em 27 de junho, transfere-se para o Rio de Janeiro. Com a ditadura (“Golpe Fascista”, diria Paulo Duarte) implantada em 10 de novembro de 1937, em maio, é demitido do Departamento de Cultura, em 12 de maio), regressando a São Paulo somente em fevereiro de 1941.
- 1942: Realiza, a convite da Casa do Estudante do Rio de Janeiro, em 30 de abril, a conferência “Movimento Modernista”, no salão do Itamarati.
- 1944: Em setembro, viagem a Belo Horizonte para conferências.
- 1945:
dia 25 de Fevereiro, deixa São Paulo... para sempre.

FONTES PESQUISADAS:

- Andrade, Mário de. A Imagem de Mário - Criação Editorial e Direção Gráfica de Salvador Monteiro e Leonor KAZ - Seleção de Textos e Introdução de Telê Porto Ancona Lopez e Equipe do IEB/USP. Edições Alumbramento: Livroarte Ed. 1984 - RJ.
- Andrade, Mário de. Taxi e Crônicas no Diário Nacional - Estabelecimento de Texto e Introdução de Telê Porto Ancona Lopez; IEB/USP - Livraria Duas Cidades, em co-edição com a Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia de São Paulo - 1976.
- Andrade, Mário de. O Turista Aprendiz - Estabelecimento de texto, Introdução e Notas de Telê Porto Ancona Lopez - IEB/USP - Livraria Duas Cidades, em co-edição com a Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia de São Paulo - 1976.
(Luiz de Almeida - Texto elaborado para estudos nas Oficinas Literárias da Exposição "RETALHOS DO MODERNISMO" - 2008).

sexta-feira, 20 de junho de 2008

MANUEL BANDEIRA - HOMENAGEM A MÁRIO DE ANDRADE

VARIAÇÕES SÔBRE O NOME DE MÁRIO DE ANDRADE
Manuel Bandeira


Mário:


Inteligência
Sabor
Surpresa


As neblinas paulistas condensaram-se em ácidos sarcásticos
E queimaram a epiderme azul dos aços virginais.
Mas nas sombras mais fundas ficaram os docementes dos nanquins mais melancólicos!...

Como será São Paulo ?...
O Paraná com pinhais intratáveis ?
(Não servem para uma exploração regular da indústria do papel.)
Goiaz? A ilha do Bananal ?
Matas úmidas que são como os seios do nosso amor...
Mas os índios? Os mosquitos ?
Os botocudos e os borrachudos...
Como será o Brasil ?...

Como será São Paulo ?...

São Paulo era a Sé Velha
Cercada de sobradinhos coloniais...
Na rua de S. João a escala cromática dos pára-sóis dos engraxates.
Progrédior. Politeama.
A Casa Garraux vendia também objetos de arte.
Camilo Castelo Branco não sabia ainda da existência dos piraquaras do Paraíba.
Não havia ainda Vasco Porcalho, livreiro-editor, encomendando a todo mundo uma novela safada.
Havia, sim, a Avenida Tiradentes, espaçada como um feriado nacional.
E o edifício Liceu pedindo baixinho que o deixassem em tijolo aparente.
(Lá dentro , eu desenhando a bico de pena motivos arquitetônicos do Renascimento...
As minhas arquiteturas corruídas!...)
Duas vêzes por semana música no jardim da Luz.
A banda do maestro Antão!
(A primeira da América do Sul).
(Bis! Bis!).
O namorozinho nacional passeando cheio de dengue entre os zincos lambuzados de cerveja.
Não havia guaraná, bebida depurativa e tônico-refrigerante (seguem-se os atestados médicos).
Quem fazia o policiamento era a torre da Inglêsa.
O relógio grande batia os quartos, um, dois, três, quatro, e o recomeçava indefinidamente, sem compreender como aquela gente podia ainda ouvir Puccini.
E em tôrno dêle a garoa paulista, irônica, silenciosa, encharcava todos os segundos...
Mas as garoas condensaram-se em ácidos sarcásticos
E queimou a epiderme azul dos aços virginais!...
Mário de Andrade !

Como será São Paulo ?

Não havia mais bandeirantes.
Nem a lembrança de Álvares de Azevedo.
O antigo Largo de S. Bento com as árvores nuas e magrinhas
Pedia tanto um pouco de neve que lhe desse um arzinho de Paris...
Os filhos de Bernardino de Campos faziam parte do "cordão".
Nem Teatro Municipal nem Esplanada-Hotel.
Só havia um viaduto.
Anhangabaú dos suicídios passionais !...
Ponte Grande !
Cambucí !
E o cemitério da Consolação...

Mário, um cigarro !
O punho forte do subconsciente campeia e conjuga os relâmpagos mais díspares.
Os ritmos mais dissolutos.
Raivas.
Testamentos de Heiligenstadt
Amores. Fantasmagorias. Carnavais. Porrada.
Coisas absolutamente incompreensíveis.
Como as obras de Deus.
Dinheiro. Bonde, Café. Cigarro.
Inteligência. Afeto.
Raivas. Raivas.
MAIS RAIVAS.
Bondade.
A girândola do último dia de novena!
Tudo. Para todos os lados.
Católico.

Mário, um cigarro!
Positivamente esta quarta-feira está cotidiana demais.
O leite da manhã tinha mais água.
O sol está banal como uma taça de campeonato.
Eu não sei latim.
Não sei cálculo diferencial e integral.
Não sei tocar piano (por causa de uma sonatina de Steibelt!...)
Não compreendo absolutamente nem Fichte, nem Schmelling, nem Hegel.

Victor Hugo é pau.
Byron é pau.

Mário, um cigarro !
CAPORAL LAVADO !

Numa pia de igreja em Bizâncio estava gravada a frase:

NI(PS) ONANOMHMATAMHMONO.... (PS)IN
Lida da direita para a esquerda recompõe o mesmo sentido:

LAVA OS PECADOS NÃO LAVES SÓ A CARA
Mário, êles não lavam nem os pecados nem a cara !
Os homens são horríveis.
Por isso - HÁ QUE OS AMAR.
Com os docementes dos nanquins mais melancólicos.
(As categorias gramaticais são artifícios didáticos)

Ale guap, guap, guap !
Ale guap, guap, guap !
Hurra !
Hurra !
Os brasileiros bateram os paraguaios por 2 a 0.
Pennafort é um assombro !
(Impossível fazer poesia no Brasil sem falar em foot-ball).

Brasil...
Como será o Brasil ?...
E como será São Paulo ?...

- MÁRIO DE ANDRADE

(Fonte de Pesquisa: Revista do Arquivo Municipal CVI - Prefeitura Municipal de São Paulo - Departamento Municipal de Cultura - 1946 - Terceiro Texto da Edição Janeiro e Fevereiro - Homenagem a Mário de Andrade - Diretor Franciso Pati)

segunda-feira, 16 de junho de 2008

URARIANO MOTA: VALE A PENA CONFERIR

VALMIR JORDÃO, POESIA VIVA DO RECIFE

Luiz de Almeida


URARIANO MOTA, escritor e jornalista - Natural do Recife desde 1950, autor do romance Os Corações Futuristas, que corre nos anos da ditadura Médici, escreveu um texto simplesmente espetacular sobre o poeta Valmir Jordão (Ver título acima). Urariano Mota colobora e honra este Blog com seus textos, demonstrou no desenvolvimento do "Valmir Jordão, Poesia Viva do Recife", que na literatura nacional existem escritores que não se pode deixar de divulgar.

No bojo do texto, Urariano crava uma declaração de Valmir Jordão, bastando para que os visitantes deste Blog e os amantes da literatura nacional, direcionem a seta do mouse para o link que está no final, podendo assim degustar de um texto cuja temática e descrição literária faz-nos verdadeiros antropofágicos. E assim Urariano cravou a referida declaração do poeta Valmir Jordão, que pode e deve ser classificada também como: documentação e manifestação:


“Eu não faço livro só pra vender. É o seguinte: a literatura pra mim é um caminho. Não é um fim de ganhar dinheiro, sabe? Nem meio de ganhar dinheiro. Pra mim ela é um instrumento de trabalho, que eu adoro fazer, que eu amo fazer. Agora, essa história do toma lá, dá cá, existe, sim, porque você recebe muito carinho, muita gentileza, e um livro não paga uma gentileza. Nem há dinheiro que pague uma gentileza, entendeu?”.


Dileto Amigo Visitante do RETALHOS DO MODERNISMO:
- ENTRE NESTE SITE E COMPROVE:

sábado, 14 de junho de 2008

O MANIFESTO DO TRIANON - OSWALD DE ANDRADE, EM 09 DE JANEIRO DE 1921

Recebi vários e-mails solicitando a postagem do Manifesto do Trianon - O Discurso de Oswald de Andrade, realizado no dia 9 de janeiro de 1921 e editado no "Correio Paulistano", na edição do dia seguinte, que resolvi editá-lo na íntegra, observando exatamente a escrita original. Então:

O MANIFESTO DO TRIANON


O Grupo dos Cinco, já em 1921, ou o Grupo Modernista – ou futurista como então era chamado, e que, às vezes, a sim próprio assim se denominava – está não somente composto, mas coeso e unido, e representa já uma força nova dotada de consciência.
É chegado o momento, portanto, de declarar, publicamente, a sua existência, e o que importa mais, de revelar a disposição em que se encontra pra a luta, que sabe vai ser árdua. é a hora de romper as hostilidades não mais isoladamente, escrevendo, ora um ora outro, especialmente Oswald de Andrade e Menotti Del Picchia, artigos na imprensa, para falar, de maneira genérica, da arte nova, ou fazer referências, nem sempre precisas, aos seus cultores entre nós. Faz-se necessário divulgar o que se está realizando ou planejando nesse sentido. É indispensável, agora, teorizar, doutrinar, granjear prosélitos, polemizar, provocar, arrogantemente, a gene do outro lado. É fundamental que os novos deixem marcada a sua posição divisionista. Impõe-se, enfim, a ruptura, que, de fato, já se deu, mas que urge seja agora declarada como atitude de um grupo, proclamada como resolução de uma coletividade de escritores e artistas.
Isso ocorre a 9 de janeiro de 1921, por ocasião de um banquete oferecido a Menotti Del Picchia no Trianon – local de onde, também em banquetes, eram lançados os candidatos ao governo paulista ou nacional – e cujo pretexto é a publicação de “As Máscaras” numa edição luxuosa ilustrada por Paim. Estão reunidos nessa homenagem políticos, escritores da velha guarda, gente das finanças e da alta sociedade, e “meia dúzia de artistas moços de S. Paulo”. Muitos são os oradores nesse dia, e, entre eles, Oswald de Andrade, quer fala em nome dos dissidentes ao entregar ao poeta homenageado a sua máscara esculpida por Brecheret. Esse discurso assume foros de manifesto e nele o seu autor fez questão de acentuar a posição divergente do grupo modernista em meio aos que festejam Menotti Del Picchia, muito embora, como os demais, o louvem. Mas louvam-nos como um integrante do grupo e, de certa maneira, Oswald de Andrade chama o poeta de “Juca Mulato” às suas responsabilidades para com a nova geração, que o tem, aliás, como “o seu mais vistoso padrão”.
Então, assim discursou Oswald de Andrade, no famoso
DISCURSO DO TRIANON:


Menotti Del Picchia.
Uma voz quase pessoal a minha, que vem dizer o mesmo louvor coletivo da festa que te fazem, apenas numa tecla de sonoridade diferente, por querer completar a homenagem aqui afirmada de políticos e poetas, de amigos certos e admiradores permanentes, com a adesão diversa de um grupo de orgulhosos cultores da extremada arte de nosso tempo. É um restrito bando de formalistas negados e negadores que se juntam e se desfazem e permanecem no espírito de mútua eleição que se criaram para gozo próprio e virtude, quem sabe, da cidade tumultuária que os abriga.
Fazendo valer a sua vitória íntima sobre o adverso triunfo dos demais, os teus amigos estranhos trazem-te hoje, com o incenso efusivo de uns, e o outro ridente de outros, a mirra prenunciadora de martírios fecundos, a portadora inexorável de dádivas tristes.
Porque não podíamos deixar como hão deixaram Benjamim, em terra estranha, os irmãos comovidos da Bíblia. Tu és nosso, em meio das aclamações que não temos, tu és nosso, junto às bandeiras que ignoramos, tu és nosso sobre os troféus que não erguemos.
E quando excessiva pareceria a presença da gente de tua íntima clã, pois que ela em ti arvorou o seu mais vistoso padrão, ei-la, entanto que se reúne, e junta e alvoroça e congrega para que com os galardões te seja entregue também a máscula insígnia das responsabilidades que te esperam.
Sim, é para te lembrar a força que trazes no teu bojo prenhe de obras-primas e te sagrar para combates mais vivos, que vimos assegurar-te guarda de honra no tumulto desta consagração de alta popularidade.
Venha talvez chocar, senhores, esse tinir de armas heroicamente arengadas em pacífica consagração literária, mas nós, que arrogantemente subimos os espantosos caminhos da arte atual, por força havemos de trazer, como soldados em campanha, um pouco do nosso farnel de assaltos. Somos um perdido tropel na urbe acampada em território irregular e hostil, e, como ela, temos a surpresa dos acessos e a abismada contorção das alturas.
Falo em nome de meia dúzia de artistas moços de S. Paulo e daí o meu cálido orgulho incontido.
S. Paulo, neste instante em que o eixo da vida de pensamento e de ação parece deslocar-se num milagre lento e seguro para os países descobertos pela súplica das velas européias, partidas como num pressentimento de fim, par a busca de Canaãs futuras, S. Paulo é a continuada promessa dos primeiros escolhos verdes em que bateram, numa festa, as antigas proas cansadas.
Estamos no Trianon, devassando a cidade panorâmica no recorte desassombrado das suas ruas de fábricas e dos seus conjuntos de palácios americanos. É a cidade que, nas suas gargantas confusas, nos seus desdobramentos infindáveis de bairros nascentes, na ambição improvisada das suas feiras e na vitória dos seus mercados, ulula uma desconhecida harmonia de violências humanas, de ascensões e desastres, de lutas, ódios e amores, a propor, às receptividades de escol, o riquíssimo material das suas sugestões e a persuasão imperativa das suas cores e linhas.
S. Paulo é já a cidade que pede romancistas e poetas, que impõe pasmosos problemas humanos e agita, no seu tumulto discreto, egoísta e inteligente, as profundas revoluções criadoras e imortalidades.
Toma, pois, um sentido de investidura a nossa participação na tua festa, ó irmão cumulado de abençoadas farturas.
Vemos em ti o milagre da salamandra, que a glória não queima.
A tua resistência de predestinado já a cantaste na avançada tenaz da gente de Moisés pela sáfara paisagem dos ambientes de contraste.
E para que continues a marcha sobranceira no deserto de Rifidim e prossigas a cada apelo angustiado da sede que te agita, numa construção ciclópica de miragem, e avances na maravilhada descoberta do teu próprio eu, que porás nas areias, refletindo em desperdícios de riquezas vagas e imensas, vimos assegurar-se nessa dolorosa viagem da crença a calma companhia vigilante e profunda dos teus irmãos.
Examina a máscara que te trazemos em bronze. Ela é a sintética marcação das tuas forças mentais. Produziu-a de ti a mão poderosa e elucidadora de Victor Brecheret que, com Di Cavalcanti, Anita Malfatti e esse maravilhoso John Graz, ultimamente revelado, afirmou que a nossa terra contém no seu ignorado cadinho uma das mais fortes, expressivas e orgulhosas gerações de supremos criadores.
E se S. Paulo pode neste dia fazer a tua festa e te ofertar nessa festa esta obra-prima, é porque S. Paulo atingiu a primeira quietação de uma etapa vencida. Daqui, para diante!
Celebrando a festa dos oásis, os teus amigos de clã não fogem à efusão das palmas agitadas pelos outros.
E, no conjunto de aclamações que te cerca, eles põem a nota da sua invencida sinceridade.
Amanhã, no prosseguimento das areias mudas e adversas, eles irão contigo:
“Para ter que aspirar e perseguir o incerto
Sonho eterno e
ideal da Terra Prometida”.(1)

Nota: Esse discurso foi editado no “Correio Paulistano”, de 10 de janeiro de 1921. Do Grupo modernista, estão presentes à reunião, além de Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Guilherme de Almeida, Victor Brecheret, Armando Pamplona (que será um dos pioneiros do documentário cinematográfico brasileiro), René Thiollier e Mick Carnivelli. Os versos citados por Oswald de Andrade são do poema “Moisés”, final do Canto IV, “A Idolatria”.

FONTE DE PESQUISA:
_ Brito, Mário da Silva. História do Modernismo Brasileiro - Antecedentes do Modernismo Brasileiro - Editora Civilização Brasileira - RJ - 5ª Ed. 1978 - págs. 179-183.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

MÁRIO DE ANDRADE:- "EPISTOLÓGRAFO"

O TALENTO EPISTOLAR DE
MÁRIO DE ANDRADE
Luiz de Almeida



Chártes, do grego – charta, pelo latim. Para nós, talvez até mesmo antevendo a crítica que faria Mário de Andrade e com a morte do latim, o “h” foi eliminado e nos restou: “carta”. É um substantivo feminino que implica: comunicação ou mensagem manuscrita ou impressa, endereçada a uma ou várias pessoas ou a uma organização, narrando algo. Essa é a definição técnica encontrada em qualquer bom dicionário. Nada mais que óbvia.
Os dicionários também trazem suas variantes ou variações, como preferir: missiva, epístola. É comum, ao perguntar a um aluno a definição de epístola, imediatamente vem como resposta: são os escritos que os apóstolos e discípulos de Cristo escreveram e estão na Bíblia. Resposta correta, mas simplista em demasia. Se perguntar sobre missiva... hummmm, aí o bicho pega. Nem todos sabem.
Bem, voltando ao dicionário iremos encontrar que missiva é substantivo feminino de missivo. Ora, ora... O que é então, missivo? É um adjetivo: é aquilo que se remete. Ah, remete é do verbo remeter, que significa: “fazer seguir (algo) para determinado lugar, enviar, expedir, mandar”.
Então, missiva, também substantivo feminino, nada mais é que uma carta, ou até mesmo um bilhete que se manda a alguém. (apesar de que acho o fato de chamar um bilhete de missiva é até pejorativo – isso é coisa minha e ninguém é obrigado aceitar).
Outra resposta, esta não muito comum, mas totalmente possível, caso pergunte: "quem escreve carta é um?" O estudante escrever: carteiro ou cartomante. Já ouvi isso, se minha velha memória não estiver com um dos chips defeituosos, num programa de televisão onde são ou eram apresentadas as barbáries encontradas nas planilhas dos vestibulares. Tudo é possível. No sentido jocoso a resposta correta é: epistoleiro (que é também aquele que escreve muitas cartas). O correto seria: Missivista (que é a pessoa que escreve cartas) ou até mesmo: “a pessoa que leva missivas ou cartas; portador de missivas". E como fica o “carteiro”? Está errado? Não. Carteiro (um substantivo masculino) que significa “pessoa encarregada de distribuir cartas, correio". Antigamente eram os estafetas, aqueles que se utilizavam do cavalo para distribuir as cartas aos destinatários. Independente de ser um carteiro, tinha que ser um cavaleiro, e dos bons.
Quando falamos em missivista, entramos diretamente no nosso assunto pauta deste texto: "Mário de Andrade" foi e ainda é o maior literato missivista do Brasil. No dialeto caipira essa afirmativa seria escrita mais ou menos assim: “O sinhozinho Mário de Andrade foi e inda é o mais maior homi das escrita iscrivinhador de cartas do Brasil”.
O bom missivista pratica a “epistolografia”, que é a “arte” ou “técnica” de escrever cartas. O bom missivista, aquele indivíduo que pratica ou cultiva a epistolografia, aquele que escreve epístolas, que é autor de cartas ou missivas “notáveis”, seja pelo valor literário, seja pelo valor histórico é chamado de Epistológrafo (que é um substantivo masculino, que é a junção de “epístola (-a+o) + grafo (derivado do grego: gràfõ = escrever).
E como fica a epístola? Epístola é derivação por extensão de sentido: carta, correspondência, missiva, carta de um autor antigo ou ainda, correspondência entre autores célebres. Na Literatura nada mais é que: composição poética em prosa ou verso de temática variada, composta em feitio de carta – são cartas e temáticas estéticas trocadas entre escritores – exatamente onde queríamos chegar: MÁRIO DE ANDRADE.
Segundo os historiadores Mário de Andrade deve ter escrito mais de 3.500 cartas. Sabe o que significa isso? Aproximadamente uma média de 9,5 cartas por dia, se fosse considerar um ano: (365 dias). Mas Mário de Andrade passou a vida escrevendo cartas. Só para Manuel Bandeira foram centenas. Centenas que estão arquivadas. Imaginemos quantas foram perdidas, rasgadas, desconsideradas. O próprio Mário, em vários depoimentos afirma que escreveu cartas e depois de lê-las, não gostou e... acabou rasgando-as.
O que interessa é a importância das cartas desse epistológrafo que, segundo a maioria os historiadores e pesquisadores literários, independente de ter havido a possibilidade de definir vários tópicos da história da nossa literatura, essas cartas chegaram a mudar conceitos e temáticas literárias. Com Manuel Bandeira, discutiam através das cartas a colocação de termos, corte de palavras, de parágrafos em seus textos. Com Anita Malfatti, independente das cartas íntimas de supostas declarações de carinho e afetividade, chegaram a discutir estilos e formas nas artes plásticas. Com outros discutiram e trocaram idéias e conceitos a respeito de estética e sobre o movimento modernista. Escreveram sobre política, sobre livros e escritores bons, médios e ruins. Houve desabafos, reclamações, ilustrações, prefácios para livros e muitos outros assuntos que, se não lermos carta a carta não conseguiremos entender a importância das cartas de Mário de Andrade para a literatura, para o Movimento Modernista e até mesmo, para as decisões de títulos de livros, artigos, capas, editores, suplementação de textos, decisões de viagens, compras de livros, de obras de arte, pagamento e atraso de pagamentos de aquisições de obras, brigas entre os amigos e os "supostos" amigos, entrega de quem fez isso ou aquilo, e por que não dizer, opiniões para um ou outro deixar de escrever e procurar outra atividade.
Enfim, foram cartas. E em cartas, atualmente uma boa parte substituídas pelos e-mails, surgem temas dos mais variados.
O IEB – Instituto de Estudos Brasileiros, após a abertura das cartas de Mário de Andrade, 50 anos após sua morte, como ele próprio havia recomendado, num trabalho espetacular comandado e orientado pela musa contemporânea da vida de Mário de Andrade, Telê Ancona Lopez, arregimentou e catalogou e arquivou 1.130 cartas onde Mário de Andrade é o Remetente. Resolvi assim, para os visitantes do blog RETALHOS DO MODERNISMO, expor essa relação do IEB, em ordem alfabética e com as quantidades das cartas que Mário enviou para cada um. Poderemos verificar que, para uns, Mário escreveu apenas uma vez, mas outros ele foi um missivista costumaz.
Deixando de mais delongas, apreciemos esse trabalho fundamental para a literatura nacional, cuidadosamente elaborado pela equipe do IEB, sob a coordenação dessa mulher que conhece mais Mário de Andrade que o próprio Mário: Telê Ancona Lopez.
1 - Ademar Vidal - 20
2 - Alberto Lamego - 12
3 - Alceu Amoroso Lima - 17
4 - Alphonsus de Guimarães Filho - 17
5 - Álvaro Lins - 17
6 - Álvaro Moreira - 1
7 - Amadeu de Queiroz - 2
8 - Anita Malfatti - 34
9 - Antônio Cândido - 2
10 - Ascenso Ferreira - 16
11 - Atos Damasceno Ferreira - 1
12 - Augusto Meyer - 20
13 - Bernardo Elis - 1
14 - Bruno Giorgi - 1
15 - Camargo Guarnieri - 3
16 - Cândido Portinari - 57
17 - Carlos Drummond de Andrade - 78
18 - Carlos Lacerda - 1
19 - Cecília Meireles - 7
20 - Dantas Mota - 2
21 - Dante de Laytano - 6
22 - Ênio de Freitas e Castro - 1
23 - Fernando Sabino - 23
24 - Francisco Mignone - 4
25 - Graça Aranha - 1
26 - Guilherme Figueiredo - 34
27 - Guilhermo de Torre - 1
28 - Gustavo Capanema - 23
29 - Henriqueta Lisboa - 41
30 - Hilde Kowsmann - 1
31 - J. A. Cavalcanti de Albuquerque - 1
32 - Jaime Adour da Câmara - 1
33 - João Etiene Filho - 9
34 - João onde - 1
35 - Joaquim Inojosa - 6
36 - Jorge Amado - 1
37 - Jorge de Lima - 2
38 - Jorge Fernandes - 1
39 - José Carlos Lisboa - 1
40 - José Osório de Oliveira - 3
41 - Lasar Segall - 1
42 - Luís da Câmara Cascudo - 56
43 - Luís Heitor Correa de Azevedo - 11
44 - Luís Martins - 2
45 - Mansueto Bernardi - 1
46 - Manuel Bandeira - 127
47 - Moacir Werneck de Castro - 17
48 - Moisés Velinho - 1
49 - Murilo Miranda - 90
50 - Murilo Rubião - 9
51 - Newton Freitas - 24
52 - Nini Duarte - 5
53 - Oneida Alvarenga - 70
54 - Osvaldo Elias Xidieh - 2
55 - Paulo Duarte - 37
56 - Paulo Prado - 1
57 - Paulo Ribeiro de Magalhães - 1
58 - Pedro Nava - 10
59 - Prudente de Moraes neto - 38
60 - Rodrigo Melo Franco de Andrade - 90
61 - Rosário Fusco - 8
62 - Roseta Costa Pinto - 1
63 - Rubens Borba de Moraes - 7
64 - Sansão Castelo Branco - 1
65 - Sérgio Buarque de Holanda - 1
66 - Sérgio Milliet - 27
67 - Sérgio Olindense - 5
68 - Souza da Silveira - 2
69 - Tarsila do Amaral - 13
70 - Valdemar
de Oliveira - 2
TOTAL = 1.130
Não tenho jeito para memórias. Mas as cartas são sempre uma espécei de memórias desque tenham alguma coisa mais objetiva e nuclear que arroubos sentimentais sobre o espírito do tempo. E as memórias em carta têm um calor de veracidade maior que o das memórias guardadas em segredo par revelação secular futura. É que o amigo que recebe as cartas pode controlar os casos e as almas contadas.
Mário de Andrade
(Carta a Ségio Milliet, de 20-VI-1940)
REFERÊNCIAS:
- Andrade, Carlos Drummond & ANDRADE, Mário de. Carlos & Mário. Org. e notas de CDA e Silviano Santiago. RJ - Bem-Te-Vi, 2002.
- Andrade, Mário de. Cartas a Anita Malfatti (1921-1939). Edição preparada pela saudosa Marata Rossetti Batista. SP - Forence Universitária, 1989;
- Andrade, Mário de & Bandeira, Manuel. Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira. Org. Marcos Antonio de Moraes. EDUSP/IEB - SP. 1ª Ed. 2000;
- Andrade, Mário de & Amaral, Tarsila do. Correspondência Mário de Andrade & Tarsila do Amaral. Org. Aracy Amaral. EDUSP/IEB - SP. 1ª Ed. 2001;
- Castro, Moacyr Werneck. Mário de Andrade - Exílio no Rio. Ed. Rocco - RJ - 1989;
- Ionta, Marilda. As Cores da Amizade - Cartas de Anita, Oneyda Alvarenga, Henriqueta Lisboa e Mário de Andrade. Annablume Editora - SP - 1ª Ed. 2007;
- Moraes, Marcos Antonio. A Epistolografia de Mário de Andrade e seu Projeto Pedagógico - s/d;
- Site do Instituto de Estudos Brasileiros - IEB.

domingo, 1 de junho de 2008

IRENE NO CÉU - MANUEL BANDEIRA

MANUEL BANDEIRA
INTRODUZIU
IRENE PRETA NO CÉU

Após ter recebido vários e-mails solicitando estudos sobre o poema de Bandeira “Irene no Céu”, resolvi postar uma síntese originada de estudos realizados durante uma Oficina da Exposição RETALHOS DO MODERNISMO. Como era muito antiga, procurei realizar algumas adaptações. Portanto, necessito mencionar que é uma síntese de “leitura interpretativa”, o que pode trazer e oferecer divergências se forem realizados paralelismos com outras leituras e até mesmo com a leitura atual de cada um dos leitores e conhecedores da temática. Como é do conhecimento de todos, as leituras e releituras de poemas, principalmente dos de Manuel Bandeira, podem e devem trazer colóquios divergentes e polêmicos. Esse é o motivo que faço uma introdução básica através do texto que segue (Brunel&Pichois&Rousseau), para que o leitor do texto temática possa também formular sua leitura, desde que conheça um pouco da vida de Manuel Bandeira:

“A vida de um escritor (aqui no nosso caso: a de Manuel Bandeira) é sua biografia artificialmente recomposta, inevitavelmente lacunar. Sua existência é uma emergência no instante: a página que escreve é inseparável do instante que ele vive, mas também de um passado no qual ele mergulha suas raízes”.
(Brunel & Pichois & Rousseau)

IRENE NO CÉU

Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor
Imagino Irene entrando no céu:
- Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
- Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.

Bandeira sempre esteve presente na sua poesia, o que implicou alguém dizer que: “Bandeira foi poeta de si mesmo”.

Partindo desse princípio, ao analisarmos qualquer dos poemas bandeirianos (haja poemas), não podemos desconsiderar alguns aspectos importantíssimos, tais como: a vida do homem Manuel Bandeira, sua infância, a composição familiar, sua luta contra a doença, sua preocupação com a morte, sua solidão, sua desastrosa vida amorosa, suas constantes interrogativas no campo religioso, sua moradia enrustida entre moradias de pessoas de classe pobre e miserável no Rio de Janeiro, sua vida literária, sua convivência epistolar com Mário de Andrade, etc. Bandeira conheceu o submundo e a burguesia da época. Teve contato com ricos e burgueses e com pobres e miseráveis. Conviveu com os brancos, pardos, mestiços e com os negros. Na literatura foi parnasiano e modernista. Conseguiu transpor as barreiras dos estilos literários e transportar-se de um para outro estilo ou outra escola sem muito alarde. Conseguiu transfigurar-se num poetizar clássico e se impor num poetizar repleto de banalidades e futilidades cotidianas. Transformou-as em “suas” propriedades privadas. Engravidou-se de cada uma delas ao inserir sua própria pessoa e o seu eu interior num ato de parir poemas com opulência de simplicidade. Pariu poemas onde a sua pessoa está inserida na totalidade: vida, corpo e alma – sem nenhum excesso lingüístico. Pariu poemas livres, soltos, exclusivamente bandeirianos, modernistas.

Em Irene no Céu toda teoria bandeiriana medra de cada palavra. Bandeira, numa linguagem retirada do mais humilde cotidiano, induz à meditação e constatação de fatos e ações humanas pertinentes na sua época de vida e... com certeza absoluta, perduram até hoje. A desumanidade preconceituosa com a pobreza e com o racismo. Ele conheceu a discriminação pernambucana e carioca reinante entre o branco e o preto, por isso a antítese “preta e branco”. Uma referência subliminar de puro espírito bandeiriano de nacionalismo. É uma demonstração que Bandeira já havia incorporado o espírito modernista (ou, essa atitude já era inerente à sua personalidade): o negro é brasileiro. E, para qualquer Modernista, principalmente os da primeira fase: “tudo que era brasileiro... era bom” – evidenciado no poema: “Irene preta” – “Irene boa”. Bandeira aqui alerta para uma das grandezas do ser humano: a bondade – não importando se da parte do ser humano branco ou negro. Cabe ressaltar, porém, que ele quer chamar a atenção para a bondade na pessoa negra. Bandeira, de forma direta e não subliminar ecoa a valorização do ser humano, não importando a cor da pessoa. Bandeira detestava o ato de excluir ou denegrir o ser humano, provavelmente resultado da experiência própria ao passar um período recrutado num ambiente para cura da tuberculose – apesar de que é mais evidente pelo fato dele próprio ter se achado fisicamente feio e discriminado.

Nesse poema temos também que considerar o fato de Bandeira exaltar, através da pessoa de nome Irene, a mulher, em variantes díspares. Irene: preta e escrava, mas boa. Interessante se analisarmos aqui, principalmente naquela época no Rio de Janeiro, a pessoa negra era brutalmente discriminada e, consequentemente, inferiorizada social e culturalmente. A história do negro no Brasil é clara nesse sentido. O negro só era bom enquanto possuidor de características físicas que o possibilitasse produzir... para o branco. Mesmo assim, o negro bom e produtivo, permanecia “entre” os brancos somente no período da realização do trabalho. Encerrado esse período, obrigatoriamente ele era e vivia separado ou apartado dos brancos. Mesmo assim, Bandeira, e esse colóquio é interessantíssimo quando ele menciona: “Irene sempre de bom humor”. Para quem nunca conviveu com a escravidão, ou mesmo não é adepto ao racismo, e só conhecendo o que narram os historiados, fica difícil imaginar uma pessoa que passa pelas amarguras das injustiças humanas estar bem humorada ou estar “sempre de bom humor”, como é o caso da Irene. Podemos aqui entender definitivamente o fato de Bandeira ter sido um escritor que poetizou a banalidade cotidiana, a futilidade, a realidade do submundo e a personalidade do povo brasileiro que tem, até os dias atuais, a característica de rir das suas próprias desgraças cotidianas. (Particularmente acho que nós somos os únicos no mundo, que rimos e fazemos piadas das nossas próprias desgraças).

O fato de Bandeira, na segunda estrofe ter mencionado o ato de Irene pedir licença a São Pedro e ainda chamando-o de “meu branco” é sem dúvida uma hilaridade. Fica aqui caracterizado o lado humilde e da situação de inferioridade do negro diante do branco quando Irene diz: “Licença, meu branco” – frase que ela, como negra, deve ter utilizado diariamente. Não podemos pensar em conformismo, mas sim como característica puramente brasileira no sentindo: Ah... Deixa pra lá o que passou”. Mais evidente ainda está na resposta de São Pedro: “Entra, Irene. Você não precisa pedir licença”. Sutilmente Bandeira torna-se um tremendo gozador. Bandeira deixa evidente, mesmo que não sendo muito “chegado” ou seguidor assíduo, sua crença católica: “os bons vão para o céu”.

Nessa fala de São Pedro: “Entra, Irene. Você não precisa pedir licença” – nós podemos efetuar inúmeras outras leituras. Iniciemos pela linguagem. Aqui Bandeira abandona a gramática e aplica a "gramatiquinha modernista". Mário de Andrade deve ter vibrado, pois o correto, ou seja, na linguagem normativa, Bandeira deveria ter empregado o “tu” e até mesmo ter empregado o verbo na 3ª pessoa do singular. Mas não o fez, pois como já mencionado, os poemas bandeirianos não possuem excessos, uma das características pertinentes ao estilo modernista – por isso que foi mencionado o fato de Mário de Andrade ter vibrado e tido até mesmo um orgasmo litero-mental ao ler esse poema.

Deixando lateralmente a lingüística e o estilo, encontramos aqui uma palavra que nos conduz diretamente para o lado religioso de Bandeira. Apesar de sabermos, historicamente, que foi somente nos seus últimos anos de vida que ele se apegou mais a religião (Mencionamos no final de um parágrafo a crença católica de Bandeira) – mas, no poema ele, novamente com uma sutileza impressionante, demonstrou seu lado debochado com os assuntos místicos. A palavra que nos conduz a pensar nessa particularidade da vida de Bandeira é o emprego do termo “bonachão”: “E São Pedro bonachão” – o que nos leva também a outras interpretações diferentes, tais como: a imagem que ele recebeu quando criança da figura de São Pedro: gorducho, barba branca, com seu corpanzil esparramado numa poltrona de veludo, com uma cadernetinha nas mãos onde procura pelo nome da pessoa que chega para examinar qual foi a atitude que essa pessoa teve neste mundo terreno, para só então, dar o alvará de entrada ou mandá-la pra o inferno, como antigamente ensinava o catecismo e as famílias católicas. Fica patente aqui a presença da pessoa do poeta no poema, como já mencionado: “Bandeira foi poeta de si mesmo”.

Qual teria sido o motivo de Bandeira ter concluído o poema com os dizeres: “Entra, Irene. Você não precisa pedir licença” (?). Teria Bandeira aqui crido na motivação religiosa apenas pelo ato de São Pedro ter permitido a entrada de Irene no céu por ela ter sido “boa” na vida terrena? Ter sido uma pessoa intensamente “bem humorada” e que nunca reclamara dos dissabores que havia passado na vida terrena? Ou Bandeira pretendeu alertar para o fato de: para sermos dignos da vida celestial, independente da cor da pele, situação social, etc., nós precisamos ser bons e bem humorados, ou seja, não produzir dificuldades nas nossas vidas para assim, um dia, conseguirmos o prêmio de desfrutar da presença de Deus? Partindo de Bandeira, ficamos na dúvida quanto a sua real intenção. Não é mesmo? Ao mesmo tempo Bandeira volta a inserir-se no poema, pois mesmo descrevendo o aspecto festivo de Irene entrando no céu, o nosso grande Bandeira deixa implicada sua constante preocupação com a morte. Mas, uma coisa ou outra, ele afirmou num lastro poético, talvez transpondo como num filme no momento inspirador, meditativo e de pura satisfação e alegria: “Imagino Irene entrando no céu”.

BIBLIOGRAFIA:

- Bandeira, Manuel. Libertinagem – Estrela da Manhã – Editora Nova Fronteira – RJ, 25ª Impressão – 2000;
- _____________. Mestres da Literatura Brasileira e Portuguesa, Estrela da Vida Inteira – Editora Record – RJ/SP. sd;
- _____________. Estrela da Vida Inteira – Editora José Olympio – RJ , 15ª Ed. 1988;
- Bosi, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira – Editora Cultrix – SP. 3ª Ed. 1992;
- Cara, Salete de Almeida. Literatura Comentada – Ed. Abril – SP. SD;
- Lafetá, João Luiz. In 1930: A Crítica e o Modernismo Brasileiro. S/ Ed. 2ª Ed. 2000;
- Lopez, Telê Porto Ancona. In Manuel Bandeira: Verso e Reverso – T. A. Queiroz, Editor – SP, 1ª Ed. 1987;
- Moraes, Marcos Antonio de (Org). In Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira – EDUSP – 2ª Ed. 2001;

(Luiz de Almeida – Síntese dos Estudos e Pesquisas realizada na Oficina Literária da Exposição RETALHOS DO MODERNISMO - 1985/2008).